2006-07-21

Pulsão


("roubada" à Emiéle, que tinha "roubado" antes ao Zeca da Nau)

A vida é uma coisa a que me habituei
adeus susto e absurdo e sobressalto e espanto

Ruy Belo, in Como Quem Escreve Com Sentimentos


O
Luís ofereceu-me este vídeo ali em baixo numa caixa de comentários e ando para arranjar forma de o pôr na primeira página de alguma forma. Acho que vai ser esta a forma. O vídeo refere-se à espécie humana como macacos e nenhum de nós tem dúvidas – já que sempre aprendeu isso e leu sobre isso – que somos primatas e temos antepassados comuns com todos os macacos. E, no entanto, emocionalmente é-nos difícil assumir esse nosso lugar natural, mergulhados que estamos numa espécie de mania de que somos superiores, que a Terra é nossa para dominar e que toda a vida que a habita, bem como todos os recursos que a compõem, são nossos para explorar à exaustão. Esta falta de consciência do nosso lado animal faz parte da atitude do Homem perante o dia a dia. Talvez seja por isso que, quando falamos do nosso lado animal, quase sempre o limitemos aos instintos mais primários, como a raiva e o sexo. Esquecemos que, embora adormecidos muita vez, todos os nossos sentidos são animais e, comparativamente, alguns deles bem empobrecidos perante alguns dos animais que connosco partilham a Terra. Talvez seja a concessão da espécie a um grande e pesado cérebro, feito em camadas, sendo que a mais evoluída tenta, ao jeito do que faz o Homem à natureza, controlar e domar as partes mais "primitivas".

E, no entanto, se somos assim uma espécie de semi-deuses, como gostamos de achar, a meio caminho entre os animais (os outros, claro, que nunca nos sabemos realmente posicionar entre eles como parte do grupo) e as divindades (que sempre criamos à nossa imagem), porque não andaremos a fazer um serviço melhor na gestão do(s) nosso(s) destino(s)? Ganhamos consciência, é verdade. Estamos condenados a ela. Mas há quase que uma tendência natural para a esquecermos, como se o compromisso com essa nossa vontade de ser mais do que animais falhasse demasiadas vezes, deixando à luz a raiva, o instinto, a violência.

Entre os nossos primos primatas, encontra-se o Bonobo, ou chimpanzé pigmeu, que sempre me fascinou e sobre o qual não sei – admito – o suficiente. Sei, no entanto, que tem uma postura mais erecta do que o chimpanzé, que um deles, chamado Kanzi – objecto de estudo no Centro de Pesquisa da Linguagem de Decatur, nos E.U.A. – parece ter sido capaz de "inventar" as suas próprias palavras (entrando assim no domínio do que o Homem pensa que é só dele) e que têm uma organização social muito particular. Essa estrutura social é essencialmente matriarcal, mas como também parece assentar em fundamentos que os afastam do tradicional chavão do "domínio" e do "poder", muitos ainda acreditam que terão antes uma estrutura partilhada entre os sexos.

Ora, o que mais me fascina nos Bonobo é exactamente a forma como gerem as suas relações sociais: pelo sexo. O sexo é entre todos e serve para tudo. Qualquer atrito é resolvido com uma boa cambalhota e, depois – exaurida a pulsão – a sociedade pode continuar com as actividades comezinhas. Temos, por isso, talvez o mais pacífico dos primatas, que prefere dar uma queca a partir para a violência. Encontrou um mecanismo, que temos tendência a associar ao nosso cérebro instintivo, para resolver querelas, enquanto a maioria dos animais recorre à força e a demonstrações de força. Aliás, nem parecem estar muito preocupados em saber quem manda ou como manda. A sociedade funciona sem grandes ênfases nas hierarquias, sem dramas de luta pelo poder, humilhação dos vencidos, glórias para os heróis. Um bocadinho de sexo e pronto.

E, enquanto anda o Homem todo preocupado em saber se parece bem ou mal beijar no primeiro encontro, se fica ou não com fama de fácil por fazer sexo pelo sexo, nos períodos de intervalo entre as diferentes lutas macacóides para trepar ao topo de uma qualquer hierarquia, os Bonobos fazem sexo e, depois, libertada toda a energia, já não há vontade para dar porradas na cabeça do vizinho.

Eu olho para a nossa sociedade – dos supostos semi-deuses, entesados na sua pretensa importância e a olhar de cima para todos os outros animais com que partilha este frágil sopro de essência a que chamamos vida – e fico com a sensação de que erramos as escolhas em algum lugar. É verdade que os Bonobo estão perto da extinção, mas isso não é culpa deles: é culpa do Homem que lhes destruiu o habitat. Mas o Homem também vai destruindo – de forma bem gratuita – o habitat de todos. E, enquanto na sociedade humana não se pode sequer falar de sexo às criancinhas, sendo necessário até discutir quem tem ou não direito a dar "educação sexual" aos fedelhos, mas já se permite que essas mesmas criancinhas ponham autógrafos e palavras de ódio nas bombas que serão lançadas para matar as criancinhas do vizinho, os Bonobo dão mais uma cambalhota e seguem em frente, felizes da vida: não precisam continuar a sentir-se sozinhos no meio de não sei quantos biliões de semelhantes; nem precisam de inventar uma palavra – ou um som – para o ódio, nem fazer bombas, ou guerras, ou procurar uma ilusória noção de felicidade, sempre distante, sempre amputada de contentamento.

Fronteira


Shana Kohnstamm - Wet Kiss


Sim, beijemo-nos, apenas!,
- Que mais precisamos nós?

António Botto


Dá-me um beijo! Dá-me um beijo só. Um que faça a fronteira entre o hoje e o ontem. Um que me aqueça e me esqueça.

Dá-me um beijo pequenino. Não preciso de grandes doses de beijos. Só um especial. O tal que faça a fronteira entre o que sou e o que fui.

Dá-me um beijo. Faz dele o meu degelo. Quero um beijo pequenino que me aqueça.

Dá-me o futuro num beijo...

2006-07-20

Desabafo (ou o post que não interessa a ninguém)



(recebida por mail)

Uma gaja está sem pio, já que à conta das mudanças de temperatura, dos ares condicionados e afins, inventou mais uma laringite e viu a voz fugir-lhe outra vez e espera estar descansadita em casa a repousar e a curar a febre, já que sem voz não pode trabalhar e até o chefe a mandou embora. E o raio é que é na altura exacta em que, à socapa, marcou uma entrevista para um dos principais concorrentes, que lá porque veio outra promoção não quer dizer que tenha vindo tudo o que era preciso. E vai-se sem pio à entrevista, faz-se um esforço à goela, até porque nos disseram que não seriam mais de trinta minutos. Afinal foi hora e meia e já quase não sai som das cordas vocais em ponto de ruptura. Volta-se para a caminha, de onde nunca se devia ter saído, até porque já se foi a tanta entrevista que até já se sabe que dificilmente virá dali qualquer proposta minimamente interessante. Agora, o que uma gaja não está definitivamente à espera é que o entrevistador telefone no dia seguinte para saber se está melhor e a gaja fica com a sensação que trabalho afinal é capaz de não haver, mas há a séria possibilidade de uma tentativa para nos saltarem à cueca. Ora foda-se! Quem me mandou sair de casa?

