2006-03-01

A menina que escutava as pedras (ainda a Beira...)

Mariazinha vestiu a sua blusa mais bonita, uma saia branca, meia clara e sapatinhos de Verão a condizer. Na cabeça, dois totós prendendo as longas tranças morenas. Então, abriu um belo sorriso de orelha a orelha. Afinal, era o seu dia de anos.
Como sempre, no seu aniversário, foram almoçar fora, ao Pataco. Os empregados não a pouparam com mimos, oferecendo-lhe um gelado no final da refeição. Do outro lado da mesa a mãe sorria com ternura, e o pai, babado, limpava os beiços com um guardanapo.
Mas o melhor estava para vir: os primos e a tia vinham brincar com ela, a tarde toda. E, depois, havia o bolo de anos e as prendas…
Foi um rebuliço pela tarde fora. Mas, para ser perfeito aquele domingo de aniversário, faltava ainda um passeio. Aos Fiais e às suas pedras favoritas.
Mariazinha chegou-se ao pé do pai, que, de comando na mão, mudava freneticamente de imagens na televisão e disse:
-Pai…eu quero ir escutar as pedras.
-O quê miúda?
-Sim. Quero ir escutar as orcas dos Fiais.
-Mas que ideia mais disparatada! Respondeu o pai, endireitando-se no sofá.
-Leva-me lá! Insistia a filha, desatando num berreiro: Eu quero escutar as pedras. Quero ir aos Fiais!
-Ó Sílvia, a tua filha anda cada vez pior! Chamou ele pela esposa, nervoso, pois o costumeiro jogo de bola estava prestes a começar em transmissão directa.
-Mas eu quero, pai!
Aí os primos começaram, também, num coro: Queremos escutar as pedras! Queremos ir aos Fiais!...
Foi tal a insistência da miudagem que os adultos não tiveram outra hipótese senão pegar nos carros e rumar aos Fiais da Telha, para grande tristeza do pai que iria perder um jogo decisivo do campeonato.
Mal lá chegaram, as crianças saíram a correr dos automóveis gritando: Vamos escutar as pedras! Correram em direcção às antas, abraçando as grandes pedras, encostando os ouvidos à superfície rochosa.
-Maria, vem escutar esta! Gritava um dos primos.
-Agora vou ouvir o que esta diz….Dizia Mariazinha.
-Eu gosto muito desta orca. Dizia sorridente o primo mais pequenino, agarrado a uma grande massa de granito.
A tia e a mãe estavam tão entretidas com a habitual conversa de fim de semana que nem se deram conta das palavras murmuradas pelo pai:
-Meu belo joguinho ...
A tarde foi caindo. Cansadas as crianças de tanto de escutar as pedras, convenceram-se a regressar ao entardecer. E seguiram, para o carro da tia. Afinal, o jipe da tia era muito mais divertido que o carro do pai:
-Vamos todos aqui! Gritou Mariazinha.
-E eu? Perguntou o pai.
-Tu vais sozinho no teu. Respondeu a mãe.
E lá se foram, perdendo-se no pó da estrada.
O pai ficou ali parado no meio do caminho junto das enormes orcas silenciosas.
Olhou em redor, verificando que estava mesmo a sós. Então, aproximou-se, de uma grande pedra e abraçou-a. Sentiu um calorzinho que lhe entrava pela barriga, vindo da rocha ainda quente pelo sol. Encostou a orelha ao granito e escutou a voz das pedras.

Glossário:
Fiais da Telha - Terra bonita da Beira Alta
Pataco - O melhor restaurante de Canas de Senhorim
Orca - Dolmen

2006-02-27

Bolas!

Não consigo comentar no meu blogue.

Estou fula!


(Estive a salvar os comentários antigos para o blogger. Por acaso alguém sabe dizer-me se esta caca tem limite de espaço?)


"Comments have been disabled on this post." É isto que me aparece. Nem sei percebo como conseguiste comentar, Maria Árvore. Eu fico ali a olhar para a janelinha e ela a mandar-me pastar.

Desisto! É superior à capacidade de entendimento dos meus Tico e Teco. Já limpei cookies, já limpei IP, já limpei os temporários, já limpei até o raio que o parta. Nicles...

Amanhã vê-se e esperemos que o S. Cap, apesar do retiro, veja o meu grito de pânico.

Linguística? hmm

HASH(0x8b0fcbc)
7 Types of Intelligence - Which is yours?

brought to you by
Quizilla


Por acaso até acho que tem tudo a ver comigo...

2006-02-26

Salvé dia 21 de Fevereiro





Yanni - Nightingale


Não sabia mesmo, minha querida. E estou demasiado atrasada e é uma vergonha. Mas não podia deixar de te dar parabéns. Para o ano será no dia certo. Fica aqui prometido :)

2006-02-24

Prefácio de "Pinok e Baleote"

Depois da ilha do Fogo e da Brava existe Tamarindo.
Segredo bem guardado pelo português que a achou. Muitas vezes ignorada pelos crioulos que preferem não falar dela, embora habite um local bem próprio dos seus corações.
Ilha imaginária? Ó meu amigo, faça favor de olhar bem o mapa. Não vê ali uma ilha quase chegada a Djabraba? Vê como eu tinha razão?… Bem sei que alguns cartógrafos se esquecem de a assinalar no mapa, conferindo-lhe a importância de ilhéu.
Mas não é bem assim. Nessa ilha cujos habitantes têm um falar mais parecido com o Kriolu Kuradu, também existe o tripitxi e as crianças comem sukrinha nas sombras que sobram do sol ao meio dia. Flora, fauna e modo de viver, em tudo Tamarino é parecida com as outras ilhas caboverdeanas.
Se falo disto, é porque preciso explicar a origem desta história que Djon nos conta. Não vão os jovens Portugueses fazer uma grande confusão geográfica.
Importava publicar a narrativa deste menino crioulo que conheci em 1979, para que a rapaziada daqui fique com uma pequena ideia do ambiente das ilhas.
É que os portugueses andam muito esquecidos dos locais por onde passaram…
Se tiverem alguma dificuldade em entender as palavras estranhas que vão surgindo, deixei, no final da história, um pequeno dicionário com curiosidades, que pode ser consultado.
Bem, se gostarem desta história, sou capaz de me entusiasmar e contar outras que por lá escutei.
Vamos então começar…


Kusa ke kusa
ki fika kusa
nes mundu

APADEDICAndo


aqui


Para quem ler esta menina e, depois, ainda for ler esta também, informo que o dia está certo, mas o mês está completamente errado: é em Março, carago!

Às duas: muito obrigada!

O livro do Gaivina: 'Pinok e Baleote'


A editora Pé de Página e a associação cultural Moinho da Juventude, têm o prazer de o convidar para a apresentação do livro “Pinok e Baleote” de Miguel Horta, que terá lugar nas instalações da biblioteca António Ramos Rosa no dia 5 de Março de 2006 (Domingo)

pelas 16 horas.

