2006-04-11

A minha tribo


aqui


Às vezes, os amigos andam tresmalhados. Perdem-se. Fogem. Escondem-se. Depois regressam de mansinho, ou então bem de surpresa. Estão lá outra vez e é quase como se o tempo não tivesse passado. Ou, então, como o tempo está por demais contado e há tantos e tantos quilómetros de permeio, fazemos o possível e o impossível para aproveitar cada segundo. E é como se não tivesse passado tempo algum. Como se afinal não tivesse sido mais do que um instante e tudo pode ser maravilhosamente cúmplice e brincalhão, com gargalhadas a propósito de pequenos pormenores que ninguém percebe, mas que os nossos amigos entendem bem demais, porque se riem com e das mesmas coisas.

Os afectos podem ser coisas profundamente estranhas, entranhadas. Fazem-se de liberdades e de formas de estar e de falar, do que se desculpa e que aparentemente é indesculpável. Ou sequer será necessário entender estas coisas. Gozá-las como privilégios e esquecer tudo o mais. Saber que se anda a escalar falésias como um macaco só porque lá no fundo está um paraíso e ser ainda assim teimosa e nem sequer aceitar uma mão de ajuda, porque se cairmos vamos sozinhos e não arrastamos ninguém connosco e do outro lado riem-se alto da nossa figura e só nos dizem “que cabrice de gaja com mania que é independente”. Ah pois sou! E talvez por isso gostes de mim, assim um tantinho. Porque não te arrasto comigo, nem deixo que me arrastes. Mas uma falésia não é uma vida, que para a vida sabemos os dois o quanto as nossas mãos se podem estender. Como só se estendem verdadeiramente as mãos aos amigos. Os que são sempre, não importa onde, como ou porquê. Os nossos amigos lindos, por vezes tresmalhados, às vezes com os mesmos defeitos que sabemos ter em nós; outras vezes com umas quantas pancas que nem chegamos a tentar perceber.

Nos olhos dos amigos, vemos o melhor de nós. Vemo-nos plenos, porque os amigos não descartam o feio, só porque é feio. Sabem que também lá está algo não tão feio e afinal a aparência só serve mesmo para impressionar quem não tem mais que um Tico e um Teco preguiçosos, feitos de fogos-fátuos de ilusões que passam sem deixar rasto, mesmo quando tanto se esforçam numa qualquer senda visceralmente obtusa.

Os meus amigos são perfeitos. Maravilhosos. Exactamente porque não são assim tão perfeitos nem tão maravilhosos e porque me aceitam sem eu ser perfeita nem maravilhosa. Os meus amigos preferem ver o que está dentro da embalagem, não ficam presos à publicidade enganadora nem se armam em fazer de qualquer dor de corno pequenina um grande e malcheiroso traque, que apenas serve para libertar gases com efeito de estufa.

Às vezes olho à volta e acho que nem mereço. É que não meço as palavras e, deste lado, não se alimentam grandes rodriguinhos no ensaio para dizer uma qualquer verdade. Mas, depois, penso nos meus amigos e, de uma forma ou de outra, eles são muito parecidos comigo e também sabem dizer verdades, mesmo que até doa, mesmo que nem seja bom de ouvir.

E o mais estranho é que sou, por natureza, uma amiga ausente. Não gosto de telefones, não escrevo dez mails por dia, não me encafuo no MSN a saber as novidades. Gosto de pensar que os amigos sabem sempre onde me encontrar e que sabem que, caso precisem de mim, eu andarei por perto. Nem que seja só para os salvar de aranhas gigantes e peludas. Ou então saber que talvez eles me deixassem salvá-los. Porque nestas coisas das amizades sou muito protectora. E, vá-se lá saber porquê, até sou capaz de reservar para os meus amigos os abraços que me dão o tanto de calor que me aquece todas as ausências; ou os sorrisos; ou olhares transbordantes de ternura.

Não tenho nenhum amigo padrão, daquele tipo perfeitinho, com o carro e a casa certa, que serve apenas para mostrarmos aos vizinhos. De uma forma ou de outra, todos os meus amigos são muito pouco padronizáveis, cheios de idiossincrasias deliciosas, capazes de me enriquecerem como pessoa e muito pouco interessados no enriquecimento material. Talvez por isso os preserve por entre os pingos das ausências, das tantas de vezes que nos perdemos por uns tempos uns dos outros, da merda toda que já nos podia ter separado e nunca separou.

Os meus amigos são lindos. São gente e não apenas ilusões de gente à procura de um espelho onde aparecerem como mais do que neblina. Não mendigam afectos. Não tentam aprisionar-me em grilhetas de obrigações. Não me seduzem nem se deixam seduzir com ninharias.

