2026-02-11

Assinaturas familiares


Olho para a letra da minha irmã e reconheço-me naquele "g" que nunca fecha completamente, naquela inclinação para a direita que parece um vício hereditário. É perturbante. Como se tivéssemos aprendido a escrever no mesmo útero, numa aula pré-natal de caligrafia existencial.

E não é só a letra. É aquele jeito de cruzar os braços quando estamos a pensar, como se estivéssemos literalmente a abraçar o raciocínio antes de o deixar escapar pela boca. É o franzir de sobrolho idêntico perante uma contrariedade, aquela forma específica de suspirar que diz "estou farta mas não vou dizer nada" sem precisar de legendas.

Ao telefone, somos a mesma pessoa. A minha mãe já desistiu de tentar adivinhar qual de nós atendeu. As cordas vocais partilham a arquitectura genética, o timbre é uma herança não negociável. Podia estar a ler a lista telefónica ou a discutir física quântica — o som seria o mesmo.

Mas aqui está o paradoxo delicioso: essas semelhanças automáticas, esses tiques involuntários, esses ecos corporais que nos transformam em variações do mesmo tema... contrastam violentamente com o facto de sermos pessoas radicalmente diferentes. Uma é metódica, a outra caótica. Uma planeia, a outra improvisa. Uma guarda, a outra atira fora.

É como se a genética tivesse decidido fazer uma piada: "Vou dar-vos o mesmo timbre de voz e a mesma caligrafia, mas interiormente vão ser tão diferentes que nem vos vão reconhecer." E assim ficamos — irmãs-gémeas na superfície, estranhas nas profundezas.

Carregamos a mesma "embalagem", os mesmos maneirismos de fábrica, mas o software é incompatível. Somos edições diferentes do mesmo livro, escritas em línguas que só parecem iguais quando não se presta atenção.

E talvez seja isso que mais me fascina: perceber que a família nos dá um alfabeto comum — o jeito de mexer as mãos, de inclinar a cabeça, de escrever o "r" — mas a história que cada um conta com essas letras é irremediavelmente sua.

2026-02-09

Alerta amarelo

Acordo e olho pela janela. Chuva. Outra vez. Como se o céu tivesse decidido que somos uma esponja gigante e Portugal inteiro precisasse de um banho de imersão prolongado.

Já nem sei o que é ter os pés secos. As minhas meias vivem num estado permanente de humidade melancólica, como se estivessem a fazer greve silenciosa contra esta meteorologia de fim do mundo. Os dedos começam a parecer passas recém-saídas de um pacote de cereais biológicos — enrugados, tristes, sem futuro.

E a pele? A pele está a adoptar uma textura de papel de cenário molhado. Tenho a certeza que, se continuar assim mais uma semana, acordo transformada numa daquelas maçãs que ficam esquecidas no fundo do cesto e ninguém tem coragem de deitar fora, mas também ninguém quer comer.

Começo a desenvolver empatia pelas ameixas secas. Sinto-me solidária com as uvas-passas. Olho para o espelho e vejo alguém que parece ter acabado de sair de um episódio prolongado de "Aventura à Flor da Pele em Clima Atlântico".

A meteorologia diz que amanhã também chove.

Claro que sim. Porque havíamos de ter sol, não é? Isso seria pedir demasiado ao universo.

Vou ali encarquilhar mais um bocadinho.

2026-02-07

Véspera de sufrágio

Pergunto-me o que pode dizer hoje alguém que viveu o Estado Novo, a Guerra do Ultramar e o nome nas listas da PIDE sobre estas vésperas do dia em que André Ventura e a extrema direita se arremetem à Presidência da República.

E sei que essa é uma pergunta que toca na memória viva e nas feridas ainda abertas de Portugal. Alguém que carregou o peso da perseguição política e o trauma da guerra carrega um "termómetro" histórico muito sensível. Seria de esperar que o sentimento não fosse apenas de oposição política, mas de uma estranheza visceral e um alerta ético. 

Mas então de onde vêm tantos votos, tanto fanatismo?

