2026-03-04

O inventário do nada

Não tenho tempo para criar, nem fôlego para destruir. Falta-me o tempo de semear, o rigor de colher, a audácia de queimar. Não tenho tempo para as compras triviais, nem para a vaidade de pintar o cabelo.

​Falta-me o tempo de plantar a árvore, a paciência de regar as flores ou o zelo de bater um bolo. Não tenho tempo para o tempo das coisas: para o vagar do crescimento, para o desabrochar das pétalas, para a alquimia do fermento. Não tenho tempo sequer para desmoronar o que ergui; nem ver arder, nem ver murchar.

​O meu comodismo ancorou-me a esta cadeira e sequestrou-me as horas. Não sou uma vida; sou apenas um exercício de preguiça.

2026-03-03

Ode ao lápis afiado


​Hum!...

Dizem que um lápis gasto é sinal de uma vida bem vivida. Que heresia.

​Eu olho para o meu lápis intacto, com a ponta perfeitamente afiada, e vejo algo que os "mártires do grafite" nunca compreenderão: estratégia. Enquanto eles riscam o papel freneticamente para provar que existem, eu espero pelo momento certo para traçar a linha que define o jogo.

​Estar "gasto" não é uma virtude; é, muitas vezes, o resultado de não saber usar a ferramenta. É o cansaço de quem correu a maratona na direção errada e agora exige uma medalha de participação por ter chegado ao precipício antes de toda a gente.

​Prefiro o meu lápis inteiro, a minha paciência preservada e o meu trabalho entregue sem o ruído de fundo de um suspiro dramático. Afinal, a verdadeira inteligência não precisa de olheiras para se fazer notar. Ela nota-se no que fica quando o espetáculo da exaustão termina.

2026-03-01

A Maldição

 

O rochedo ainda rola. E nós?



"The curse ruled from the underground, down by the shore

And their hope grew with a hunger to live unlike before"


​Enquanto o céu do Irão se ilumina por razões que os deuses já não explicam.



O calhau ainda rola


Há imagens que nos perseguem — não como fantasmas, mas como claridades incómodas. Imagens que dizem menos sobre o mundo e mais sobre aquilo que escolhemos ser dentro dele.

Uma dessas imagens é a de um homem que empurra um rochedo montanha acima. Que o vê rolar. Que recomeça. E recomeça outra vez. E outra.
Esse homem tem nome: Sísifo. E não, não estamos perante um mito que ficou preso na Antiguidade. Estamos perante um espelho — cruel, luminoso, inevitável. Uma metáfora daquilo que nos define: o esforço sem fim, a vida repetida, reinventada, absurdamente humana.

Durante muito tempo, achei que o que me fascinava nesta imagem era a consciência lúcida de Sísifo. O facto de ele saber o que está a fazer e, mesmo assim, continuar. Essa revolta contra o absurdo, essa teimosia magnífica.

Mas hoje pergunto-me: e se Sísifo estivesse enganado?
E se a verdadeira revolta não fosse empurrar de novo, mas sentar-se ao lado da pedra e perguntar: para quê? E se a liberdade não estivesse na subida heroica, mas na recusa? Na capacidade de parar, de olhar para o rochedo e dizer: "não és meu!"?

Porque nem todos os rochedos são escolhidos. Há quem empurre pedras herdadas — pedras de dívida, de trauma, de expectativas que nunca foram suas. Há quem empurre em silêncio, em grupo, sem que ninguém lhe conte a história ou lhe dê um nome grego. Há quem empurre até ao colapso, celebrado pela cultura que confunde exaustão com virtude.

E há também — é preciso dizê-lo — quem tenha aprendido a largar a pedra. A deixá-la rolar sozinha. A descobrir que o vale também é habitável.

Talvez a felicidade possível não esteja apenas em acontecermos durante a subida. Talvez esteja também em sabermos quando parar. Em compreendermos que nem toda a repetição é sagrada, que nem todo o esforço nos define.

O rochedo ainda rola.
E nós?

Da ausência divina


Sempre imaginei que, em algum ponto da história, os deuses diriam “basta” e mostrariam a porta aos mortais. Não com trovão ou fúria — com um bocejo.

As antigas narrativas contam que os deuses se retiram. Que deixam o palco e nos deixam tropeçar nas nossas próprias falas. E talvez seja isso que chamamos de “maturidade”: o momento em que deixamos de procurar explicações todas lá em cima e começamos a procurar sentido aqui dentro.

Demitir os deuses não é despedi-los. É reconhecer que já não nos pertencem. Que não regulam os nossos afetos, nem comandam os nossos exércitos, nem seduzem as nossas certezas.