Talvez por isso eu tenha umas garras tão afiadas quando se trata de os proteger. E não é sequer que eles precisem de protecção, que são tão ou mais senhores do seu nariz do que eu. Mas talvez os meus amigos saibam como eu preciso de afiar as garras por eles, mais do que afiaria alguma vez por mim. Como uma qualquer loba a defender a sua prol. Talvez a minha amiga Vanus tenha razão quando diz que sou fêmea alfa. Bem sei que não era bem neste sentido, mas uma loba dominante talvez seja uma figura que se adapta a mim, quando se trata de proteger, confortar, alimentar e deixar seguros todos quantos caíram na asneira de gostar de mim e de me preservarem nos seus pequenos, limitados, profundamente enriquecedores, círculos de amigos verdadeiros.

No fundo, tudo isto para dizer que tenho novamente uma alma tresmalhada na alcateia. E estou profundamente feliz.

25 comentários:

gaivina disse...

estou contente por estares de volta a esta alcateia de palavras, umas ditas pelo lado de dentro, outras fora...

Lisa disse...

"E o mais estranho é que sou, por natureza, uma amiga ausente. Não gosto de telefones, não escrevo dez mails por dia, não me encafuo no MSN a saber as novidades. Gosto de pensar que os amigos sabem sempre onde me encontrar e que sabem que, caso precisem de mim, eu andarei por perto. Nem que seja só para os salvar de aranhas gigantes e peludas."
Dos posts mais bonitos que li ultimamente. Sério. E a afirmação supra, olha, identifico-me completamente.
Beijinho.

SoNosCredita disse...

“Estão lá outra vez e é quase como se o tempo não tivesse passado.”

isso é que é bonito!


“Os afectos podem ser coisas profundamente estranhas, entranhadas.”

mtas vezes ñ dão pra perceber,
outras ñ dão pa explicar...
mas ñ deixam de ser importantes!


“Gosto de pensar que os amigos sabem sempre onde me encontrar e que sabem que, caso precisem de mim, eu andarei por perto.”

sabem certamente. :)

TheOldMan disse...

A amizade deve ser sempre defendida.

É isso que nos distingue dos outros animais.
Pelo menos alguns de nós...

Um beijo, Loba.

;-)

vague disse...

Tresmalhadas andam as ovelhas, os lobos não :)

Na caixa de correio enviei há pouco um presente de aniversário, q embora atrasado, demonstra bem os meus sentimentos :p, eheheh,
Vê se enviei para o mail certo.

vanus disse...

Ahahah, a vanus nunca disse tal coisa de ti, sempre teve o cuidado de nunca te dizer onde possivelmente estavas (ou achas que ia atear ainda mais o fogo?;)), mas com esta tua afirmação sobre leitura das minhas palavras não posso deixar de concordar contigo, agora :D Seu grande umbigo, realmente... :DDDD

Mas posso assegurar-te que acertaste na escolha da Loba para alfa, não sei é bem se queres saber porquê :)))

Amigos...bem, és tal e qual isso que descreves, uma amiga.

gaivina disse...

Mandou-me, uma amiga, uma frase fantástica, num dia em que eu precisava de mais força. Aqui a partilho convosco. Obrigado Ana!:
"Lobos? São muitos. Lúcidos? São poucos. Mas se farão milhares, se à lucidez dos Lobos te Juntares."
Hilda Hilst

maria_arvore disse...

Tu tens o condão de me pôr de lágrima ao canto de olho, de modo que só te digo que é bom teres pessoas reais como amigos. :)

espumante disse...

É bom, ler-te...
Beijo amigo

Hipatia disse...

Mas o que eu quero mesmo, Gaivina, é a resposta à pergunta que te fiz ;-)

É bom estar de volta, mesmo sem tempo para o vício :)

Hipatia disse...

Obrigada, Lisa :) Mas sabes bem, pelos vistos, que temos na nossa vida amigos que nos merecem todas as palavras e gestos de apreço :)

Hipatia disse...

Acho que, apesar de tudo, vão sabendo, SóNosCredita. Afinal, vão-me aturando (e admito que nem deve ser particularmente fácil) há anos ;-)

Hipatia disse...

Menina bem comportada, que às vezes também sou, tenho até evitado algumas ganas de defender ferozmente certos amigos. A experiência diz-nos que há "sítios" onde não devemos meter o bedelho, não é, Old Man? Ficão, ainda assim, as ganas e... bem, também não consigo ser sempre bem comportada :D

Hipatia disse...

Os meus "lobinhos" têm, normalmente, ar de cordeiros, Vague Maria. Até tu :P

Mandaste para o mail certo, sim senhora :D Mas quero mais! Aquela só me fez ficar com mais saudades de outros abraços ;-)

Hipatia disse...

