2010-11-30

Dar

aqui


«Recolhas do Banco Alimentar bateram recordes e dispararam 30%.»


Se calhar porque, numa sociedade de excessos, ensinar a pescar nunca pareça suficiente. Ou talvez porque, quando estendemos a mão a quem sofre, é o nosso sofrimento que mitigamos, o desconforto de nos sabermos a salvo, da arbitrariedade que nos anula no sofrimento absurdo de outro humano tão parecido connosco, tão diferente na sorte. Por todo o cinismo que os anos colaram em mim, é também por isso que dou ainda.

2010-11-25

Nunca nada muda o bastante

Irma Gruenholz


É certo que, de certo modo, estamos todos mais atentos. Mas isso não tem servido de nada às tantas de vítimas, mesmo quando denunciam, mesmo depois das queixas na polícia, mesmo quando nem assim estão seguras.

Se mudou alguma coisa depois de passar a "crime público"? Mudou: todos podemos denunciar, quando nos deixamos das velhas tretas do "entre marido e mulher" e o crime não desaparece quando a mulher, quase sempre coagida, retira a queixa. Mas isso não quer dizer que não esteja praticamente tudo mal à mesma: não há acompanhamento real dos queixosos pelo que, quando o agressor aparece para transformar em actos as tantas de ameaças, não há qualquer barreira ao seu sucesso. Vai preso a seguir, é certo, ou mata-se como um bom covarde. Mas isso deve interessar bem pouco à vitima.

E a carnificina continua, sendo que agora tem forma de estatística religiosamente "printada" nos jornais.

aqui

2010-11-23

But the ghosts still haunt the waves


Found at bee mp3 search engine


aqui

The island it is silent now
But the ghosts still haunt the waves
And the torch lights up a famished man
Who fortune could not save

The Pogues - Thousands Are Sailing

2010-11-20

Rascunho




Tripeira, sem tento nas letras nem açaimo nos dedos, há dias em que chego ao final da tarde ao blogue e só me apetece pintar a página de palavrões para lavar a alma do descalabro da vida que nos sobra da labuta. E exclamo sem dó, com um enfático ponto respectivo: foda-se!, mesmo que raramente publique. E ultimamanete o rol de obscenidades tem sido tamanho que a lista de palavrões já não cabe no espaço diminuto de um final de tarde cansado. A crise tão nem trazido o melhor de nós! E há gritos que engulo e, na garganta, ganham um granulado de fel que me enoja. Se não tivesse um blogue, talvez desse por mim a berrar à janela para o campo vazio e gelado lá ao fundo. Assim, vou ficando só em rascunho.

2010-11-15

Ou dito muito melhor

.


«O que é inacreditável é estas coisas já não indignarem ninguém, olharmos para estas ignomínias e fingirmos que é normal; ficarmos calmos quando se transcrevem conversas privadas sem qualquer tipo de interesse que não seja o da mera coscuvilhice; ignorarmos estes actos sem que pensemos, um bocadinho que seja, no que isto representa para a nossa liberdade e para os nossos mais sagrados direitos.»

Pedro Marques Lopes


2010-11-14

Media

aqui


Nunca nenhuma vida tem valor realmente idêntico a outra quando vista pelo prisma de valores que vai enformando estas notícias que nos sobram. E é que já nem é o cão a morder o homem ou o homem a morder o cão; é mais do que isso: é quase como se fossem homens transformados em matilhas. Havendo sangue, ou tragédia, ou uma hecatombe, tanto melhor, mas também basta conspurcar a vida privada de qualquer um. E a sociedade que tudo vai engolindo, cada vez mais anestesiada, mais comatosa, tanto que lhe tentam dar cada vez mais pão e circo, a ver se ainda reage, a ver se ainda há reacção possível. E as tragédias são só fait-divers; só a notícia bombástica vende. E vamos ficando calejados contra a tragédia e os factóides, servidos a qualquer hora de maneira a que a indiferença vá alastrando, até que já quase nada pareça indigno. É um mal generalizado e um tique do jornalismo que temos: explorar à exaustão o fácil, o sentimentalóide, o grotesco, as opiniões dementes de alguém, em lugar de expor factos sem julgamentos morais. A isenção nunca existiu afinal e a ingerência é arma nas lutas diárias pelas audiências e nos agrados necessários aos patrões.

2010-11-12

Aung San Suu Kyi



Será desta? E que liberdade a espera?

Números


aqui

Os números são coisas muito jeitosas. Se bem que, no dia a dia, seja fácil e evidente uma soma de dois mais dois (ou, cada vez mais habitual, um subtracção de quatro), há alturas em que até o mais pragmático dos resultados tende a esconder uma qualquer pirueta. E é com cada pirueta que já nem estranho o número: afinal, isto já é um circo há muito tempo.

E os números são especialmente jeitosos com eleições à vista: dão para tudo e são pragmaticamente adaptados às piruetas que interessam. Tirando isso, não servem realmente para nada, ainda que seja óbvio o jeito que aparentemente dão.

Atolados na crise, nas insuficiências crónicas, nas sinergias perdidas, nas falsas promessas ou nas verdades mentirosas, já nem estranho o jeito que se dá aos números. Como se bastassem agora e fossem claros como cristal, usados como adagas ou, pior ainda, como arma de gatilho rápido ou uma qualquer caçadeira com mira num zepelim.

Mas o que me assusta realmente é esta moda de agora de ver tantos em vibração orgásmica com os números da desgraça. Como se a pirueta afinal nem fosse uma foda mal dada; como se na desgraça colectiva reencontrassem finalmente o tesão.

2010-11-11

(...)



Um sítio onde não sei como vou fazer para poupar é nos concertos. É que há coisas que se transformam num crime para a alma se deixamos de usufruir.


