2005-12-30

Parabéns, Misty


Madison County, Iowa


Um dia pediste-me que escrevesse sobre pontes e sobre amor. E eu disse-te que já não sei falar de amor.

Um dia pediste-me que falasse daqueles momentos em que temos de decidir jogar a vida, empenhar o futuro ou jogar pelo seguro, e eu disse-te que já não sei como encontrar esses momentos.

Um dia entraste no meu blogue e arranjaste o teu lugar por cá. Entraste na minha vida. E estás nos meus afectos, nas minhas rotas diárias.

Pediste-me para falar de amor e eu já não sei falar de amor. Pediste-me para falar de futuro e eu ando ainda à caça do meu. Pediste-me para falar de pontes...

Pois as pontes são estas, afinal. O saber que fazes anos e poder deixar-te aqui os parabéns. O saber que nos encontramos por entre as linhas cruzadas dos diferentes futuros possíveis, por mais improváveis, por mais distantes. E, atrás dos nossos écrans, construímos as nossas pontes.

Não te vou falar de amor. Tinha pensado em falar antes de amizade. Mas se calhar nem é preciso: ao construirmos estas nossas pontes, garantimos que de amizade não é preciso falar, basta antes apreciá-la, como eu aprecio ter-te ai desse lado da net, por perto sempre, amiga.

A ponte já está feita. E é nossa!

2005-12-29

Feliz Ano Novo


aqui


Não tenho tempo!

Já repararam que não tenho tempo, não é?

Se cada fim de ano é sempre caótico, este está a tomar proporções de hecatombe. Hoje sentei-me no sofá para tirar os sapatos e acordei passadas duas horas. Estar a levantar-me mais cedo uma hora não está a ajudar à festa, como é óbvio. Estar a sair tardíssimo do emprego também não. E dez minutos à hora de almoço não dão para nada. E este tiquinho depois de jantar muito menos...

Vão ficar por personalizar os meus votos de boas entradas em 2006. E lamento que assim seja. Mas agora tenho de escrever o post que quero ter aqui amanhã, como ontem aproveitei para escrever o post que queria ter aqui hoje. Um mesmo motivo: capricornianas teimosas e adoráveis.

Espero que todos que por aqui passam - particularmente os que por aqui foram deixando rasto e construindo um lugar - cheguem a este final de ano com a sensação de que foi cumprido plenamente, mas que agora se abre um novo horizonte de perspectivas. Que haja brindes na noite de ano novo e que haja esperança e sorrisos na manhã seguinte. Que cada desejo transformado em uva passa engolida à pressa, seja transformado em realidade e degustado com tempo e prazer. Que seja um ano melhor. Estamos todos a precisar de um ano melhor. Mesmo que o Cavaco Silva até ganhe as eleições, terá de ser um ano melhor. Que nos políticos há muito que já ninguém confia para mudar o Mundo, muito menos para nos dar felicidade. Essa é nosso dever procurar; é a nossa meta. E só a nós cabe empreender a jornada.

Desejo-vos a maior das felicidades. Mas também a consciência de que existe o outro lado, que há tristeza e há dor. Porque só podemos realmente apreciar o bom quando conhecemos o mau; porque o que nos é oferecido de bandeja nunca terá aquele gosto requintado da conquista árdua e do conhecimento adquirido.

Sejam felizes! Riam, cantem, pulem. Chorem quando for preciso. Atirem o mau para trás das costas e encontrem ainda motivos para sonhar. Encontrem-se convosco, mas não esqueçam de olhar o outro. Estendam mãos como estendem palavras por aqui.

No fundo, desejo a todos os que partilham comigo este cantinho escondido da net o mesmo que desejo para mim: um "nunca pior". Ou, como se costuma desejar por estas alturas e que deveria ser desejado a cada dia, que o melhor de ontem seja sempre o pior de amanhã. No intervalo entre o passado e o futuro, não se esqueçam de gozar cada momento.

Deixo-vos um sorriso. É a minha candura possível e aquilo que, provavelmente, melhor sei dar. Nunca fui beijoqueira na vida e os abraços não se dão, partilham-se. E, para esses, acredito que também chegará o dia.

Fiquem bem e até já :)

Parabéns, miga!





Estou aqui a olhar para a foto de duas "tolinhas" em cima de uma cadeira, enquanto esperam as doze badaladas que inauguram 2005... Todos os outros permanecem de pés bem assentes no chão. Nós começamos prontas para o salto, a caminho do futuro. E gosto quando partilhamos estas coisas.

Começamos 2005 às escuras, lembras-te? Mas começamos juntas. Este ano não vai poder ser. E vou sentir a falta do nosso abraço.

