2013-02-08

E as crianças, Senhor?

CARTA A MINHA MÃE SOBRE O SNS E OUTRAS COISAS EM PORTUGAL



por Teresa Pizarro Beleza*


«"Mãe, sabes que agora em Portugal mandam uns senhores que estão a dar cabo do Serviço Nacional de Saúde? E que dizem que é por causa de uma tal de troika, que agora manda neles? Lembras-te da "Lei Arnaut", que, segundo ele mesmo diz, tu redigiste, depois de muito pensares e estudares sobre o assunto, com a seriedade e o empenho que punhas em tudo o que fazias?



Lembras-te das nossas conversas sobre a necessidade de toda a gente em Portugal ter acesso a cuidados de saúde básicos de boa qualidade e de como essa possibilidade fizera em poucos anos baixar drasticamente a mortalidade materna e infantil, flagelos nacionais antigos, como uma das coisas boas que se tornaram realidade depois de 1974 e com a restauração da democracia?



Lembras-te de quando eu te dizia que eras tão mais socialista do que "eles", os do Partido Socialista, e tu te zangavas porque não era essa a tua imagem e a tua crença?



E quando eu te dizia que o ministro António Arnaut era maçon e tu não acreditavas, porque ele era (e é) um homem bom - e para ti a Maçonaria era a encarnação do Diabo...



Mãe, tu, que te dizias e julgavas convictamente monárquica, católica, miguelista, jurista cartesiana (isso era o que eu te dizia e que penso que eras, também), que conhecias a Bíblia e Teilhard de Chardin como ninguém e me ensinaste que Deus criara o homem e a mulher à Sua imagem, quando pronunciou o fiat, porque assim se diz no Génesis...



Tu que dizias que o problema dos economistas era que não tinham aprendido latim... e me tiravas as dúvidas de português e outras coisas, quando me não mandavas ir ao dicionário, como agora eu mando o meu Filho...



Tu que foste o meu "Google", às vezes renitente, quando este ainda não existia... Sabes que agora manda em Portugal gente ignorante e pacóvia, que nem se lembra já de como se vivia na pobreza e na doença, que julga que o Estado se deve retirar de tudo, incluindo da Saúde, e confunde a absoluta e premente necessidade de controlar e conter o imenso desperdício com a ideia de fechar portas, urgências claramente úteis social e geograficamente...



Sabes que fecharam o Serviço de Urgência e o excelente Serviço de Cardiologia do Hospital Curry Cabral sem sequer prevenirem ou consultarem o seu chefe? Onde irão agora todas aquelas pessoas tão claramente pobres, vulneráveis e humildes que tantas vezes lá encontrei e que não pareciam capazes de aprenderem outro caminho, outro destino, de encontrarem outros dedicados e pacientes "ouvidores"?



Sabes que um ministro qualquer disse que o edifício da Maternidade Alfredo da Costa não tinha qualquer interesse urbanístico ou arquitectónico, para além de condenar ao abate essa unidade de saúde, com limitações já evidentes, mas que tão importante foi para tanta gente humilde ter os seus filhos em segurança? Será mesmo que não a poderiam "refundar", como agora se diz? Ou quererão construir um condomínio fechado, luxuoso e kitsch, no meio de uma das minhas, das nossas cidades?

Lembras-te de me ires buscar à MAC quando nasceu o meu Filho e de como te contei da imensa dedicação do pessoal médico e de enfermagem e da clara sobre-representação de parturientes de origem social modesta, imigrantes, ciganas, ou simplesmente pobres?


Sabes que há muita gente que pensa que a iniciativa privada, incontrolada e à solta, é que vai salvar Portugal da bancarrota, e que ignora o sentido das palavras solidariedade, justiça, igualdade, compaixão?



Sabes, Mãe, eu lembro-me de ver pessoas que partiram de Portugal para o mundo em busca de trabalho e rendimento a viver em "casas" feitas de bocados de camioneta, de restos de madeira, de cartão e outros improváveis e etéreos materiais, emigrantes portugueses que foram parar ao bidonville em St Denis, nos arredores de Paris, num Inverno em que a temperatura desceu a 20 graus Celsius abaixo de zero (1970). Nas "paredes", havia toda a sorte de inscrições contra a guerra colonial e contra o regime que então reinava em Portugal.



O padre Zé, o nosso amigo da Mission Catholique Portugaise que me acompanhava e me quis mostrar o bairro, proibiu-me de falar português e de sair do carro enquanto ali passávamos... e aqui em Portugal eu vi tanta miséria envergonhada, homens de chapéu na mão a pedir emprego, mulheres e crianças a pedir esmola, apesar de todas as leis e medidas que o Estado Novo produziu para as esconder, como já fizera a Primeira República.



A pobreza e a vadiagem não se eliminam com Mitras e medidas de segurança, mas com produção e distribuição de riqueza e de justiça social. Com a promoção da igualdade e da solidariedade, como manda a Constituição.