1. O Peso da Memória vs. O Esquecimento

​Para quem teve o nome nas listas da PIDE, a liberdade não é um conceito abstrato; foi algo conquistado com medo e silêncio. Essa pessoa diria que "a democracia não é um estado permanente, é uma construção diária". Ver a extrema-direita à porta do poder pareceria, para ela, um sinal de que o país se esqueceu do que é viver sem poder falar à mesa, sem poder ler certos livros e sem saber se o vizinho é um informador.

​2. A Guerra e o Nacionalismo

​Tendo vivido o Ultramar, essa pessoa conhece o custo real do nacionalismo exacerbado e do isolacionismo ("Orgulhosamente Sós"). Ela lembraria que o discurso de "nós contra eles" e a exaltação de um passado glorioso muitas vezes terminam em jovens enviados para guerras evitáveis e famílias destruídas. Diria: "Eu vi onde esse caminho termina, e não é na grandeza, é no luto."

​3. A Fragilidade das Instituições

​Quem viveu o Estado Novo sabe que o autoritarismo nem sempre entra pela porta com um golpe de Estado; às vezes, ele entra pelo voto, prometendo "limpar" o sistema. Essa pessoa alertaria que atacar as instituições por dentro é o primeiro passo para o abismo. O sentimento seria de uma urgência pedagógica: tentar explicar aos mais novos que a "ordem" prometida tem um preço alto demais: a tua liberdade individual.

​4. A Desilusão com o Presente

​Sendo alguém de esquerda, haveria também uma autocrítica amarga. Ela questionaria como a democracia falhou em resolver problemas básicos (habitação, saúde, corrupção) ao ponto de empurrar o povo para soluções extremistas. Diria, talvez com tristeza: "Lutámos para dar voz a todos, e agora essa voz está a ser usada para pedir o silêncio de muitos."

​Em suma, essa pessoa diria que o voto não é apenas uma escolha de gestão, mas um testamento de valores. Ela olharia para o dia de amanhã não como uma eleição comum, mas como um referendo sobre a própria identidade de Portugal pós-1974.

2026-02-04

Boom!


Dizem que a vida é curta, mas para este senhor, o tempo parou no exato momento em que decidiu que um obus da Primeira Guerra seria o supositório ideal para uma tarde de tédio. No Hospital de Rangueil (Toulouse), o pânico foi geral: entre cirurgiões e o esquadrão de minas e armadilhas, a dúvida era se o paciente precisava de um clister ou de um protocolo de desarmamento nuclear.

​É um novo nível de "explosão de sabores" (ou dores). Se a moda pega, o Exército vai ter de abrir uma ala de proctologia. Afinal, há quem colecione selos e há quem prefira guardar a artilharia pesada onde o sol não brilha. Haja pontaria!

2026-02-03

Escrever


Não, não queria ser de pedra ou madeira. Porque sentir é o que me distingue dos móveis, certo? É o meu diploma de humanidade, a prova de que existo.

Claro que as rotinas quotidianas nos embrutecem, nos afastam dessa capacidade de "sentir por inteiro" — mas aproximarmo-nos demais é arriscar queimar as asas. Somos todos borboletas idiotas fascinadas pela luz.

Sou passional por teimosia, não por coragem. Porque viver apaixonadamente é arriscado e o coração prefere a mediocridade segura ao perigo glorioso. A experiência ensina-nos o conformismo — esse prémio de consolação da vida adulta.

O que me resta? Escrever. Porque escrever é o meu truque de magia: finjo sentir tudo sem arriscar nada. É seguro, asséptico, controlável. A paixão de laboratório.

Escrevo para não explodir, para não murchar, para continuar a fingir que sou divertida. Porque exorcizar demónios no papel é mais conveniente que enfrentá-los na vida real.

Todos temos um lado negro. Eu tenho este blog.