No entretanto, há o dia de hoje. E, tal como o ano passado, ofereço-te um mundo de luz. Mais pudesse, mais oferecia. Mesmo que também fosse bem capaz de oferecer ao nico umas tesouras e assim...

Beijo grande de parabéns, miga :)

2005-12-28

Resumo de um ano banal


Aqui está minha vida.
Esta areia tão clara com desenhos de andar
dedicados ao vento.
Aqui está minha voz,
esta concha vazia, sombra de som
curtindo seu próprio lamento.
Aqui está minha dor,
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança,
este mar solitário
que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.

Cecília Meireles


Não mudei de emprego, não troquei de casa, não troquei de carro. Fui aumentada abaixo da inflação, ganhei uns prémios, perdi outro por 69 pontos (cabrão de número!). Deram-me cabo do juízo e eu dei cabo do juízo a alguns. Mandei os médicos pastar e os remédios pela retrete abaixo. Emagreci uns quilos e tive de comprar roupa nova. Comprei uns sapatos novos para o carro. O mais longe que viajei foi Barcelona, mas a feira do sexo já tinha acabado. Não troquei de homem, fui trocando. Não me apaixonei nem me partiram o coração. Fui ao cinema como de costume. E fui para os copos de vez em quando. Aproveitei para visitar amigos, mesmo que as saudades não parem de aumentar. Quase morri por duas vezes. Chorei muitas mais. Ri-me desalmadamente sempre que pude. Insultei condutores e políticos, com a mesma vontade e igual vigor. Confessei pecadilhos e lidei com culpas. Pedi desculpas um par de vezes. Pediram-me desculpas a mim. Não fiz um filho. Nem escrevi um livro. Nem plantei sequer uma árvore. Fui mal humorada, cabra muitas vezes. Ofereci ajuda sempre que o soube fazer. Escondi-me da vida mais um bocadinho e irritei-me por deixar a vida passar. Senti-me velha. Senti-me jovem. Fui ingénua. Fui sabida. Fui teimosa e fui mordaz. Fui amiga, acho, mesmo que nos meus silêncios. Fui ausente, demasiadas vezes. Estive presente sempre que me pediram. Beijei sempre que pude e tive vontade. Irisei-me com um par de assuntos e não sei quantas palmadinhas na cabeça. Confundi-me. Perdi-me. Calei-me. Gritei de dor e de prazer. Chorei com as histórias dos outros. Guardei as minhas lágrimas, como de costume. Aprendi algumas coisas. Repeti erros velhos. Não sonhei o suficiente...

E não aconteceu nada de importante...

2005-12-27

Blogue chato


aqui



A Duende queixa-se constantemente de problemas de acesso à Voz. Mais alguém tem sentido dificuldades ultimamente? É que não sei o que se passa. Deste lado o blogue abre normalmente e nem sequer me dá qualquer tipo de erro de página.

Todas as sugestões são bem-vindas!

2005-12-26

Teia

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

Natália Correia - Auto-retrato



Quase sufoco na vontade que tenho de contar-te como foi. Mas fico calada. Não digo! Dou-te a provar o suave veneno da espera curiosa, enquanto me amofino neste silêncio que, por teimosia, escolhi.

Presente de Natal




Este meu presente é só para os que clicarem primeiro no embrulho. É que está quase esgotado e a próxima remessa é só para o ano...


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imagem original aqui
(tks Babs)

2005-12-24

Natal


ecardmania

A todos os amigos novos que se juntaram ao longo deste ano à fuga da minha voz do silêncio que a agrilhoa e a todos os amigos antigos que, por aqui, continuam a acompanhar-me neste rasgar de todos os silêncios, desejo o melhor dos Natais.

Obrigada por estarem por ai!


Sufjan Stevens - Come On! Let's Boogey to the Elf Dance

2005-12-23

Consoada

Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.

Natal da fraternidade
Solenemente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina.

Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal que aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.


Miguel Torga - Natal


Teria que esquecer-me de mim para esquecer cada Natal. Do ir - friorenta, ano sim ano não - a casa de uns avós sem mais netos. Ou de ficar, nos anos de permeio, na confusão magnífica da família grande. Teria de esquecer o barulho que fazíamos, os jogos que ficavam para depois da meia-noite. Teria de esquecer as confidências e as inconfidências ou a forma como devorávamos os doces pela madrugada. Teria de esquecer que já fui criança. Que havia lareira e doces e brinquedos. E os primos e as primas, além da irmã. Teria de esquecer uma casa que já não é nossa, a família que se foi dividindo por casas novas e famílias novas e novas crianças, com novos brinquedos.

E, no entanto, amanhã à noite haverá casa cheia e doces e bolos e lareira. E crianças a brincar. E jogos depois da meia noite. Confidências e inconfidências, como de costume. Será noite de consoada em casa de família grande...

