2005-03-30

Culto dos Mortos

Às vezes penso nos suicidas e em como, algures antes de todo o tempo, antes de toda a história, antes mesmo de ser eu, também desejei ter uma lápide nesse céu, mas não tinha arma, nem engenho, nem a vontade certa.

No céu dos suicidas


Hoje vi a primeira andorinha. Fez um voo rasante sobre o vidro da frente do carro e seguiu. Ainda lhe estou a ver o veludo negro das asas e o eterno peitilho branco. E lembrei-me, por vários motivos, da voz do Carlos do Carmo a cantar que, por morrer uma andorinha, não acaba a Primavera.

Mas, pelo menos no que toca a mim, este início de Primavera parece ter sido escolhido para várias partidas. Como se, depois de resistirem a este Inverno tão gelado e seco, se lembrassem de partir com as primeiras chuvas. Já conto três... E quase me sinto vestida de branco e negro, como se fossem essas as cores que esta Primavera me calhou trazer. E Maio ainda nem chegou...

Depois, venho até aqui... E eu, que não acredito no além, em vida depois da morte, em encarnações ou reencarnações, ainda encontrei a Duende ali em baixo a questionar o culto dos mortos.

Concordando com ela em parte, porque os ritos são para os vivos e não para os que partem, como são as flores e são as preces, como as lágrimas servem para lavar apenas o nó que nos amordaça a dor e a consome em traqueias atrofiadas, penso que discordo num sentido mais geral.

É que, para mim, a eternidade possível passa exactamente por esse pequeno culto dos mortos que, cada um de nós, pode fazer à sua maneira: lembrando.

O meu culto dos mortos é exactamente esse: preservar na memória cada momento, cada instante precioso, de todos os que amei e já não tenho. Agarro-me firmemente, teimosamente, à ideia de que, enquanto formos vivos na memória de alguém, então não morremos de facto. Porque ainda não nos deixaram partir. Porque eu não sei deixar partir essas memórias.

Um dia cobraram-me uma vida. A minha vida. Fizeram-me prometer que iria sempre tentar viver com todas as minhas forças. Por mim e por quem me cobrava tal promessa. E eu prometi e tenho essa dívida para carregar, qual espada sobre a minha cabeça, até hoje, provavelmente até ao fim dos meus dias. E, se não tenho grande empenho em pagar a maior parte das dívidas que a vida me vai apresentando, esta assumo como uma dívida de honra. E vivo. Melhor ou pior, mas vivo.

Mesmo tendo sentido já tanta vez a vida como um fardo, porque há memórias preciosas e porque há promessas que têm mesmo de ser cumpridas, não me resta senão viver. Viver e lembrar. Para afugentar todos as finitudes e qualquer degredo do esquecimento. Para ver chegar a primeira andorinha, mesmo que a veja sempre trajada de luto.

E hoje fico por aqui, que não estou boa companhia para ninguém, nem sequer para mim. Amanhã respondo a todos. Já vos li. Só não tenho em mim capacidade para escrever mais do que isto hoje.

Até amanhã.

5 comentários:

Vera Cymbron disse...

Sim,"mesmo tendo sentido já tanta vez a vida como um fardo", continuo a agarrar-me a ela...E não consigo compreender quem acaba com ela, apenas aceito a vontade que os moveu. Oculto dos mortos deve ser o culto do que nós somos, porque quem foi faz parte de nós.
Jinhos, adorei o texto.

Hipatia disse...

Blue, lê por favor o Outra Vozes. Perdoa não responder, mas acho melhor assim.

Beijinho

filipa disse...

" E eu, que não acredito no além, em vida depois da morte, em encarnações ou reencarnações....."

será que nos agarramos a determinadas ideias apenas para nos ajudar a viver de uma maneira mais leve?

Para mim, a vida deixa de ter sentido se tudo acaba numa morte, se não existe continuidade.. é uma maneira de lidar com tudo e pensar que os que conheci, continuam algures. Não só dentro de mim, mas numa outra dimensão.
Experimenta, pode ser que ajude. :) Não é tão impossível assim colocar esta hipótese.

força e boa Páscoa (atrasada).

beijinhos,
filipa

Hipatia disse...

Já a pus várias vezes. Mas sou alma de pouca fé.

Beijinhos

Anónimo disse...

Mais Vozes

On : 3/30/2005 4:31:57 PM vague (www) said:

Escrevi no post abaixo algo que se adequaria aqui tb.Não repito, deixo-te um beijo e entendo, à minha medida, esses silêncios, que tb são meus.
Um beijo, Hipatia.