2026-02-02

Tempestade Kristin


Portugal acordou sob o açoite de Kristin e a tempestade não veio para brincadeiras. Ventos furiosos arrancaram telhados, árvores tombaram como dominós e o mar revelou a sua face mais brutal contra a costa. As imagens que percorrem as redes sociais e as muitas, quase excessivas, reportagens nas TVs, são um retrato cru da nossa vulnerabilidade: carros esmagados, ruas transformadas em rios, famílias desalojadas. Mortos. E esta tempestade expôs, mais uma vez, que vivemos numa ilusão de controlo. Construímos, pavimentamos, ignoramos alertas climáticos - e depois espantamo-nos quando a natureza cobra a fatura. Não se trata apenas de "mau tempo". É o prenúncio de um futuro onde eventos extremos serão a norma, não a exceção. Resta perguntar: quantas Kristins serão necessárias até aprendermos a lição?

2026-01-31

Champions League


E quando pensávamos que o novo formato da Champions era a coisa mais bizarra de 2026, o destino (ou o ocultismo) decidiu dar-nos um pontapé na lógica. Lisboa está oficialmente dividida entre a euforia verde e o exorcismo coletivo.

O ​Sporting transformou-se no Sétimo Passageiro de luxo e
​Alvalade está, finalmente, a viver o sonho europeu sem precisar de tradutor. A equipa fechou a fase inicial num honroso 7.º lugar, garantindo o bilhete dourado direto para os oitavos. Foi uma caminhada de quem sabe o que faz, com uma eficácia que faz parecer que o João Pereira descobriu o código secreto da UEFA. Estão lá em cima, a olhar para o Manchester City pelo retrovisor, com aquela sobranceria de quem já não precisa de passar pelas "plebes" do play-off. 
​Mas o que dizer do Benfica? O que aconteceu naquela última jornada não foi futebol, foi magia negra. O Benfica estava virtualmente morto, enterrado e com a lápide já encomendada no 36.º lugar. Mas o José Mourinho não veio para Lisboa para rezar terços; veio para invocar entidades que nem Torquemada imaginou. ​Aos 98 minutos, contra o Real Madrid (sim, o Real de Arbeloa, que agora deve estar a pedir a reforma antecipada), o impensável aconteceu. Anatoliy Trubin, o homem que costuma usar as mãos para evitar desgraças, subiu à área e usou a cabeça para operar um milagre. Um golo de guarda-redes no último suspiro para garantir o 24.º lugar e a última vaga no play-off. Dizem que, no momento do cabeceamento, se ouviu uma gargalhada do Mourinho que ecoou até aos arredores de Madrid. O Benfica passou em último, sim, mas com um estilo que faria o Hitchcock roer as unhas de inveja.
Agora o ​Sporting já está de pantufas à espera dos oitavos, a ver os outros matarem-se. Quanto ao ​Benfica, passou com a nota mínima, mas com um efeito especial digno de Hollywood. Mourinho provou que, mesmo quando o autocarro está avariado, ele consegue pôr o guarda-redes a marcar golos.

2026-01-28

Os Meus Desencaixados


Sempre fui ímã de almas tortas, daquelas que o mundo olha de soslaio. Os que têm olhos demasiado grandes para tanta tristeza, costuras à mostra, esqueletos que dançam ao som de músicas que mais ninguém ouve.

Atraio os que carregam abóboras como troféus, os que vestem a escuridão como segunda pele, os que sorriem com dentes a mais ou a menos. São os meus, reconheço-os de longe: pelo jeito desajeitado de habitar o mundo, pela beleza estranha que assusta os bem-comportados.

Não sei se os escolho ou se eles me escolhem. Sei apenas que entre nós há um pacto silencioso, uma cumplicidade de quem aprendeu que ser "normal" é uma chatice insuportável.

Somos a tribo dos desencaixados, e é aqui, neste não-lugar onde ninguém mais quer estar, que finalmente me sinto em casa.

2026-01-27

Recorrência


E passamos o dia num duelo épico com o rolo de papel higiénico (já não há lenços de papel!), tentando respirar por uma narina que decidiu fazer greve de zelo. É o ciclo sem fim: um espirro dramático, a busca frenética por um lençol (ou a manga da camisola, sejamos honestos) e a promessa de que nunca mais tomaremos a respiração livre como garantida. No fundo, ter gripe é viver num aquário, mas sem a parte relaxante de ser um peixe.

2026-01-26

Apre!