Porque será que já não sabe ao mesmo?

2005-12-22

Estranheza


aqui

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.

Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

António Ramos Rosa - Uma Voz na Pedra


Estranho mesmo é, na virtualidade, tanta gente me elogiar a gargalhada. Mesmo aqueles que nunca a ouviram...

2005-12-21

Ai o caraças!


aqui


Sou tão lerdinha! Só hoje percebi quem era o tal de António que tinha sido assassinado e havia mais candidatos ao crime do que jobs para os cartõezinhos cor-de-rosa.

Um pouco mais de azul




Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá Carneiro - Quase


Antes do Entroncamento, existia a 1 Pouco Mais de Azul. Ou a Azul. Ou - de forma mais carinhosa - a Azulinha. Depois do Entroncamento, existe apenas a Zu. O que mudou? Quase nada. E, no entanto, mudou tudo. A Zu é bem mais do que um simples nick. Tem cara, olhos, sorriso. Tem uns olhos azuis da filhota atrelados. E tem as outras Mosqueteiras atreladas também. A Zu é o ponto de passagem maravilhoso que é possível cruzar por vezes na net, quando deixamos de lado as máscaras onde tentamos esconder o nosso anonimato e passamos a ser mãos estendidas, prontas para afectos.

A Zu faz mais um aninho. E foi neste aninho que aprendi a conhecê-la. De certa forma, penso que foi um aninho que lhe fez bem. Anda mais perdida da net, escreve cada vez menos... Mas completou um percurso que a prendia a demasiados papéis e a demasiadas teclas. E deu uma volta por dentro também, acho.

Penso que a Zu não lamentará celebrar este novo ano. Nunca podemos lamentar celebrar um ano de conquistas.

Parabéns, minha querida. Leva lá um beijo "mosqueteiro".



(espero bem ter acertado no dia...)




2005-12-20

Dá-me música!


aqui



A todos, um bom Natal; a todos, um bom Natalllllleeee; que seja um bom Natalllllllll, para todos nós... la la la la lalala...*


Segurem-me, que é melhor! Podem ter a certeza que não iam gostar de me ouvir cantar. Até o Hino fui proibida de cantar na escola primária. E não costumam proibir cromo algum de cantar o Hino. Vejam só quantos não se estão a fazer à fotografia da mão ao peito e Hino desfiado, após Janeiro...


(* as coisas que aprendo a ler a Sofia...)

Ufa!



aqui


Acho que, finalmente, já está tudo...

2005-12-19

Só para informar...


aqui

... que estou de dieta, seus afogadores de ostras em cerveja preta!

Plágio do dia


aqui



mas eles parecem respeitar as mulheres. muito. e se nos mostram fotos de modelos ou actrizes semi-nuas, é pela beleza da imagem. de resto as "novas mulheres" também o fazem pela mesma razão. ficamos com a impressão de que são eles que passeiam os bébés nos carrinhos, que são eles que vão ao médico com os filhos. que cozinham melhor que as mulheres e acham graça à falta de jeito delas. preocupam-se com a saúde delas, pedem-lhes gentilmente que deixem de fumar. querem sexo com sentido porque odeiam aquele vazio que aparece depois de comer uma gaja. sabem como é, aquilo acaba e um tipo fica de repente com as calças na mão e ... ao mesmo tempo oferecem cumnilingus antes delas terem hipóteses de sugerir o felatio.

eu acho que a blogosfera, que é um media genial porque é media sem ser mass e por isso nos dá todas as sensibilidades pessoais, nos revelou esses "novos homens" que tanto queríamos encontrar. depois, eles não confessam, mas devem demorar cada vez mais tempo a arranjar-se antes de sair de casa. e olham para o rabo quando saiem do duche. ou seja, já não coçam apenas os tomates, que é herança deixada pelos "velhos homens". por outras palavras, eles estão mais femininos sensíveis.

2005-12-18

Os postalitos...



Tenho tantos amigos tão exageradamente longe, que me pesa a distância mais ainda do que a própria saudade.

Tal como o ano passado, mantenho os postais em suspenso e um nó na garganta cada vez que olho a lista de todas as distâncias que as amizades conseguem suportar. Mas é tão absurdo pensar em mandar um qualquer postal com palavras banais...

Abro páginas atrás de páginas de desenhos repetitivos e mensagens pisadas e repisadas em todos os Natais. As mesmas palavras, os mesmos bonecos, as mesmas animações. Não encontro nada que me agrade. Não encontra nada que me pareça suficientemente bom, suficientemente diferente.