2006-07-19

Staccato


aqui

Quando te tenho nos meus braços, que interessa onde estou? Estou nos teus braços e tudo o mais é relativo. Não há cama, nem casa, nem salas, nem carros, nem trabalhos, nem distâncias, nem medos… Só nós e os minutos que roubamos à vida, os instantes de paraíso que roubamos à eternidade. E a minha voz é música, um staccato de prazer…

2006-07-18

Talvez um parafuso...


Tom Zé - Companheiro Bush

Se você já sabe quem
Vendeu aquela bomba pro Iraque,
Desembuche.
Eu desconfio que foi o Bush.

Foi o Bush,
Foi o Bush.
Foi o Bush.

Onde haverá recurso
Para dar um bom repuxo
No Companheiro Bush.
Quem arranja um alicate
Que conserte aquela fase
Ou corrija aquele fuso,

Talvez um parafuso
Que ta faltando nele
Melhore aquele abuso.
Um chip que desligue
Aquele terremoto,
Aquela coqueluche.

Se você já sabe...

2006-07-17

Beirute


Fonte: Sic Online


Lembro-me de, há muitos anos, os Trovante cantarem que "em Beirute, nem o sol nasce", numa letra que começava com "quem recordará como foi?"... e anda-me a música a bulir-me por dentro e não lembro sequer a letra, que não encontro também em qualquer pesquisa numa net atafulhada de letras em inglês e sem sentido. E baila-me cá dentro esta ideia de que nem o sol pode nascer em Beirute ou que, mal rompa a alvorada, já ninguém recorda como é e tudo volta a ser o que cedo foi esquecido pelos caminhos mal trilhados da história que só se ri para os vencedores. E nem eu lembro a letra; nem lembro sequer onde está o velhinho vinil onde estava a letra. Nem lembrava já Beirute, não fosse Beirute continuar, depois destes anos todos, a não ver nascer o sol. Quem recordará como é, já que tão depressa se esqueceu como foi?
___
Actualização:

Encontrei a letra do "Beirute" no Poesia Distribuida na Rua

Quem recordará como foi
Duvido que ainda haja alguém de pé
Que tenha dançado ao som das noites quentes
De Beirute

Será que alguém chora um ausente
Já não há ninguém para ausentar
Já não há ninguém para soluçar
Em Beirute

Em Beirute
Nem o sol nasce
Em Beirute
Como merece
É mais quente que o ar do deserto
É mais escuro que um buraco aberto
Na memória de uma terra ainda morna
Que já não torna
A ser Beirute

Em Beirute há bares fantasma
Onde outrora o amor se acoitou
E a alegria andava lado a lado
Com Beirute

Na terra onde o calor é quem manda
Havia uma cidade que era assim
Dizia nessa altura mais para mim
Do que Beirute

Quando enfim a história virar
Num tempo de arqueólogos errantes
Veremos corpos e ruínas militantes
Por Beirute

Encontraremos gente tão velha
Que nem parece ser da nossa era
Beijaremos os filhos da guerra
E choraremos
Por Beirute


Um destes dias
, 1990 - Letra de Luís Represas / Música de João Gil

2006-07-15

(Ora deixa cá ver...


aqui

... o que acontece se eu escrever dez vezes a palavra sexo neste post…)


Bem, o site meter ali em baixo é bem capaz de ter uma erecção! Depois passa-lhe, claro, como passam mais ou menos rapidamente todas as tusas, haja ou não sexo (1ª) pelo meio. Mas isso pouco importa, que todos sabemos que, por aqui, a grande maioria das tusas é quando nos fodem bem os neurónios e o sexo (2ª) é clean e asséptico e sempre perfeitinho, que somos umas máquinas boas como tudo – e sem bugs – em tudo o que fazemos.

Claro que quando estamos antes armados ao pingarelho, não há nem sexo (3ª) que nos safe, que a treta do umbigo fica um bocadinho mais acima ou abaixo e nunca no g-spot.

Mas a questão quase nunca é exactamente sobre sexo (4ª), claro, já que – como sempre – o sexo (5ª) é antes um óptimo mecanismo para demarcar território. Só que depois sentimo-nos é fodidos quando, após todos os preliminares bem estudaditos (um nadinha óbvios, mas também isso tem de ser), descobrimos que afinal há mais quem escreva (e melhor) sobre sexo (6º) e apanhamos com um balde de água fria: o site meter afinal brochou…

Não digo que o mal não esteja na forma como olho a coisa, claro, que nem sequer a consigo desprover de emoção e prefiro nunca me armar em "robocópula" musculada, fazendo do sexo (7ª) arma e tentando descobrir até onde vai o meu caralho imaginário, para ver se é maior do que o do parceiro. Acho que sempre evitei meter coisas estranhas no sexo (8ª) e se há sítio onde deixo o umbigo à porta é mesmo quando me dedico a qualquer tipo de cambalhota, trepa, queca, seca e Meca e tudo o mais o que quiser, puder e conseguir. Quando passa para além da partilha e do prazer negociado, se não houver brinquedos, ainda não me caíram os dedinhos…

O sexo (9ª) é sempre uma boa desculpa, mesmo quando nem é bem sobre o sexo (10ª - ufa!) que queremos falar. A soberba – que quase pode parecer inveja – é que já me parece só fodida. Mal fodida, por sinal.

2006-07-14

Parabéns, (re)prima


aqui



Queen - Who Wants to Live Forever

Não gosto do Christopher Lambert. Aqueles olhos tortos e miopes causam-me calafrios. Mas gostei da história rocambolesca, apesar da quantidade de cabeças decepadas. E gostei, especialmente, da ideia de solidão a que Connor está condenado. A solidão de viver para sempre, vendo todos quantos poderia amar desaparecerem num dos breves minutos da sua vida imortal.

Mas, na verdade, acho que me perdi de amores pela Banda Sonora do filme. Sem ela, são só imagens, planos, sem sentimento. Com a música a tocar bem alto, o filme ganha brilho. A culpa é dos Queen, portanto :)

E ver a história de Connor e Heather a caminhar para o fim ao som de "Who Wants to Live Forever" é arrepiante para qualquer coração que ainda não perdeu o romantismo.

Quem quer viver para sempre?

E quem quer esperar o "para sempre"?

O "para sempre" é nosso hoje!


(Outro dia ameacei que republicava este post. É hoje o dia. Só para dar os parabéns ao (re)prima pelos seus três anos e ao Cap por continuar a andar por cá na nossa companhia)

Bss bss bss... bichaninho...


aqui

Acho que comecei as comemorações antes da hora… E estive até agora a festejar os teus anos. Ai que estafa! A ver se depois ainda chego a tempo ao brinde ou, pelo menos, à baba de camelo que nunca cheguei a provar…

Parabéns, Ricardo :)

2006-07-13

Faz de Conta


Acrílico, da J.P.