E a Saúde, Mãe, que vão fazer dela? Da saúde dos pobres, dos velhos, das crianças, dos que não têm nem podem ter seguros de saúde de luxo, porque não têm dinheiro, porque já não têm idade, ou porque não têm saúde?



E as crianças, Mãe? Vão de novo morrer antes do tempo porque o parto foi solitário ou mal assistido, porque a saúde materno-infantil passou a ser de novo um bem reservado a alguns privilegiados, ou porque a "selecção natural" voltará a equilibrar a demografia em Portugal, recolhidas as mulheres a suas casas, desempregadas e de novo domesticadas, e perdida de novo a possibilidade de controlo sobre a sua própria fertilidade?



O planeamento familiar, que tu tão bem explicaste que deveria segundo a lei seguir a autonomia que o Código Civil reconhece na capacidade natural dos adolescentes - tu, católica, jurista, supostamente conservadora (assim te pensavas, às vezes?)...



Sabes que aqui há tempos ouvi uma jurista ignorante dizer em público que só aos 18 anos os jovens poderiam ir sozinhos a uma consulta de planeamento familiar, quando atingissem a maioridade, sem autorização de pai ou mãe? Ai, minha Mãe, como a ignorância é perigosa... Será que nos espera um qualquer Ceausescu ou equivalente, dado o progressivo estrangulamento político e social a que a necessidade económica e a cegueira política nos estão levando?



Os traços fascizantes que são visíveis na repressão da liberdade de expressão e de manifestação, em tudo tão contrários à Constituição da República, serão só impressão de uns "maníacos de esquerda", como dizem umas pessoas que há tão pouco tempo garantiam que essa coisa de esquerda e direita era coisa do passado?



Mas as crianças são o futuro, Mãe, que será deste país sem elas, sem a sua saúde e sem a sua educação, sem o seu bem-estar, sem a sua alegria? Eu lembro-me tão bem dos miúdos descalços e ranhosos nas ruas da minha infância... e da luta legal, tão recente ainda, quem sabe se perdida, contra o trabalho clandestino, ilegal e infame das crianças a coserem sapatos em casa, a faltarem à escola, a ajudarem as famílias, ainda há tão pouco tempo, ou dos miuditos com carregos e encargos maiores que eles, à semelhança das mulheres da carqueja a subirem aquela rampa infame que Helder Pacheco, o poeta-guia do nosso Porto, tão bem descreve...



"Que quem já é pecador sofra tormentos, enfim! Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?!... Porque padecem assim?!..."



Mãe, se agora cá voltasses, ao mundo dos vivos, acho que terias uma desilusão terrível. Melhor que não vejas o que estão fazendo do nosso pobre país.



Da tua Filha, com muita saudade,



Maria Teresa"



Ericeira, Portugal, Europa, dia 31 de Dezembro de 2012»



* Professora de Direito Penal, directora da Faculdade de Direito da
Universidade Nova de Lisboa. tpb@fd.unl.p



2013-02-02

Inverno

2013-02-01

meus dias quebrados na cintura

Os navios existem, e existe o teu rosto 
encostado ao rosto dos navios. 
Sem nenhum destino flutuam nas cidades, 
partem no vento, regressam nos rios. 

Na areia branca, onde o tempo começa, 
uma criança passa de costas para o mar. 
Anoitece. Não há dúvida, anoitece. 
É preciso partir, é preciso ficar. 

Os hospitais cobrem-se de cinza. 
Ondas de sombra quebram nas esquinas. 
Amo-te... E entram pela janela 
as primeiras luzes das colinas. 

As palavras que te envio são interditas 
até, meu amor, pelo halo das searas; 
se alguma regressasse, nem já reconhecia 
o teu nome nas suas curvas claras. 

Dói-me esta água, este ar que se respira, 
dói-me esta solidão de pedra escura, 
estas mãos nocturnas onde aperto 
os meus dias quebrados na cintura. 

E a noite cresce apaixonadamente. 
Nas suas margens nuas, desoladas, 
cada homem tem apenas para dar 
um horizonte de cidades bombardeadas. 

Eugénio de Andrade - Palavras Interditas, in Poesia e Prosa

2013-01-21

É tentar...

Just Try by Soulsavers on Grooveshark

You came to me with open arms
To take away my fears
I took you in and you stayed a while
You lived with me right here

You told me to believe in something
Something that's true
Like the mountains and the deep blue ocean
So much bigger that you

You said: Just try
Come on, just try
Just try
Just try

Just try

I offered you a place to stay
Somewhere to rest your head
The Lord knows I need you here
There were something you said

You'll have to believe in something
Something bigger than you
Like the great white open spaces
There's religions too

She said: Just try
Come on, just try
Just try
Just try

Just try

You gave me more than I deserved
You gave me peace
You gave anything i loved in this world
And now I have to sleep

Just let me sleep...