Este acontecimento terá a presença das Batukadera di “Finka Pé”

Travessa do Outeiro, nº 5 , Alto da Cova da Moura,
Buraca – Amadora. 214971070

Pinok e Baleote

De Tamarindo, ilha imaginária de Cabo Verde, chega-nos a história de Pinok, um menino crioulo com fama de muito mentiroso. O relato de uma amizade entre homens e animais que acaba por salvar a ilha, semeando solidariedade.

Em jeito de contador de histórias, Miguel Horta leva-nos através da atmosfera das ilhas, fazendo-nos sentir a cultura crioula.

Miguel Horta é um pintor que gosta de palavras e de pessoas. Tem trabalhado pelo país fora na promoção do livro e da leitura e em educação pela arte. A uma obra marcada pelo oceano junta-se, agora, um rio de palavras que desaguam numa cultura comum.




E pronto! Já cá está. Digam lá que não é uma surpresa boa...

2006-02-23

A homenagem

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim

Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal

E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o Pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale

À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim

Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas de uma nação

A Morte Saiu À Rua by Zeca Afonso on Grooveshark

Pedro Mandes

A Isabel pediu um dia com o Zeca. E nem era preciso pedir. Zeca Afonso faz parte da minha história. É, talvez, a primeira música que lembro ouvir, sentada no colo do meu avô, enquanto me diziam que não podia ser mais alto, que não podia contar na rua. E Zeca Afonso tocava. E tocava-me. Toca-me ainda. Porque faz parte da minha história. Porque o junto nas memórias às memórias da minha família, ao meu avô que também já cá não está.

E a homenagem é ao Zeca Afonso, neste dia em que se fala da sua morte; mas é também a homenagem ao meu avô. E, acima de tudo, a todos os pintores - todo o tipo de pintor: os que pintavam com aguarelas ou óleos, os que pintavam com palavras, os que pintavam com acordes, os que pintavam apenas com as trinchas ou os arados do trabalho quotidiano - que celebraram a vida por entre o escuro e triste deste País.

Foram-se os vampiros de outrora; sobram os vampiros de fato novo, promovidos a doutores. E os pintores caem ainda por terra. Haja quem os cante!

2006-02-22

Estão a gozar comigo!


aqui


O Paul Bettany no horrível papel do Albino? Já não bastava terem abardinado tudo ao porem o Tom Hanks no papel principal? Acho que ninguém me apanha a ver a versão filmatográfica de "O Código da Vinci"...


aqui

2006-02-21

Marinheiro

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia de Mello Breyner Andresen - Espero



aqui


Leva-me a ver o mar, quando o mar que há dentro de mim rebenta em ondulações convulsivas. E transporta-me para as ondas, quando ondas em mim já rebentam em praias perdidas no meu corpo. É esse teu ir e vir, ir e vir, ir e vir… até o teu chegar ser o meu chegar, um mar, fazendo do meu corpo praia, fazendo das minhas escarpas ondulação, fazendo dos nossos corpos maresia.

2006-02-20

É hoje!


aqui

Por entre a correria do dia, lembrei-me e esqueci. Voltei a lembrar, voltei a esquecer. Lembrei mais uma vez agora e já não podia faltar o que mereces: o meu beijo e o desejo de um feliz aniversário, minha querida.

2006-02-19

Clepsidra

Nous aurons des lits pleins d'odeurs légères,
Des divans profonds comme des tombeaux,
Et d'étranges fleurs sur des étagères,
Écloses pour nous sous des cieux plus beaux.

Usant à l'envi leurs chaleurs dernières,
Nos deux coeurs seront deux vastes flambeaux,
Qui réfléchiront leurs doubles lumières
Dans nos deux esprits, ces miroirs jumeaux.

Un soir fait de rose et de bleu mystique,
Nous échangerons un éclair unique,
Comme un long sanglot, tout chargé d'adieux;

Et plus tard un Ange, entr'ouvrant les portes,
Viendra ranimer, fidèle et joyeux,
Les miroirs ternis et les flammes mortes.

C. Baudelaire - La Mort Des Amants (Les Fleurs du Mal)


Que coisa esta que agrilhoa a vida a uma simples mensagem escrita, pesa-nos a eternidade e foge num fogacho de momentos brevíssimos sem retorno. Que coisa esta de estar à espera, construir a espera, agarrar cada segundo e deixar o tempo partir. Deito fora os relógios, as ampulhetas, degredo-me para o sofá, espero. Carrego a grilheta do desejo, quase não vejo. Espero. Que coisa esta!

Que tempo este, o meu, onde o sexo é cada vez mais simples que o amor e é mais fácil abrir o corpo do que a alma. Espero. Adio. Contesto a voluptuosidade do gesto. Marco passo e enrodilho-me no que já não sei. Que tempo este!

Pedes que te reviste pelo fim da tarde, nos tempos cansados dos desencontros dos dias. Prefiro sarar o corpo primeiro e resisto, traçando os passos que me levam ao banho que me falta. Digo-te para vires depois. E talvez te venhas, mas já não comigo, que o jogo do empurra leva o desejo para mais além e fica apenas o amargo na boca do beijo semi-beijado, do corpo semi-tocado, da alma que resiste. Pedes-me e eu peço e não sabemos pedir, ainda assim. Como se o tempo de cada um não soubesse ser o tempo comum e cada segundo fosse história diferente, paralela gigantesca de desencontros.

E fomos jantar depois. Um jantar banal na data que não o é. E a semana e o dia seguinte à porta e o tempo que satura e empanturra a fleuma do cansaço. Gostas de amar corpos cansados, como eu gosto de amar corpos cansados. Mas não podemos permitir a aventura do cansaço a dois. Não hoje. Não neste tempo em que já não sabemos viver, correndo por entre os tantos de quilómetros que nos separam e a vida que nos quer separar e este já não saber como construir a espera, que estamos por demais habituados ao imediato. E o tempo resiste e aparta, como o espaço, e ninguém ainda descobriu a nossa equação do espaço-tempo.

E ficamos presos ao tempo que tentamos deitar fora, enquanto agarramos esse mesmo tempo com bocas e corpos sôfregos. Sobra apenas uma mensagem escrita, perdida, finita, como bandeira luminosa da distância.

Que adianta saber entregar o corpo se a distância se constrói, dia após dia, na alma vagabunda das histórias paralelas?

2006-02-17

Anacoreta


aqui


Do amor pode-se dizer que o menos terreno é o menos demonstrativo. Na sua forma absolutamente indestrutível, atinge uma profundidade em que toda a exibição é dolorosa.

Thomas Hardy


Mas quem gostaria realmente de ser amado sem as mais pequenas demonstrações de afecto? Quem aceita realmente um amor contemplativo, sem um gesto, um carinho? Quem consegue viver o amor sem exprimir em cada gesto o tanto de felicidade que nos traz, a cara parva com que passamos a encarar o mundo, a forma obtusa como o mundo passa a rodar em torno de um par?