2010-11-08

Novamente "os salvadores da pátria"

aqui


Ando cada vez mais fartinha de todos os caramelos que, com ar pomposo, nos anunciam as suas soluções milagrosas (ou ameaçam com o apocalipse) em "prime time". Como se fossem inocentes. Como se não lhes conhecêssemos as trombas e tudo o que fizeram e tudo o que nunca souberam fazer.

2010-11-05

Poeta

Cuando tu apareciste,
penaba yo en la entraña más profunda
de una cueva sin aire y sin salida.
Braceaba en lo oscuro, agonizando,
oyendo un estertor que aleteaba
como el latir de un ave imperceptible.
Sobre mí derramaste tus cabellos
y ascendí al sol y vi que eran la aurora
cubriendo un alto mas en primavera.
Fue como si llegara al más hermoso
puerto del mediodía. Se anegaban
en ti los más lucidos paisajes:
claros, agudos montes coronados
de nueve rosa, fuentes escondidas
en el rizado umbroso de los bosques.
Yo aprendí a descansar sobre sus hombros
y a descender por ríos y laderas,
a entrelazarme en las tendidas ramas
y a hacer del sueño mi más dulce muerte.
Arcos me abriste y mis floridos años
recién subidos a la luz, yacieron
bajo el amor de tu apretada sombra,
sacando el corazón al viento libre
y ajustándolo al verde son del tuyo.
Ya iba a dormir, ya a despertar sabiendo
que no penaba en una cueva oscura,
braceando sin aire y sin salida.
Porque habías al fin aparecido.

Rafael Alberti - "Retornos del amor recién aparecido"



2010-11-03

Sakineh

aqui

«Bienheureuse mobilisation qui a permis, en effet, de faire du visage de Sakineh une icône mondiale, un symbole et de différer ainsi, pour le moment, la date de sa mort annoncée ! Pour nous, bien sûr, le combat continue.»

Bernard-Henri Lévy


Para já, Sakineh continua viva. Mas é preciso continuar a fazer barulho, ou, como apelidou um alto cargo iraniano, continuar com a insolência de transformar esta mulher num símbolo e esperar, assim, que não seja transformada em mais uma vítima sem nome.



_____
ver aqui o que (ainda) se pode fazer.

2010-10-29

Portugal

.
«Hoje pode existir uma união nacional do ódio a Sócrates. Mas uma coisa já ninguém lhe tira. Só a geração Magalhães poderá realmente mudar Portugal. »

Leonel Moura




Portugal vai transformando-se numa espécie de nevoeiro, com discursos e pantominas à mistura. Digamos que uma cortina de fumo, com um País pardacento reduzido à letargia de, daquele lado, já não esperar nada de decente e, por isso, demitindo-se gradualmente de até apenas desejar. Para a mediocridade que vai, será que vale oferecer pior ainda?

Aos jovens bem jovens de hoje pertence o amanhã: a minha geração de parêntesis, a geração que teve tudo para ser e não soube ser nada, excepto a geração que transformou os pobrezinhos mas respeitados em endividados sem respeito nenhum; os cravos que já não terão cheiro; as canções revolucionários com o mesmo apelo que os hinos fascistas de antanho; os símbolos escondidos sob pó e teias de aranha; a pátria confundida com outro mito qualquer, talvez o desta Europa que nos engoliu e agora quer cuspir fora; os políticos de carreira e os caciques da negociata que um certo Portugal pariu já há muito debaixo do chão.

E aos jovens muito jovens de hoje, por não lhes ser mais exigido que cumpram Portugal, talvez seja possível ver Portugal finalmente a ser cumprido.

2010-10-26

Então era isso!

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«(...)um grupo de homens, todos iguais, vestidos do mesmo modo, entram numa sala para discutir o Orçamento. Teme-se o pior, de um documento sem sensibilidade social: afinal, faltam mulheres na sua discussão.»

Miguel Marujo


Bem me queria parecer que faltava ali muita coisa :)

Mais ano menos ano

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«Quando Cavaco chegou ao primeiro governo em que participou eu tinha 11 anos. Quando chegou a primeiro-ministro eu tinha 16. Quando saiu eu já tinha 26. Quando foi eleito Presidente eu tinha 36. Se for reeleito, terei 46 quando ele finalmente abandonar a vida política. Que este homem, que foi o politico profissional com mais tempo no activo para a minha geração, continue a fingir que nada tem a ver com o estado em que estamos e se continue a apresentar com alguém que está acima da politica é coisa que não deixa de me espantar. Ele é a política em tudo que ela falhou. É o símbolo mais evidente de tantos anos perdidos.»

Daniel Oliveira


Estes 5 Cavacos são o que me lembro: o homem do bolo-rei e da boca aberta, da facada nas costas do Nogueira, Santana e até Ferreira Leite, para já não falar agora no Passos Coelho; ou dos dinheiros desbaratados e da mentalidade de facilitismo e golpe baixo que transformaram a minha geração na geração da mão estendida e sem responsabilidades, que passará à geração seguinte um País arruinado e um vazio total, para além das dívidas e das desculpas de mau pagador.

2010-10-25

Hoje



Steve Hackett, 'Fire on the Moon'


Está uma lua do caraças! Já deram conta?


(infelizmente, não fiz uma fotografia; mas pode ser que alguém tenha a máquina a postos)

2010-10-24

Papa-letras

aqui


Isto é um pedido encarecido aos senhores jornalistas (?) que enxameiam a televisão com o seu sotaque lisboeta: não é "ó" quando no papel está "ou". Vá! Deixam lá os ditongos sossegadinhos e não me massacram o aparelho auditivo. O mesmo para a conjugaçãozinha (seja ela explicativa ou coordenativa), vale?