Just try
Just try
I have to sleep
Just try
Just try

2013-01-15

Haiti




No passado dia 12 completou-se mais um ano desde que um terremoto destruiu o Haiti. Esta é uma das formas possíveis de o recordar.

2013-01-13

Chega!

«a Constituição não está suspensa e qualquer organização internacional, mesmo os nossos credores, têm de ter respeito pelas instituições democráticas de qualquer Estado soberano.» 

António Arnaut à Lusa, 09-01-2013

A democracia não pode ser imposta. É sufragada. Por mais que reconheça a necessidade de mudanças, não quero uma constituição rasgada e substituída por um qualquer rascunho mal amanhado de quem nem sequer é português. Ainda somos um Estado de direito, por mais que a justiça dê as suas curvas.

2012-12-29

Parabéns, miga!



"Our flag still waves in the dusk
Who do you trust?"

Há músicas - ou bandas - que associo a pessoas imediatamente. Os Spain já foram qualquer coisa que só "de janela aberta". Mas depois o tempo passa - passa sempre! - e as janelas continuam abertas, mas já não para o precipício. Hoje esta é para a minha amiga.

Zachary Cale & The Black Swans

Tertúlia Castelense - 22 de Novembro de 2012

2012-12-21

O fim do mundo




Se o mundo ainda acabar até à meia-noite, o mais certo é já apanhar-me a dormir. Podem avisar o São Pedro que a nuvem tem de ser confortável e, se é para ter anjos por vizinhos, então quero um vizinho tipo Metatron, versão Alan Rickman. Vale?

2012-12-16

Feios, Porcos e Maus




«There is little doubt that America has a serious and growing problem with mass shootings. There have been at least seven this year where four or more people have been killed. Added together they have claimed a total of at least 65 lives. But those numbers pale in contrast to the simple toll of shooting victims that plays out across America every single day in a regular parade of gun violence.

According to the Brady Campaign, which advocates gun control, around 100,000 Americans are wounded or killed by guns each year. One of its studies showed US murder rates are almost seven times higher than rates in 22 other populous high-income countries who have similar rates of lower level crime. The same study showed that America's firearms homicide rate is almost 20 times higher.

Yet despite the violence the US Congress has not enacted any major firearms regulations other than a law aimed at improving state reporting for federal background checks. Indeed, regulations have actually loosened over the last decade as a 1994 assault-weapon ban expired in 2004. Most of the current debate in American policy circles has actually been around the issue of expanding citizens' rights to carry firearms openly in public.»

Paul Harris

Entrar numa caixa de comentários de uma qualquer notícia sobre o massacre de Sandy Hook deixa-me chocada e enojada com a maioria das opiniões expressas. Para muitos, não é preciso reforçar as leis de controlo de armas; para muitos, o que estava bem é que cada americano, incluindo cada criança, tivesse uma arma para assim poder defender-se. É uma mentalidade totalmente contrária a qualquer lógica suportada pelas evidências e os números. Tirando o maluco da Noruega, quando se fala em massacres, de que País nos lembramos, que casos somos capazes de nomear? Quantos aconteceram depois das reacções chocadas a seguir a Columbine? Que gente é aquela que resolve tudo a tiro, como se ainda vivesse no far west e todos fossem apenas feios, porcos e maus?

2012-12-12

Rascunho



Tripeira, sem tento nas letras nem açaimo nos dedos, há dias em que chego ao final da tarde e só me apetece pintar páginas de palavrões para lavar a alma do descalabro da vida que nos sobra da labuta. E exclamo sem dó, com um enfático ponto respectivo e vernáculo condizente. "Em que estás a pensar?", pergunta-me a caixinha da moda. Ninguém quer saber realmente. E o rol de obscenidades com que me apetece sempre responder à pergunta tem sido tamanho que a lista de palavrões já não caberia no espaço diminuto de um final de tarde cansado ou na tal caixinha enfezada e coscuvilheira. A crise tão nem trazido o melhor de mim! E há gritos que engulo e, na garganta, ganham um granulado de fel que me enoja. Acabo por não dizer. Não, ninguém quer mesmo saber em que estou a pensar...

2012-12-05

coisas que não ouvia há muito tempo...



Cuando tú apareciste, 
penaba yo en la entraña más profunda 
de una cueva sin aire y sin salida. 
Braceaba en lo oscuro, agonizando, 
oyendo un estertor que aleteaba 
como el latir de un ave imperceptible. 
Sobre mí derramaste tus cabellos 
 y ascendí al sol y vi que eran la aurora 
cubriendo un alto mar de primavera. 
Fue como si llegara al más hermoso 
puerto del mediodía. Se anegaban 
en ti los más lucidos paisajes: 
claros, agudos montes coronados 
de nieve rosa, fuentes escondidas 
en el rizado umbroso de los bosques. 
Yo aprendí a descansar sobre tus hombros 
y a descender por ríos y laderas, 
a entrelazarme en las tendidas ramas 
y a hacer del sueño mi más dulce muerte. 
Arcos me abriste y mis floridos años, 
recién subidos a la luz, yacieron 
bajo el amor de tu apretada sombra, 
sacando el corazón al viento libre 
y ajustándolo al verde son del tuyo 
Ya iba a dormir, ya a despertar sabiendo 
que no penaba en una cueva oscura, 
braceando sin aire y sin salida. 
Porque habías al fin aparecido. 