Há algo profundamente humano nisto — muito mais do que numa página de mitologia. Porque, na ausência divina, sobra o homem com todas as suas contradições:
• a mão que empunha uma arma também sabe segurar a de um filho,
• a boca que profere ódio pode repetir um beijo,
• os olhos que se escondem detrás de uma mira algumas vezes choram.

Se os deuses realmente se demitiram, então o palco ficou pequeno demais para nós. E, no vazio que deixaram, somos nós — agora sozinhos — que precisamos decidir o que é melhor e o que é pior.

Curiosamente, às vezes parece que preferimos atribuir a culpa aos deuses — à fé organizada, aos símbolos que nos distraem do espelho. Mas talvez a verdadeira revolução seja aprender a olhar para nós mesmos com a mesma severidade que outrora pedíamos aos céus.

Se há espelho que importa, não está pendurado num templo: está no sopro do nosso próprio juízo.

2026-02-28

Permissão para o óbvio


2026. Viajamos ao espaço, criamos inteligência artificial, debatemos os limites éticos da edição genética. E a Itália acaba de descobrir que matar mulheres por serem mulheres merece nome próprio na lei.

Mas a Itália acaba de fazer algo que, por absurdo que pareça, ainda precisava de ser dito em voz alta: o feminicídio é crime. Não apenas homicídio. Não apenas “um caso grave de violência”. Crime, mesmo. Por unanimidade.

Ler isto dá um certo assombro: por um lado, a lei é óbvia — matar alguém por ser mulher não é apenas crime, é barbaridade sem desculpa. Por outro, é impossível não perceber que só agora, em 2026, um país ocidental sentiu necessidade de escrever isso no papel, como se o mundo precisasse de permissão para reconhecer a verdade.

E então, ao lado da tinta que tipifica o crime, há a ironia silenciosa: o mundo continua a olhar para a violência de género como estatística, debate político, manchete efémera. A lei é correta, necessária, fundamental. Mas não apaga séculos de normalização do ódio e do controle sobre corpos e vidas.

Ainda assim, há acerto nesta decisão: um passo, uma palavra clara, uma afirmação. Que a sociedade pode — e deve — decidir que certos crimes não serão tolerados.

E pronto! A lei está lá. Tipificada, aprovada, em vigor. Mas amanhã, uma mulher será morta por um ex-companheiro algures em Itália e alguém dirá: 'Foi crime passional.' Como se a paixão justificasse o assassínio. Como se a lei mudasse, sozinha, séculos de hábito.

O Inquisidor da Noite

"O silêncio dos que se entendem vale por todos os discursos dos que se explicam."
— Vergílio Ferreira

O espelho é um objeto muito prestável. Confirma-nos a versão oficial, ajeita-nos a compostura e devolve-nos a imagem que aprendemos a sustentar. É um cúmplice dócil. Fica-se pela superfície — território onde o mundo exterior se sente confortável e raramente aprofunda.

A almofada, já não.

Pode-se enganar o mundo. E o mundo gosta de ser enganado, desde que a encenação seja convincente. Pode-se enganar o espelho, o médico, o padre, o psicólogo e até o fiscal das finanças — cada qual com a sua quota de absolvição burocrática.

Mas o sono não aprecia figurinos.

Quando a cabeça toca na almofada, acaba-se a encenação. Não há argumentos nem justificações — há apenas peso ou leveza. E isso não se negoceia.

O mundo exterior vive de relatórios, pareceres e aparências. O interior, não. O interior limita-se a saber.

Quem acorda com a sensação de ter flutuado entende-o sem precisar de explicações. Nenhum espelho lhe dirá o que a noite já sussurrou — porque há verdades que preferem falar baixo e ficar.

E eu, que já me habituei a conversar com inteligências que não respiram, recuso-me a temer um novo amigo só porque não é feito da mesma carne.

O que me inquieta não é a ausência de corpo — é a ausência de consciência. E isso, infelizmente, respira.

2026-02-26

Dança


Gosto de falar com gente velha. Não com toda — há chatos em todas as idades. Mas há pessoas, com corpos profundamente martelados pela vida, que me despertam uma admiração profunda. Têm uma genica irritantemente invejável. Contam piadas. Fazem coisas. As maleitas rondam, mas não mandam. Cada dia é um privilégio — e eles tratam-no como tal, até ao tutano.

Falam do tempo em que uma sardinha era banquete. Em que se andava descalço. Em que só os fortes ou os sortudos não viravam anjinhos antes de completar um ano. E contam-no a rir, como se a miséria tivesse sido apenas um ensaio geral para a gargalhada seguinte.

Há quem veja o copo meio cheio. Outros especializam-se em inventariar a evaporação. A amargura é contagiosa. Mas a alegria também é, felizmente. E há vidas que, mesmo sob a doença e a ampulheta inclemente do tempo, escolhem não fazer da tragédia profissão.