Faz de conta que não sabes escrever e nem sequer me ofereceste este texto maravilhoso. Faz de conta só! E continua a pintar...

2006-07-12

Catrineta


aqui


E há todo este desespero a crescer em mim, mudo. Um arremedo de loucura, uma paranóia narcisista, um esgar do ego em contramão. E não sobra muito mais que este monstro mudo, este frio permanente. E era como se já não soubesse inventar as alternativas na paisagem mental que sempre soube povoar a belo prazer para me fazer fugir para longe deste monstro que trago dentro. É que sempre inventei rotas de fuga, de mim, para mim, contra mim, o caralho. Mas há alturas em que não dá e este filho da puta de monstro que trago dentro, que me entope, silencioso, este cabrão tormentoso e mal disposto que me tira o tesão pela manhã e não me deixa tusa para nada o resto do dia, vai-me comendo devagar. Como se tivesse esquecido as alternativas que sempre inventei, como se não tivesse sempre bastado encolher os ombros e fazer outras coisas e refugiar-me nos meus silêncios para não o deixar ganhar. Porque todos os monstros silenciosos sempre foram só meus, para esganar rapidamente, sem perdão. Mas este filho da puta quer ser mais do que eu, não se maça nem se esquece, fica a comer-me os minutos e não sei sequer como enxotá-lo. É um buraco negro e suga, suga, suga... De dentro de mim, tentáculos esventram-me e dilaceram-me. É um monstro. Aliou-se ao cansaço e à espera e agora é apenas medo. Um medo seco, sem sentido, silencioso.

(leva-me a ver o mar num barquinho a remos e deixa que o medo que tenho do mar ensurdeça este medo que me come...)

Paga-se com alegria


Claire Fressynet


Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilarecerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

Clarice Lispector – Precisa-se


Para ti, minha querida, que distribuis doçura e alegria, mesmo com o ar mais sisudo, ou apenas sonolento, ou tão só um pouco vago. Para ti, um passeio na borda de água, em jeito de festa, corpos bailados e uma sugestão de reencontros. E a Clarice, claro. Porque não estou ai para te abraçar forte, com as tantas de saudades que sinto, ou para partilhar a alegria das pequenas coisas com o encanto amadurecido que ainda não esqueceu o prazer de apenas ficar ali, na beira da água, a sentir a magia do mar e do mundo a beijar os nossos pés descalços.

Parabéns, Vague!

2006-07-10

B-side


Jens Lekman - At The Department Of Forgotten Songs

At the department of forgotten songs
There is a crying girl
She's lonely
She's just sixteen
Or forty-five
She's been abandoned for almost all her life
She can remember the boy who kissed her
But it was meant for her evil B-side sister

As meninas más é que vão a todo o lado...

2006-07-09

Espera


aqui

Esta imagem eu precisava roubar. Para enfeitar a Voz e a saudade. Para ver se consegue aclarar-me o sentir. Ou então só para continuar por cá, mesmo sem vontade, cansada, enfastiada, à espera de ver acontecer qualquer coisa, tirando a segunda-feira que vai acontecer mesmo que eu não queira. Ou esta coisa de esperar. Esperar sempre, quase desesperando, resultados sobre resultados, para enfrentar-me depois com as consequências. E não queria para já esta ideia na cabeça a acabrunhar-me os ritmos. Mas a ideia não vai embora. Fica como eu fico. Fica porque eu fico. E talvez por isso precisasse de uma imagem assim, para me levar os olhos para longe, para me preencher de ideias novas, para tentar vencer a inércia desta ideia maldita que se acólita, espera apenas, os resultados que não há, as consequências que não sei quais são, o medo que vou sentindo em cada acordar…

2006-07-07

E de novo o aborto...



Acabou o Mundial e começa novamente a conversa habitual. De um lado, a treta dos coitadinhos na cauda da Europa, enterrados em dívidas e sem poder de compra, com Simplex que não funcionam e todas as mazelas do costume; do outro lado, as bandeiras de sempre, invocadas quando uma nova alarvidade relança o tema para as primeiras páginas dos jornais. E temos agora Aveiro a ressuscitar a "questão do aborto" que para a semana talvez já esteja esquecida. Deve ter chegado nessa altura o momento de ressuscitar a "questão Casa Pia" ou até mesmo a "questão Aquaparque", que nada se enterra em definitivo; ou então, com o País a arder como de costume, será hora de falar da "questão dos incêndios", a par com a "questão dos acidentes nas estradas nacionais", enquanto metade da população viaja de férias para o Sul; também poderá ser a "questão do aeroporto", ou a "questão do TGV", ou a "questão Alberto João", que apenas gera muitas mais questões, mas vende pasquins.

E as questões sucedem-se e nunca são resolvidas. São apenas substituídas nas agendas. Vira o disco, toca o mesmo. Toca sempre o mesmo. Sempre. Só não vemos é nada a mudar.

O gap que nos separa da Europa é bem mais complexo do que a economia pode explicar. Eu chamaria mais depressa um sociólogo para fazer a análise e um coveiro para levar tanto político plastificado para longe dos lugares de decisão. É que nos quedamos sempre com histórias requentadas, leis que não mudam ou não mudam o suficiente e políticos sem tomates para terem coragem de as mudar...

As cores com que te pinto


aqui

- Diga, homem enigmático, de quem gosta mais? De seu pai, de sua mãe, de sua irmã ou de seu irmão?
- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Amigos?
- Você usa de palavras cujo sentido até aqui desconheço.
- Pátria?
- Ignoro a que latitude se situa.
- Beleza?
- Deusa e imortal, de bom grado a amaria.
- O ouro?
- Odeio-o como você odeia a Deus.
- Mas de que gosta então, estrangeiro extraordinário?
- Das nuvens... as nuvens que passam... lá longe... lá longe... as maravilhosas nuvens!

Charles Baudelaire – O Estrangeiro


Parabéns, José!

2006-07-06

Porque oiço, vejo...


aqui

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
(…)

Álvaro de Campos – Não, não é cansaço


Estou muito, muito cansada! Tão cansada que a ideia de escrever mais do que duas ou três linhas, ou sequer elaborar a resposta que merecem para os tantos e tantos posts fantásticos que ando a deixar ficar sem comentar, não se torna opção. E as previsões para as próximas semanas não são favoráveis, já que não me parece que, de um momento para o outro, todos os motivos que me afastam da net, do blogue, dos blogues amigos, desapareçam por milagre. Não me lembro de um cansaço assim grande, nem deste fastio que me invade. E é como se as palavras de Álvaro de Campos fizessem cada vez mais sentido:

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...


(a sorte é que ainda não esgotei os caranguejos…)

Parabéns, peixinho!


aqui

Lá porque tu andas desaparecido, não quer dizer que me esqueça dos teus anos. Pensei oferecer-te uma gaja nua mas, depois, lembrei-me que tinhas acabado de trocar de casa e a imagem aqui acima passou a fazer todo o sentido...