Sei bem como sou egocêntrica, miga. E que gosto de ver o circo a arder. E que nunca o disseste com todas as letras. Mas era preciso? Não!

Mas de uma coisa acho que escapo: não tento nunca controlar os gajos das minhas amigas. Primeiro porque não acho que elas precisem que eu o faça; depois porque também não preciso deles para me sentir "mais eu". Desse mal não sofro, LOL. Talvez a culpa esteja no facto de apreciar bem mais uns belos miolos do que um belo par de pernas :)))

E não é mesmo necessário escarrapachares por aqui a "alfice" da loba. É que também já dei uma vista de olhos a essas teorias :D

Vamos chegando para tudo, não é miga? Mesmo quando parece que não. Mesmo que o circo ainda não tenha ardido ;-)

Hipatia disse...

Grande frase mesmo, Gaivina! Obrigada por a deixares por aqui :))

Hipatia disse...

Sabes, Maria Árvore, não sou particularmente brilhante, nem sequer disciplinada, muito menos tenho organização suficiente para reforços diários de laços, ou joguinhos de manipulação de afectos. Na maioria dos dias, estou tão cansada quando chego a casa que preciso estar em silêncio e sozinha um par de horas, para escapar à gregaridade imposta com que lido quotidianamente. Talvez isso se note aqui, onde venho só em horário pós-laboral. Poucas horas implicam poucas tricas. Não preciso saber nunca mais do que o necessário e posso, simplesmente, dar sem cobrar nada em troca. E eu gosto de dar, de fazer alguém sorrir, de partilhar uma emoção. Também no "mundo real" sou muito assim: dou quando estou presente tudo o que sei e o que posso. Depois espero que me procurem e evito impor-me aos outros, como não gostaria que se impusessem a mim. Mas, acima de tudo, acho que sou uma pessoal leal. E talvez por isso, apesar de todos os meus defeitos, os meus amigos não se importam de continuar a sê-lo: os amigos “daqui”; os que começaram “aqui”; os que nunca “aqui” vieram :))

Hipatia disse...

Beijo amigo com saudades, Espumante :)

Hipatia disse...

Porque será que o meu "ficarão" virou "ficão"? hmmm... Será que estou a precisar de férias?

Ai Ai!

Cruzeiro disse...

E é tão importante que os amigos nos aceitem como somos e se mantenham ao nosso lado, mesmo quando não concordam connosco...

Hipatia disse...

E ficarmos nós do lado deles, mesmo quando não concordamos nem um bocadinho com algumas escolhas :) É nos dois sentidos, não é?

Cruzeiro disse...

Claro que tem que ser nos dois sentidos, só assim a amizade faz sentido...:)

vague disse...

Não conheces o meu outro lado menos cordeiro (q por acaso nem existe :D)
Não te mandei mais pq como não acusaste e recepção pensei q não tinhas recebido :)

Hipatia disse...

E assim é que sabem bem todos os reencontros, Cruzeiro :))

______

Quanto a ti, Vague Maria, melhor não me puxares pela língua ;-) E só não acusei a recepção porque, no dia em que mandaste, não tive tempo de vir à net :D

Anónimo disse...

Mais Vozes

Por isto é que eu gosto MESMO de ti!
Tens uma corzinha?....
Gaivina | 04.11.06 - 12:39 am | #

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essa da femea alfa tem que pagar direitos de autor
às vezes dou comigo a pensar como pessoas que nunca se relacionaram, aparentam tantas parecenças...
*
jp | 04.12.06 - 1:04 pm | #

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Qual corzinha! É o costume: o corpo com marcas e o pessoal a perguntar: "então não ias de férias?"
Hipatia | 04.12.06 - 6:25 pm | #

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Talvez por isso escolhamos comentar nuns blogues e não noutros, não é, Jaquelina Pandemónio?
Hipatia | 04.12.06 - 6:27 pm | #

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vim de mansinho dar um olá.
tenho saudades de estar aqui sentada a ler e a 'ouvir' pequenas conversas e diálogos fabulosos.

fica um beijo do tamanho do mundo!

filipa (misty)
filipa. | Homepage | 04.12.06 - 7:55 pm | #

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E eu com saudades de te ter por aqui, minha querida. Mas se, por vezes, o tempo parece imenso, também aprendi que o podemos recuperar sempre de alguma forma
Hipatia | 04.12.06 - 10:07 pm | #

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é sim linda
j.p. | 04.13.06 - 1:23 am | #

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E acho que é mesmo assim que tem de ser, Jaquelina Pandemónio: uma tribo diferente de todas as outras
Hipatia | 04.13.06 - 3:31 pm | #

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muito diferente
abomino cópias
j.p. | 04.13.06 - 5:42 pm | #

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Sem dúvida, és uma original
Hipatia | 04.13.06 - 6:04 pm | #