Como sempre, no seu aniversário, foram almoçar fora, ao Pataco. Os empregados não a pouparam com mimos, oferecendo-lhe um gelado no final da refeição. Do outro lado da mesa a mãe sorria com ternura, e o pai, babado, limpava os beiços com um guardanapo.
Mas o melhor estava para vir: os primos e a tia vinham brincar com ela, a tarde toda. E, depois, havia o bolo de anos e as prendas…
Foi um rebuliço pela tarde fora. Mas, para ser perfeito aquele domingo de aniversário, faltava ainda um passeio. Aos Fiais e às suas pedras favoritas.
Mariazinha chegou-se ao pé do pai, que, de comando na mão, mudava freneticamente de imagens na televisão e disse:
-Pai…eu quero ir escutar as pedras.
-O quê miúda?
-Sim. Quero ir escutar as orcas dos Fiais.
-Mas que ideia mais disparatada! Respondeu o pai, endireitando-se no sofá.
-Leva-me lá! Insistia a filha, desatando num berreiro: Eu quero escutar as pedras. Quero ir aos Fiais!
-Ó Sílvia, a tua filha anda cada vez pior! Chamou ele pela esposa, nervoso, pois o costumeiro jogo de bola estava prestes a começar em transmissão directa.
-Mas eu quero, pai!
Aí os primos começaram, também, num coro: Queremos escutar as pedras! Queremos ir aos Fiais!...
Foi tal a insistência da miudagem que os adultos não tiveram outra hipótese senão pegar nos carros e rumar aos Fiais da Telha, para grande tristeza do pai que iria perder um jogo decisivo do campeonato.
Mal lá chegaram, as crianças saíram a correr dos automóveis gritando: Vamos escutar as pedras! Correram em direcção às antas, abraçando as grandes pedras, encostando os ouvidos à superfície rochosa.
-Maria, vem escutar esta! Gritava um dos primos.
-Agora vou ouvir o que esta diz….Dizia Mariazinha.
-Eu gosto muito desta orca. Dizia sorridente o primo mais pequenino, agarrado a uma grande massa de granito.
A tia e a mãe estavam tão entretidas com a habitual conversa de fim de semana que nem se deram conta das palavras murmuradas pelo pai:
-Meu belo joguinho ...
A tarde foi caindo. Cansadas as crianças de tanto de escutar as pedras, convenceram-se a regressar ao entardecer. E seguiram, para o carro da tia. Afinal, o jipe da tia era muito mais divertido que o carro do pai:
-Vamos todos aqui! Gritou Mariazinha.
-E eu? Perguntou o pai.
-Tu vais sozinho no teu. Respondeu a mãe.
E lá se foram, perdendo-se no pó da estrada.
O pai ficou ali parado no meio do caminho junto das enormes orcas silenciosas.
Olhou em redor, verificando que estava mesmo a sós. Então, aproximou-se, de uma grande pedra e abraçou-a. Sentiu um calorzinho que lhe entrava pela barriga, vindo da rocha ainda quente pelo sol. Encostou a orelha ao granito e escutou a voz das pedras.
Glossário:
Fiais da Telha - Terra bonita da Beira Alta
Pataco - O melhor restaurante de Canas de Senhorim
Orca - Dolmen










































