2005-03-18

O "caso" Joana

A palavra "vítima" é exacta, dura, inequívoca, e não precisa de adornos para exaltar a sua razão. Mas a banalidade, a versão unilateral de um grupo, acrescenta-lhe hoje a designação de "danos colaterais" e, por artes de berliques e berloques, as vítimas transformam-se em algo de indecifrável, a dor é minimizada e, com isso, o vitimador exime-se de qualquer responsabilidade.

Luís Sepúlveda - Uma História Suja



Tenho este "caso", entre tantos outros, atracado na garganta. É uma revolta, um nojo, uma impotência. Recordo ainda como me senti, há seis meses atrás, ao ouvir o primeiro comunicado da PJ: "morta por motivos fúteis". Motivos fúteis? Como pode uma criança ser assassinada por motivos fúteis?

Já ouvi várias versões para esses tais motivos fúteis, desde os € 15 euros à forma como encontrou a mãe e o tio quando regressou a casa. Mas o segredo de justiça, com que até concordo em teoria, impede-nos de saber mais do que boatos. No entretanto, a presumida assassina tem tempo para acusar a polícia de espancamento...

E o que me irrita mais é que nem sei bem se não concordo com uns bons tabefes na tromba desta hipócrita que, há seis meses atrás, estava a dar entrevistas chorosas para os jornais.

Deixo-vos a seguir o que escrevi há seis meses. A muitos níveis, o sentimento continua exactamente o mesmo. Nem sei como chamar a esta fulana. Não tenho sequer como a nomear. Puta não chega mesmo!

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Desde o início que assumi que este blog seria sobre banalidades, as minhas banalidades. Mas não no sentido de "banalidades", tal como as encara Luís Sepúlveda. Antes no seu sentido etimológico mais profundo, o do "ban", da circunscrição feudal, sendo que eu sou aqui o feudo, o espaço é meu, as minhas palavras são o meu território.

São banalidade com berliques e berloques e, no entanto, por mais ridículo e sem consequências que o possa ser, são banalidades comprometidas. São banalidades com grau de exactidão. As vítimas, para mim, não serão nunca danos colaterais. Os palhaços vitimadores não serão nunca eufemismo.

As palavras estão banalizadas, apupadas nos seus sentidos. As palavras estão escravas de interesses e são armas com gatilhos encravados. As palavras já não explodem, implodem na mentira. As palavras - e os discursos - ganham naftalina, quando se exaurem os seus significados, se enfeitam textos que nada dizem.

Olho os discursos políticos e pergunto-me onde estão as palavras. Vejo lá as letras e os ditongos a formá-las, as sílabas, os sons representados. Mas sinto as palavras sem sentidos exactos, sem contornos de verdade. E são tantas as palavras, tantas, tantas... Em toda e qualquer entrevista, todo e qualquer comunicado à imprensa, nos debates "políticos" que já não querem saber da "polis". E o sem sentido das palavras gastas, que correm o risco de já não dizerem rigorosamente nada, que perdem exactidão, são contaminadas pelas tricas de gente que faz da palavra a arma do interesse mesquinho, comprometido, prostituído.

As minhas palavras são banais. Mas quero-as ainda exactas. Armas puras nos sentidos, capazes de dizer as coisas banais de forma inequívoca, sem vítimas e sem vitimadores. Palavras-armas sem lobbies, contra a indiferença; contra o embrutecimento. Palavras-armas contra a minha voz em fuga e o meu alheamento das causas que as vão motivando ainda...

Mas há dias em que fico sem palavras, porque as histórias são demasiado sujas. Não encontro uma sequer que consiga precisar o que sinto. Que dizer de uma mãe que mata uma filha e desata a dar entrevistas chorosas para os jornais e televisão? Não tenho mesmo palavras. Chamar-lhe "puta" - palavra mais que banalizada - não chega sequer próximo do que sinto.


(neste blogue, aqui)

13 comentários:

duende disse...

'Como pode uma criança ser assassinada por motivos fúteis?'

Todos os dias são assassinadas crianças por motivos fúteis. Voltamos ao mesmo. Umas só são mais mediáticas que outras. (com todo meu respeito pela Joana)

vague disse...

Hipatia, não se consegue comentar no outro lado, já viste ou queres que eu te mande um técnico a casa? :D

vague disse...

Ai, desculpa, o tema é tão forte e doloroso mas saiu-me esta reclamação parva por estar habituada a escrever no outro sistema, desculpa, desculpa mesmo.

Anónimo disse...

Oferece-se:

Licenciado em Harvard, na especialidade Comments. Pós-graduação em Desbloqueio de Caixinhas. Doutoramento em Comment This.

Vai ao domicílio.

Hipatia disse...

Não sei o que se passa com a caixa...

Mas esta treta deu mesmo erro para postar.

Sugestões sem ser ao domicílio?

Hipatia disse...

Claro que tens razão, Du. Mas, porra, são raras as gajas baixas o suficiente para se porem a dar entrevistas e, depois, vem-se a descobrir que afinal a tinham assassinado (já sei, já sei... ainda não há provas. Mas haverá alguma vez ou a Joana não será mais uma dessas tantas mortes de crianças, esquecidas e em vão?)

Eu nem te sei explicar o que me causa tanta revolta. Não tenho mesmo palavras. E, de cada vez que os media reacendem a discussão, eu fico mais enojada.

Hipatia disse...

Vague, eu provavelmente teria tido a mesma reacção. E ainda estou à toa porque não entendo o que se passa. Nos outros posts as Outras Vozes estão a funcionar bem...

filipa disse...

Eu nem sei o que comentar porque ainda nem arranjei palavras que sumarizem a minha conclusão.
Isto é tudo tão surreal que me transcede. Só me dá para abanar a cabeça...

É impossivel haver mais avanços. O processo é arquivado (se é que já n foi) e esquecido num monte.

As provas.. toda a gente sabe o que se passou, mas não devem haver provas o suficientes para criar a tal de 'reasonable doubt' como dizem os cámones. O pior é que ninguém tem dúvidas...

Isto parece parvo, mas sempre que vejo a série do C.S.I. lembro-me de como seria bom uma equipe daquelas aqui pelo nosso portugalito. (ok, aquilo talvez seja ficção a mais, mas não duvido que poucos processos ficassem como este vai ficar.)

beijinhos e bom fim de semana.

duende disse...

Misty, os processos nos EUA não são muito diferentes dos nossos. ;)

filipa disse...

caraças...
ando a ver filmes a mais!

beijinhos duende! bom fim de semana :)

Hipatia disse...

Hoje disseram-me que o tio tinha, finalmente, confessado o crime. Não sei ainda se é verdade ou se não será mais um boato...

Se for verdade, ainda temos a dolorosa fase do julgamento e todos sabemos como os "confessos" gostam de mudar de ideias depois.

Sei bem que este nosso sistema judicial é destinado a proteger de quase tudo os inocentes. Mas, nessa ânsia, acabam por não acusar também demasiados culpados.

E é tão lento!!!!

corpo visível disse...

Este caso passou-me totalmente ao lado pois estava fora do país nessa altura.
Mas já vi tanto horror que este é mais um, a lembrar que o mal pode morar mesmo aqui ao lado, paredes meias com a nossa (quase)indiferença (aparece-nos ao jantar na teelvisão e desaparece com a telenovela ou o concurso que se segue "que faria se ganhasse um milhão?").
Beijo.

Hipatia disse...

Talvez seja mesmo contra essa (quase) indiferença que também sinto que me revolto tanto. Talvez. Foram seis meses a embrutecer mais um pouco? Talvez seja isso também. Nem sei bem...