2006-04-19

Madrugada


Ariana Richards - Reverie


E é quando chegas a desoras, por entre os espaços que a noite tece ao abrir-se à madrugada, que nasce um calafrio na minha espinha. Começa breve, no cós das costas, que para estas coisas as costas são um espaço com costura.

Sobe lentamente, como que dedilhado, imprecisa-se por entre os gumes da minha pele arrepiada. É quase como um sopro, ou um suspiro. Tem sabor e cheiro, tem tacto. É um ir e vir subtil, um ensaio quase geral a que falta a música.

Chega a saudade por entre as primeiras luzes da manhã, levanta os lençóis e aloja-se junto. Abraça-me e ficamos lá as duas.

Mas estou fria, sozinha, enrodilhada na vontade de te ver chegar a desoras, para me abraçares o corpo pelas costas, fazeres com as mãos ninho no meu peito e me despertares o corpo e os sentidos.

Comprimo-me assim contra o vazio feito lembrança. E ainda te sinto o cheiro a limão e baunilha, com laivos de maresia. Sabor agridoce, como lágrimas sorridas. Ou o toque da distância, quando a saudade me vem acordar, neste imperfeito chegar de coisa alguma.

Um fado de te sentir sem te ter verdadeiramente, sempre a desoras, como as luzes da madrugada ou os primeiros raios de sol, que não me aquecem, enquanto brilham sobre a minha pele nua.

23 comentários:

maria_arvore disse...

Depois de um post tão bem costurado, a minha actual falta de inspiração só me permite dizer-te, plagiando os trovante, que mais vale ter saudades do futuro.

Hipatia disse...

Todos os anos, enquanto o início de Maio se aproxima e vejo o calendário a marcar mais um ano sobre a maior das ausências, entro num estado de espírito que não gosto de impor a ninguém, mesmo quando, sem nem bem querer, ele passa por entre as palavras que não digo. A saudade é tramada!

Elipse disse...

A saudade também pode ser vida. Aliás deve. Não deixes que ela mate mais nada em ti.
Um grande beijo.

Hipatia disse...

Isto passa...

:)

CAP disse...

...

Hipatia disse...

...

sofia. disse...

Muito tramada (a saudade)...
Beijinho

Hipatia disse...

Porque será que não nos resolvemos antes a "inventar" a alegria?

Tramadíssima!

deep disse...

Como tu própria escreveste, "a saudade é tramada", mais ainda se a pessoa que a fez nascer, mesmo em presença física, não deixa de ser ausência...

Hipatia disse...

Há uns posts atrás, dizia que há dias em que me deprimo a mim mesma. Infelizmente, é quase sempre contagioso. Talvez por isso ande mais silenciosa.

gaivina disse...

E somos dois....

TheOldMan disse...

Inventar a alegria não é tarefa solitária.

Esta tem que ser passada a alguém e devolvida, como uma bola de sabão soprada entre duas bocas.

;-)

jp disse...

Eu estou com o Old. Alegria é tarefa repartida. Tu cá, ele lá, os dois cá, toma lá dá cá.
Inventa-te e dá-te.
:-)

jp disse...

...e recebe!

Zu disse...

Quero ver os teus olhos a rir, ruivinha. Um beijo grande.

velvetsatine disse...

Um texto belíssimo com uma imagem lindíssima. Obrigada. :)

*****

Hipatia disse...

Mas se reclamas sempre dos meus "moods", Gaivina...

:p

Hipatia disse...

Tens razão, Old Man. Mas há, ainda assim, a predisposição para a alegria e essa tem de ser inventada e reinventada constantemente por nós :)

Hipatia disse...

Nem sempre é assim tão fácil, Jaquelina Pandemónio :)

Hipatia disse...

Eles vão sorrindo, Zu. O sentimento é "só" agridoce ;-)

Hipatia disse...

Obrigada eu por teres gostado, Velvet :)

jp disse...

é fácil é!!
basta querer, fazer, inventar, e se for preciso esquecer para recomeçar.
sei do que falo rapariga ;-)
...esta do falo...não estava prevista,ou será que estava?
...adiante
:-)**

Hipatia disse...

Eu sei do que falas - e do que falo também - durante quase todo o ano, J.P. Mas há efemérides que... bem, adiante!

Beijo