2006-03-01

A menina que escutava as pedras (ainda a Beira...)

Mariazinha vestiu a sua blusa mais bonita, uma saia branca, meia clara e sapatinhos de Verão a condizer. Na cabeça, dois totós prendendo as longas tranças morenas. Então, abriu um belo sorriso de orelha a orelha. Afinal, era o seu dia de anos.
Como sempre, no seu aniversário, foram almoçar fora, ao Pataco. Os empregados não a pouparam com mimos, oferecendo-lhe um gelado no final da refeição. Do outro lado da mesa a mãe sorria com ternura, e o pai, babado, limpava os beiços com um guardanapo.
Mas o melhor estava para vir: os primos e a tia vinham brincar com ela, a tarde toda. E, depois, havia o bolo de anos e as prendas…
Foi um rebuliço pela tarde fora. Mas, para ser perfeito aquele domingo de aniversário, faltava ainda um passeio. Aos Fiais e às suas pedras favoritas.
Mariazinha chegou-se ao pé do pai, que, de comando na mão, mudava freneticamente de imagens na televisão e disse:
-Pai…eu quero ir escutar as pedras.
-O quê miúda?
-Sim. Quero ir escutar as orcas dos Fiais.
-Mas que ideia mais disparatada! Respondeu o pai, endireitando-se no sofá.
-Leva-me lá! Insistia a filha, desatando num berreiro: Eu quero escutar as pedras. Quero ir aos Fiais!
-Ó Sílvia, a tua filha anda cada vez pior! Chamou ele pela esposa, nervoso, pois o costumeiro jogo de bola estava prestes a começar em transmissão directa.
-Mas eu quero, pai!
Aí os primos começaram, também, num coro: Queremos escutar as pedras! Queremos ir aos Fiais!...
Foi tal a insistência da miudagem que os adultos não tiveram outra hipótese senão pegar nos carros e rumar aos Fiais da Telha, para grande tristeza do pai que iria perder um jogo decisivo do campeonato.
Mal lá chegaram, as crianças saíram a correr dos automóveis gritando: Vamos escutar as pedras! Correram em direcção às antas, abraçando as grandes pedras, encostando os ouvidos à superfície rochosa.
-Maria, vem escutar esta! Gritava um dos primos.
-Agora vou ouvir o que esta diz….Dizia Mariazinha.
-Eu gosto muito desta orca. Dizia sorridente o primo mais pequenino, agarrado a uma grande massa de granito.
A tia e a mãe estavam tão entretidas com a habitual conversa de fim de semana que nem se deram conta das palavras murmuradas pelo pai:
-Meu belo joguinho ...
A tarde foi caindo. Cansadas as crianças de tanto de escutar as pedras, convenceram-se a regressar ao entardecer. E seguiram, para o carro da tia. Afinal, o jipe da tia era muito mais divertido que o carro do pai:
-Vamos todos aqui! Gritou Mariazinha.
-E eu? Perguntou o pai.
-Tu vais sozinho no teu. Respondeu a mãe.
E lá se foram, perdendo-se no pó da estrada.
O pai ficou ali parado no meio do caminho junto das enormes orcas silenciosas.
Olhou em redor, verificando que estava mesmo a sós. Então, aproximou-se, de uma grande pedra e abraçou-a. Sentiu um calorzinho que lhe entrava pela barriga, vindo da rocha ainda quente pelo sol. Encostou a orelha ao granito e escutou a voz das pedras.

Glossário:
Fiais da Telha - Terra bonita da Beira Alta
Pataco - O melhor restaurante de Canas de Senhorim
Orca - Dolmen

7 comentários:

Daniela Mann disse...

Sabe escrever muito bem! Gostei do blog e pretendo visitatá-lo novamente logo que possa!
Um abraço,
Daniela

Hipatia disse...

Tão lindinho! E sabes do que me lembrei logo, Gaivina? Das pedras parideiras da Serra da Freita e do estrondo que fazem ao "dar à luz". Quem disse que não há vida nas pedras? :)))) Fiquei com saudades de Arouca, que Fiais não conheço :(

gaivina disse...

Sê bem vinda Daniela a esta casa...
Volta e conversa connosco...este é um lugar de partilha.
Aqui, as Vozes podem surgir da profundeza das pedras.

Hip,

Conta-me a história das pedras da Freita,na tua melhor escrita; sobre as irmãs destas outras dos Fiais, que a minha menina escutou, de ouvido encostado.

vanus disse...

Gostei muito. Os adultos têm sempre uma parte da vontade comida pela norma, o que é bom no funcionamento social, mas também muito mau no que diz respeito ao seu crescimento. Os adultos têm esta ideia que já não precisam de crescer...a não ser quando estão sós...
:)

maria_arvore disse...

Ai Gaivina, a Beira escrita por ti, é sempre tão doce. :))

Tão doce como não apagar a criança que vive dentro de nós, digam os outros o que disserem. :))

Gaivina disse...

Pois é Maria....
Fica aqui a notícia em primeira mão:
depois do meu "Pinok e Baleote", segue-se um livro de contos, cheirando a Beira, "Eu quero é ir para a terra!"
Alguns contos já foram publicados aqui, na casa de Hipatia...

gaivina disse...

Vanus:

É comum, na Beira, os pais demitirem-se da fantasia dos filhos, esquecendo-se desse grande património que é a infância...
A "Bola" tem deixado grandes silencios no interior das famílias...