O fim de semana devia levar multa por excesso de velocidade. Passa por nós a 200 à hora, sem cinto, sem piscas, e ainda tem o descaramento de buzinar ao ir embora. Quando damos por ela, já estamos a olhar para o calendário como quem encara um polícia de trânsito: incrédulos, ofendidos e claramente em negação.

Depois vem a segunda-feira de invernia, esse conceito abstrato inventado para testar a resistência da alma. Chove de lado, o céu está num tom de cinzento administrativo e o despertador toca como se tivesse algo pessoal contra nós. O café não ajuda, a roupa está fria e a semana começa com aquele entusiasmo de uma fila nas finanças.

Há injustiças no mundo mais debatidas, é verdade. Mas poucas tão constantes como esta: dois dias que fogem e cinco que se arrastam, especialmente quando a segunda-feira vem molhada, mal-humorada e convencida de que tem razão.

2026-01-20

Branco


Chegou o novo anexo da Casa Branca: eficiente, sustentável e com isolamento térmico de fazer inveja à classe média americana. Afinal, quando o mundo aquece, há sempre quem prefira mudar-se para o gelo — desde que dê para pôr o nome na fachada. O problema não foi o frio, foi a surpresa: venderam-lhe a Gronelândia como jardim e afinal é um congelador. Mas não faz mal. Onde antes havia diplomacia, agora há um iglu. Branco, claro. Como convém.

2026-01-18

Eleições


Em Portugal, a eleição presidencial é o nosso desporto nacional de autoajuda coletiva. Não se elege um gestor ou um legislador; procura-se, com uma carência quase infantil, alguém que nos saiba ouvir as queixas enquanto o país continua a ser gerido algures entre o Terreiro do Paço e Bruxelas.

O Presidente, no fundo, é o nosso moderador de luxo. Alguém que pagamos para ler as entrelinhas dos decretos e para, ocasionalmente, mandar um "puxão de orelhas" ao Governo num discurso de 10 de Junho que ninguém ouvirá até ao fim. É o guardião de um templo onde as colunas já estalaram há décadas, mas que mantemos pintado de fresco para as visitas oficiais.

​Quando a contagem termina, o país suspira de alívio. Cumprimos a nossa quota de democracia. Amanhã, voltamos à rotina de sempre: o SNS em coma, a habitação a preço de ouro e a esperança de que o novo inquilino de Belém tenha, pelo menos, a decência de usar o seu poder de veto para nos poupar ao ridículo mais óbvio. Afinal, em Portugal, o Presidente não resolve os problemas; ele apenas os narra com a solenidade necessária para que pareçam inevitáveis.

Depois... depois esperamos por fevereiro, para repetir a via sacra.

2026-01-17

Refletindo


Ah, o púlpito vazio! Que imagem mais poética para representar o vazio intelectual que nos brindou durante semanas. Hoje é o sagrado "dia de reflexão" - 24 horas em que os portugueses devem meditar profundamente sobre qual dos salvadores da pátria merece o seu voto. Como se alguém fosse mudar de ideias depois de meses a engolir propaganda como quem come tremoços.

Os microfones aguardam, solitários, descansando finalmente de amplificar banalidades, promessas recauchutadas desde Afonso Henriques e acusações trocadas com a subtileza de peixeiras na Ribeira. A bandeira observa, coitada, já vista tanta coisa que nem se espanta.

Mas fiquem tranquilos: hoje refletimos (ou vamos ao shopping, dá no mesmo), amanhã assinalamos a cruzinha no papel como bons democratas e segunda-feira acordamos no mesmo país de sempre. Porque em Portugal não há milagres - há é folclore eleitoral a cada cinco anos.

2026-01-16

Economia de Subsistência


​Hoje, o dia amanheceu em regime de serviços mínimos. Não há greve, mas falta o combustível da intenção. Movimento-me por coreografias gastas: o café que arrefece na chávena, o olhar fixo num ponto qualquer da parede, o cumprimento protocolar a quem passa. Existe uma harmonia cinzenta em fazer apenas o estritamente necessário para não levantar suspeitas de ausência.