2006-07-05

Parabéns, gajo do sul :)


aqui

Pensei que o menino se chamava Bernardo. Não chama. Pensei que seria mais betinho do que é realmente, mesmo sendo-o, está visto. Pensei que não podia esquecer-me dele hoje. Mas só espero não ser eu a dar-lhe a prenda. Que lhe dê a prenda a nossa Selecção. Eu bato palmas e canto os parabéns à mesma :)

2006-07-04

Pronto, miga


aqui

Estes já lá estão. Estás contentinha?

Sonhar é preciso



Lou Reed - Perfect Day



Just a perfect day
Drink sangria in the park
Then later, when it gets dark
We go home

Just a perfect day,
Feed animals in the zoo
Then later, a movie, too
And then home

Oh it’s such a perfect day
I’m glad I spent it with you
Oh such a perfect day
You just keep me hanging on
You just keep me hanging on

Just a perfect day
Problems all left alone
Weekenders on our own
It’s such fun

Just a perfect day
You made me forget myself
I thought I was someone else
Someone good

Oh it’s such a perfect day
I’m glad I spent it with you
Oh such a perfect day
You just keep me hanging on
You just keep me hanging on

You’re going to reap just what you sow
You’re going to reap just what you sow
You’re going to reap just what you sow
You’re going to reap just what you sow


Quem me dera!...

2006-07-03

Coisa boa...


aqui

Sonhei com qualquer coisa boa. Tenho a certeza que sonhei com qualquer coisa boa! Acordei feliz, ainda no meio de qualquer coisa que era muito boa, tenho a certeza. Era como se todo o meu corpo recordasse qualquer coisa deliciosa, muito, muito deliciosa. E quase consigo recordar. Quase! Mas falta aquele instantinho entre a coisa boa com que estava a sonhar - tenho a certeza - e o som do fdp do despertador que estragou tudo. E não lembro. Apesar de saber que era bom. Muito bom! O corpo diz-me que era mesmo, mesmo muito bom. A minha memória de galinha e aquele fdp do despertador a anunciar a Segunda-feira é que estragaram tudo. E não lembro qualquer coisa que era mesmo muito boa. Isso, pelo menos, tenho a certeza: era coisa boa!

Cá está mais um...


aqui

Leva lá uma beijoca e diverte-te neste teu dia, Luís. Com ou sem blues :)

2006-07-01

O dono da rede


aqui


Após o jogo do Euro contra a Inglaterra, tendo marcado um pénalti e, de seguida - deitando fora as luvas -, salvando outro, virou herói nacional. Foi herói breve, no entanto, que rapidamente começaram a aparecer as imagens do costume, com os frangos a tiracolo e a alcunha de frangueiro a querer esquecer tudo o que antes tinham sido elogios. Pois o frangueiro, não sem críticas de tudo quanto era lado, destronou de vez o Vítor Baía nas redes da Selecção e seguiu para a Alemanha este 2006. Depois do jogo de hoje, é novamente herói e o País grita "Ricardo" como se apenas um nome e um mísero jogo de futebol fossem o bastante para esquecer tudo o resto. Pão e circo, pois claro! Mas com pénaltis e Ricardo, parece que o circo é nosso e o pão não falta. Uma maré cheia à espera da queda próxima que se avizinha. Bastará sofrer um golo decisivo no próximo e já ninguém lembrará mais este. Acho é que nenhum inglês o esquecerá...

Antes do jogo






A Portuguesa

Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria, sente-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitória!
Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar,
marchar!

Letra: Henrique Lopes de Mendonça
Música: Alfredo Keil


Porque não há nada mais ridículo do que ver um símbolo ser sistematicamente massacrado…

2006-06-29

Sumo de laranja (2)


Hadjni colorida, by Claire Fressynet


O desafio do "Sumo de laranja" ainda está a dar....

Ora vejam...
http://lineaclaire.blogspot.com




(eu resolvi trazer a imagem, Gaivina. Afinal, a Hadjni triste já cá estava, não é?)


Obrigada, Claire!

O tempo perguntou ao tempo...


aqui


Gosto das minhas rugas. E gosto de ver rugas nos outros. São os nossos mapas pessoais, sinais de que não passamos de forma demasiado leve pela vida, que soubemos fazer sulcos em nós e, se os fizermos bem, sulcos nas memórias dos outros. E essa deve ser a melhor resposta a dar ao tempo...


(e eu talvez volte a ter tempo para os blogues lá para Domingo...)

2006-06-27

Carcanhol


aqui


No meio das minhas várias manias, há a mania de que sou independente. Ganho o meu dinheiro, tenho a minha casa, tenho o meu carro, pago o que devo, controlo os vícios, imponho regras a mim mesma para que não venha ninguém de fora e me sujeite a obrigações.

Tudo o que tenho saiu do meu esforço. Não necessariamente porque tinha de ser assim, antes porque quis que fosse assim. Do que tenho e de como faço a gestão do que tenho, não dou satisfações a ninguém, excepto a mim mesma.

Assim, da mesma forma que deixava de ir para os cafés fazer grandes lancharadas, porque a semanada era pequena e eu tinha os meus (outros) vícios, como os cigarros e os cafés, ou da mesma forma que esticava o que ganhava no Verão de maneira a poder comprar livros e música, ainda hoje sou de um forretice atroz no que toca ao meu dinheiro. É que não quero ter de pedir; e também não quero ficar sujeita e não ter onde ir buscar.

É por isso que me esforço por manter uma poupança, na velha máxima do guardar do riso para a chora. Uma dor de barriga acontece a qualquer pessoa e eu não saberia viver sem ter um bocadinho ali de lado, para qualquer eventualidade.

Acho que devo ter sido educada numa mentalidade quase espartana no que toca a isto, já que sempre preferi guardar a esbanjar e raramente associo à posse de bens materiais qualquer tipo de felicidade. Na verdade, prescindo de muita coisa porque acho demasiado cara, não necessariamente porque não tenha dinheiro para comprar. E há coisas que nunca sujeitaria a taxa de juro, como as férias. Quem não tem dinheiro não tem vícios, sempre foi o lema por aqui. Andar doze meses a pagar uma semana de férias parece-me demasiado absurdo e só deve fazer sentido para aqueles que não sabem fazer contas. Digo eu, claro, que sou uma Tia Patinhas em potência...

E isto vem a propósito de quê? Bem, é que estou a preparar-me para trocar de carro. E já ando com pesadelos só por adivinhar o emagrecimento da pobre conta bancária. Mas ao fim de dez anos de vida, bem puxados e esticados, o bichinho já merece a reforma...

Parabéns, Lilla :)


aqui

2006-06-26

Viva!

(A ver e rever o golo de Maniche aqui.)



Se já estava descadeirada, agora já nem sinto nada. A festa no Porto continua rija e, não tivesse eu que levantar-me daqui a (demasiado) poucas horas, ainda havia de estar a festejar.

