
("roubada" à Emiéle, que tinha "roubado" antes ao Zeca da Nau)
adeus susto e absurdo e sobressalto e espanto
Ruy Belo, in Como Quem Escreve Com Sentimentos
O Luís ofereceu-me este vídeo ali em baixo numa caixa de comentários e ando para arranjar forma de o pôr na primeira página de alguma forma. Acho que vai ser esta a forma. O vídeo refere-se à espécie humana como macacos e nenhum de nós tem dúvidas – já que sempre aprendeu isso e leu sobre isso – que somos primatas e temos antepassados comuns com todos os macacos. E, no entanto, emocionalmente é-nos difícil assumir esse nosso lugar natural, mergulhados que estamos numa espécie de mania de que somos superiores, que a Terra é nossa para dominar e que toda a vida que a habita, bem como todos os recursos que a compõem, são nossos para explorar à exaustão. Esta falta de consciência do nosso lado animal faz parte da atitude do Homem perante o dia a dia. Talvez seja por isso que, quando falamos do nosso lado animal, quase sempre o limitemos aos instintos mais primários, como a raiva e o sexo. Esquecemos que, embora adormecidos muita vez, todos os nossos sentidos são animais e, comparativamente, alguns deles bem empobrecidos perante alguns dos animais que connosco partilham a Terra. Talvez seja a concessão da espécie a um grande e pesado cérebro, feito em camadas, sendo que a mais evoluída tenta, ao jeito do que faz o Homem à natureza, controlar e domar as partes mais "primitivas".
E, no entanto, se somos assim uma espécie de semi-deuses, como gostamos de achar, a meio caminho entre os animais (os outros, claro, que nunca nos sabemos realmente posicionar entre eles como parte do grupo) e as divindades (que sempre criamos à nossa imagem), porque não andaremos a fazer um serviço melhor na gestão do(s) nosso(s) destino(s)? Ganhamos consciência, é verdade. Estamos condenados a ela. Mas há quase que uma tendência natural para a esquecermos, como se o compromisso com essa nossa vontade de ser mais do que animais falhasse demasiadas vezes, deixando à luz a raiva, o instinto, a violência.
Entre os nossos primos primatas, encontra-se o Bonobo, ou chimpanzé pigmeu, que sempre me fascinou e sobre o qual não sei – admito – o suficiente. Sei, no entanto, que tem uma postura mais erecta do que o chimpanzé, que um deles, chamado Kanzi – objecto de estudo no Centro de Pesquisa da Linguagem de Decatur, nos E.U.A. – parece ter sido capaz de "inventar" as suas próprias palavras (entrando assim no domínio do que o Homem pensa que é só dele) e que têm uma organização social muito particular. Essa estrutura social é essencialmente matriarcal, mas como também parece assentar em fundamentos que os afastam do tradicional chavão do "domínio" e do "poder", muitos ainda acreditam que terão antes uma estrutura partilhada entre os sexos.
Ora, o que mais me fascina nos Bonobo é exactamente a forma como gerem as suas relações sociais: pelo sexo. O sexo é entre todos e serve para tudo. Qualquer atrito é resolvido com uma boa cambalhota e, depois – exaurida a pulsão – a sociedade pode continuar com as actividades comezinhas. Temos, por isso, talvez o mais pacífico dos primatas, que prefere dar uma queca a partir para a violência. Encontrou um mecanismo, que temos tendência a associar ao nosso cérebro instintivo, para resolver querelas, enquanto a maioria dos animais recorre à força e a demonstrações de força. Aliás, nem parecem estar muito preocupados em saber quem manda ou como manda. A sociedade funciona sem grandes ênfases nas hierarquias, sem dramas de luta pelo poder, humilhação dos vencidos, glórias para os heróis. Um bocadinho de sexo e pronto.
E, enquanto anda o Homem todo preocupado em saber se parece bem ou mal beijar no primeiro encontro, se fica ou não com fama de fácil por fazer sexo pelo sexo, nos períodos de intervalo entre as diferentes lutas macacóides para trepar ao topo de uma qualquer hierarquia, os Bonobos fazem sexo e, depois, libertada toda a energia, já não há vontade para dar porradas na cabeça do vizinho.
Eu olho para a nossa sociedade – dos supostos semi-deuses, entesados na sua pretensa importância e a olhar de cima para todos os outros animais com que partilha este frágil sopro de essência a que chamamos vida – e fico com a sensação de que erramos as escolhas em algum lugar. É verdade que os Bonobo estão perto da extinção, mas isso não é culpa deles: é culpa do Homem que lhes destruiu o habitat. Mas o Homem também vai destruindo – de forma bem gratuita – o habitat de todos. E, enquanto na sociedade humana não se pode sequer falar de sexo às criancinhas, sendo necessário até discutir quem tem ou não direito a dar "educação sexual" aos fedelhos, mas já se permite que essas mesmas criancinhas ponham autógrafos e palavras de ódio nas bombas que serão lançadas para matar as criancinhas do vizinho, os Bonobo dão mais uma cambalhota e seguem em frente, felizes da vida: não precisam continuar a sentir-se sozinhos no meio de não sei quantos biliões de semelhantes; nem precisam de inventar uma palavra – ou um som – para o ódio, nem fazer bombas, ou guerras, ou procurar uma ilusória noção de felicidade, sempre distante, sempre amputada de contentamento.


























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