Furiosa!



http://www.1billionhungry.org/

2010-10-22

Tick Tick Boom



get your head out the sand

Humm...



Enquanto o homem foi novo e lindinho e coradinho, nunca lhe achei piadinha nenhuma. Agora, já um bocado derretido, entradote e não tão coradito, cada vez que me aparece numa paragem de autocarro às ordens da nova campanha publicitária da Saccor Brothers, dá-me vontade de parar o carro, sentá-lo no lugar do morto e ir experimentar uma petite mort a qualquer lado. Mas também pode ser só da fotografia...



(Oh I., isto não entra na tanga do consumismo, pois não?)

2010-10-19

Cinco anos de vizinhança



Cleaning up the swamps
You are the heart of hearts
Wonder dig and try
Tear it up and learn to bless the readers eye




Parabéns, Deep!

Com as letrinhas todas

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Ângelo Correia fez ontem na SIC Notícias um autêntico apelo à abstenção do PSD na votação do OE 2011, apesar de o considerar "terrivelmente nefasto". O antigo ministro da Administração Interna defendeu que "o PSD tem toda a vantagem que o PS se exponha". Isto porque as medidas do OE são tão duras para a classe média que o descontentamento popular é garantido. "Se a oposição um dia quiser ser Governo tem que deixar que Sócrates se destrua."

DN Economia


... e que se foda o País, que nós queremos é voltar ao poleiro.

2010-10-10

Verrinar

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«Bastava que os impostos tivessem subido mais cedo (e em menor grau) e que o Governo tivesse contado a verdade ao país(…): se as famílias tivessem percebido mais cedo, teriam começado a cortar despesa ainda em 2009.»

Camilo Lourenço


Na teoria, é bonito pensar que os portugueses têm juízo quando se trata de escolhas relacionadas com o consumo. É um pressuposto errado, baseado na crença de que as pessoas são racionais no que toca à aquisição de bens, especialmente os bens de luxo. Na realidade, anos de dinheiros fácies, ofertas desmesuradas de crédito e o desaparecimento de uma filosofia aforradora, transformaram a tanga deste País no País cada vez mais na tanga. Virem agora afirmar que o tuguinha, se lhe tivessem dito que havia crise, passava a ser poupadinho, é uma valente mentira. O povinho vai continuar a viver do que não tem, de mão estendida para o que acha que deve ter. E vai continuar a trocar de telemóvel de seis em seis meses, a comprar o plasma que mal cabe na sala, muitos pares de sapatos e botins e chinelos e socas e sapatilhas e casacos e saias e calças e unhas de gel e perfumes e a deixar de pagar a prestação da casa para continuar a pagar a do mercedes. E os comentadores - lá do alto do trono de onde botam faladura e que, tantas vezes, se deve resumir ao trono que se encontra no wc - vão continuar a idealizar este povinho, que não apanham com ele dia sim, dia sim, muito menos devem ir aos centros comerciais no início do mês ou depois de chegarem os cheques do rendimento de inserção. É que os tuguinhas, haja ou não crise, saibam ou não que há crise, enquanto houver para gastar, gastam. E é por isso que vão continuar a fazer vida de rico nos 5 primeiros dias do mês e comer ovos estrelados no resto dos dias. Mas vão de sapatos e telemóvel e carteira nova ao banco explicar porque não pagaram a prestação ou porque têm o saldo do cartão de crédito na estratosfera; ou estacionam o SUV da BMW à porta da escola dos filhos onde não tem pejo em afirmar que estão no primeiro escalão do abono, mamando livros e refeição gratuitas à conta de um palerma qualquer que não consegue fugir a nada e anda a sustentar o resto dos pançudos sem juízo, os tais que os senhores comentadores até acham que se preparariam para a crise. Só que a crise é será sempre só paga por alguns. Os outros vão continuar num alegre rega-bofe subsidiado.

2010-10-01

Até 4ª


Found at bee mp3 search engine



Quem cá vier no entretanto, deve ir ler o Old Man. E comentem lá por mim, s.f.f.

(Ah! A memória! Pois, é isso mesmo! E faz tanta falta a tanta gente!)

2010-09-30

like a whisper


Found at bee mp3 search engine


While they`re standing in the welfare lines
Crying at the doorsteps of those armies of salvation
Wasting time in the unemployment lines
Sitting around waiting for a promotion

Don’t you know
They’re talkin’ bout a revolution
It sounds like a whisper



(gostava tanto de conseguir meter a cabeça na areia e acreditar nos discursos populistas e demagógicos...)

2010-09-29

Coisas...

aqui

Ainda se lembram mesmo como foi da última vez que o FMI nos entrou portas adentro ou vamos brincar mais um bocadinho?

Coisa estranha!

(clicar para ver melhor)

Anda alguém a "googlar" um texto meu. A que propósito é que não percebo.


(lá porque umas palavrinhas estão diferentes, ainda é o meu texto, não vos parece?)

2010-09-27

No canto do bar

aqui


Cobraram-me hoje um comentário sobre os gajos nas bordas dos quarenta que, de um momento para o outro, se vêem sozinhos, estranhando que os encarasse com um certo tom de dó. E, no entanto, é assunto de que já falei num post (na sua caixa de comentários, melhor dizendo) e, por isso, me limito a retomar.