​Evito grandes pensamentos, como quem evita degraus altos com os joelhos cansados. A alma está em manutenção, ou talvez apenas a poupar energia para uma estação que nunca chega. Não é tristeza, é um deserto plano onde o vento não sopra. Sobrevivo à rotina com a precisão de um relógio que ninguém consulta, esperando que o tempo passe sem me pedir contas, nem explicações, nem entusiasmo. Amanhã, talvez, eu regresse ao mundo. Hoje, apenas ocupo o meu lugar.

2026-01-15

Io, Epona!


Talvez um "Io, Epona!" fosse capaz de ir melhor com a época do que os aleluias convencionais. Estamos naquele momento do ano em que a deusa mãe, sempre tão esquecida, merecia ser lembrada. Agora que os dias já crescem, depois do Inverno que nos afundou em escuridão e frio, é tempo de invocar aquela que nos traz de volta a fertilidade, a vida, os tempos férteis que irão voltar.

Epona, a deusa celta dos cavalos e da fertilidade, devia ter lugar de honra nestes dias. Afinal, é ela quem cavalga o ciclo das estações, quem nos traz a promessa de que a terra voltará a dar fruto, de que há vida depois do gelo. Mas não. Preferimos os aleluias, essas exclamações que já não dizem nada a ninguém, que se repetem por hábito mais do que por convicção.

Um "Io, Epona!" seria mais honesto. Mais pagão, certamente. Mais conectado com aquilo que realmente se celebra nesta altura do ano: o renascer, a luz que volta, a terra que desperta. Seria celebrar a força da natureza em vez de apenas repetir fórmulas gastas.

Mas pronto, continuaremos com os aleluias. É mais fácil. Menos incómodo. E Epona continuará esquecida, galopando sozinha pelos campos da memória colectiva, enquanto fingimos que não sentimos o pulsar da terra debaixo dos nossos pés.

2026-01-14

Bigodes


A moda é cíclica, já sabemos. E agora temos ressuscitado o bigode, ainda que muitos sejam  só amostra com a mania. É que eu, quando penso num bigode digno do seu nome, com panache e brutalmente patriota, penso no Artur Jorge. Não me serve outro. Não me serve qualquer amostra. E fico a pensar... será que a seguir vamos voltar a ter o "cabelinho à Paulo Bento"?

2026-01-12

O Irão em chamas (outra vez)


Há qualquer coisa de ciclicamente trágico na forma como o Irão volta sempre ao mesmo ponto: protestos nas ruas, repressão brutal, retórica inflamada, o Ocidente a observar com a sua habitual mistura de preocupação e oportunismo. E desta vez não é diferente.

Os números variam conforme quem conta - mais de 600 mortos segundo uns, centenas segundo outros, mais de mil presos é certo -, mas o essencial permanece: um povo exausto pela inflação acima dos 40%, pelo rial que perdeu metade do valor em poucos meses, pela promessa sempre adiada de uma vida melhor. 

Os protestos começaram, como tantas vezes, por razões económicas básicas: o preço do óleo, do frango, do pão. Mas transformaram-se rapidamente naquilo que sempre esteve latente: um grito contra o próprio regime.

Khamenei, fiel ao guião que conhecemos de cor, chama-lhes "vândalos" e "sabotadores ao serviço de interesses estrangeiros". O regime corta a Internet, como se apagar a ligação ao mundo fosse apagar a realidade. E Trump, sempre pronto para o papel de xerife global quando há petroleo para desviar, promete "atacá-los com muita força" se começarem a matar pessoas. Como se não tivessem já começado. Como se as ameaças resolvessem alguma coisa que sanções e guerras retóricas não resolveram em décadas.

Pergunto-me, sinceramente, o que esperamos que aconteça. Que o regime caia? Que uma revolução traga democracia instantânea? Que a pressão externa funcione desta vez, ao contrário de todas as outras? Ou será que nos contentamos em assistir, indignados mas confortáveis, a mais um capítulo desta tragédia previsível?

O povo iraniano merecia melhor do que este ciclo interminável. Merecia um regime que o respeitasse, uma oposição internacional que não o usasse apenas como peça no tabuleiro geopolítico. E merecia sobretudo que o mundo não esquecesse - como esquece sempre - quando as câmaras se desligarem e a atenção mediática passar para a próxima crise.