Queria poder abraçar cada amigo este Natal. Dar num beijo o calor do meu abraço; dar num sorriso todo o carinho que me percorre. Queria ter cada um por perto, partilhar com todos uma lareira acesa, o cheiro a pinho, um copo de maduro tinto, uma história. Queria poder fazer de todos a minha família na noite de consoada, abrir-lhes a minha casa, dizer a cada um como está no meu coração.

Tenho as minhas saudades espalhadas pelo mundo fora. Pesa-me a distância. Pesa-me tanto esta distância que todos os anos ando à volta dos postais de Natal e nunca consigo nada de jeito. É que não queria que fossem só palavras. Palavras vazias, ditas por todos. Queria ir junto, receber por cá os amigos...



Boas Festas!

Hadjni


Gaivina

O final do Verão traz sempre consigo poderosas trovoadas que fazem estremecer as vidraças do atelier, ali na praça Klausal, no centro de Peste. O ribombar seco, vindo dos lados do rio, ocupa toda a minha Budapeste. Vive-se uma atmosfera expectante de uma chuva que não cai ali, mas nuns quarteirões mais à frente, é capaz de lavar os restos das noites silenciosas da Hungria.

Aqui desenhei e vivi, no centro do antigo Gueto Judeu ao sabor do Outono.

Pediram-me, um dia, se não poderia ir dar umas aulitas de modelo a uma escola de jovens estilistas. Anui, achando que me faria bem sair um pouco da clausura do desenho. E soube muito bem...

Tinha duas jovens à minha disposição para essas aulas: uma, loira, vivida e insinuante. A outra, discreta e magra com os cabelos de um negro profundo: Hadjni.

Esta, acabou por tornar-se minha companheira no desenho, ao deixar que o meu traço percorresse o seu corpo à velocidade dos olhos.

O pintor húngaro que me apresentou as modelos, dissera de imediato:
- Essa? Mas essa é lésbica...

Hadjni trabalhava numa loja de produtos dietéticos em Buda, tomando pontualmente o eléctrico, na praça Karl Marx, para chegar à hora combinada ao meu atelier. Ganhava 2 euros, preciosos ( no ano de 1999 ), por cada hora em que desvelava o seu corpo aos caprichos daquela grafite que me deixava os dedos tintos de negro. Não me era estranha essa capacidade de combate dos húngaros. Conhecera um médico que preferia servir às mesas no "Café Opera", ganhando as gorjetas depois de cantar árias de compositores famosos, a fazer horas de banco, mal pagas, no hospital central.

Assim, em cada final de tarde, lá aparecia Hadjni cheirando a champô de frutas, tirando a roupa, de onde sobressaiam umas cuecas lindas às flores, de cores vivas.

Uma vez, foi um amigo homossexual que a veio trazer à porta, na esperança de eu querer um modelo masculino: não me apeteceu.

Fico ali estabelecido um tipo de relação especial entre modelo e artista. Fartámo-nos de trabalhar ao longo daquelas tardes abafadas, com pausas para o sumo de laranja, trocando impressões sobre as nossas vidas e nossos rumos. Depois de cada sessão, lá para os lados de Buda, a sua amante, mais velha, esperava-a. Então, a bela modelo vestia a sua roupa, cingida ao corpo, e lá ia escadas abaixo, sem que se escutasse o barulho dos passos contra o soalho. No dia seguinte lá estaria à hora combinada.

O trabalho e a comunicação correram tão bem que, um dia, no final da sessão abraçámo-nos e o beijo surgiu naturalmente:
- Oh! Beijei-te. Disse ela em Inglês espantado. Fora surpreendida por ela própria.

Mas a coisa ficou mesmo por aí, e nos desenhos que testemunham a passagem desse corpo pela minha vida.

Gaivina

2005-12-16

MENS AGIT MOLEM


foto: Helena Almeida



Mensagem absorta no conflito da resistência
Entre valores que respiram saudade
Na bruma cinzenta das imagens
Sentados nas sílabas afogadas

Amanhecer nos actos nocturnos
Gritos de soldados da memória nas pálpebras
Invisíveis guerras travadas na insónia
Tentativa de parto silencioso

Memória bebida nos olhos dos lençóis
Ordem no caos
Lentamente…observas a ebulição de lágrimas frias
Erupção vulcânica de corpos molhados
Mergulho inconsciente no sopro dos teus lábios


Se me sentar nas sílabas afogadas e beber a memória daquela noite na erupção vulcânica dos lençóis, poderei mergulhar nos teus olhos?


Nuno Albuquerque Vaz


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Este é o contributo do Nuno para o desafio do Corpo. Ficou ao meu critério publicá-lo, bem como à imagem que ele escolheu para ilustrar um texto tão lindo. Como poderia resistir a publicá-lo? Como poderia deixar de o partilhar convosco?

Obrigada, Nuno!

E, agora, vou juntar-te ali em baixo, no sítio certo :)