2006-03-13

Take a bow


aqui


Quanto me sento ao computador, aceito que os mundos virtuais que lá encontro são paralelos aos meus. Falo com pessoas cuja identidade não consigo provar. Desapareço numa teia de coordenadas que dizemos que vão mudar o mundo. Qual mundo? Que mundo?

Jeanette Winterson – O Vírus do Amor


Há dias em que fico demasiado feliz por ter feito a ponte, transitando para o meu real aqueles que, por largos percursos feitos palavras, habitavam apenas a terra onde as ovelhas talvez sonhem com andróides. E é por isso que há fins-de-semana diferentes, povoados de quem gosto, de quem gostaria de qualquer maneira. Mesmo sabendo que a probabilidade de fazerem parte do meu mundo se mede bem mais em 0 e 1 do que numa qualquer matemática baseada nos dez dedos com que, no início dos tempos, aprendemos a contar.

Mas não há como escapar ao reverso. Nem sei se quero escapar ao reverso. Como uma amiga – que já foi só virtual – explicava a um amigo – que também já foi só virtual – aprendemos a treinar o instinto e estabelecemos regras, limites de segurança que não queremos, nem podemos, ultrapassar. Mesmo quando não há olhos, nem sorrisos, nem postura corporal, treinamo-nos, ainda assim, para os sinais. E batemos em retirada, se for preciso. Desconfiados, levemente tostados por histórias que quase nos queimaram, perdemos a magia dos primeiros tempos, a vontade de acreditar ou tão só a capacidade de acreditar.

Os nossos mundos paralelos estão ainda aqui. Mas há muito que erguemos muralhas e nos barricamos bem por trás delas.

Como em todos os novos percursos, fomos obrigados a crescer. Tudo na vida nos obriga a crescer, de alguma forma. Mas o que se perde em pureza nunca mais pode ser recuperado. É o mundo que sobra. Que mundo, ainda não sei…

26 comentários:

TheOldMan disse...

Não são necessárias grandes muralhas, Hipatia.

Basta ter em mente que até se revelarem aos nossos olhos, todas as outras identidades devem ser consideradas apenas virtuais.

;-)

Hipatia disse...

Não é bem assim, Old Man. Já se revelaram identidades que só depois, bem depois, mostraram o que eram realmente. E são precisas muralhas por isso mesmo. Quem vê caras nunca vê corações, não é? E, mesmo que a figura física ajude - e muito - à revelação da identidade, nem essa é suficiente. Resta-nos o instinto (e o meu, apesar de tudo, nem me tem deixado ficar muito mal) e certas defesas.

Algumas pessoas, como eu, que entraram na net prontas a explorar todas as possibilidades, sabem agora que é preciso manter o MSN desligado quase sempre, seleccionar mails, não acreditar em tudo o que aparece. Perde-se magia. Claro que se perde. Mas ficamos muito melhores na virtualidade e na realidade ou naquele meio termo em que as duas se juntam :)

Folha de Chá disse...

Eu cá, não uso o messenger, por norma. E como contactos, por lá, só tenho os das pessoas que conheço. Manias minhas. Concordo contigo, é preciso estar atenta aos sinais da intuição. Normalmente, batem certo. ;)

Hipatia disse...

Eu cá, já o usei em demasia ;-)

Beijoca :)

Cruzeiro disse...

O meio termo, em que as duas se juntam parece-me de facto o ideal...:)

Hipatia disse...

Mas é sempre difícil encontrar o equilíbrio...

;-)

PN disse...

E equilbrar-se no topo das muralhas pode dar direito a um valente trambolhão.
Beijo, mas com o pé atrás.

Hipatia disse...

Pode sim senhor. É que às vezes e apesar de tudo, quando damos por nós, já estamos a ir de fuças :))

Beijo de pé à frente (um só...)

:)))

vanus disse...

Tudo requer a medida certa, toda a nossa vida crescemos na base das desilusões, das perdas, toda a nossa vida construimos defesas em relação aos outros, e às vezes até em relação a nós próprios.
Aqui as estratégias são apenas novas, não difere muito de lá fora; impomos umas quantas regras depois do primeiro ou segundo embate e está a andar.
Não podemos ganhar sempre tudo, nem aqui nem lá fora, por muito que sejamos andróides que já sonham com ovelhas :)

De qualquer forma o mais atractivo na pureza é a sua violação, faz parte da natureza de todos nós, quer seja num sentido mais específico ou noutro mais lato; se o fruto está na árvore é para ser comido ;)

jp disse...

Não usar o MSN??
Ou eu sou muito naife ou não percebi essa.
Mas a malta não fala apenas com quem adicciona e escolhe?

vanus disse...

JP,
no MSN as conversas gravam-se, são mandadas a outras pessoas, altera-se a conversa, pode-se acrescentar partes, eliminar outras e por aí...
Aliás é muito comum.
Se tiveres camera e fizeres qualquer coisinha mais arrojada, é bem provável que te tirem fotografias e mandem a quem quiserem.