Agradeço aos "nuestros hermanos" o empréstimo do vídeo e os comentários. Eu já não consigo comentar mais nada: além de não ter voz, não sei se tenho coração para outro assim...

2006-06-25

Estou toda descadeirada!


aqui

Gosto desta expressão. Diz exactamente o que parece: como se nos tivessem tirado o sustento do final da costas e, de um momento para o outro, transportar o corpo vira agrura. E é mais bonito do que dizer “estou toda partida”, ainda que na prática signifique exactamente o mesmo. Mas ficar toda partida afigura-se-me uma coisa muito trágica, com muito sangue e vísceras à mistura. Estar descadeirada é quase uma piada, uma consequência, como o resultado de qualquer joguinho infantil em que alguém tira a cadeira a outro alguém, que acaba esparramado no chão, pés ao alto, saias levantadas.

É! Gosto da expressão. Só não gosto quando faz tanto sentido neste Domingo, enquanto me arrasto pelo dia à espera da Selecção…

2006-06-23

Venha a sardinha!


aqui

Santo António já se acabou
O São Pedro está-se acabar
S. João, S. João, dá cá um balão
Para eu brincar



(Mas onde raios estava eu com a cabeça ao achar que algum dia ia ter tempo e assunto para manter um blogue diário?)

2006-06-22

Pregões


recebida por mail

(Amuei, claro! Mas não sou lorpa! Primeiro o mais importante…)

2006-06-21

Por um milagre...




Às vezes acontece o impossível. Mas é só às vezes. Só que os dias fazem-me sempre de oportunidades...



(hoje sou angolana)

2006-06-19

Acho que estou com febre...

Doctor, doctor, give me the news...


Found at bee mp3 search engine

Hoje, era rock da pesada... E a pedra que não seria! E rolávamos juntos. Ou só ficávamos então lado a lado, que está muito quente para abraços, ou então sou eu que aqueço demais quando me abraças. Releio o teu mail e rio sozinha. E lembro-me como sempre gostei de te ler. E deve ser por isso que fique a salivar pela resposta à miga que o computador apagou. E, raios!, vê se a escreves outra vez, ponto por ponto, para sentir-te aqui pertinho, rir dos disparates e das coisas sérias, calar a falta que me fazes hoje e a vontade de virar amuleto de boa sorte, enquanto revirávamos os corpos, as roupas, o quarto. Ou a sala, até. Quanto mais tenho mais quero, loiro. E estou com saudades tuas, porra!




Parabéns, gadjo!

I'm feelin okay this morning
And you know,
We're on the road to paradise
Here we go, here we go


Talking Heads - Road to Nowhere

Tenho o despudor de pensar que fiz a diferença; que talvez tenha estendido a mão no momento certo, que ajudei no processo que te levou a onde estás hoje, pronto para ser pai, pronto para transferir todo o teu ego para esse ser pequenino que será, sempre, a melhor coisa que fizeste no mundo. E é com esse despudor, como se para todo o sempre eu tivesse alguma responsabilidade, que posso – que devo – desejar-te toda a felicidade que mereces. Somos sempre responsáveis por aqueles que nos querem bem; por aqueles a quem queremos bem. E tu és parte de mim, apesar da distância e do tempo que vai passando inclemente. E este é só mais uma maneira de te desejar felicidades no teu dia de anos. E dar-te os parabéns pelo rapaz.

2006-06-16

Antes que o dia acabe...


aqui

... deixar em passo de corrida um beijo enorme de parabéns à Sofia.

Rotina

Futuro en las entrañas sueña el trigo,
Llamando al hombre para ser testigo...
Mas ya el hombre a su lado duerme muerto.

Rafael Alberti - Vuela La Noche Antigua De Erecciones


Tudo se afunila num tempo cada vez mais curto. As ordens das prioridades não nos permitem grandes devaneios. Mesmo que a vontade de repouso num qualquer instante seja grande. Mesmo que até já se tenha aprendido a fazer paragens estratégicas nas rotinas. Ainda assim, o tempo continua a fugir-nos, como grãos de areia por entre os dedos.

2006-06-14

É para amanhã?

tu que buscas companhia
eu que busco quem quiser
ser o fim desta energia
ser um corpo de prazer
ser o fim de mais um dia

António Variações - Canção do Engate


É para amanhã? Bem que podíamos fazer hoje. É que o amanhã pode nem chegar. Se estás livre, eu também estou livre... E buscamos companhia, não é?

Entre o vazio da solidão, porque não a aventura dos sentidos, feita a dois neste momento que nem é de amor, porque o amor não é o tempo que o faz, nem a espera, nem a partilha. É só não ter tempo para amar, nem vontade de estender uma mão aberta pronta a fechar-se sobre um vazio igual.

Enchem-se as mãos antes de tacto e de pele, do calor do outro corpo e os pés que assim não estão gelados pela madrugada, excepto se foste embora, ou porque mandei, ou porque este não é o sítio onde ficares.

Estamos sós e o resto pouco importa. Somos dois e maiores e o sexo disseram-nos que não é tabu. Foder a dois, mesmo que pouco mais sejas do que o viabrador que acabei de comprar online, é sempre melhor do que foda nenhuma.

É só mais um dia que passa, pouco importa. Tratemos de o aproveitar. Gozemos o tesão que se acumulou durante mais um dia de frustrações e que bem que estarias entre as minhas pernas nesta fila interminável de trânsito em que o carro avança e recua num pára-arranca desesperado, enconado.

Dispo o teu corpo de personalidade. Não quero saber quem és. Quero a liberdade do corpo trespassado de prazer e sem grilhetas. O resto fica para amanhã. É sempre para amanhã.

Não, não me digas que podemos fazer o amor hoje. Hoje podemos brincar a fazer amor, não o amor. Deixa esse para amanhã, quando tivermos tempo e o jantar não seja mais do que qualquer coisa descongelada à pressa. É que não é o tempo que faz o amor, mas eu não sei fazer amor sem tempo. E no meu léxico há muito que cabem as rapidinhas e outros simulacros.

É uma coisa de geração, sabes? Ainda ouvimos dentro dos miolos o Variações a cantar que só estamos bem onde não estamos. Ou da urgência de ter um corpo e não deixar para amanhã o que podemos fazer hoje. Ou do urbano-depressivos, sempre bem fodidos, nem que seja só pela vida e do chique que, por vezes, esse ar nos dá.

É para hoje? Não, deixa para amanhã...

Hoje, continuamos a foder para não falar. Ou fodemos para acabar. Ou fodemos só porque nos disseram que tinha de ser, que todos fodem afinal. Ou só para não ficar a mastigar a perna de frango ultracongelada, em pé na cozinha, sem pachorra para cozinhar. Foder fast-food, de geração fast-food, a correr atrás do hoje que perdeu logo pela manhã.

De que momento falas afinal? O momento em que faço de conta que me dou e tu fazes de conta que te dás? Amanhã continuamos à espera de uma vida. Amanhã é um fio de esperança que ainda tentamos encontrar.


É para amanhã? Bem podias fazer hoje...