Antes a finitude do amor terreno, pleno ainda assim, doce nos seus prazeres e agonias, feitos e resultados de cada gesto enlaçado em sentimentos. Exibível? Claro que sim. E degustado por isso mesmo.

Quantos de nós se deixam realmente convencer por qualquer outro tipo de amor? O ascetismo, por mais que nos digam o contrário, parece ser a negação de todo o prazer. E eu sem bem que tipo de êxtase prefiro procurar...

2006-02-16

Mulher


Finbarr O'Reilly (Prémio WPP 2005)


Neneh Cherry - Woman


You gotta be fortunate

You gotta be lucky now

I was just sitting here

Thinking good and bad

But I'm the kinda woman

That was built to last

They tried erasing me

But they couldn't wipe out my past


To save my child

I'd rather go hungry

I got all of Ethiopia

Inside of me

And my blood flows

Through every man

In this godless land

That delivered me

I've cried so many tears even the blind can see


Chorus:


This is a woman's world.

This is my world.

This is a woman's world

For this man's girl.

There ain't a woman in this world,

Not a woman or a little girl,

That can't deliver love

In a man's world.


I've born and I've bread.

I've cleaned and I've fed.

And for my healing wits

I've been called a witch.

I've crackled in the fire

And been called a liar.

I've died so many times

I'm only just coming to life.


Chorus


My blood flows

Through every man and every child

In this godless land

That delivered me

I cried so many tears even the blind can see

2006-02-15

A paixão




Ontem, numa fila eterna que se perfilava na porta da perfumaria do centro comercial, vi o real significado da paixão masculina estampado na postura de muitos homens. Aliás, penso que seria facilmente perceptível em cada rosto o verdadeiro significado de “calvário”, de uma forma que nem o Mel Gibson seria alguma vez capaz de explicar…

(também quem os manda deixarem sempre tudo para a última da hora?)

2006-02-14

Aos meus amores


aqui


Do P. recordo como me beijava no pescoço. Do A. recordo como me beijava toda. Do P. recordo como se deixava beijar. Do A. lembro como custou não beijar mais. Do J. recordo a meiguice e do M. recordo o mimo. Do J. a distância; do P. a necessidade de ninho. De outro P. não sei o que não lembrar...

São a minha história. Amei cada um deles, ou fui amada, nem sempre bem, nem sempre como mereciam ou eu merecia. Há dias em que tenho saudades de todos. Há dias em que desejaria ser um bonecreiro e juntar cada uma das partes que gostava em cada um deles e deitar fora tudo o resto. Nos outros dias, nada lamento. Aos que amei, só o fiz porque não eram perfeitos; os que me amaram, só não foi diferente porque não sou perfeita.

E sou uma felizarda! Tenho muita sorte em ter conhecido cada um deles, de chamar ainda amigo a tantos. É que, se são a minha história, são também a minha vida. E, ainda que tantos digam que é preciso deitar fora o velho para construir um novo caminho, eu prefiro guardar na memória tudo: o que doeu e o que deu prazer; o bom e o mau; as lágrimas e as gargalhadas; as tristezas, os lutos, as agonias em prazer ou dor, cada beijo...

Sou feita de carne e histórias. Se me amputam a memória, dissolvo-me como poeira no vento. E fico vazia. E não quero ficar vazia. Quero recordar sempre, transformar cada pessoa que partilhou o meu caminho no repositório da minha história. E, então, serão eternos. Como eu serei eterna. Não acreditando em qualquer vida para além desta, resta-me desejar a eternidade possível que se preserva na memória dos outros. Como preservo a eternidade de cada um na minha memória. E estão sempre vivos. Sempre!

Aos meus amores... tchim, tchim!

2006-02-13

Lembrete

As pancas


aqui

Pois parece que toda a gente quer que eu conte por aqui cinco das minhas pancas. E sendo que sou "gaija" de uma série delas - assumidíssimas, aliás -, não me custa mesmo nada revelar algumas.

Odeio, mas odeio mesmo, de tal forma que me agride fisicamente, mãos com unhas roídas. Só a ideia de ter de cumprimentar uma mão assim, toda eu me arrepio num nojo total e absoluto. Claro que não falo daquelas unhas ratadas, que mal se notam que são roídas, mas aqui as minhas dioptrias ajudam-me. Estou a falar daqueles dedos onde já nem há unha, só sabugos sangrentos, horripilantes, de carnívoro ensandecido.

Também me passo com olhos tortos, não tanto aqueles em que está aqui um e outro no infinito. É mesmo com os outros, os que se juntam sobre o nariz. Sendo que não sei falar com as pessoas sem as olhar nos olhos, passo agruras a tentar evitar que os meus olhos entortem também, num jogo de reflexos. Talvez seja por isso que os que se reviram para fora não me façam tanta confusão, já que não consigo mimar o gesto. Ainda assim, dou por mim a encurtar conversas, a evitar falar com certas pessoas, porque os olhos tortos e eu temos uma relação muito, mas mesmo muito inconveniente.

Tenho outro problema com gente burra. Especialmente se se arma em esperta. E a primeira reacção é mesmo enfiar um par de estalos capaz de atar os queixos de uma boca aberta em pasmo, ou que não sabe estar calada quando só sabe dizer merda. Esta panca é particularmente problemática porque faz de mim uma grandessíssima snobe. Mas pronto: não há mesmo nada a fazer, porque duvido muito que ainda esteja em idade de mudar. De qualquer forma, quando falo de burrice não estou, de forma alguma, a falar de falta de cultura ou conhecimentos, ou sequer educação. É mesmo daquela gente de cabeça oca, empenhada em construir em objectos de demonstração de status aquilo que as sinapses inexistentes nunca lhes poderão dar.

Também tenho umas questões interessantes com a ordem por que estão distribuídas as canecas no armário. Os copos ainda vá, mas mudarem-me as canecas de sítio é motivo para começar a fumegar. Admite-se a primeira, a segunda, até a terceira vez, especialmente se estivermos apaixonados pelo infractor. Mas, a partir daí, é discussão pela certa e, em último caso, motivo bastante para declarar a porta da rua como serventia da casa. O mesmo, aliás, se aplica aos livros e cd's. Pratos e talheres, ou toalhas, ou até roupa suja fora do cesto, ou tampa da sanita levantada, são bem mais tolerados por estes lados.

Finalmente: o lado da cama. Não importa se esquerdo ou direito, tem de ser o lado da janela. Ponto final, parágrafo. E a cama tem de permitir espaço para que os meus bracinhos fiquem por cima da cabeça, que é assim que durmo e já não mudo. Isso mesmo: bracinhos em arco, por cima da cabeça, em pose de bailarina. E do lado da janela. E não me perguntem porquê, nem tentem sequer enganar-me. É que o mais certo é eu acabar à mesma do lado "certo" da cama, nem que para tal tenha de empurrar quem lá estiver para o meio do chão.