Retornos del amor recién aparecido - Rafael Alberti

2012-12-02

2012-11-15

E quanto à polémica do dia...

foto: RAFAEL MARCHANTE - REUTERS


... só tenho uma perguntinha: quem atirou a primeira pedra?

2012-11-02

Só a mim!

fonte 

A amiga é roubada e eu é que levo música da polícia! Sim, que fiquei a saber que naquela esquadra há muitos agentes solteiros que de certeza não se importavam de ir beber um copo com as meninas, ou até mesmo o Sr Agente casado, que também era capaz de ir, caso não estivesse de serviço. No entretanto, como nenhum de nós gosta do Cavaco, dos impostos, do Passos Coelho, do Gaspar e dos sindicatos, a documentação que nem devia poder ser levantada já vai a caminho da casa certa. E metem-me em cada uma! Pelo menos, agora posso ter guarda-costas a pedido, que até tenho cartãozinho de contactos caso precise...

2012-10-24

O monstro

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A democracia é como a liberdade: vai haver sempre quem saiba delas abusar. E será também como uma certa ideia de justiça, aquela que nos permite defender que é preferível um culpado solto do que um inocente na prisão. Os conceitos em si nada têm de errado; o que uns quantos fazem com esses conceitos, deturpando-os, adaptando-os aos seus interesses, corrompendo o seu sentido, é que sim. Não culpo a democracia, como não culpo a política, como não desbarato por completo os conceitos operativos com que aprendi a pensar o real e a inserir-me nesse mesmo real como ser político. Mas culpo quem usa e abusa da política, até tantos de nós que se mantém sempre confortavelmente arredados da política e da polis e dos mais básicos exercícios de cidadania. Os mesmos que apenas se lembram do Estado quando chega a hora de estender a mão, num exercício de demagogia em tudo semelhante à daqueles a quem entregamos a responsabilidade de nos governar esperando que não se governassem apenas a eles mesmos. Talvez afinal os culpados sejamos todos nós, habituados a uma certa ideia de democracia e demitidos de direitos e deveres. É porque tantos de nós se mantém assim de fora que o exercício político virou coutada de uma classe. E, como todas as classes, zelosa dos seus privilégios, temerosa de perder o pé, a viver à conta de quem apenas reclama e que nem sequer levanta o cu para ir votar. Fomos nós que fabricamos o monstro; não foi a democracia.

2012-10-21

RIP Manuel António Pina


Quem, como eu e a generalidade dos portugueses, não percebe nada de Finanças nem consta que tenha biblioteca e ouve repetidamente dizer, ao fim de um ano de inauditos sacrifícios, desemprego, miséria e fome, que "estamos no bom caminho", acabando por descobrir que afinal, em Março, a dívida pública portuguesa cresceu mais 26 mil milhões em relação a Março de 2011 (reinava então Sócrates, cognominado pelo actual Governo de "o Gastador"), perguntar-se-á legitimamente onde irá dar o "bom caminho".

Mas talvez, quem sabe?, seja assim que se combate a dívida, aumentando a dívida. Como o desemprego se combate facilitando e embaratecendo os despedimentos e destruindo emprego.

Dir-se-á que nem eu nem os portugueses mais pobres cuja existência tem sido imolada no altar da dívida, somos economistas, do mesmo modo que o menino que não conseguiu ver a fatiota invisível do Rei e gritou "O Rei vai nu" não era, obviamente, alfaiate. Mas quem escute as homilias diárias dos alfaiates da política de austeridade demonstrando, mediante equações só acessíveis a pessoas inteligentíssimas e com vastas bibliotecas, que "não há alternativa", esperaria ver o Rei, já não digo com sapatos novos, mas ao menos um pouco mais apresentáveis do que há um ano.

Sobretudo depois de, em Janeiro, o alfaiate-mor ter anunciado no Parlamento que 2012 seria o "ano de viragem económica para o país".


Manuel António Pina morreu sexta-feira, dia 19 de Outubro.

2012-10-11

Zombie


Nas últimas eleições para a Presidência da República tivemos a candidatura de uma convenção geriátrica, de corpo e mente e forma de fazer política, todos tomando a polis para seu interesse e nunca pelo interesse da polis. E ganhou a fava. Ou saiu-nos a fava: um Presidente abestido, de discurso azedo e ressabiado mesmo quando quer ser inócuo; um PR que foge do povo para o cu de Judas do 5 de Outubro para não enfrentar quem devia representar; um velhote que como político nunca valeu um vintém e fecha sempre a boca quando deve falar, só a abrindo para deixar cair migalhas de bolo-rei ou resíduos que fazem notícia nos jornais espanhóis. E o pior é que já sabíamos o que aí vinha, mas ainda demos a esta nódoa alojada em Belém segunda hipótese de (não) brilhar. Agora, com um governo de loucos incompetentes ao leme, estamos realmente órfãos e, por isso, talvez só nos sobre realmente a rua. Só falta saber por quanto tempo a rua continua pacífica.