Mas a história ensina-nos que merecer raramente é suficiente.

2026-01-11

Adolescência


E há dias em que olho para ele e pergunto-me quando é que aquilo aconteceu, quando é que o miúdo deixou de usar calças normais e passou a andar com aquelas calças cargo cheias de bolsos vazios – porque porra nenhuma lá cabe a não ser ar e ilusões de utilidade – e quando é que decidiu que aquele kispo três tamanhos acima, esse que mais parece um saco do lixo com fecho e capuz, era o auge da moda e do bom gosto. E tudo o que digo é cringe, mas ele ali a querer andar embrulhado naquele plástico a que chama casaco, isso é que é estilo, isso é que é estar na onda. Pergunto "Como foi a escola?" e ele murmura qualquer coisa monossilábica tipo "bem" ou "fixe", mas ouse pedir-lhe para largar o telemóvel, só por cinco minutos, e prepare-se para um discurso inflamado sobre direitos humanos e a injustiça que é ter nascido nesta família. E as mudanças de humor, meu deus, as mudanças de humor. Num minuto ri-se desalmadamente de um meme que eu não percebo, no seguinte está dramaticamente afundado no sofá a suspirar como se carregasse o peso do mundo inteiro nos ombros estreitos, ou mais provável ainda escondido no escritório atrás do computador a partir a mesa porque perdeu um jogo. Bem-vindos à adolescência. Onde a lógica foi de férias e ainda não marcou data de regresso.

2026-01-10

Engarrafamento


Se as sondagens de campanha servem de GPS para este desastre anunciado, a resposta honesta é: ninguém faz ideia do que vai acontecer, mas a comédia está garantida. E nós na plateia, como sempre.

A menos de dez dias das eleições, o que temos não é uma corrida democrática — é um engavetamento na VCI em hora de ponta, com cinco egos amachucados a discutir quem tem a ambulância mais bonita.

Damos conta que é desta que "o sistema" pode perder e da fragmentação como fatalidade nacional. São cinco candidatos empilhados entre os 16% e os 21%, como sardinhas azedas numa lata mal fechada. Uma margem tão ridícula que a passagem à segunda volta pode decidir-se por um erro de arredondamento estatístico ou pela qualidade dos salgadinhos servidos no último comício.

Ventura lidera com uns 20%, esse triunfo moral de quem consegue gritar mais alto numa sala de surdos. É o vilão que todos querem defrontar porque perde contra qualquer um na segunda volta. O antagonista útil, a ameaça de plástico que justifica o voto de gente que detesta escolher mas adora sentir-se heroica por fazer o mínimo.

Seguro — esse nome que é um oximoro ambulante — apela ao "voto útil" da esquerda como quem acena a última boia no Titanic.  Quer convencer-nos de que só ele impede o caos — essa palavra mágica que dispensa argumentos. Mas que ninguém pergunte o que fez quando teve poder para além de aquecer cadeiras e acumular derrotas elegantes.

Gouveia e Melo, o Almirante-vacina, começou como o messias inevitável mas vai murchando como alface esquecida no frigorífico. Ainda assim, se chegar à segunda volta, esmaga tudo com aquela eficiência militar que tanto reconforta o português em pânico. Porque não há nada que este país adore mais que fardas quando precisa de alguém que mande nele.

Cotrim de Figueiredo vai subindo nas sondagens à boleia de quem ainda acredita que liberalismo é resposta para alguma coisa que não seja o lucro dos amigos. Mas tem bom aspecto, não parece ter um Santana sem pescoço por amigo e seria presenciavel na fotografia.

Marques Mendes, o comentador que queria ser Rei e descobriu que falar para a câmara ao domingo é bem mais confortável que andar de coturnos pelo país gelado a fingir que gosta de povo. Está em quinto lugar, provando que carisma televisivo não paga despesas de campanha nem tira portugueses do sofá em janeiro.

A conclusão sem vaselina é que
teremos provavelmente uma segunda volta entre Ventura e um "Candidato Sério" do costume — seja o que hesita cronicamente, o que se põe em bico de pés, o fotogénico ou o que tem medalhas no peito. O duelo épico entre a taberna e o quartel, entre quem berra populismos e quem recita tecnocracias. Entre o insulto e a indiferença.