E agora, cá vão as vítimas:

2006-02-12

Sem piada


(recebida por mail)


Não sei desenhar cartoons. Na verdade, não sei desenhar nada, tirando aqueles bonecos básicos do jogo da forca. E talvez esses até sejam os mais apropriados para falar da polémica desbragada, viciosamente fomentada, que transforma simples desenhos no gatilho necessário para efervescer almas sedentas de violência e de sangue.

Tomo a minha liberdade de expressão como um dado adquirido. Esqueço até muitas vezes que, não tem assim tanto tempo, neste meu País não se podia falar, que um grupo de três em amena cavaqueira era subversivo e qualificado como reunião política. Esqueço porque parece óbvio. Esqueço porque quero esquecer.

No dia em que matarmos o humor na ânsia padronizadora do politicamente correcto, estamos todos condenados. Condenados a uma qualquer Gattaca, num qualquer admirável mundo novo com o triunfo dos porcos à mistura. No dia em que continuarem a usar desenhos como desculpa, trocando tinta colorida por sangue rubro. No dia em que a humanidade perde definitivamente o rumo e, finalmente, os dois terços de escorraçados inventam o refrão mobilizador, capaz de fazer as liberdades baixarem os braços, medrosas do que pode vir.

E não é piada. Pobres de nós que assim nos afastamos da nossa condição de Homens, os únicos animais que sabem rir.

2006-02-11

De volta


****NOTICE****
CommentThis! is no more. Your comments are preserved here to allow you to move them to another system. (...) Don't expect your comments to be available for very long.


Penso que não será novidade para ninguém que o CommentThis! era o meu sistema de comentários favorito, ainda que tantas vezes pouco fiável. Parece que, desta vez, morreu mesmo; que já não há volta.

E parece também que voltei à net mesmo a tempo de evitar aquela que seria, para mim, uma calamidade: perder os comentários que estavam (apenas) guardados no CommentThis! Já me basta não ter os comentários de Abril e Maio, que estavam no Haloscan e, no entretanto, se evaporaram...

Estive, por isso, até agora a preservar a história do blogue, salvando cada um dos comentários que, neste ano e meio, tantos souberam deixar-me por cá. São preciosos! Não queria perdê-los. Agora já estão guardados.

A partir deste momento, as Vozes deixam de existir e serão reabertos os comentários do blogger. Ficarei, como de costume, com dois sistemas de comentários, para o caso de um deles resolver passar mal.

Por outro lado, aproveito este texto para pedir a todos quantos têm o meu e-mail da NetCabo para deixarem de o usar. É que eu deixei de usar a NetCabo, farta de ser usada e abusada e ainda ter de pagar couro e cabelo por telefonemas sempre que surgia um problema que era, invariavelmente, da responsabilidade da empresa prestadora de (mau) serviço. Foi assim uma espécie da minha OPA. No caso, mais uma "upa, que se faz tarde". E fez-se. Demasiado tarde! O monopólio da rede de fibra óptica não deveria permitir tanta incompetência, com tanto fedelho sem formação que nem sabe resolver um problema e que não entende sequer metade do que lhes dizemos. Pior ainda, não aparece qualquer responsável para assumir as culpas e o mau serviço permanece mau, sem que se apurem responsabilidades e sem que se deixe de penalizar o cliente, que ainda por cima paga até bastante bem por um serviço péssimo e, pelo que me é dado ver, com tendência a piorar.

E, claro, não podia deixar de usar este texto para agradecer por continuarem a visitar a Voz, mesmo sabendo-a muda (não é Gaivina?). Já vos li a todos, mas não vou ter tempo para responder. A verdade é que esta situação com as Vozes já atrapalhou (demais) o início do meu fim de semana. E ainda ando às voltas com umas configurações. O meu sitemeter, por exemplo, escafedeu-se e levou junto o contador de visitas...

Fica, no entanto, aqui uma intenção declarada: para a semana cá me têm de novo a tempo inteiro. É que estou a morrer de saudades, porra!

2006-02-07

No entretanto...


aqui


Pulp - This is Hardcore



...deixo-vos uma música para aquecer as noites frias :)



(A ver se amanhã volto...)

2006-02-03

Gaivina


aqui


Perdeu-se na migração, ficou por cá com a invernia. Nunca fará ninho em terras de sequeiro. Construirá casa nas bordas de água, com calma, todo o tempo do mundo, com o cuidado dos grandes arquitectos. Na sua maturidade, sabe que nem todos os vôos merecem que se desbarate energias num fugaz ataque. Se chegar a hora de fazer o seu voo picado, ele o fará, não tenho dúvidas. Numa última conquista dos velhos céus conhecidos, por sobre os mares espumantes, rasando a terra perdida.

E, por entre as suas penas, pinta cenários e conta histórias que apelam ao lado marinheiro da vagabunda alma portuguesa.

2006-02-02

Pura ficção...


aqui

Hipatia também tinha os seus dias... Nessas manhãs em que a neblina envolvia todo o edifício da biblioteca, era quando ela se acercava da varanda para olhar a sua Alexandria. E como aquela cidade lhe tocava o coração!

Os pontões, rasgando o mediterrâneo, davam as boas vindas a tiremes vindas da Grécia, contendo talvez, novos “volumes” para o seu acervo. De qualquer forma, eram notícias daquele mundo mais culto, contrastando com o Egipto que se desfazia, aos poucos, numa sucessão de monarquias, revivendo o passado.

Nesses dias em que ela era apenas mulher, ficava contemplativa olhando o cálido mar entre os dois mundos. Hipatia entendera, desde muito nova, que aquela sucessão de três dias lhe roubava a intuição e o discernimento.

-E sempre aqueles homens, a acharem-se muito cultos, mas com o bafo das múmias, de volta dela, espiando um trecho de pele em cada voltear da sua túnica...

Estava farta, e no entanto, nesses dias, era muito mulher.

Como se pudera esquecer da sua fertilidade no meio daquela loucura de guardar as palavras dos outros em rolos de papiro cujo destino é criar poeira?

Uma série de escravos, bem instruídos, eram lestos na procura dos “Voluminae”, como diziam os romanos, mas eram brutos como camelos no deserto. Aliás, essa era a opinião que mantinha sobre os homens, embora aquela certeza fanfarrona lhe fizesse vibrar uma corda animal dentro dela.

“O melhor é deixar passar estes três dias, antes que vire leoparda do Sudão”. Pensou.

- Tragam-me aquele papiro desse pensador que nasceu antes do chato do Sócrates!

E o escravo lá se foi, perdendo-se na poeira da vasta biblioteca de Alexandria.

2006-02-01

Claro!

How You Are In Love

You fall in love quickly and easily. And very often.

You tend to take more than give in relationships.