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Em Abril, a Maria Árvore pediu-me um post para publicar lá no Chez Maria. Este foi o post que escrevi e que hoje - porque não tenho paciência para continuar a aguentar as sufecas do Blogger - resolvi trazer para a Voz. Apesar do tom, amargo e desencantado, gosto dele. Além disso, as férias que depois fui gozar foram muito satisfatórias e fizeram milagres pelo meu estado de humor...

2006-06-13

Porreiraça?


Não me lembro de alguma vez ter acartado caixotes ou sequer lavado a loiça. Mas também não vinha dai nenhum mal ao mundo...

("roubado" à Jacky)

2006-06-11

Cacofonia


Elena Ryazanoff


No silêncio da noite, dois corpos aninham-se em partilha de calor e meiguice. Em silêncio, abraçam-se seguindo as mesmas curvas, pele contra pele. Depois, um pequeno roçar de nádegas contra o escroto convulsa as entranhas e apenas sobra uma palavra: desejo. E não carece de mais do que isso, para virar potência em movimento, para que as tuas mãos subam ao meu peito e me forces a virar o corpo, até que te alojes no meio das minhas pernas e a intimidade vira apenas energia.

É fome, sim. Esta fome de saber que o desejo é voraz na vontade de engolir um desejo igual, enquanto os corpos famintos encontram a forma silenciosa de se degustarem até à exaustão.

Os corpos não se regem por palavras, pelo desassossego da multiplicidade de sentidos, do caos babélico à espera de interpretação. E é nos gestos mais pequenos que medimos rapidamente o mais difícil neste jogo: a intimidade muda que explode numa cacofonia de significados.

2006-06-09

É para seguir o link!


Desde esse dia anda cabisbaixo e desiludido. Fecha-se lá em baixo a ouvir discos de blues e come muito mal. Aquece doraditos nas chamas do inferno e de vez em quando dá um pulinho ao Purgatório para comer torradas mas não fica muito tempo. Tem o olhar melancólico e um par de cornos. É má onda cornos, é o que eu sempre digo.


Sobre a Besta, no Mastros ao Alto. Do melhor!

Nada!


Antony and Johnsons & Rufus Wainwright
What Can I Do

2006-06-08

Olha!!!


aqui

Enquanto tantas vozes emudecem, descubro que ele está de volta...

E depois descubro que ela também.



Revendo filmes...


aqui

Que dites-vous?... C'est inutile?... Je le sais!
Mais on ne se bat pas dans l'espoir du succès!

Edmond Rostand - Cyrano de Bergerac


O Cyrano é uma personagem belíssima, capaz de fazer 1001 versos às qualidades do seu apêndice nasal e incapaz de suportar os comentários alheios ao mesmo. Seria sempre o melhor dos apaixonados se não lhe tivesse faltado a coragem para perceber que, na maioria dos casos, as mulheres vão sempre preferir quem lhes escreve belas cartas de amor…


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(Hoje apeteceu-me regressar ao filme de Jean-Paul Rappeneau, com um magnífico, ternurento e profundamente comovedor Gérard Depardieu. E, como sempre, aquela cena final parte-me o coração.)

2006-06-07

Verde


aqui


E apetecia-me apenas um relvado verde e molhado, com erva cortada rente e há pouco, para mergulhar os pés descalços em solo fresco e vida. Dispenso bolas, bandeiras, buzinas, selecções e qualquer outro comentário absurdo aos jogos que hão-de vir.

Enjoei o que ainda não foi e, compulsivamente, vomito já este tal de Mundial.

2006-06-06

A data


aqui

Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é numero de homem. Ora esse número é seiscentos e sessenta e seis.

Apocalipse, 13-18


A data de hoje tem piada, não acham? Até a escolheram para lançar um filme que regressa à mitologia do Anticristo e à génese do mal...

E, no entanto, sendo o número da besta o número de 'um' homem, ou simplesmente 'de homem', a verdade é que está afastada qualquer natureza extraterrena das trombetas do apocalipse.

2006-06-04

Mountains of Madness


aqui



Talvez o meu mal – ou o meu bem, que vai depender sempre da perspectiva – é ter passado a minha adolescência a ouvir coisas que, para muitos, não passavam de ruído. “Hör mit schmerz” (ouvir com dor) era uma opção, sentida, entranhada, onde a pop industrial berlinense encaixava, a par de nomes como um sempre presente Nick Cave ou uma Diamanda Galas, ou até mesmo as profundamente doloridas Vozes Búlgaras, de um folclore que não o era apenas. Não para mim, pelo menos.

De então para cá, tenho seguido, nem sempre de forma muito fiel, os nomes dessa adolescência cada vez mais longínqua, assumindo a evolução dos músicos como um amadurecimento, tal e qual o que me ia acontecendo a mim, ao meu gosto, ao que me apetece sempre ouvir. Blixa Bargeld continua a ser uma referência. Como não? Pois se anda o dedinho dele, a par com o de Nick Cave, na banda sonora do Der Himmel über Berlin, de Wim Wenders. E eu sou fã desse filme, da sua banda sonora, de tudo o que me faz sentir de cada vez que o revejo.

Dos Einstürzende Neubauten retenho também até hoje o nome de Alexander Hacke. Perdi-lhe o rasto por uns tempos, reencontro-o agora, junto com os Tiger Lillies, num projecto arrojado, misturando imagens e sons, voltando a colar o electrónico ao pessoal, ao humor, ao espectáculo pleno.

E é assim que, hoje, a convite da Cota Marada, sigo para Serralves à espera de magia. Estou certa que acontecerá. Já não há uma audição dolorida de uma música estranha. Mas suspeito que não acabou a dor. Apenas se transformou em algo mais. Mais adulto, talvez. Menos crua, num cabaret do macabro. É que já não somos os mesmos, depois de duas décadas. E já nada pode ser tão a preto e branco. É por isso que vou à espera que este fim de férias e de domingo se vista de cor e luzes. E música, claro.


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Adenda:


Nem encomendado tinha sido melhor. E até o tempo – noite magnífica – esteve do lado da festa. Espectacular!

E ver Adrian Huge (o percussionista que se deliciou a destruir a bateria na última subida ao palco) a apregoar os CDs foi um bónus. Aliás, a simpatia dos músicos depois de três “encores”, quando já não se podia pedir muito mais, foi mesmo a cereja no topo do bolo.

Quanto ao espectáculo – que foi de graça – pagaria o que fosse para rever. E para todos aqueles que sabem o quanto sou forreta, acho que isto resume tudo.

E, Babs, procurei-te no meio do povo. Se não estavas lá, arrependes-te pela certa :))

Quanto a ti, devias ter ficado até domingo :P

Parabéns, Frogas


aqui


Pensavas que me esquecia? Nunca! Espero que tenhas um dia muito feliz.

Parabéns, sapinho. Que contes muitos.