É que eu acredito mesmo que não há nada mais infeliz e inábil do que um homem que se apanha de repente sozinho, de casa vazia, a ver os filhos com fins-de-semana contados e o medo da velhice a bater-lhe à porta, inseguro da barriguinha que não há ginásio que abata, a ver o canal de publicidade pela noite dentro e a comprar todos os "gadgets" que fazem abdominais por medida. E que não podem apregoar a solidão e a tristeza, que nunca se souberam permitir a aparência de fracos e aguentam as palmadas nas costas dos outros gajos, os "agora é que estás bem" e a afins, sem nem sequer saberem bem (ou não acreditando) como de repente o mundo de anos entrou em derrocada e não há mais ali ao lado a pessoa que ouvia o bom e o mau, tinha o jantar pronto a horas e restantes horários estruturantes, mais os putos a qualquer momento e as contas em dia e os programas marcados sem ter de pensar o que há para fazer a seguir. E foi-se ainda a casa, o seu território, o seu reino. E engolem, vão engolindo, saltitando de miúda em miúda e de carro em carro e agradecendo mas evitando os jantares em casa dos amigos que ainda estão casados e aparentemente felizes, preferindo antes um canto de um qualquer balcão de um qualquer bar e talvez um engate de ocasião para ver se ainda estão vivos. E é por isso que eu não acho que um homem habituado a família seja capaz de sobreviver bem sozinho, ou lidar com as emoções decorrentes. Ou sequer que consiga encontrar com a mesma facilidade que uma mulher um ombro solidário onde desabafar. É que nenhum gajo atura muito tempo um amigo infeliz; vai-lhe apresentar umas gajas e tentar passar em frente o problema, esperando o regresso do velho tipo que falava da bola e de política e das gajas que, podendo, havia de comer. As tais gajas que, agora, mesmo podendo, não come.

Um homem em luto de uma relação é uma caricatura dele mesmo, até nos excessos. E deve ser por isso que, num repente, estão casados outra vez. Não necessariamente felizes, mas pelo menos não tão assustados e sozinhos, novamente senhores de um pequeno território onde tentam encontrar o seu quinhão de sentido e, com sorte, uma certa medida de contentamento.

2010-09-24

Semanada

aqui

E esta semana deu-se-lhe no Poceirão (que eu nem sei onde fica, mas com um nome destes tem de ser forçosamente na mourolândia), no Jesus que lá ganhou (até parecia que já tinha o campeonato, carago!), no Queiroz que vai e fica e no Madaíl que ninguém percebe porque ainda não foi, nas sondagens com empate técnico entre PS e PSD e as reuniões secretas das duas alminhas que os dirigem, no orçamento e na dívida pública, no IVA a 23%, no Sócas nos estates, no Mourinho que não vem e no Paulo Bento que admite que nunca trocou de barbeiro (nãããoooo! ainda ninguém tinha percebido!), nos gajos da Nato, nos gajos de França e nos que não são de lá, na extrema-direita na Suécia (e no Pato Donald que teve 120 votos), no estado social e nos desempregados e nas calúnias sociais (e a casa pia andou sem pio ou fui só eu a achar?) e na crise e mais na crise e outra vez a crise e a crise e a crise.

Agora, porque é que ninguém me disse que os meus cigarros iam outra vez aumentar de preço?

(...)

2010-09-23

(a)moralidades

aqui (clicar para ver melhor)

O interesse de qualquer estado poderá alguma vez exigir comportamentos amorais? Ou serão antes eles rapidamente propostos, contrapondo uma infracção menor a um crime sob a alçada de legitimidade de um estado à procura de um conveniente bode expiatório? E, depois, continuam a sobrar os probleminhas banais, a crise cada vez mais banal, o roubo a qualquer escala que não olha nem a raça nem a religião, mas sem a dose certa de pirotecnia. E talvez o que me choca realmente é a forma como se sucedem e se esquecem as pequenas concessões, arrumadas entre dois talk-shows e à espera da próxima grande enrascada sem solução definitiva.

2010-09-17

Bardamerdas!

aqui

Ainda nem tinha acabado de saborear o primeiro café do dia e já tinha uma besta a foder-me os cornos que não tenho mas a que todos os anormais teimam em fazer pontaria.

2010-09-16

Freedom is the last, best hope of earth.

Abraham Lincoln

A liberdade é um vício e uma espoleta: nunca nos chega a conquistada; queremos sempre mais, mesmo quando esbarramos na utopia.

2010-09-15

Lei de Murphy

aqui


Andei em arrumações profundas em Agosto, dei roupa que havia para dar, sapatos que já só estavam a mais, tralha que não cabia em lado nenhum. Dei voltas a gavetas e armários, seleccionei o que precisa estar à mão e o que pode estar nos fundos das gavetas e armários, deitei fora lixo e mais lixo, que a casa vai-se enchendo até pensarmos que, se entra mais um alfinete, saímos nós pela porta fora. E era preciso. Aliás, há muito que era necessário. O problema é que não tendo necessidade (achava eu) nos tempos mais próximos de um vestido e restantes acessórios de cerimónia, os remeti para um qualquer lugar onde sumiram. Não encontro. Não sei o que lhes fiz. E fui convidada para um casamento. Raios! É sempre assim!

2010-09-14

Todos temos uma teoria



E não resistimos a partilhá-la.

Meia dúzia

aqui

Seis anos. Espremendo, sobram demasiados acessórios para encher a página, letras esparramadas à pressa e logo esquecidas, músicas que naquele momento faziam sentido e hoje talvez não, imagens que já nem sei porquê. E alguns textos que ainda sinto destes tantos anos de voz em fuga, os mais pessoais, os mais íntimos, os mais estranhamente a nu e talvez crus na futilidade em que se apresentam. Isto é só um blogue. Só mais um blogue. Um diário pessoal e intransmissível, banal, demasiadas vezes desinteressante, sem utilidade para além das fronteiras de mim. É certo que desde o início assumi que este blog seria sobre banalidades, as minhas banalidades no seu sentido etimológico mais profundo: o do "ban", a circunscrição feudal. E eu estou confortável com o meu "ban", este meu pequeno feudo feito de banalidades e egos domesticados onde insiro tudo o que realmente faz parte do meu mundo e do que nesse mundo é importante para mim. Até mesmo quando ando demasiado perdida de mim e das fronteiras e linhas com que me coso enquanto a vida vai continuando a descosturar.