On : 3/30/2005 4:47:06 PM CotaMarada (www) said:

Dorme serena...


On : 3/31/2005 3:27:13 AM Jorge Morais (www) said:

Hipatia,
sei que não nos conhecemos ainda, apesar de andarmos ambos cá pelo Porto, mas nota-se, nos últimos dias, uma Hipatia diferente. Demora o tempo que for preciso, mas queremos a "velha" Hipatia de volta...
Preservar a memória dos que partem é mesmo a melhor homenagem que lhes podemos fazer. Eu sou pouco de ir ao cemitério ou de rezar pelos que partem, mas tento sempre guardar tudo na minha memória e ficar contente por terem feito parte da minha vida em vez de ficar triste por terem partido.


On : 3/31/2005 5:31:45 AM duende (www) said:

Suponho que não me fiz entender bem, mas lá em baixo está uma resposta mais esclarecedora (ou pelo menos, assim espero). Perservar na memória os que me são queridos e morreram para mim é tão natural como respirar. Ainda que quisesse esquecer, não o conseguiria. E acredita que tenho muitos 'perservados'.

Mas já estou como o Jorge Morais. Vê lá mas é se te animas que este tom fúnebre não ajuda ninguém nem resolve nada.


On : 3/31/2005 7:33:39 AM Jorge Morais (www) said:

Para ver se te animas:
já viste qual o nome do ficheiro no link que tens para o texto "No céu dos suicidas".

Tens de começar a ter cuidados com os nomes que escolhes para os posts, ou arriscas-te a coisas destas


On : 3/31/2005 9:13:13 AM Maria Branco (www) said:

Apenas um abraço imenso...

Muitos beijos


On : 3/31/2005 9:21:24 AM 1poucomais (www) said:

Lembrar os que nos foram queridos - sempre. Mas ao mesmo tempo, há que os deixar partir. Guardarmos a sua memória num cantinho especial do coração, e ali os termos, bem juntinho a nós. Eu, que acredito num Além cujos contornos desconheço, acredito que um dia voltarei a estar com aqueles que já se foram deste mundo. Mas a minha forma de lhes prestar homenagem agora, nesta vida, passa pela memória. Uma memória que lembre o quanto ganhámos pela presença dessas pessoas na nossa vida, mas não nos impeça de continuar a viver.

E também estou com saudades de um sorriso dos teus (é que são bonitos, mesmo, assim como são claras as gargalhadas desta menina a quem mando um beijo muito grande).


On : 3/31/2005 11:59:06 AM Diálogos Interactivos (www) said:

porque não encontro as palavras certas para exprimir Vida e Morte, porque cada vez entendo menos o seu significado, e porque cada vez mais me sinto deslumbrado com a ignorância que encontro em mim, só me resta emocionar-me rindo e chorando, com amor e com raiva, com prazer e dor, em cada instante da minha existência, ...e para ti uma flor, que pode ser um beijo, um abraço, ou qualquer outra coisa feita de gestos nobres, e afectos...que deixe em ti... que ficas, o conforto, que mitiga a saudade de quem parte.


On : 3/31/2005 12:04:37 PM Hipatia (www) said:

A todos, o meu obrigada. Mas ontem foi mesmo um dia muito mau. Este início de Primavera não me tem trazido boas notícias, aliás. Sem aprofundar demais o assunto, de tão doloroso que é, digamos que uma pessoa que conheci bem ontem desistiu de viver.

Só isso: desistiu. Num frasco de comprimidos, fez da morte um postulado. E deixa uma criança com 20 meses e uma mãe à toa, sem saber como um dia explicar que é possível desistir da vida.


On : 3/31/2005 4:15:15 PM ocidental-acidental (www) said:

(Desatento e retardado, como de scostume, sou eu que não tenho desculpa.)
Um grande abraço e um beijo de muita força, para ti, que por este meio nos conhecemos um pouqinho.
Choca-me pela criança e pela mãe...
Melhor é nem dizer mais coisa alguma...


On : 3/31/2005 4:29:40 PM Hipatia (www) said:

Não sei se existe sina, se há momentos bons ou momentos maus, se o destino joga xadrez com a nossa vida, como a morte do Bergman... Mas, este início de Primavera, está a ser um pouco violento para mim. Estou a precisar mudar o rumo, deitar a tristeza para trás das costas e voltar a reencontrar o bom humor.

Espero que, ao encerrares o teu Nada de Novo na Frente Ocidental (é quase uma heresia fazê-lo, já te disse!) não te percas de nós.

Beijo, Ocidental