A malta escolhe quem quer, o problema é que às vezes quem pensávamos que queríamos virtualmente (e realmente) não é bem quem se revela à postriori.
Eles andam aí :)

Hipatia disse...

Ou tão só ovelhas a sonharem com andróides, miga, que isto das existências paralelas...

:)

Não vou fazer aqui a contabilização do tempo. Mas já lá vão alguns aninhos. E todos sabemos como o tempo por aqui se mede de forma diferente. Talvez seja do binário. Talvez seja só pelo tanto de intenso que se torna. Talvez porque vicia. Talvez apenas porque nos dispomos a isso. E vamos deixando algumas partes velhas pelo caminho, esperando que, com o nick que deitamos fora, vá tudo o resto. Só que nunca vai, não é?

Não será assim tão diferente do resto da vida. Mas até as estratégias de fuga são ligeiramente distintas e nunca chega só bater com a porta. É também preciso, por exemplo, garantir que as caixas de comentários ficam fechadas ;-) É que nem todos os frutos são doces...

Hipatia disse...

A Vanus já te deu a resposta bem parecida à que eu te daria, JP.

Mas, já agora: nós as duas já falamos no MSN; até viste uma fotografia que, supostamente, seria minha; e contamos coisas uma à outra... quem te garante que eu não vou passar essa nossa conversa a outra pessoa? Quem te garante que aquela fotografia era mesmo minha? Ou sequer que te contei a verdade e não pedaços de uma qualquer fábula? Ou quem me garante a mim exactamente o mesmo?

Obviamente que estávamos as duas de boa fé e tivemos sempre boas conversas. Mas nunca será porque correu bem com algumas das pessoas que anexamos ao MSN que vai correr bem com todas as outras.

No princípio dos tempos, quando eu ainda era capaz de acreditar, houve alguém que me conseguiu convencer que se ia suicidar... é brincar com coisas demasiado feias mas, infelizmente, por este mundo virtual há gente sem regras e sequer sem os mínimos requisitos de decência. E, porque existe gente dessa, aprendi a construir as minhas muralhas.

Anónimo disse...

Eu vou pela intuição :) (tem sido positivo, o saldo)

Aprendi a ler letras e como diz a Marguerite Yourcenar: "a palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana".

Quer dizer, esta dicotomia virtual/real é debatira vezes sem conta...mas...
A gargalhada é dissimulada, ou sentida? A lágrima ou a preocupação é forçada ou inventada, ou real? Isso quebra a suposta "virtualidade". Agora o conceito de verdade ou mentira...é isso que está em questão? Vejamos se é assim tão de um "mundo ou de outro". Pessoas mentirosas, ou com imaginação fértil para pender para um lado inventivo, ou dado às inverdades há em todo o lado.

Convivemos com elas diáriamente e muitas vezes nem disso sabemos, ou temos de lidar. São mais reais porque lhe podemos dar um beliscão? Ou um tabefe aquando a descoberta da mentira? Sim... Podemos, mas por vezes nem podemos eliminá-la na lista de contactos. :)

Tal como a vida que nos rodeia, mais às pessoas que fazem parte, o diz-que-diz- existe. Nas costas dos outros vejo as minhas, não é?

O boato existe em ambos os mundos, a maldade, a intriga bem como a fofoca e o passa palavra, quem emprenha pelos ouvidos ou "olhos", azaruxo... aplico a máxima, a verdade vem ao de cima, além do mais...façam favor de usar o espiríto critico e formar opinião própria. mai nada! Deixo-os ficar com o que pensam...

Mas sim, afasto-me da maldade, das complicações que por vezes tentaram ou tentam sugar como aspirador. Eu compro a briga, a briga não me compra ou suga :)Fazer parte de jogadas, não quero, nunca quis, mas que deu para conhecer gente bem real, com bom coração? Está aqui a prova...e tem voz, mesmo em fuga ;)

E nem precisa ser no "virtual"...quantas vezes não pegam nas "nossas" palavras e as apresentam como lhes dá na real gana?

(bom, já me estiqueiiii...ehehhe é um tema que gosto...)

Trudiluuu...Beijos :)

Spray

jp disse...

então vamos lá responder ás meninas...
Vanus, nem imaginas o que eu sei acerca do MSN, e das outras faces negras do que se pode fazer. E nem imaginas o que eu sei que acontece, com pessoas de carne e osso que estão olhos nos olhos connoscco e até dormem na mesma cama, e o que são capazes de fazer, sem usar copy paste.
Existem pessoas boas e pessoas más. Umas mais bem formadas do que outras. E como dizia o Old, não são precisas grandes muralhas,é preciso é ter olho vivo, e confiar um bocadinho nos instintos como escreveu o Anônimo.
Tiros pela culatra saem-nos de onde menos esperamos , isso é certo. As minhas maiores desilusões foram com gente a quem eu tocava. Os virtuais, tal como a palavra indica são virtuais.Podemos ou não acreditar. è um risco, como tudo na vida.
E menina Ludovina,um aviso.
Se eu sei que me andaste a aldrabar no MSN,acredita que tenho formas de te encontrar.Levas um enxerto de porrada que nunca mais te esqueçes!!

vanus disse...