2012-10-05

Circo

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E não era há anos tudo um circo? Com data marcada, juntavam-se os palhaços na bancada, diziam umas bacoradas, posavam para a fotografia e, no dia seguinte, tudo seguia como dantes. Iam lá fazer o frete. Sempre com ar de grande frete: corpos presentes, mas só isso. Na assistência, o povoléu olhava para a bancada e para os símbolos. Um circo como outro qualquer, mas com data marcada e significado há muito perdido. Pensando como foi durante anos, enquanto a abundância aparente desconsiderava tradição e história, vejo a tempestade num copo de água. Um copo pequenino e talvez por isso tão pronto a transbordar. Se nos tiram todo o respeito, como sobrará respeito para dar?

2012-10-03

Zé Povinha



 - Sobretaxa de 4% em sede de IRS para todos os trabalhadores. Ainda falta saber se será feito num único mês ou repartido por todos os meses;
 - Escalões do IRS vão ser reduzidos de oito para cinco, o que implica um aumento de impostos, devendo a taxa média efectiva passar dos actuais 9,8% para 11,8%, a que se junta a sobretaxa. Quem paga taxa máxima de IRS vai pagar 54,5%, apurou o Negócios.
 - A taxa de solidariedade de 2,5% para quem está no último escalão do IRS mantém-se
 - Reposição de um subsídio para a função pública, mas aumenta-lhe IRS, nomeadamente porque a função pública também é abrangida pela sobretaxa de IRS
 - Reposição de 1,1 subsídios aos pensionistas e reformados; Ministro das Finanças já tinha anunciado, em conferência anterior, à redução das pensões a quem aufira rendimentos acima de 1.500 euros, com cortes entre 3,5% e 10%
 - Os rendimentos com juros, dividendos e royalties vão estar sujeitas a taxas liberatórias de 28%, apurou o Negócios. Estas taxas já aumentaram em 2012 para 25% e em Setembro Vítor Gaspar anunciara a subida, ainda este ano, para 26,5%. Mas para 2013, ainda sofrerão novo agravamento
 - IMI vai disparar em 2013 sem cláusulas de salvaguarda - Imposto sobre tabaco aumenta, mas não foi explicado em quanto
 - Tributação sobre bens de luxo aumentam. Vítor Gaspar já tinha avançado que isto iria acontecer, nomeadamente ao nível da tributação a barcos, carros de alta cilindrada e aeronaves. Também os imóveis com valor acima de um milhão de euros vai ver agravado o imposto. Estas medidas são para 2013, mas iniciam-se já em 2012
 - Novo imposto sobre transacções financeiras, mas sem se saber os moldes, já que a medida não está ainda definida na plenitude
 - Para as empresas: Derrama estadual máxima, de 5%, passa a ser aplicada sobre lucros que excedam os 7,5 milhões de euros (até agora era de 10 milhões de euros). Aos lucros acima de 1,5 milhões de euros já era aplicada uma derrama de 3%, à qual Vítor Gaspar não se referiu
 - Aumento da base de incidência de IRC para empresas, limitando-se as deduções fiscais com créditos, à semelhança do que Vítor Gaspar já tinha anunciado
 - Indemnizações compensatórias para empresas públicas vão diminuir, mas não foram avançados valores.


E cá estou eu, de manguito preparado, vítima certa da caça cega aos cobres que sobram da classe média acossada.

2012-10-02

(...)



Now Tom said "Mom, wherever there's a cop beatin' a guy
Wherever a hungry newborn baby cries
Where there's a fight 'gainst the blood and hatred in the air
Look for me Mom I'll be there
Wherever there's somebody fightin' for a place to stand
Or decent job or a helpin' hand
Wherever somebody's strugglin' to be free
Look in their eyes Mom you'll see me."

2012-09-30

O "Dr." Borges

"Que a medida [redução da TSU em 7%, com aumento equivalente da contribuição dos trabalhadores para a Segurança Social] é extremamente inteligente, acho que é. Que os empresários que se apresentaram contra a medida são completamente ignorantes, não passariam do primeiro ano do meu curso na faculdade, isso não tenham dúvidas" 

António Borges


Ignorante é um professor universitário (um suposto cientista!) que descarta com insultos as teorias dos outros só porque não estão em concordância com as suas. 

Quando tentam resumir a ciência a uma teoria, normalmente chama-se fanatismo e pertence ao domínio das seitas, nunca ao da universidade.