You tend to get very attached when you're with someone. You want to see your love all the time.

You love your partner unconditionally and don't try to make them change.

You stay in love for a long time, even if you aren't loved back. When you fall, you fall hard.


(E não é assim que deve ser? Ok, ok... aquela parte do muitas vezes e a treta do dar menos do que recebo... E dai... pronto! Mais vale não dizer mais nada...)

2006-01-31

Brokeback Mountain


aqui


O preconceito está normalmente associado a uma atitude ignorante que dá origem a uma opinião ou a um conceito formado por antecipação, geralmente de forma precipitada, sem conhecimento ou análise profunda dos factos. É usado primeiramente para emitir opiniões irreflectidas, teimosas, sobre tudo o que é julgado como "diferente" ou "anormal" segundo os parâmetros de cada um, sendo que este "um" se encontra integrado num comunidade, também ela moldada e sociabilizada em função de preconceitos, figuras muito úteis para manter uma certa "ordem" na convivência dentro dessa comunidade. Antigamente até queimavam mulheres nas fogueiras por escaparem a essa tal "normalidade". Num contexto sociológico, implica normalmente o julgamento do "outro", do "desconhecido", do temido porque "diferente" ou temido por seguir "normas diferentes" das do sujeito. E, sim, envolve os medos de cada um, medos primários, a mais das vezes moldados pela sociedade em que nos inserimos, pela cultura e pela religião, no sentido de resguardar a "normalidade" social de tudo o que é diferente e, nesse sentido, visto como "anormal".

Eu tenho muito pouca paciência para quem julga - com ares de psiquiatra de livro de bolso - se outra pessoa é ou não mentalmente sã, especialmente se tal se prende numa avaliação imediata da sanidade de alguém em função das suas opções sexuais. "Sanidade mental" é um conceito para ser usado com cuidado, muito cuidado. Não é para ser arrebolado para um texto que mais não pretende que catalogar a capacidade mental de alguém em função da aparência ou da forma como vive a sua intimidade, especialmente a intimidade sexual.

Um dia destes, ainda acabamos todos mórmons do Utah, a julgar a "sanidade mental" do galinheiro pelo grau de histerismo das galinhas...

E se ser americano já me parece suficientemente mau, ser um mórmon do Utah parece-me profundamente intragável. Antes o meu Portugalinho cheio de defeitos, desde que ninguém dê ouvidos aos tais que se chamam liberais e de direita e mais o raio que os parta.

2006-01-30

And goodnight, Matilda, too




Tom Waits - Tom Traubert's Blues (Waltzing Matilda)

Não! Não queria ser feita de madeira e deixar de sentir dor. Ou deixar de sentir prazer. Ou o quente e o frio. Ou o áspero e o suave. Ou uma lágrima. Ou um sorriso...

Suponho que todos temos dias maus, doloridos, cheios de pormenores sórdidos ou demasiado tristes. E todos temos uma forma de lidar com eles. No meu caso, escrever é a forma de domar a negritude que, por vezes, quer tomar conta de mim.

Hoje não foi um bom dia. E está a precisar de mais um desabafo. Daqueles tristes, como às vezes trago por cá. Porque nem todos os dias são bons dias e nem sempre é possível falar, ou sequer chegamos a saber falar. Porque há dias mudos, de silêncios enlutados.

E quando já não há palavras? E quando por dentro só há negrume, uma cacofonia de sons imprecisos, ruídos que maceram, imprecisos ditongos sem sentido? E quando nada faz sentido? Quando só olhos marejados e não há sons? Só grossas lágrimas geladas, demasiado dolorosas, cravadas a dor num rosto disforme pelo tanto da perda?

E quando não temos nós palavras, nada faz sentido dizer, nada faz sentido dentro da nossa cabeça, quando corremos a pôr um ramo feito de flores mortas aos pés de um esquife de uma criança morta e uns olhos irados contra o destino, flagelados pelo real, nos transmitem o que nem sabemos racionalizar?

E não há palavras. Não há! Uma única que justifique que uma criança morra antes dos seus pais. Não há palavras!

Eu fugi hoje do silêncio. Sem respostas, sem sons, sem sentidos. Estou dormente ainda. E não sei o que dizer...

Há dias em que não sei ser feliz na escrita. Acho que tem a ver com os motivos porque escrevo. Escrevo para mim. Porque preciso. Porque não escrever deixa-me encarquilhada em sentimentos a precisarem de libertação. Porque é quase uma necessidade física. Escrevo em busca de alívio, como panaceia. Escrevo para poder continuar a ser uma pessoa contente. Escrevo como um grito. E hoje só tenho vontade de gritar.

Ter leitores desse lado, com a palavra certo e o encanto da partilha é o bónus. Saber-me aqui escondida entre iguais é a surpresa que nem pensei que estaria ao meu alcance. Não tenho tempo, nem vontade, para gerir mais do que isto e, ainda assim, há um isto assim grande. E sinto-me profundamente egoísta pelo tanto que recebo em troca de tão pouco..

E hoje grito aqui o que não gritei quando devia. E é quase como se soubesse que aqui também faz sentido, porque, desse lado, alguém saberá gritar comigo.

Moi?

What Your Underwear Says About You

When you're bad, you're very bad. And when you're good, you're still trouble!

You're comfortable in your own skin - and don't care to impress anyone.


Bad? Trouble? Como é possível ter dado um resultado destes? Toda gente sabe que sou um anjo...

2006-01-29

Na terra dos sonhos


(resposta ao desafio da Elipse)


No país dos sonhos, estavam sentados lado a lado e falavam de tudo com bonomia. Amordaçavam o espaço que os separava com grinaldas de sorrisos e contavam segredos como se nada os fizesse divergir.

No país dos sonhos, ouviam Jorge Palma a falar da terra que há-de ser sobre a terra que nunca pode vir. E alimentavam-se de palavras, que eram sempre o bastante para encher a barriga e não havia contas, nem filhos, nem patrões, nem desconcertos e desgovernos e eleições.

E ficavam na terra dos sonhos sempre que queriam fugir. Estão lá ainda, lado a lado, sentados nas suas cadeiras brancas, a ver a manhã branca a florir radiosa nos seus tinta graus à sombra e o chapéu de sol emprestado pela vizinha.

Fugiram para lá ontem e não querem regressar. No hoje, há uma mesa de permeio e uma zanga sem fim. E há contas para pagar e desgovernos e inflação. E faz frio. Demasiado frio para ainda sobreviverem os sonhos.