A única certeza absoluta? Ninguém sabe, as gráficas que imprimem boletins vão lucrar obscenamente e nós, os figurantes deste teatro democrático, continuaremos a escolher entre medos embrulhados em promessas. Nunca entre futuros. Porque futuros exigiriam imaginação e isso não é bem a nossa especialidade nacional.

2026-01-09

Flor do Mal


Dizem que o amor é cego, mas talvez o amor seja, na verdade, a única forma de visão que suporta a escuridão total. Em Flower of Evil, não somos convidados a assistir a um crime; somos convidados a observar o desmoronamento de uma máscara que, de tão bem esculpida, se tornou a única verdade de um homem.

​Baek Hee-sung — ou o fantasma de Do Hyun-su — é um mestre da metalurgia, mas a sua maior obra foi a própria vida. Ele moldou o metal para criar beleza e moldou o rosto para simular o afeto. É perturbador e, ao mesmo tempo, profundamente triste vê-lo praticar sorrisos em frente ao espelho, como quem aprende uma língua estrangeira para sobreviver num país onde nunca será cidadão: o país dos sentimentos.

​E depois temos Ji-won. Ela não é apenas a detetive que persegue a verdade; ela é a mulher que vê o monstro e decide, com uma coragem que roça a loucura, procurar a criança ferida que habita lá dentro. No silêncio daquela casa perfeita, o suspense não nasce do sangue derramado, mas do som do vidro a estilhaçar-se — o vidro da ilusão.

​Nesta série, a Coreia oferece-nos o oposto do ruído vazio a que o cinema ocidental nos habituou. Aqui, o mal não é uma caricatura; é uma herança pesada, um estigma que se cola à pele. Mas a beleza desta "Flor do Mal" reside precisamente na sua raiz: a descoberta de que mesmo alguém convencido da sua própria incapacidade de amar pode, no fim, ser salvo pelo reflexo do olhar de quem nunca desistiu de o ver por inteiro.

​Afinal, a verdade não nos liberta apenas. Às vezes, ela destrói-nos primeiro, para que possamos, finalmente, ser reais.

2026-01-08

Tribulações


Olhem-me só para este focinho de “Quem? Eu? Importunar? Nunca!”. Só orelhas e um bocadinho de gata à volta. E um miado forte o suficiente para sinalizar ambulâncias. Tenho para aqui uma diva a cantar ópera 24/7. Hoje, com o tamanho da dor de cabeça, é tipo um bingo cósmico de “quantas coisas podem acontecer ao mesmo tempo”. Eu sei que a gata não sabe que está a ser inconveniente ou que me dói a cabeça. E que, na cabeça dela, está só a fazer o seu trabalho muito importante de anunciar a sua disponibilidade ao universo. Aos berros. Constantemente. Enquanto eu tenho os pés gelados, o cérebro nebuloso e meio nariz entupido. E está tudo cinzento e apático. Menos a gata. Rais’parta a gata!

2026-01-06

Novelos e Neuroses



O croché é uma das poucas atividades onde começamos com um fio e terminamos com um tapete para o sofá, três camisolas inacabadas no armário e uma crise existencial sobre o sentido da vida.

Dizem que é relaxante. Mentira. Relaxante é até perder a conta das correntinhas pela quarta vez e perceber que aquele quadrado que deveria ter 20 pontos tem misteriosamente 17. Aí começa a investigação forense: "Onde é que eu comi os outros três?"

O mais fascinante é a velocidade de execução. Lembras-te da tua avó a fazer croché enquanto te prestava atenção com um ouvido e tinha o outro no Anthímio de Azevedo... Parece feitiçaria! Enquanto isso, tu precisas de silêncio absoluto, três tutoriais no YouTube e mesmo assim o teu "ponto baixo" fica com cara de "ponto deprimido".

E nem vamos falar dos padrões: "Faça 3 correntes, 2 pontos altos no mesmo ponto, vire a peça, sacrifique uma galinha à lua cheia..." Parece mais um ritual de magia negra do que artesanato.