2012-09-27

E os ideais foram-se




I know I said I favored peaceful resolution
But that was when we were the young idealists
The young idealists
Raging through the coffee shops and bars
Make believe the world was really ours
Still supposing we could make a difference

And then we bought into the neocon economic dream
We were trading in futures we believed in
The young idealists
Careering through the markets to the mall
Venturing that we could have it all
Still supposing we could make a difference

Then the markets fall
And the heavens open
There's no symmetry at all
The synergy is broken

So maybe now
I'll take that wholesale revolution
We were talking about
Maybe now I'll take a future we can breathe in

The young idealists
Raging through the forests and the streams
Breaking into your laboratories
Still supposing we could make a difference

I never thought I'd want a slogan on my people mover
But that was when we were the young idealists...

2012-09-25

Miguel Macedo


Em Outubro de 2011, lia-se no jornal Sol que «Dois membros do Governo vão receber um subsídio de alojamento de 1150 euros mensais, isto apesar de serem proprietários de uma casa na região da grande Lisboa.» Um deles era Miguel Macedo. E é este fdp, político profissional habituado a coçar a micose à custa dos dinheiros públicos (nos intervalos, parece que é sócio de um escritório de advogados) que vem agora chamar cigarras ao pessoal que anda a sustentar a corja da espécie dele e toda a choldra que mantém por companhia nos diferentes assaltos que vão fazendo a quem ainda tem trabalho para continuar a pagar impostos e lhe pagar o subsídio de residência. € 1150? Há demasiadas casas neste País onde isso não entra por mês à custa de trabalho suado!

2012-09-22

Circunstâncias



Há quem se ande a aproveitar; há quem tente usar a indignação e tente colar-lhe um cunho político-ideológico para ver se, num País onde normalmente a culpa morre solteira, os dividendos brotam da revolta apartidária (transpartidária, suprapartidária, panpolítica?... sei lá o que chamar a este grito generalizado!)

E concordo que não vale fazer um repost do que foi; afinal, trouxe-nos ao ponto em que estamos. Mas também não vale fazer tábua rasa: que seria de nós se, em cima de tudo, sobrasse apenas uma memória amputada? Também somos as nossas circunstâncias e a nossa memória reverte para o que foi, para a força do imaginário que sustem a nossa consciência social.

E, sim, fui para a rua de lenço branco por Timor, fui jovem rasca nas manifestações da PGA e anti-Cavaco, fiz um escarcéu à conta da IVG e em 89 até fui para a praça porque tinha caído um muro; desde que nenhum destes políticos que nos sobra me tente roubar o grito, eu e as minhas circunstâncias vamos à rua.

2012-09-13

Naufrágio

aqui

E, sim, queria manter a esperança na capacidade de reconstrução da barca naufragada. E, no entanto, há dias em que parece apenas fraca empresa, derrotada à nascença.

2012-09-10

Nada de novo


Amizade

Acho que, para além de todos os meus defeitos – que tenho muitos! –, sou uma pessoa leal. Pelo menos gosto de pensar que sou: defendo aquilo em que acredito e aqueles de quem gosto e espero que me paguem na mesma moeda. Também espero que a integridade que temos (ou a que nos sobra, não sei bem) passe exactamente por essa lealdade com que as coisas são enfrentadas. Não dá para estarmos a defender hoje uma coisa e amanhã o seu contrário só para agradar ao interlocutor do momento. Como não dá para andar a trocar de amigos como quem muda de cuecas. Mas tem de haver um mínimo, obviamente: respeito mútuo. Se este se perde, num instante viro costas e não volto a olhar para trás. E não respeito facilmente alguém: é preciso mais do que sorrisos ou agrados ou elogios ou o que seja. Penso por mim e tiro as minhas conclusões da forma como vou entendendo o outro e a forma como o outro reage comigo ou com terceiros enquanto observo. Não costumo, como se diz na minha terra, emprenhar pelos ouvidos. Depois, sou uma mula teimosa o suficiente para preservar os que chego a considerar amigos contra ventos e marés.

2012-08-24

8 anos




O blogue faz oito anos. Tem andado silencioso, a ganhar pó, mas não o encerro. Por teimosia, talvez. Tem dias em que acho que é só teimosia mesmo. Mas há uns tempos uma infestação de spam levou-me aos arquivos e perdi-me na história e no rasto de mim que por cá fui deixando. Já nem me lembrava do tanto que revelei. É que tenho alguns textos no blogue que pari das entranhas. São extraordinariamente pessoais, doloridos e meus. Como tenho textos feitos com memórias indeléveis, cheiros que eu senti, o que toquei, a música que estava a ouvir, os espaços que habitei. Meus. Ou textos breves, de alegria transbordante. Esses sorrisos e gargalhadas também me pertencem ainda. Ou os gritos indignados e os amuos e as irritações. Ou as lágrimas. Meus. No meu blogue. Tudo o resto que também por cá publiquei é acessório para encher a página, letra esparramada à pressa e logo esquecida, uma espécie de facebook quando ainda não havia FB, com tretas breves e inócuas para os dias assim-assim. Os textos que ainda sinto destes tantos anos de voz em fuga são (só) os mais pessoais, os mais íntimos. Para esses não há espaço no FB. E, no entanto, ultimamente ando demasiado perdida de mim. Talvez por isso quase já nem escreva; talvez por isso tenha um blogue a ganhar pó.