2006-06-03

A Norte


Paredes de Coura


Mais do que as igrejas a enfeitarem os cimos das serras, ou as penedias transformadas para a oração, ou o granito talhado, talvez a comunhão mais profunda se faça no meio das serras frondosas, engalanadas de vida. Sou, verdadeiramente, pó e ao pó voltarei. Mas também sou seiva e luz coalhada e brisa fresca e margens de rios frescos e impolutos. Sou como a estrada perdido, bordejada de campos e vinhas que, por trás de cada curva, insinua mais um espanto. Sou como as estrelas que se voltam a ver e o luar novo que nada alumia. Ou como as barreiras amuralhadas que escondem casas brancas e ruas limpas, rasgadas apenas pelo vento norte e fazem ainda frente a um inimigo que já não há, enquanto os canhões silenciosos se cobrem de musgo e, por entre as pedras das flecheiras, nascem pequenas flores amarelas.

Sou esta terra alegre, verde e quente. Sou velha como as pedras de que herdei a história no sangue. Sou como a brisa e a água, frescas e sempre presentes. Ou este calor que se desprende dos sabores, da malga de vinho verde tinto, da boroa e dos rojões. Ou o cansaço de andar de lado para lado e não ver tudo o que seria de ver, que não há tempo para mais quando nos perdemos nas estradas que seguem por entre terreolas geminadas com as que vêm logo a seguir, mudando o nome do mapa e permanecendo o mesmo encanto.

Nomes a seguir a nomes, sempre surpresas gargalhadas ou tão só o espanto de ver finalmente o nome que, antes, não tinha qualquer sentido no mapa mental da nossa geografia limitada. Terra linda, esta. Terra quase em paz, apesar dos tantos de carros que lhe calcinam os silêncios, ou as televisões sempre ligadas, ou esta mania de esparramar bandeiras em nome de uma selecção de um País que, afinal, mal conhecemos.

E, depois, quase nos dói na alma ver que o Norte já esteve a arder. Por entre o prazer partilhado da tarde, via-se o fumo negro a caminhar em direcção ao pôr-do-sol, ameaçando transformar o amarelo alaranjado numa mancha vermelho sangue. Mais um pedaço de verde que se perde. Mais um retalho de vida transformado em cinzas. E, tendo eu andado perdida por estas terras, cheirando o fresco do verde que nos enche os pulmões de esperança, choro cada tronco chamuscado, cada árvore caída, cada ninho quebrado, cada pedaço de mim assim desaparecido.

O meu coração está sempre com o verde, os cheiros e os sabores do Norte, mesmo que, por vezes, um pedaço dele resolva viajar até ao Sul.

2006-06-02

(…ainda em férias)


Braga, Bom Jesus

Tolhe-me de desdém o que em nome de qualquer divindade se instiga. Abomino o papel menor que quiseram dar (e dão ainda) à mulher ou aos que consideram hereges, ou até àqueles que, não o sendo, escolheram uma opção de vida fora dos cânones bolorentos e, por isso mesmo, são até hoje deixados nas bordas da prece.

Li demasiados Camus e Satres para ser Wicca. Nunca deixei de ser "estrangeira" na fé. Cusquei demasiado nos orientais para ainda ter uma noção única do divino. Temo a organização da crença, porque abomino qualquer prelúdio de fanatismo. Não sou sequer baptizada. Não sou nada, se calhar. Gosto de me pensar agnóstica. Acredito, não venero. Falo com o divino na primeira pessoa. Não gosto que me medeiem aquilo em que escolho acreditar.

Mas abro a boca de espanto, arregalo os olhos e persigno-me antes de entrar nas bonitas igrejas, nas maravilhosas catedrais, ou nas simples capelas esculpidas nas rochas. Há uma grandeza no granito talhado das terras do Minho e da Galiza que nos põem, verdadeiramente, em contacto com a divindade.

Depois… bem, depois olho para baixo e vejo os ex-votos e as caixas de esmolas e, rapidamente, volto a assentar os pés no chão.

2006-05-28

Viriato, o furão do Teatro












Daniel, o director artístico do teatro, há muito vinha sentindo uma presença estranha no seu gabinete: Um restolhar de papeis, um projecto não encontrado ou um ruído esquisito na hora de fechar as luzes do seu espaço.
O pessoal da bilheteira queixava-se, ao sereno director financeiro, o doutor Vasques, do desaparecimento de bilhetes, afirmando que reconheciam um sorriso matreiro em dois ou três miúdos da Rua Escura que entravam sempre legalmente nos espectáculos do teatro.
A coisa começou a tomar uma escala mais evidente, quando um actor, de um desses grupos de novo circo, participou o furto de um adereço cómico fundamental para o seu “número”, num pranto
incontrolável.
Daniel só ficou verdadeiramente alarmado no dia em que Letícia, bailarina de grande mérito, lhe exigiu de nariz empinado, que corresse dos ensaios aquele alguém, que não conseguia identificar, pois não suportava o risinho trocista a cada falhanço no palco. Assim, na reunião semanal, lá estava aquele ponto na ordem de trabalhos; se alguém visse algo de estranho, que avisasse logo o director a fim de se tomarem as respectivas medidas.
O primeiro contacto com a criatura deu-se na zona técnica.
Uma bela manhã de Inverno, ao pegar do trabalho, os homens do palco deram-se conta que alguém virara a oficina de pantanas, usando tudo quanto pudera encontrar, para construir uma enorme árvore de natal mesmo no meio da sala. E estava lá tudo: Lâmpadas, fios, cabos projectores, todo o tipo de objectos empinados sobre uma estrutura de cenário, a lampejar…a lampejar…a lampejar.
-Mau Maria!... Exclamou Chico Gordo, o electricista de cena.
Durante uns segundos fitaram boquiabertos aquela estranha escultura.
Ainda mal refeitos da surpresa, viram passar à sua frente uma sombra veloz que se escondeu num dos armários metálicos do sector.
-Deve ser uma ratazana. Disse Chico.
-Não me pareceu… Mas embora agarrá-la? Propôs Sebastião, o técnico das luzes.
Se assim o pensaram, assim o fizeram. Sebastião pegou numa rede que ficara de uma peça sobre o mar e, coordenados, abriram as portas do armário, capturando o animal que se ficou a debater preso nas malhas. O animal começou logo a guinchar:
- Não me façam mal! Calma, não me façam mal!
- Olha, o bicho fala. Disse Chico coçando a cabeça.
- Parece que caímos no meio de uma fábula… Murmurou Sebastião, esfregando os olhos para ver melhor. Isto de trabalhar num teatro, não é nada bom para a saúde!
- Eu explico! Eu explico tudo. Gritava o bicho.
- Explicas tudo, é dentro desta gaiola que ficou cá do circo! Disse Chico colocando o animal dentro de uma pequena jaula.
E correram os dois, ao gabinete do director, para dar parte da situação.
Daniel, que achava os beirões grandes beberrões, aconselhou os funcionários a consumirem menos vinho Dão durante as horas de serviço. Aquela história era demasiado irreal para estar a acontecer no seu teatro. Mas os dois técnicos lá o convenceram a descer até à oficina, para falar com o seu achado. Ao ver aquele bicho comprido, a preto e branco, de focinho pequeno, grandes bigodes, orelhas breves e olhar penetrante, o director disse logo:
- Mas isto é um furão! O meu avô era caçador e eu ainda me lembro de algumas coisas…
-Grande novidade… Largou o furão ironicamente.
-Ainda por cima fala. Disse Daniel
-Eu não disse? Atalhou Sebastião
O director, que nunca perdia a calma face à fantasia, puxou duma cadeira, ajeitou os óculos, cruzou as mãos e ainda incrédulo perguntou ao bicho:
- Mas afinal quem és tu?
- Chamo-me Viriato e vivo aqui neste teatro. Cansei-me da vida do campo, dos cães sempre a ladrar atrás de mim, além disso cada vez há menos coelhos nessas matas. Estou farto de ser um animal selvagem, ao menos aqui cultivo-me. Há sempre tanta coisa interessante a acontecer.. Respondeu o animal.
-Só me faltava esta! Que vamos fazer contigo?
- Deixa-me ficar por aqui. Suplicou Viriato. Prometo que não vou fazer disparates. Vocês até nem deram por mim até agora…
- Agora ficámos com um mascote! Bom, Sebastião, deixa-o na gaiola e dá-lhe de comer. Sentenciou Daniel ainda abalado pelos acontecimentos.