2006-01-28

Quando a Voz...


aqui


A minha mãe fala. Tem uma voz de veludo, macia.
O meu pai, fala lá do fundo com o som das coisas sérias.
Quando a minha mãe ri, parece que no quintal esvoaçam mil pombas.
Quando o meu pai se ri, acorda o mais profundo, que está para acontecer..
Quando a minha mãe chora, fico com medo e agarro-me a ela com braços de vida.
Quando o meu pai chora, faço-lhe festas nos cabelos e vejo nele um homem único.
Quando a minha mãe conta histórias na noite, saem-lhe flores pela boca e durmo agarrada ao seu perfume.
Quando o meu pai me conta histórias, elas tornam-se reais e as suas invenções ficam a viver, para sempre, no meu quarto, ao lado dos brinquedos.
Quando me acorda, a voz dele é doce e sem tempo.
Quando ela me acorda, traz palavras apressadas anunciando o primeiro beijo do dia.
Mas as suas vozes pela manhã sabem sempre a café com leite.
Quando a minha mãe sussurra, os segredos ficam guardados para sempre.
Quando ele me diz alguma coisa ao ouvido, toda a gente de lá de casa fica a saber.
Quando a minha mãe espirra, parece um passarinho a piar.
Quando o meu pai espirra, acorda todos os pássaros lá do bairro.
Quando eles dizem que sou bonita, o som é igual mas com sabores diferentes.
Como gosto das diferenças.
E eu? Qual será a minha voz?


Apeteceu-me comemorar a minha entrada para o "Vozes", com este pequeno textos para crianças....

2006-01-27

Neblina


aqui (vale a pena ver toda a colecção na página de Richard Cooper)


Eu sou do Porto das neblinas. E essas são as cores do Porto que mais amo.

Escrever é, no fundo, lutar contra as minhas neblinas, exorcizá-las, tentar encontrar um rumo para a voz. É também um compromisso: o que sei, o que consigo.

Pesa-me quando me obrigam a ficar calada, presa numa nuvem de silêncio que não escolhi. Todo o dia fica nublado. E quero apenas o raio de sol que vence as nuvens; ou um relâmpago vigoroso e irado. Ou o grito que me apetecia hoje, ao ver esta máquina infernal a condenar-me aos silêncios.

Pintem-me os dias de nuvens baixas, ou de nuvens altas, ou de breves fogachos de vapor que o aquecer do dia manda embora. Mas não me pintem os dias dos silêncios sem palavras, nuvens tormentosas que não fazem parte do meu cenário encantado.

Orgulho e Preconceito


Congratulations,

you're Mr. Darcy! Though you seem reserved or aloof in public, once people see the real you, they can't find a single bad thing to say. You should be yourself more often! Also, like your counterpart Elizabeth, you tend to jump to conclusions about people, so avoid those preconceived notions and happiness shall be yours! Please invite me to Pemberley sometime...


Which Character from Pride and Prejudice Are You?
brought to you by Quizilla


Mr. Darcy só há um; o Colin Firth e mais nenhum!

Telegrama


(recebida por mail)


Disco duro às portas da morte. Aguarda salvação ou enterro definitivo. Dona de disco vai meter-se à cama, que já arranjou o remédio para a gripe.

2006-01-25

A culpada!


aqui


Não podia deixar de aproveitar o dia de hoje para contar a todos quem é a grande culpada por me aturarem aqui pela Voz. E dizer ainda que o blogue da Vanus faz hoje dois aninhos.

Parabéns, miga!

Outra vez!


aqui


Este ano a gaja não me larga! Será que tenho ar de passarinho? Ou será que, à conta do post da fé, querem fazer-me acreditar que "três foi a conta que Deus fez"? Irra!

2006-01-24

Festa!


aqui


A partir de hoje, o Gaivina é membro da Voz em Fuga.

Já não és o "sem blogue" e, como podes ver, não te dei escolha, Gaivina. Tens os dados no e-mail. Toca a escrever!

2006-01-23

Jugo


aqui


Parece que já passou. Que já está. Que posso descontrair agora. Queria saber como deixar este pesadelo esvair-se de dentro de mim. Precisava chorar, talvez. Ou rezar, quem sabe. Precisava arranjar uma forma para empurrar goela abaixo este fel que teima em queimar-me a garganta. Escorre por mim o desgaste do dia, da semana, do mês. Começo agora a tentar poisar os pés no chão, cansada das correrias, exaurida do medo, a tentar pôr em ordem o trabalho que fui deixando a reboque da vida. Os pés recordam-me as asneiras, as noites mal dormidas, o rigor na alimentação esquecido. Que quando o espaço é de quem gosto, esqueço-me facilmente de mim. A pancada vem sempre à posteriori. Reagi, levei tudo à frente, resolvi, acertei, pus em ordem. Depois, muito depois, quando já nem há motivos, o mundo cai-me em cima da cabeça. E estou muito cansada...

Tirando as palavras, não tenho mais refúgios. E é nestas alturas que me custa tanto não ter fé para acender uma qualquer vela, sussurrar uma qualquer prece e esquecer.

Olha quem faz aninhos!


aqui



Teddy Thompson & Rufus Wainwright - King of the Road



Pensavas que me esquecia? É só mais um, Mary John. Não dói nada ;)

Espero que seja um dia "fabulástico"!

Beijo grande de parabéns :)




(que tal a "tangueta"?)

2006-01-22

Macacos à solta


Júlio Pomar



Vila de Sintra 10 horas da manhã. De repente, o telefone da esquadra da Portela começa a soar freneticamente. Pouco depois surgiu a ordem de serviço. A presença da autoridade era requisitada. O caos tinha-se instalado no centro da vila, repleta de gente. Toda a zona do Palácio até à estação dos comboios tinha sido invadida …por macacos.


Bem, tudo começou na minha loja de animais domésticos, ali bem ao lado do Museu.


João, o meu empregado, notou que um dos nossos belos macacos ficara com o punho preso no arame que fechava a gaiola onde o bicho estava encerrado. João abriu a porta da gaiola e libertou o nosso amiguinho, que, prontamente, saiu a correr. Antes que se desse conta, mais dezanove macacos, matraqueando excitadamente, seguiram o seu líder até ao centro da sala. Os macacos mantiveram um breve conselho de guerra. Pareceram decidir que seria injusto deixarem os seus amigos em cativeiro. Num ápice, abriram as outras quatro gaiolas. Mais oitenta macacos se juntaram ao grupo libertador, no centro da sala.


O João tentou desesperadamente agarrar alguns deles…Tarefa impossível. Um pestinha esperto abriu a porta da sala, encontrando o caminho que levava ao saguão. Aí, as escadas de emergência conduziam a uma janela aberta…à Liberdade. E cem macacos barafustastes subiram pela escada acima até ao telhado.


Naquela manhã, o senhor Almiro, dono de uma mercearia próxima, mostrava a sua mercadoria à Dona Isaltina, cliente habitual e difícil, mas para quem tinha encontrado uma forma hábil e frágil de lhe enfiar os produtos que vendia. Nisto, um bando de macacos entrou ruidosamente pela porta do estabelecimento, lançando-se directamente à secção de frutas, provocando um grito agudo na fiel cliente: Ai Santa Maria da Agrela que não há ninguém tão santa como ela! É evidente que todo stock de bananas desapareceu rapidamente. Também se esvaneceu correndo Dona Isaltina pela rua abaixo.