(foi no dia 24 de Agosto e o Espumante lembrou-se)

2010-09-13

Por vezes fêmea.

.
Espáduas brancas palpitantes:
asas no exilio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

Natália Correia - Auto-retrato

Como?

«Adjunto de Isaltino Morais foi reclamar à esquadra do reboque do carro da filha e agrediu agente à dentada.»
fonte



Será que o polícia foi infectado com raiva?


(o carro estava em cima da passadeira, certo? o papá deve achar que pode...)

2010-09-10

Et voilà

«A resolução hoje aprovada tinha sido proposta por deputados do centro-esquerda, liberais e verdes.

Nela o Parlamento Europeu "expressa a sua profunda preocupação com as medidas que foram tomadas pelas autoridades francesas e de outros Estados-membros, " e "apela a essas autoridades para que suspendam imediatamente todas as expulsões dos Roma".

De caminho, a resolução lembra que as expulsões colectivas violam o Direito Europeu, pois constituem uma discriminação fundamentada na raça.

Os deputados europeus lamentam também "a retórica provocadora e discriminatória de alguns decisores políticos", bem como a falta de empenhamento do Conselho da Europa e da Comissão Europeia nesta questão. Fazem notar que a recolha de impressões digitais dos Roma expulsos é ilegal e contrária à Carta dos Direitos Fundamentais.

O Parlamento Europeu recorda que a lei europeia sobre a liberdade de circulação estipula que "em caso algum" a ausência de rendimentos pode justificar uma expulsão automática de cidadãos da União, e que quaisquer restrições à liberdade de circulação e permanência, só podem ser fundamentadas "num comportamento individual, e não em considerações gerais resultantes da prevenção, nem, sobre considerações sobre a origem étnica ou nacional".»
fonte


Tarde. Talvez insuficiente. E os alicerces ainda a nu.

2010-09-09

Em casa onde não há pão...

aqui

«(5) The Representatives of the Member States, meeting within the European Council on 13 December 2003, agreed to build upon the existing European Monitoring Centre on Racism and Xenophobia established by Regulation (EC) No 1035/97 [3] and to extend its mandate to make it a Human Rights Agency.»

Council Regulation (EC) No 168/2007 of 15 February 2007



Uma nova crise na Europa apresenta-se como a crise de sempre: quando a fartura se esvai, o mito e o desígnio sonhado da supra-cidadania são subjugados a ditames xenófobos, envolvidos numa bela imagem economicista e legalista. E um dia destes fica provado que os alicerces são tudo menos sólidos quando falta a lente de aumento da bonança.

hmm (mais outro)

aqui


Ontem, num jornal desportivo, celebrava-se em plena manchete o "cinquentenário" a propósito do jogo n.º 50 de um fulano qualquer. Rica festa!

2010-09-07

hmm (outro)


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Sempre achei que o "caso Casa Pia" ia ser um belíssimo exemplo de "uma montanha a parir um rato". Quanto à montanha, estamos conversados: aquilo é um Everest de papel, pareceres, testemunhos e iada-iada-iada de paleio legal e procedimentos "legaleiros". Mas em relação ao rato, já não me parece tão evidente: nunca pensei que sobrasse algum para a gaiola.

hmm...


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Excuse me, could I use your pen
I have mislaid my own

2010-07-15

Profissão de risco

aqui

Em época de férias, o carteiro habitual que faz a ronda pelo bairro social que fica perto do sítio onde trabalho, foi substituído por um qualquer desgraçado – provavelmente contratado só para os meses de férias – para assegurar o meritório ofício de garantir que a nossa fabulosa correspondência (no meu caso, as contas do costume e a revista da DECO) chega ao destino. Pois no caso daquele bairro social (e da maioria, suponho) a principal correspondência do mês não são as contas (que não pagam), mas antes o cheque do rendimento de inserção. Ora os cheques atrasaram-se. E o carteiro novo foi parar ao hospital com um enxerto de porrada resultante do elevado civismo de quem lhe fez uma espera para a seguir ir fazer outra para levantar o carcanhol que tão pouco esforço mereceu a ganhar. E a verdade é que isto só pode estar mesmo tudo abandalhado: é que quem havia de dizer que ser carteiro agora é uma profissão de risco?

(...)

2010-07-14

Público-alvo

aqui

Sim, como te atreves a não ser cor-de-rosa, ou a ser cor-de-rosa, ou a espetar com o "Estrangeiro" no blogue? Ou a ter ideias e o que dizer todos os dias, até sobre acetona enamorada e ainda tempo para desencantares quem tem um total desperdício de tempo para diatribes blogosféricas de egos em contra-mão e invejas em riste? Mas como raios te atreves? Anos e anos disto e é assim, sempre foi assim, desde o analfabeto que põe mamas e mamudas ao advogado que não conhece o corrector ortográfico, passando pelos jornalistas de plantão e as encalhadas ao engate. A norma é uma treta, a média um espartilho e a mediania uma canseira. E a mim só me apetece ler romances de cordel, cor-de-rosa, muito cor-de-rosa, muito happy end e algumas quecas à mistura, que a vida está uma canseira e eu de rastos e as férias só começam para a semana. Vá! Pintar as unhas e ir à Zara aos saldos para entrar para o rebanho. Já! Como te atreves a ser diferente ainda? Como? E vê lá o público-alvo. Quem foi que disse que o blogue é nosso? Então não vês que está ali à mostra e é dos outros, desde os que acham que não plagiam porque é no facebook até aos que querem dar medalhas de cinco tostões? Mas onde andas com a cabeça, mulher?


2010-07-13

Pinóquios

.