Claro, JP, acredito bem que saibas, mas como perguntaste e eu não sabia se tu sabias que tudo isso se podia fazer no MNS, respondi (eu no início não sabia, e olha te garanto que já levei muita porrada aqui, muita mesmo, mas ainda cá estou).

Também concordo que não haja assim tantas diferenças, tal como respondi à Hipatia, apenas aqui as armas que se podem usar nem sempre são muito visíveis no início, ou melhor, quase sempre só tomamos conhecimento delas quando nos atingem; o que não deixa de ser igual à vida real, com as pessoas de carne e osso.
O risco aqui pode ser maior, é verdade, mas certamente passado algum tempo as nossas defesas e cuidados também o serão :)

TheOldMan disse...

Hipatia, manda-me essas fotografias da JP nua, que tiraste com a webcam no MSN.

LoL

Não vale rinoplastia nem emasculação como vingança, JP.

;-)

Hipatia disse...

Claro que tens razão, Lata :) E até admito que, muitas vezes, ao falarmos no costado do outro, nem pretendemos causar dano. Aliás, quem nunca falou de outro... Mas é preciso aprender a lidar com isso, da mesma forma que, no nosso quotidiano, desde pequenos que aprendemos a fazê-lo. Talvez seja por isso mais fácil intuir quando há caras e sorrisos e corpos. Por aqui, é necessária uma nova aprendizagem, feita de signos diferentes que, no entanto, representam exactamente o mesmo. Então, é quase como comparar o que somos aos cinco anos, por exemplo: queremos acreditar em determinadas pessoas e acreditamos de facto no que nos dizem. Mas, depois, crescemos e aprendemos umas coisinhas e já sabemos distinguir algumas não verdades. A net implica também esse crescimento. E, tal como fora dela, implica dar muitas vezes com os burros na água. Depois, levantamo-nos e seguimos em frente. Mais tolhidos e desconfiados, mas seguimos em frente :)

No fim, sobra sempre o que vale a pena e o que vale a pena - pelo menos para mim - é saber que, apesar da história, pequenas histórias de amizades que começaram na virtualidade e hoje são bem reais, mantêm-se e sobreviveram a todos os abanões :)

jp disse...

Old
a vingança vai ser terrivel meu caro.
Rinoplastia e emasculações?
Nada como uma RTUV, seguida de hemorroidectomia!! E sempre há a hipotese de ficares a defecar para o "saco".
E Hipatia nem te atrevas a mandar as minhas fotos dos grandes lábios ao Old.

Vanus, a minha pergunta sobre o MSN era retórica minha querida. Mas agradeço sinceramente o cuidado.
Beijos aos 3

Hipatia disse...

Enxerto de porrada em "moi", Jaquelina Pandemónio? Era só o que faltava! Olha que eu escondo-me atrás da Vanus :)))))

E claro que as verdadeiras desilusões são, normalmente, com quem privamos mais de perto. Mas não esqueças como é fácil sentia empatia por aqui. De tal forma fácil que, num piscar de olhos, passamos para além da net. E podemos acabar tostadas nos dois mundos.

Para teres uma ideia do que falo, um dia cheguei a um fórum e alguém tinha posto lá o meu nome completo e o sítio onde trabalhava na altura. Não era grande informação e eu sempre tive muito pouco a perder com este tipo de "fuga de informação". Afinal, mesmo hoje, dificilmente serei chamada a atenção por qualquer superior hierárquico, já que não uso tempo profissional para este vício e, do que escrevo, quase nada se percebe do que faço e onde o faço. Claro que há quem saiba. Quase toda a gente aliás. Mas não é grande segredo. No entanto, ver o meu nome e o meu emprego pespegados numa página pública não deixou de ser um sopapo. E não gostei. Pior, até sei de onde veio a informação e não foi bonito saber quem a tinha divulgado. No entanto, há pessoas que têm bem mais a perder e já vi informações bem virulentas a serem utilizadas em ataques soezes e de muito, mas mesmo muito baixo nível.

Hipatia disse...

Oh Old Man, a fotografia de que falava era minha. Ainda interessado? É que, sendo assim, tenho de ir aparar o bigode :)))

Hipatia disse...

Ah! Eram as fotografias dos grandes lábios? Silly me, que não tinha percebido...

LOL

TheOldMan disse...

Finalmente compreendo, Hipatia. Por momentos pensei que tinha acontecido alguma coisa à Manuela Moura Guedes.

;-)

Hipatia disse...

eheheh

Não podia ser, Old Man. Tenho a MMG bloqueada ;-)

Cruzeiro disse...

O equilibrio é sempre dificil de encontrar, mas podemos sempre tentar...:)

Hipatia disse...

Mais do que podermos apenas, temos mesmo de tentar ;-)