Mas no final, quando aquele cachecol torto ficar pronto, vou usá-lo com o orgulho de quem escalou o Everest de chinelos.

2026-01-04

Doutrina "donroe"

Ah, meus caros, sirvam-me um copo de tinto, mas que seja do Douro, que o Napa Valley agora paga taxa de importação de luxo e o paladar deles sempre soube a hegemonia com aroma a carvalho novo.

​Sento-me aqui, no outono desta Europa que cheira a biblioteca velha e mofo, a olhar para os jornais deste início de 2026. Eu, que vi o Muro cair em Berlim com o coração a bater como se a História tivesse, finalmente, aprendido a ler e a escrever. Eu, que celebrei o fim da Guerra Fria com a ilusão de quem achava que o mundo seria, dali em diante, um jardim de infância gerido por filósofos. Que pateta fui, não é?

​Agora, vejo o "Don" a desenhar mapas com o mesmo giz de quem marca o território numa briga de taberna. Chamam-lhe "Doutrina Monroe", dizem os académicos com os seus óculos na ponta do nariz. Mas eu, que ainda sinto o frio dos anos 80 nos ossos, vejo ali outra coisa. É o regresso do Lebensraum, mas servido com um hambúrguer de plástico e uma aplicação de rede social.

​É a "Doutrina Donroe",  dizem. Um destino manifesto onde o "espaço vital" já não é o Leste europeu, mas sim tudo o que fica a sul do Rio Grande e a norte da Antártida. O Hemisfério Ocidental transformou-se no "quintal privativo" do Xerife. Se tens lítio, és "espaço vital". Se tens migrantes, és "ameaça biológica". É uma geometria política feita de muros e espelhos: o Don olha para o mapa e não vê países, vê imobiliário.

​E nós? Nós, a Europa...

​Nós somos a velha tia solteirona que ficou a falar sozinha no salão, enquanto os sobrinhos decidem quem herda a mobília. Sobrevivemos à Guerra Fria para morrermos de tédio e irrelevância nesta "Guerra Morna" de 2026. Em Washington, dizem que somos um "museu a céu aberto", uma civilização que se esqueceu de como se faz um soco. E talvez tenham razão. Enquanto eles discutem anexar a Gronelândia como se fosse um anexo para arrumações, nós aqui na UE discutimos o tamanho regulamentar das maçãs e a curvatura dos pepinos.

​É cómico, se não fosse de chorar. A Doutrina Monroe original era para afastar os reis europeus. Esta nova versão é para nos convencer de que nem sequer existimos. O Don olha para o Atlântico e vê um fosso, não uma ponte.

​É trágico ver o mundo voltar a dividir-se em "zonas de caça". É o regresso aos impérios que não conversam, que apenas rosnam e marcam o chão com urina estratégica. Eu, que sonhei com o fim das fronteiras, vejo agora o mapa mundi a ser retalhado por um mestre de obras que não aceita orçamentos de fora.

​Deem-me mais um gole. No fim de contas, o fim da História foi apenas um intervalo comercial. O filme que está a dar agora é a preto e branco, mas as legendas são em cirílico, mandarim e, acima de tudo, num inglês que já não reconhece a palavra "aliado".

​A Europa está calada, dizem? Não, meus caros. A Europa está apenas a tentar perceber se ainda tem voz, ou se o nó na garganta é apenas o medo de que o próximo "espaço vital" a ser negociado seja o nosso silêncio.

2026-01-02

Festas


Depois de Festas, resta-nos acordar às 3 da manhã (porque dormir a noite toda virou um conceito teórico) em ressaca existencial porque se comeu rabanadas suficientes para alimentar uma família inteira, enquanto o nosso metabolismo, que já estava em greve desde a chegada dos 50, simplesmente decidiu tirar férias permanentes.

Mas ei!, já sobrevivemos ao século passado, à TPM por décadas e aguentamos mais chefes insuportáveis do que seria possível imaginar - umas festas com excesso de bolo-rei não vão acabar connosco. Só vão deixar-nos inchadas, suadas e arrependidas até março. Nada que uma promessa de "ano novo, vida nova" não resolva... até aos Reis.