«as perícias consideram que a aprovação do empreendimento de Alcochete foi inteiramente regular e que a alteração das regras da Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo (ZPE), para além de legítima, não teve qualquer interferência na aprovação do projecto. (…)

O primeiro-ministro José Sócrates, como a directora do DCIAP Cândida Almeida já tornara público, não é arguido. Não é sequer suspeito no processo. Os arguidos nos autos do Freeport são Manuel Pedro Nunes, Charles Smith e João Cabral - todos da consultora Smith&Pedro -; o antigo presidente da Câmara Municipal de Alcochete, José Dias Inocêncio; a sua assessora Honorina Silvestre; e o antigo vice-presidente do ICN, José Manuel Marques.»


Jornal "I", 12 de Julho 2010



Fique claro que não gosto de José Sócrates. Mais claro ainda que acho que o seu Governo traiu quase todos os valores socialistas em que fui criada. E que estou farta da arrogância do Primeiro Ministro e das suas campanhas publicitárias descabeladas e o discurso de que fez muito e conseguiu muito e que o País está melhor com ele do que esteve antes. Se eu também sou o País, digo desde já que fiquei muito pior com este Governo do que estava antes.

Sei que nunca consegui olhar para este emaranhado de diz-que-disse com as certezas de certa gente, que prefere acusar um inocente – desde que seja José Sócrates que, como todos sabemos, além de paneleiro (porque disseram nas revistas), também é um escroque ladrão (porque disseram nos jornais) e não tem nada ar de inocente nos seus fatinhos Armani. É que fui criada a achar que qualquer auto-de-fé é condenável, e sempre olhei para esta salgalhada com suspeita. Agora está aqui o resultado e não vai dar em nada, que está tudo a banhos e o cão a morder o homem nunca foi notícia.

Posso não gostar de José Sócrates e das suas políticas. Posso até ter vontade de o acreditar culpado e corrupto. Mas não assim, não com este tipo de suspeitas e de campanha, em que acabou condenado em praça pública sem sequer ter sido indiciado. Será que vou acabar a pagar, com o dinheiro dos meus impostos, uma indemnização a José Sócrates à conta de um caso, que nunca chegou a ser caso, que nunca se provou, para além do boato?

2010-07-12

Salvadores da Pátria

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Ando tão fartinha de todos os caramelos que, com ar pomposo, nos anunciam o seu dever em "prime time". Como se fossem inocentes. Como se não lhes conhecêssemos as trombas e tudo o que nunca souberam fazer.

Está quase

2010-07-07

Fashionably Late

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O quê? Pensaste que era para o blogue? Que nada! Isto é só um "salvé dia 5 de Julho".

Parabéns, Espumante!



(e, sim, atrasei-me (de propósito :P) menos do que tu em Marco)

Providência

«Não contem comigo para colocar o neoliberalismo na Constituição».

José Sócrates


Em momento de profunda crise económica, absurdamente castigadora de uma classe média esganada e depenada, a vontade de "vingança" dessa mesma classe média sobre o partido do actual governo poderia levar a pensar que Sócrates está perdido à partida. Umas sondagens já vão dando a vitória a Pedro Passos Coelho e ao "seu" PSD (nem sei bem o que sobra já do partido de Francisco Sá Carneiro) e a ideologia e a retórica da esquerda à esquerda e da direita à direita vai condimentando os debates e acendendo mais umas fogueiras de descontentamento. No fim, quando chegarmos aos votos, a crise internacional continuará a galopar, a crise interna continuará a piorar, as pressões sobre a classe média que tudo tem de pagar continuarão fortes e feias, o desemprego continuará descontrolado e as prestações sociais continuarão a única rede de segurança que evita que os pobres dos pobres saiam à rua em arruaça e os pobres que já tiveram algum não se sintam completamente espoliados. Os desgraçados – como eu – que continuam a pagar a festa, trabalhando por conta de outrem sem qualquer subsídio ou ajuda e só os impostos para comerem ainda mais do pouco que sobre, sentir-se-ão cada vez mais reaccionários, mais adeptos dos discursos do "andamos a pagar esta merda toda", "ponham os gajos do rendimento mínimo a trabalhar", "cancelem os investimentos do Estado que só beneficiam os comedores do costume" e afins. Mas, no dia, será que vamos mesmo votar na retórica dos extremos, nos políticos que, sem ambições de serem realmente poder, podem prometer este mundo e o outro? Ou vamos votar em quem nos quer levar as poucas garantias que nos sobram do tal do Estado Social, caso as coisas também corram muito mal para o nosso lado, que ninguém está livre, excepto se for funcionário dos quadros do Estado? E, no fim, pergunto-me para onde irão os votos. Sócrates no seu discurso pôs ai a tónica: um PS que agora declara que pensa muito em nós e que a Providência está ai e só ele a defende. Bela espada! Pena que, deste lado, já haja pouca vontade de acreditar em cavaleiros, especialmente um que, até agora, apenas vestiu a capa do vilão. Mas e as alternativas? Pois!...

2010-07-05

Rebelião



Another promise, another scene,
Another package not to keep us trapped in greed,
With all the green belts wrapped around our minds,
And endless red tape to keep the truth confined

2010-06-30

Ai Zé!

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Está tão actual! Ainda é o povo a tentar fazer manguitos aos políticos e a ver que, como de costume, ainda é o povo a pagar todas as facturas. O Zé Povinho, o das calças rotas, da juba farta, do garrafão do tinto e da impertinência rebelde do manguito: a eterna vítima.

Na verdade, talvez tenha agora alterado um pouco a indumentária. Provavelmente já não sai à rua de chapéu nem de garrafão de tinto. A barba e o bigode também devem estar mais aparaditos e já comprou umas calças novas aos chineses. Mas, quanto ao resto, tudo igual. Até ainda deve andar acompanhado pela Maria Paciência, porque há casais que não se divorciam.