2012-08-06

Marte nuclear?



Alimentada por gerador nuclear? Já não basta todo o lixo que já mandamos para a estratosfera e agora ainda mandamos plutónio e coisas que tais para Marte?

É que... bem, eu gostaria que o cosmos estivesse cheio de vida; eu gostaria que em Marte houvesse vida. Mas não sei se gostaria de ver o que o Homem ia conseguir fazer a essa vida. Afinal, a humanidade tem tratado de dar cabo da Terra e da sua biosfera. Nisso tem grande prática e não deve mudar de hábitos só porque mudou de planeta, certo?

Esperemos, por isso, que os ETsinhos sejam bem mais inteligentes do que nós e se mantenham convenientemente à distância.

2012-07-15

Finalmente!


Cada vez com mais frequência, chego a casa a uma sexta-feira e apenas penso que posso finalmente tirar os sapatos e vestir o pijama, enrolar-me no sofá com um livro ou com um bom filme e roncar ao fim de cinco minutos. 

E ainda penso que já houve tempo em que aguentava duas ou três noitadas sem que me doessem os ossos, os olhos, a cabeça, o que, infelizmente, cada vez é menos por culpa do álcool que também vai sendo cada vez menos, que uma gaja agora anda é a água e às tantas é por isso que as partes vão descaindo e a pele acaba afogada de baça e os pés até se lembram de fazer retenção de líquidos, mesmo quando a cerveja continua a ter ligação directa da boca à… pois! 

E penso que cada vez mais os gajos que nos tentam engatar vão mais que nós ao cabeleireiro e devem ter um horror de cremes para todas as horas e partes do corpo, bem como uns quaisquer instrumentos estranhíssimos para aparar pêlos que, ainda assim, teimam a nascer nos sítios mais visíveis e que nos tentam convencer a ir jantar com a desculpa que compraram outro BMW topo de gama e que, nesse dia, afinal a guarda paternal fica com uma das ex-mulheres. 

E penso que já houve tempo em que conseguia correr 500 metros em cima de uns tacões agulha atrás do autocarro, mas que agora nem de bicicleta me apanham a fazer cem metros, a não ser que diga a mim mesma que é ginástica e, portanto, não conta. 

E penso ainda que já houve tempo em me sentava em frente a uma página branca e brotavam resmas de palavras e de frases e de pontos de exclamação e que, hoje em dia, até as palavras preferem enroscar-se sem sapatos em cima do sofá e roncarem ao fim de cinco minutos. 

E estou cansada. Muito cansada. E, finalmente!, vou de férias para me esticar na areia, não pensar em nada e roncar ao fim de cinco minutos.

2012-06-14

Stasi à portuguesa, com certeza


O que me irrita é ver que, com tantos anos de democracia em cima, afinal o país não mudou quase nada. E que afinal ainda existe um afinco "stasista" na recolha de informações a serem usadas como der mais jeito, agora já nem sequer para segurar o velho à cadeira, antes porque se pode e dá lucro nas negociatas. E continuamos a ter destes vampiros gordos, endinheirados, poucochinhos, a escaparem por entre os pingos de uma justiça que parece que nunca vem. E vai-se um e há de certeza outro para lhe ocupar o lugar, que esta gente fica e fica e fica. Até fica o Relvas, carago!, quando por só fazer uns corninhos na AR nem há tanto tempo assim caiu um. Mas às tantas esse não tinha fichas de informações recolhidas sabe-se lá em que bufedo para poder pôr a pata em cima de quem se atrevesse a dizer ai. E deve ser por isso que só o povinho vai gemendo.

2012-05-17

Amigos



Uma das coisas mais preciosas nas amizades é a forma como podem ser tranquilas, explícitas e implícitas a um tempo, quentes e aconchegantes. É um privilégio ter amigos. Não os herdamos nem ganhamos. Não se compram nem se deixam comprar. Existem sempre para além da Crise e das crises. Até para além do tempo que demoramos a voltar a pegar no telefone e a pôr a conversa em dia. É que não sou particularmente brilhante, nem sequer disciplinada, muito menos tenho organização suficiente para reforços diários de laços, ou joguinhos de manipulação de afectos. Na maioria dos dias, estou tão cansada quando chego a casa que preciso estar em silêncio e sozinha um par de horas, para escapar à gregaridade imposta com que lido quotidianamente. E os meus amigos perdoam-me sempre todas as ausências! É por isso que às vezes me parece apenas sorte ter conquistado o direito a tê-los. E sobra a necessidade de os preservar. Porque os meus amigos são perfeitos. Maravilhosos. Talvez porque não são assim tão perfeitos nem tão maravilhosos e porque me aceitam sem eu ser perfeita nem maravilhosa. Talvez por isso os preserve por entre os pingos das ausências, das tantas de vezes que nos perdemos por uns tempos uns dos outros, da merda toda que já nos podia ter separado e nunca separou.