Bem, ao fim de uma semana no sector técnico, já ninguém podia escutar o furão na sua conversa lamuriosa:
- E eles não me deixam ver teatro! E eles não me deixam ver a dança! E estou a perder todos os ateliês! Estou farto de estar fechado sem aprender nada! E quando é que vocês me tiram daqui?
O doutor Vasques, que não gostava nada de perturbações, resolveu pedir aos rapazes que levassem o tal furão Viriato até ao balcão, para assistir ao último acto de uma peça que fazia sensação na cidade, pois já não podia com tanta guinchadeira. Poisada a gaiola lá em cima, o director financeiro pôs-se a observar a pequena besta, notando que alterava o seu comportamento a cada deixa dos actores, tendo terminado a peça de lágrima comovida escorrendo sobre o pelo.
-Já te topei… Não é que gostas mesmo de arte... Concluiu para si Vasques, esboçando um sorriso no seu rosto. Belo público que tu és!...
Na primeira oportunidade, abordou Daniel na escadaria, com uma estranha ideia:
-Sabes, eu acho que devíamos deixar o furão à solta para ver como ele reage dentro do teatro.
- Vasques, tens tomado os comprimidos para a tensão? Isto não é um jardim zoológico, é um teatro!
Mas Vasques, tranquilamente como é o seu hábito, convenceu Daniel a apresentar o Viriato a toda a equipa, num encontro informal a ter lugar no foyer, por exemplo. Depois de narradas as capacidades de espectador do furão, acedeu Daniel, marcando o encontro para a manhã seguinte.
E, no dia seguinte estavam todos lá!
Viriato, de pelo penteado e lustroso, apresentou-se a toda aquela gente espantada, usando o seu charme animal. Comentou espectáculos, desempenho dos actores e até deu sugestões no funcionamento prático do teatro. Renderam-se todos àquele bichinho…
Mas com quem surgiu um entendimento mágico, como se fora paixão ao primeiro olhar, foi com Mariana, a responsável pelos serviços educativos, que não resistiu a pegar no bicho ao colo.
Passou assim Viriato a andar às claras por todo o teatro, numa atitude prestável, bem diferente da clandestinidade em que tinha vivido. Ele verificava cabos nas zonas de difícil acesso, equilibrava-se sobre a teia consertando projectores, mas aquilo de que mais gostava era trabalhar com Mariana nas iniciativas do serviço educativo. Tinha aquela cumplicidade com as crianças, construída em segredo nas borlas que dava para os espectáculos e, ainda por cima, faziam-lhe festas em locais do corpo que não conseguia alcançar, causando-lhe arrepios de prazer. Era sempre divertido e interessante participar nos ateliês de Mariana; fazendo de guia, pois conhecia todos os recantos daquela casa mágica, ou assumindo uma postura bem profissional quando vestia o papel de monitor nas oficinas pedagógicas. Recebia as escolas na entrada principal, dava informações, fazia de cicerone, distribuía folhetos, conferia materiais e muitas outras tarefas. Sobretudo os meninos gostavam do jeito vivo e matreiro do bicho.
Apenas uma coisa não mudou: o seu carácter opinativo e crítico, um terror para as companhias visitantes, obrigando Mariana a exigir tento na língua, sob pena de o devolver às serranias beirãs.
Com o passar dos tempos, Viriato ganhou uma tal dose de popularidade entre as crianças da cidade, que Daniel, o director, não teve outra alternativa senão nomear aquele monitor felpudo: “Viriato o assessor do teatro”.

Miguel Horta in revista "Boa União", Teatro Viriato, Viseu

2006-05-26

Desafio


Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!

Sophia de Mello Breyner Andresen – Pudesse Eu


Há tantos poemas que poderia escolher. Há tantos que dizem o que não sei dizer, tecendo em palavras as emoções que me guiam. Há tantos, mas tantos poemas de amor, de dor, de negrume ou alegria, de paixões balançadas, ou de versos esguios. Há tanta palavra bailada, em ritmos sincopados, ou desenhando nas métricas pensamentos voláteis. Há tanto poema. Tanto! Que quase não sei escolher. E então fecho os olhos. E suspiro um "pudesse eu..." E deixo aqui Sophia. Porque sim. Porque há demasiados poemas. Ou porque estes quatro versos resumem o meu olhar sobre o futuro agrilhoado ao presente.


O texto é um repost, mas é também o desafio que vos deixo enquanto vou de férias: quero saber dos vossos poemas! Todos temos "aquele" poema especial. Este é o meu e gostava saber dos vossos...




A Voz vai fugir. Bem, não será bem a Voz. Vai fugir a Hipátia e, como o Gaivina parece andar avesso às teclas, cheira-me que, durante uns dias, a Voz não está cá. Ou não está cá actualizada. Ou não quer vir. Ou não pode.

A Voz vai a banhos. Vai comigo a banhos. Vamos as duas, pela beira deste calorzinho bom que vai fazendo, sentar o rabo na preguiça e não dizer nem fazer nada, excepto gozar em pleno a vontade de não dizer nem fazer nada.

Obviamente, a Voz será posta a um canto enquanto a Hipátia estiver a fazer todas as (in)decências permitidas a quem vai a banhos sem destino. Que lá porque a Voz é um umbigo, não precisa saber tudo o que se passa. Que assobie para o lado e faça de conta: durante uma semana, não é nada com a Voz. Aliás, também não é nada com a Hipátia. É tudo a ver com a pessoa que se esconde atrás da Voz e da Hipátia e que, muito às claras, vai pôr-se ao largo para bem longe daqui.

Qualquer coisinha, reclamem com o Gaivina, que o ex-sem-blogue anda demasiado preguiçoso.

Eu fui passear!