No fundo, ele é, ainda, cada um de nós. E eu só gostava que houvesse força nos bracinhos deste povo para fazer os manguitos necessários.

Ah!

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Vai de férias lá para o final do mês de julho e ainda não foi lido, mas dou hoje os parabéns pelo prémio conquistado.

2010-06-29

Adeus, pilequinha



Há carros nas nossas vidas que deixam saudades profundas. No meu caso, reservo um bom pedaço de nostalgia por um mini amarelo esventrado e apodrecido, uma 4L azul cueca que largava a manete das mudanças nas descidas mais íngremes, um velhinho escort GT, que fugia de traseira nas curvas e foi roubado da porta de casa por um cabrão que não teve unhas para ele e o mandou para a sucata, ou o fiestinha que nunca me deixou ficar mal, me levou a todo o lado e que entreguei chorosa à mulher do mecânico com o aviso necessário para que não se esquecesse de lhe dar mais óleo que gasolina só para descobrir, dois anos mais tarde, que ela o tinha entregue – provavelmente com menos avisos – a um recém-encartado que lhe partiu o motor e me partiu o coração quando fiquei a saber. E agora é a pilequinha que morre. Vai-se. Não a volto ver. Raios para a pilequinha, que também leva um pedaço de mim, enquanto se aloja na minha memória e nas minhas saudades.

2010-06-28

Parabéns, I.

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Miúda, mesmo quando não se quer, chega-se sempre ao dia. De carro, de mota, de patins... e hoje é o teu :)

Tem um dia feliz!

2010-06-19

Até já.

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Devido à forma desprendida e distante com que, ultimamente, tenho cuidado deste blogue e das caixas de comentários dos amigos, talvez nem sequer dessem pela diferença, mas vou de férias. Uma semana. Contactável, que é uma pausa, mas não ainda as férias que estou, realmente, a precisar. Não andarei por longe e o e-mail vai ser lido. Além de que muitos têm o meu telefone, especialmente aqueles que precisarem ligar para um ralhete com sotaque do Norte ou uma palavra amiga. E talvez regresse com vontade de escrever. Talvez. Afinal, já aconteceu antes esta sem vontade e um descanso provou-se cura suficiente.

2010-06-18

RIP

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.


José Saramago - Na ilha por vezes habitada

E talvez tenha por fim mordido "a alma até aos ossos dela".

2010-06-16

(...)

Ou então...



Lulas!

Faduncho

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Há dias, uma notícia num qualquer jornal (já nem os distingo sequer!) falava de uma qualquer estatística (a interpretação do dia? será mesmo verdade?) que demonstrava que, para combater a crise, os portugueses poupavam na comida, não compravam os medicamentos, mas mantinham os telemóveis e os canais por cabo. E provavelmente também as carteiras e os sapatos da moda e as férias pagas a prestações, se ainda encontrarem uma qualquer financeira que lhes empreste dinheiro. E depois são os 10% de desempregados e os que, nunca tendo trabalhado, vivem das prestações sociais e não contam para as estatísticas. Também costumam ter telemóvel e, provavelmente, a sport-tv. Mas há nisto tudo um tom de miséria e fatalismo e de gente enredada em muito pouco e uma incapacidade absolutamente gritante para virar as costas ao fado das notícias, à canção do desgraçado em pano de fundo, à incapacidade real de redigirem uma simples carta para acompanhar os CV que as novas oportunidades lhes impigem formatados e todos os homens que mordem um cão cada vez mais mirrado em prime-time. E nem a bola, desta vez!

2010-06-15

Palhaços

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Pelos deuses! O ridículo alheio é algo realmente confrangedor (quase nunca notamos o nosso, o que dá jeito) quando a figura triste é evidente e o desconhecimento do absoluto burlesco é notório. Para além da pose, como é óbvio. E, no entanto, sem sequer merecer o distanciamento necessário e o cuidado nas fontes que a (de)formação profissional imporiam, vai a trote, não percebe, destrambelha e arremata. Absurdamente grotesco. Sem qualquer noção das medidas e dos tempos, desconhecendo que o tempo, mesmo ao deixar arquivos, não desdenha do conhecimento real e factual do realmente ocorrido. E que a memória, mesmo com arquivos, não é (ainda) a memória reconstruída – como é quase sempre a memória – mas sim a capacidade de relembrar ao pormenor de nicks e leituras e famílias e afiliações e amores e ódios e zangas e estórias a verdade de há um punhado de anos. E a liberdade interpretativa – ou a dedução obtusa e hiperbólica – não perdoa tamanha cabeçada de tacanhice. Sobra o ridículo. E é um ridículo sem desculpas, que a sua causa não são cartas de amor: é tão só a menoridade da personalidade pequena a nu, invejosa e vingativa. E mais uns soundbytes como tantos e tantos já antes vistos e revistos.

Talvez já esteja há demasiado tempo deste lado e nem seria de supor que me espantasse ainda ou que estranhasse em demasia. Mas é aquela coisa com os palhaços: são tanto melhores quanto menos parecem vestir a farda. E uma coisa é certa: divertiu-me o suficiente para ter vontade de escrever.

2010-06-07

...pois!


Videos tu.tv

Tamanho

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Um metro e sessenta e cinco. Mais um salto de três centímetros. Do mais normalzinho possível, pensava eu. E a calça nunca foi de número exorbitante, que as minhas exorbitâncias estão um bocado mais acima. Banalzinha até dizer chega, na mediania até no número do sapato e nos M e L sempre esgotados. Sendo assim, porque cargas de água é que, ultimamente, não encontro um par de calças que não tenha que mandar refazer a bainha?