O senhor Almiro que não é homem de perder a cabeça, fechou a porta da loja e toda e qualquer saída daquele lugar. Quarenta minutos depois, com a ajuda da autoridade, ele e os quarenta macacos foram removidos sãos e salvos.


Não sei se vocês sabem, Sintra tem uma Academia de Música; nessa bela tarde de Outono estava a funcionar. O professor, velho e batido na arte de lidar com crianças, tentava ensaiar os seus alunos para o espectáculo a ter lugar lá pelo natal. Conseguira aquietar vinte e sete meninos cantores. Fez soar o diapasão, levantando o dedo para marcar o compasso, quando um dos meninos irrompeu numa risada.


- Hi! Hi! Hi! Desculpe-me Soutor. Mas está um macaco em cima do piano.


Claro que está! Um minuto depois estavam quatro meninos em cima do piano. Mas o macaco estava agora pendurado no candelabro da academia. Outro macaco balançava-se alegremente na cortina de veludo vermelho.


O ensaiador do coro manteve-se calmo. Já lidava com crianças há muito tempo, uma dupla de macacos era coisa de somenos. Organizou os meninos em grupos utilizando a capa do piano e das poltronas. Em poucos minutos, os macacos que não podiam competir com os meninos, foram capturados e amarrados nas capas.


Na mesma rua há um quartel de bombeiros e, naquela manhã, estava tudo calmo e sereno.


No pátio jogava-se à bola e, lá em cima quatro bombeiros jogavam à sueca.


- É a tua vez, joga lá a carta! - Disse um dos jogadores impaciente. – Para onde é que estás a olhar?


O outro bombeiro abanou a cabeça como se quisesse clarificar as ideias.


- Acabam de passara a correr cinco macacos. E um deles levava uma bola!


Aí começou a confusão!


Entraram dois bombeiros danados.


- Quem é que roubou a nossa bola?


Nesse momento, todos os chuveiros do balneário foram ligados no máximo. Um bombeiro correu a ver o que se passava. Ficou parado, petrificado, olhando a cena: dez macacos a tomarem banho de chuveiro. Foi uma correria dentro do quartel. Agarra esse macaco! Pega pelo rabo! Aquele está agarrado ao extintor, meu Deus!


Nisto soa o alarme. Os homens correram para os seus lugares no carro: o mesmo fizeram os dez macacos.


Os bombeiros não tiveram de ir muito longe. Tinha sido uma chamada da Periquita, onde era necessário um laço para retirar uns macacos que insistiam em comer queijadas no alto dos armários. Mas quando os bombeiros chegaram ao local, o dono da loja abanou a cabeça dizendo:


- Não é possível, eles estão a trazer mais!


Ah! Acabei por receber todos os meus macacos de volta…Três meses depois…
Bem…Quer dizer…
Menos um…
Esse foi visto a última vez de mão dada com um pintor chamado Júlio.

Dizem até, que vive por lá no atelier dele…



Gaivina



(e pronto! siga a marinha, que o exército está bêbado!)

Parece que...


por BZ, "roubada" no Substrato

...vamos ter de gramar o gajo.

O Desejado já não pode vir


Óleo de Carlos Alberto Santos

É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.

Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.

Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.

Manuel Alegre - Abaixo el-rei Sebastião


Que mania esta nossa de, em cada geração, inventarmos mais um D. Sebastião! E continuamos a construir um País de miragens, com Desejados que nunca o são. Salvadores da pátria de pés de barro, boca aberta para o tédio e a frustação. Matemos em nós o Encoberto! O Desejado já não há-de vir. Nunca veio, afinal.

2006-01-21

Optimismo


aqui



Forrest Gump Theme - Alan Silvestri


"Life is like a box of chocolats"... Nunca sabemos qual é o recheio até o provarmos. Era qualquer coisa assim que dizia o Forrest Gump, não era? E faz sentido. Especialmente porque, se afastarmos todas as surpresas do caminho da vida, então apenas teremos a monotonia como miragem. Espero conseguir, por muitos anos ainda, encontrar em mim essa capacidade para me maravilhar com o desconhecido e o inesperado.

E é por isso que não acredito em vitórias apenas anunciadas.

Dias de reflexão


Sempre achei piada a estes dias de reflexão. Na sexta-feira até às 23:59 é um rodopio nas rádios e televisões a transmitirem os últimos comícios. De súbito começam as notícias da meia-noite e parece que viajámos no tempo. Fala-se de outras coisas, aparecem notícias de géneros normalmente afastados dos alinhamentos. Hoje durante o dia, toda a gente pensa numa coisa, mas não é falada. É quase como uma véspera de Natal: a antecipação dos presentes, sem poder rasgar um pedacito do papel de embrulho.


Vinha para escrevinhar qualquer coisa sobre o dia de hoje. Mas, como de costume, já
alguém o disse muito melhor do que eu.

2006-01-20

Como é que é?


(recebida por mail)


Será que estavam a usar o teu tradutor, Riquita?

(desculpem o atraso)


Ivo Jeremias


Mais uma preciosidade do Ivo. Uma que já devia estar cá há mais tempo. Mas antes tarde do que nunca, certo?

(É que este blogue também é teu, Gaivina)

Vintage


aqui


Há muito muito tempo, quando os dias eram assim frios, as manhãs até doíam e as noites nos apunhalavam os pescoços com dedos gelados, a 125 não era opção para os passeios que teimávamos dar. Mas o carro do pai era a moeda de troca de todas as boas acções que não queríamos fazer, de todo o comportamento padronizado que nos fazia rebelar.

Lembro-me de juntarmos cada tostão. Dos cigarros que deixamos por fumar, das vezes em que o almoço de um serviu para dois, dos copos que não fomos beber com os amigos, numa fúria compulsiva de poupança. Cinco contos, dez, trinta, cinquenta e sete… e fomos às compras.

Com orçamento reduzido e sem grandes pretensões, deu-nos o dinheiro à justa para comprar um mini amarelo. Estava podre, cheirava a mofo, só andava depois de aquecer e de muitas manobras com o "ar". Havia inclusive uma fuga qualquer de água quente junto aos pés do passageiro, que nunca quis investigar com medo do que pudesse descobrir.

Mas foi nesse carro que aprendi a conduzir. Como foi o carro que me ensinou o quanto custa empurrar, cada vez que lhe dava uma frescura e parava no meio de lugar nenhum, quase sempre baixo uma torrente de chuva fria e com água quase pelos joelhos. E com ele parti à aventura em tardes mansas, quando era suposto estar na escola, pelo meio dos caminhos perdidos, em lugares onde até Judas perdeu as botas.