2012-05-13

17 anos




Como se as saudades ainda se fizessem de ais. Como se hoje estivesses aqui de plantão, meu anjo. Como se não tivesses partido nunca.

2012-05-08

França


E talvez agora a austeridade acéfala tenha ficado finalmente manca. Não podemos voltar aos bons velhos tempos de desperdício; mas a esquerda nunca esquece que a economia, antes de se fazer de números, faz-se de gente.

Grécia



De manhã, na rádio (e sem bem dar conta, já foi na manhã de ontem), um comentador político português estava muito indignado por os gregos terem exercido o seu direito de voto. É! Há assim uns merdas que se acham muito importantes só porque lhes põem um micro à frente e nem sabem medir o tamanho do disparate que dizem. A não ser que quisessem mesmo dizer que se devia suspender a democracia só para fazer o jeito às bojardas que pensam... e dizem, quando têm um micro.

2012-04-26

De janela aberta




Há muitos anos atrás, apaixonei-me por um álbum inteiro, deprimente qb, assombroso e assombrado. Vi os Spain ao vivo no velho Hard Club. Depois o vocalista e a banda fizeram uma série de coisas que não me impressionaram particularmente e fui perdendo-lhes o rasto. Até agora, com o álbum novo. Muito bom! E vêm ao novo Hard Club. 19 de Maio, se alguém estiver interessado.

2012-04-25

Abril


Há símbolos que já não são pertença nem da direita nem da esquerda e enfeuda-los a este ou aquele pequeno grupo é apenas mais uma forma de alienar todos quantos não assentaram arraiais partidários. E os cravos são nossos, pela liberdade e democracia que, naquele dia, renasceu; pela liberdade e pela democracia que, depois, sobreviveu ao verão; e, muito especialmente, porque é simplesmente belo imaginar um golpe de estado, depois revolução, em que do lado da revolta o único vermelho era o dos cravos nas espingardas e, não fosse o Carmo, a revolução tinha-se cumprido sem sangue. Depois o sangue acabou por correr, como corre sempre quando há interesses em conflito e o País precisou dizer não à ditadura que se anunciava para substituir a ditadura que partia. Mas em Abril foram cravos rubros de sangue. E o imaginário é assim que se constrói.

2012-04-13

Equilíbrio


Há uns anos, perdi um prémio por 69 pontos. Desta vez, ganhei um prémio... por 69 pontos.

2012-04-10

E a gasolina lá voltou a aumentar...

Na Terra Dos Sonhos by Jorge Palma on Grooveshark

No país dos sonhos, ouviam Jorge Palma a falar da terra que há-de ser sobre a terra que nunca pode vir. E alimentavam-se de palavras, que eram sempre o bastante para encher a barriga e não havia contas, nem filhos, nem patrões, nem desconcertos e desgovernos e troikas e eleições.

2012-04-03

Oh tempo não voltes para trás!



Tive uma paixoneta de caixão à cova por uma versão loira do Ville Valo (dentinhos e tudo, lol) numa altura em que andava toda a gente entretida a ouvir a versão original desta treta. Deve ter sido por isso que arrastei a minha amiga P e o coitadinho do H para o pior concerto que vi na minha vida. Não volto a outro concerto dos Him. Não volto à paixoneta: está careca, gordo e os dentes já não têm piada. Muito menos se volto a dar com a criatura na secção dos "produtos femininos" de um supermercado.

2012-03-20

Primavera



As heras de outras eras água pedra 
E passa devagar memória antiga 
Com brisa madressilva e primavera... 

 Sophia de Mello Breyner Andersen

2012-03-13

Pirilaus


O gajo do micra deu pisca para a esquerda e virou para a direita; o velho no uno decrépito voltou a aparecer na rotunda em contra-mão; o tipo do autocarro nem dá pisca mas põe-se logo no meio da estrada antes de acabar de fazer o troco ao passageiro; o crominho da vespa vai de tal maneira aos ziguezagues que quase dá um malho e me faz passar-lhe por cima; e o gajo do mercedes, que ia a 20 à hora passa a 70 quando se vê ultrapassado que é para ter a certeza que ainda tem o maior pirilau. Isto tudo só num dia. Imagina-se os outros todos... Quanto mais tempo é que vamos ter de aturar a prosápia dos caramelos quando dizem que eles é que conduzem bem?

2012-03-08

Enquanto for preciso



Ou porque o que acontece às mulheres por esse Mundo fora continua a precisar de voz, ainda que à distancia abismal do nosso umbigo.

2012-03-04

E então vamos assim:

Q.E.D.

(lamento pelos lampiões, mas a ter de ser vermelho, que seja vermelho e branco)