2010-06-02

Um "Exodus" (*) para a Palestina?


© Mako Moya


A expedição internacional "Frota da Liberdade" incluía cerca de 750 pessoas de 60 nacionalidades e pretendia entregar 10 toneladas de ajuda humanitária à população da Faixa de Gaza.



Não questiono que Israel tem as suas razões. A política do Hamas – ultrafundamentalista e belicista – é abjecta, os seus líderes nunca deveriam ter tido espaço para chegar ao poder, as suas intenções são funestas. E a intervenção humanitária é, demasiadas vezes, ingénua nas suas boas intenções, mas ingerente e, pior, presa fácil de interesses não tão evidentes como isso.

Posto isto – que me parece importante – há a questão da própria política de Israel para Gaza e a total falta de respeito por normas que, mais do que do direito internacional, deveriam ser do senso comum: Israel enfiou aquela gente num gueto sem direitos, sem ajuda internacional, sem acesso ao mais básico. E os políticos israelitas parecem ter aprendido demasiado bem a lição dos algozes do seu povo no que toca a guetos e lebensraum.

Há ali uma desproporção de forças assustadora e, acima de tudo, o espaço limitado, fortificado e fechado onde os palestinianos devem estar a sentir-se encurralados, simples alvos sem fuga possível, mesmo com a fronteira a sul agora aberta após mais este ataque alucinado de que sobram apenas vítimas, muitas palavras e solução alguma.

Lá como cá, há os políticos e os seus jogos; e depois há a religião onde todos se escudam muito para além de qualquer tolerância. Mas há também as pessoas anónimas, que não mandam e desmandam, que apenas são vítimas. E pergunto-me quantos de nós, aprisionados pelas razões dos outros e por betão armado, conseguiríamos não pegar em pedras. Ou quantos não seríamos ainda ingénuos o suficiente para nos metermos num barco e sonharmos em salvar o mundo para acabar, afinal, como só mais uma vítima rapidamente esquecida.

Longe de todas as utopias, vejo vítimas. Cada vez mais vítimas. E, assim empilhadas e esquecidas, sendo mártires, resumem-se cada vez mais apenas a um número.


___________

(*)Sobre o "Exodus 1947", ler aqui.

2010-06-01

Os ismos

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«Esta lei não surgiu do nada. Ela constitui apenas o mais recente passo de uma vasta campanha de promoção do erotismo, promiscuidade e depravação a que se tem assistido nos últimos anos. Por detrás de leis como o aborto, divórcio, procriação artificial, educação sexual e outras está o totalitarismo do orgasmo. Parece que o deboche agora se chama "modernidade".»

João César das Neves


Uma gaja está a tomar o pequeno-almoço e vai dando uma vista de olhos ao que se passa no mundo e, depois, até se engasga com a migalha do pão com manteiga. Primeira reacção: soltar valente gargalhada e, imbuída do raciocínio mais simplista (admito, vá!), jurar que de hoje em diante se passa a ter a certeza que o homem é mal fodido e que ainda por cima (posição do missionário, obviamente) também fode mal. As considerações político-sociológico-antopo-coiso ficam para depois.

(...)



where enough is not the same it was before

2010-05-31

Dilema

aqui


Está na hora de fazer sair à rua a sandalita e não consigo decidir-me: de que cor mesmo é que quero pintar as unhas dos pés?

2010-05-29

Avó

aqui


Está em ti hoje toda a minha noção de eternidade, avó: uma eternidade que cabe na palma da tua mão enrugada; que está nessa essência que sou sendo parte de ti, parte da mãe que pariste e que me pariu a mim; nas pernas que herdei orgulhosa; no formato do corpo, no tom de voz, na falta de mariquices. Está nesta crença que tenho em mim de que repetirei os teus passos de forma nova, mas ainda assim com os mesmos caminhos. Está na evidência genética do que sou, esta coisa em que me transformo enquanto as minhas rugas, ainda tão diferentes das tuas rugas, se vão construindo em desenhos semelhantes.

Chegasse eu a ter essa mão feita pano enrugado, cinzelada a linhas de história e de crescimento, sei que seria muito parecida com o que és hoje: pequenina, frágil, com medo da morte que é cada vez mais como a vizinha que te pisca o olho todos os dias. Chegasse eu a essa idade, ia querer ter essas mãos sulcadas pelo destino. Chegasse eu à tua idade, queria ter uma palma da mão onde coubesse ainda a família, num retrato desbotado pelo tempo, quando o tempo ainda era medido em mais do que instantes.

É que sei que herdei nos genes isto que me faz tão parecida contigo, mesmo sendo tão diferente. É que sei que a eternidade se mede não num qualquer paraíso que tantos julgam intuir como verdade, mas sim na memória que os outros não querem perder de nós. E uma mão assim sulcada é uma mão eterna: já acariciou e foi acariciada por tanta gente que, ao ser tão amada, será eterna enquanto permanece indelével na memória daqueles que seguraste nas tuas mãos, contra o teu peito, no teu carinho.

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A minha avó fez anos no dia 26, rodeada por mais de meia centena de familiares e vários amigos. É a matriarca que mantém uma família de doidos unida, que merece que gente de Abrantes, da Guarda, de Lisboa e até do Brasil se desloque de propósito para lhe cantar os parabéns por uma vida longa e rica. É uma celebração a que dificilmente terei direito, eu que não tenho filhos nem esperanças de chegar aos 90 anos rodeada de tanta gente. E, no entanto, quando me vejo ao espelho, vejo cada vez mais traços em mim que mimam cada expressão e cada ruga da minha avó. Não seria um mau futuro chegar aos 90 anos lúcida e a saber-me tão querida.

2010-05-11

Labéu



You who speak of crowd control, of karma, or the punishment of god.
Let’s not chat about despair.