2009-05-11

Escândalo




Se a morte pode ser espectáculo por tudo e por nada – e é, cada vez mais em primetime, cada vez mais destituída de qualquer sacralidade – não chego a entender o escândalo a propósito de apenas uma cena. Toda a exposição do anatomista alemão Gunther von Hagens parece-me profundamente grotesca, enquanto corpos sem vida semi-dissecados mimam a vida. Entendo a repulsa; entendo até que se condene quem faça dinheiro com a morte, expondo-a assim aos olhos curiosos e chocados do público. Só não entendo que resumam a crítica apenas à cena de sexo entre cadáveres. E que condensem novamente a náusea apenas à moralidade pequenina que continua a vestir o sexo – já não a morte – de vergonha e repugnância.

6 comentários:

Emiele disse...

Muito apoiado, Hipatia!
Quando li a notícia, pensei isso: se aqueles corpos estivessem a dançar, já seria aceite e iríamos gostar?! Olham, eu NÃO.
Eu sinto respeito pelo ser humano. E ali não se trata de uma imagem, é o própria que está em exibição. Terrível.

Hipatia disse...

Parece que os corpos são doados, ou seja, quem morre sabe o que vai ser feito ao seu corpo. E até entendo que haja uma certa busca pela imortalidade, assim travestida de arte. Como até posso entender que o anatomista pense que está a fazer um grande serviço, expondo a natureza do corpo. Não é, sem dúvida, algo que me agrade esteticamente. Mas há muita coisa de que não gosto. E até aceitaria como uma forma exótica de arte. Afinal, há muitas outras manifestações artísticas que me repugnam. Mas o escândalo ser só por estarem dois corpos a fazer sexo, quando há tantas outras questões éticas numa exposição destas é que não entendo mesmo. Como dizes, talvez se estivessem a dançar já não fosse notícia. Ora, para mim, é tão estranho o estarem a dançar como a fazer sexo. Se chegasse a aceitar bem o primeiro, nunca condenaria o segundo.

I. disse...

Eu acho uma nojaaaaa. E não é por estarem a fazer sexo, até podiam estar a estrelar um ovo. Mas isto de liofilizar um cadáver e andar por aí a exibir... iaca.

Já aquela exposição do corpo humano era a mesma coisa, e até diziam que era educativo... eu achei foi voyeur à 5ª casa décimal. Caso para dizer: nem morta me apanhavam lá :D

(se bem que se começamos com merdinhas, nem múmias se podem ter em exibição. por acaso eu, que sou uma coninhas, não consegui fotografar as múmias ou restos mortais no Met ou no Museu Britânico. não me senti à vontade. aquilo já foi uma pessoa. outros visitantes, se pudessem, até levavam um dente, caraças, tal era a sanha com que babavam a ver aquilo)

Hipatia disse...

Não chego ao ponto de não fotografar múmias, confesso. E estou, obviamente, sujeita a uma noção de sacralidade do corpo humano morto (cada vez mais ténue, é certo) que me foi imbuída pela nossa cultura. E, esteticamente, acho feio. Ponto. Qualifico assim por inteiro e não apenas um dos quadros. É por isso que me seria relativamente fácil entender a denúncia de toda a exposição - e ai estaria provavelmente a defendê-la, ao abrigo da sagrada liberdade de expressão - mas não quero sujeitar-me a qualquer crítica que apenas abre a boca a propósito do sexo. Como se todos os tabus fossem passíveis de ser acomodados, desde que não se ouse mexer com os tabus da sexualidade.

Mas sabes o que primeiro me passou pela cabeça quando vi a polémica? Aquelas duas pessoas conheciam-se? Gostavam uma da outra? Eram compatíveis? Desejavam-se? Bem sei que estão mortas e isso pouco tem a ver com o caso, mas acho de uma violência flagrante ficar eternizado a dar uma queca em alguém que, às tantas, provocaria repulsa mútua se ainda cá estivessem para dar a opinião.

I. disse...

Huhhhh, nem tinha pensado nesse ponto de vista. Duplamente noja!

Não sei se é uma questão de sacralidade, que eu até creio que um corpo morto é só um despojo. Mas há qualquer coisa, um respeito pela pessoa que ali habitou, que me faz ter esta relutância. Isto não é propriamente bom, até porque já quis fazer uma pós graduação em criminologia, mas não aguento ver fotos de gente morta. Tenho tonturas, desmaios. Imagina em aulas de medicina legal, tudo ali a aprender e eu a pensar que aquela pessoa viveu menos do que merecia, teve uma morte horrível, e como seria quando viva. Muito complicado.

Ah, e não me incomoda que fotografem as múmias. O que me fez mesmo muita impressão foi um grupinho que no Metropolitan quase entrou dentro de uma sepultura (que não estava dentro de uma redoma) para se fotografarem. Que falta de respeito, pelo despojo, pela história, pelo museu, por tudo. Falta de noção. E se as múmias do MB não estivessem todas dentro de redomas, aquilo era um ver se te avias...

Hipatia disse...

Pensei que ia ter uma relação bem mais visceral quando assistisse a uma autópsia. E, no entanto, acabou por nem acontecer. Num primeiro momento, era um corpo, era um homem, tinha um buraquinho no pescoço e evidências da pleurisia pulmonar que o tinha finado (oh a fumadora aqui a engolir em seco!). Depois, a pele da cabeça e todo o couro cabeludo desceram para pôr a descoberto o crânio e taparam toda a cara. Estranhamente, continuava a ter ali à frente um corpo humano mas, ao faltar-lhe a cara, foi bem mais fácil não me deixar levar por pensamentos pouco objectivos. Lembro, no entanto, que me fez muito confusão que tirassem o sangue acumulado no abdómen com uma concha da sopa. Talvez tenha sido mais isso: a estranheza do objecto e o contexto onde aparecia. Se calhar, a mesma estranheza por ver estes corpos plastinados a mimarem a vida, em posturas tão pouco de acordo com a morte que já os levou e o despojo que, realmente, são.