2006-04-27

Ciúme?

.....vêm sôfregos os peixes da madrugada
beber o marítimo veneno das grandes travessias
trazem nas escamas a primavera sombria do mar
largam minúsculos cristais de areia junto à boca
e partem quando desperto no tecido húmido dos sonhos
.... vem deitar-te comigo no feno dos romances
para que a manhã não solte o ciúme
e de novo nos obrigue a fugir....
.... vem estender-te onde os dedos são aves sobre o peito
esquece os maus momentos a falta de notícias a preguiça
ergue-te e regressa
para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraças
e os pássaros debicam o outono no sumo das amoras....
.... iremos pelos campos
à procura do silente lume das cassiopeias...

Al Berto - Amor dos Fogos


E imagino todos quantos te olham neste momento e eu sem te ver. E imagino todos quantos te saúdam e eu sem te tocar. E imagino os sorrisos que te dedicam - e que mereces, bem sei -, mas que eu não estou aí para contrariar. E imagino até os largos passeios beijado pela brisa, ou os raios de sol sobre a tua pele. Ou o cair do rol da noite, que também vai visitar-te amiúde. Ou a dona do café, que me faz sempre cara feia quando estou contigo e que, por mais que digas, sei bem por que não gosta de mim. Ou a menina da loja de música, ou o calmeirão que te vende o jornal. Estão todos ai, à tua volta, junto com todos aqueles que nem quero imaginar. E eu sem te ver. E sem que me vejas, que isto de estar longe da vista ainda me causa maior espécie.

Não, não é ciúme. Não pode ser ciúme. É quase ciúme. É mais um quase. Um não chega a ser, que se parece em demasia. Mas não é ciúme. Não pode ser ciúme.

E raios! Porque queres saber que roupa visto, ou se pintei ou não os olhos, ou se me ri mais do que três vezes para o senhor do café? Não me digas que te falto, que tens esses todos perto de ti. Eu estou apenas para aqui sozinha, a pensar se é ciúme ou não é esta falta que me fazes, as ganas que tenho de te esconder no meu mundo para que sejas só meu. Não, não me perguntes se vesti a saia que tu gostas. Ou se pus a camisola que tanto gostas de tirar. Tu estás ai de certeza com as calças que te ficam melhor e esse sorriso matreiro e esse ar de encantar. E eu para aqui sem ti.

E, não, não é ciúme. Não me digas que é ciúme. É só vontade de te agarrar.

8 comentários:

maria_arvore disse...

Sempre que o escreves estás a agarrá-lo pelas palavras. Se já está tão em ti, não pode ser ciúme: é vontade de ternizar o momento em que o agarras. :)

Hipatia disse...

Talvez seja "só" aquele verso do Al Berto: "vem deitar-te comigo no feno dos romances". E talvez assim as palavras quase me bastem, não bastando nunca.

E eu que nem sou possessiva...

GK disse...

Antes de tudo, parabéns pelo talento com as palavras.

Depois...

"Porque queres saber que roupa visto, ou se pintei ou não os olhos, ou se me ri mais do que três vezes para o senhor do café? Não me digas que te falto, que tens esses todos perto de ti."

Se ele quer saber isto tudo, porque é que não o agarras de vez?!

Felicidades.

jp disse...

é lá agora ciúme!
é só uma especie de je ne sais quoi, que te deixa encarquilhada.
:DD

Hipatia disse...

Talvez porque, então, era demasiado fácil, GK :))

Obrigada e bem vinda à Voz :)

Hipatia disse...

Claro que não é ciúme, Jaquelina Pandemónio! Podia lá ser...

:)))

gaivina disse...

Sabes que conheci o Alberto?
Aqueles olhos a brilhar na urgência das palavras... E o Mar dele...a costa Alentejana.
Arrepiam-me sempre os poemas dele...

Hipatia disse...

Confesso que não sou grande fã. Não o suficiente, pelo menos, daquilo que sei bem que merecia. Mas nem sempre a urgência das palavras do Al Berto me faz bem.