Não há muitas coisas de que tenha saudades desse tempo em que dependia da semanada para fazer fosse o que fosse. E, no entanto, o dinheiro parecia chegar para quase tudo. Mas tenho umas saudades tremendas de um mini amarelo a cair de velho, com ferrugem e a espuma dos assentos à vista. Eram quatro paredes e um tecto sobre rodas. E eram nossas.

2006-01-19

Respondendo a um desafio

You've been lying in bed for a week now
Wondering how long it'll take
You haven't spoken or looked at her in all that time
It's the easiest line you could break

She's been going about her business as usual
Always with that melancholy smile
But you were too busy looking into your affairs
To see those tiny tears in her eyes

Tiny tears make up an ocean
Tiny tears make up a sea
Let them pour out, pour out all over
Don't let them pour all over me

How can you hurt someone so much your supposed to care for
Someone you said you'd always be there for
But when that water breaks you know you're gonna cry, cry
When those tears start rolling you'll be back

Tiny tears...

You've been thinking about the time, you've been dreading it
But now it seems that moment has arrived
She's at the edge of the bed, she gets in
But it's hard to turn the opposite way tonight

Tiny tears...



Cá está ela... A música das músicas, a que foi a "minha música" tantos anos que lhes perdi a conta. E a voz do Stuart e a pose em cima do palco, por entre o fumo de cigarros sucessivos. E a companhia, as companhias... E as viagens, Vilar de Mouros, Coimbra, Lisboa, onde calhasse sabe-los. E saber ainda que era mais um concerto que não podia perder...

Mesmo lágrimas pequenas fazem um oceano, fazem um mar. Mesmo quando se ama muito alguém, conseguimos magoar. E o tempo que já não há para o nosso bem-querer, tempo que se desperdiça em acasos e programas e ocupações e uma agenda sempre demasiado ocupada para aquilo que verdadeiramente importa.

Mesmo as lágrimas pequenas fazem um oceano, fazem um mar.

E é então que, como que num lampejo, nos resolvemos a olhar, olhar mesmo, o que está ali debaixo do nosso nariz e há demasiado tempo não éramos capazes de ver. Porque há dias em que nos é impossível olhar para o outro lado, já que o risco de nos perdermos a nós mesmos é intolerável.

Até as lágrimas pequenas são salgadas. Até as lágrimas pequenas fazem um oceano, fazem um mar.

E, por sorte – uma sorte maravilhosa, a que nos esquecemos de dar valor – nem todas as lágrimas pequenas, as tais que fazem um oceano, que fazem um mar, são lágrimas de tristeza.


(em forma de "repost", que não tenho tempo para mais)

Para além da net...



aqui


Já cá ando há algum tempo e até já me atrevi, várias vezes, a ver caras que estão por trás de nicks. E a deixar ver a minha. De cada vez que uma dessas oportunidades surge, sinto um nó no estômago, porque não sei – nunca se sabe – como vai ser. Se vou gostar e fortalecer uma amizade; se vou perder um amigo.

Sempre entendi os meus nicks como bonecos que transporto comigo para, umas vezes, passar uma opinião; outras, um simples estado de humor. Alguns bonecos estão mais próximos do que sou; outros estão mais longe. Todos são uma parte de mim, mas não a totalidade. Um deles, achei que era demasiado "eu" e quase deixei de o usar. Às vezes, apetece-me uma "roupa nova" e surge mais um... Sem grandes traumas que logo me identificam. Porque, através destas "roupagens", iniciei laços de amizade e, quando tal acontece, torna-se fácil saber quem escreve como e sobre o quê, a forma como o faz. Também é verdade que umas pessoas têm mais jeito do que outras para detectives de nicks e que a informação corre depressa por aqui...

Mas, muitas vezes, os laços virtuais não chegam. Por isso arrisquei mais e atrevi-me ao contacto físico. Foram sempre surpresas... Isso agrada-me, porque quer dizer que os "meus bonecos", apesar de tudo, funcionaram e acho que sempre consegui surpreender de alguma forma e nem sequer falo de aparência física. Eu não acertei em quase nada do que imaginei dos outros. Também me agrada, porque a novidade surge com ar de complementaridade, traz riqueza aos laços que se estreitam. Algumas pessoas que cirandam por este espaço são minhas amigas agora. Amigos que quero manter. Já não são só nicks. Têm nome próprio e aparência física e ocupam espaço no meu coração.

Mas também há alguns nicks que penso que não quero conhecer e nem falo de pessoas com quem ainda não estabeleci laços de amizade virtuais. Tenho medo, muito medo, que se perca a magia, porque há "namoros" que só aqui fazem sentido. A alguns, tenho medo de desiludir, pelo que esperam de mim, por aquilo que posso não ter capacidade para ser; outros, não quero conhecer por puro egoísmo, porque gosto de os imaginar "à minha maneira" e tenho medo, muito medo, que não sejam o que espero; outros, ainda, porque temo gostar mais da pessoa do que do boneco e a crítica ao texto nunca mais possa ser destituída de elogio à pessoa. E o contrário também é válido.

E isto vem a propósito do quê? Bem, o mês passado fui "descoberta" por um amigo. Ainda não percebi como, que nem sabia que frequentava os blogues. E agora sinto (ainda) mais a falta de o ler...

Que dia!


aqui

E, agora, vou finalmente dormir!!!


(amanhã tento pôr as "conversas" em dia... er... quero dizer, hoje... bem, às tantas é mesmo amanhã... ai o caracinhas!!!!)

2006-01-18

Sentidos


aqui


A perda de um sentido será sempre uma amputação, mesmo que o corpo – e a mente – cedo lhe arranjem o substituto possível e o engrandeçam.

Se grandes pavilhões auriculares e bocas musculadas fossem a realidade conhecida, não se levantariam questões. Mas a natureza fez-nos com mais sentidos para dar mais cor – e sabor, e cheiro e sensações e paladares– a todos os diálogos.

E eu, que me esforço aqui para comunicar só por palavras, não esqueço que miro um écran e que são os meus dedos que teclam. Como não esqueço que sonho a cores. Como não esqueço que, quando ouço música, fecho os olhos e imagino aromas e gostos e sensações e imagens...

Estou feliz por ter todos os sentidos activos, mesmo que empobrecidos por, cada um deles, ao lidar com o ruído que os outros provocam, não ser a única forma possível do meu eu se situar no espaço e no tempo...

2006-01-17

Miminhos


Coil - Cardinal Points

O post que dedico a este e a este senhores, à conta de uma troca de mimos :)

Junto-me à corrente



Visto aqui, aqui e em mais alguns sítios, que não recordo agora :))



(Espumante, pode parecer, mas não foi de propósito... bem, quase nada :))

Pois está muito bem!


aqui




E até mereces os parabéns! Eu vou lamentando não ser da espécie que precisa de ter qualquer coisa direita para se sentir acrescentada...


PS - Não arranjei nenhuma ruiva sardenta para dar os parabéns. Alguma coisa contra morenas?