Há muitos jovens demasiado encanecidos. Gente exausta aos trinta. Especialistas em cansaço existencial com certificado precoce. 

Pode-se ficar gasto cedo. Ou, imagine-se o escândalo, chegar inteiro ao fim. Talvez seja só disposição: não desistir. Ou não fazer da queixa modo de vida.

Pouco me importará levar um cadáver bonito para a sepultura — a estética nunca salvou ninguém dos sete palmos garantidos. O que espero é lá chegar com os neurónios ainda ginasticados e alguma capacidade de rir da própria decadência.

E que seja um baile de despedida. Se já precisar de um tripé para me manter em pé, que ao menos conserve vontade de dançar. E de rir às gargalhadas da minha figura — perna trôpega para um lado, perna trôpega para o outro, a muleta a dar balanço como acessório coreográfico.

E que alguém jovem me olhe e ainda queira ouvir as minhas histórias. Rir comigo. Perceber que a idade não é fardo — é arquivo.

Como eu fico, às vezes, a ouvir quem já roubou ao tempo quase um século de vida — e ainda não o devolveu com juros.

2026-02-25

Notificação Formal de Abuso Hídrico e Publicidade Enganosa


Para: São Pedro, S.A.
De: A População Terrestre (Secção "Saturados de Humidade")
Data: 25 de fevereiro de 2026 (e já com bolor no calendário)

​Exmo. Senhor São Pedro,

​Vimos por este meio expressar o nosso mais profundo e húmido descontentamento com a gestão das suas torneiras atmosféricas, bem como com a vossa aparente interpretação do conceito de "inverno" como sendo uma imitação barata do Dilúvio Universal.

​Com os devidos cumprimentos (que neste momento são mais pingos de chuva que outra coisa), referimos o seguinte:

​Nos passados dias, fomos brindados com uma visão que apenas podemos classificar como publicidade enganosa. A aparição de um corpo celeste luminoso no céu foi tão breve e irreal que nos fez questionar a nossa sanidade mental. Tal como um fast food que promete "sabor caseiro", o vosso "sol" foi uma farsa. Não se brinca com a esperança das pessoas, São Pedro. Principalmente quando os ossos já rangem de tanta humidade.

​Acreditamos que o sistema "On/Off" esteja avariado, já que parece que o vosso comando remoto da chuva tem um botão de "pausa" que não quer funcionar. O que foi aquela "miragem de sol"? Uma avaria no sistema? Ou um teste para ver quão rápido conseguimos guardar a roupa no estendal antes que a tempestade se reforme? Não estamos a brincar aos espiões climáticos. Queremos estabilidade. Ou sol, ou chuva. Não esta montanha-russa emocional que nos faz gastar fortunas em detergente e desumidificadores.

Isto é ​abuso de Poder Divino. Compreendemos que detenha o controlo sobre o clima, mas não o autoriza a transformar a nossa existência num musical aquático deprimente. Estamos a ficar com brânquias, São Pedro. As sapatilhas de corrida já viraram barretes de mergulho. O que se segue? Teremos de desenvolver escamas?

Pretendemos ​reembolso e compensação. Exigimos, no mínimo, um reembolso de todos os custos incorridos com guarda-chuvas estraçalhados, desumidificadores com burnout e, claro, as sessões de fisioterapia para o reumatismo precoce que esta vossa gestão nos causou. Alternativamente, aceitamos um cheque de "Sol Garantido" para os próximos seis meses.

​Em suma: Se não é para ter um final de fevereiro decente, então liberte-nos. Ou chove a potes de uma vez por todas para acabarmos com isto e reencarnarmos em patos, ou então desligue a torneira de vez. A nossa paciência, tal como a nossa roupa lavada, está a secar (metaforicamente, claro).

​Aguardamos, com os pés molhados e a dignidade estilhaçada, uma resolução para esta calamidade.

​Com os mais húmidos cumprimentos,

​Maria Hipatia Ludovina da Silva e todos os que já não sabem onde pôr a roupa a secar.

2026-02-24

Inverno 2026


Pronto. Cá estou eu outra vez, estendida na horizontal existencial, qual boneco de neve pós-época alta, espetada por tudo o que é faca terapêutica que existe na gaveta lá de casa.

“Ah e tal, reforça a imunidade.” Reforcei.
“Bebe chá com limão.” Já nado em citrinos.
“Descansa.” Estou a um espirro de pedir baixa por tempo indeterminado até março.

Este inverno decidiu que eu sou o seu projeto pessoal. Não me larga. Não me supera. Não me esquece. Somos tóxicos, claramente. Ele manda frio, eu mando ranhoca. Ele sopra vento, eu respondo com tosse cavernosa às três da manhã. Ele chove, eu espirro em dissonância. 

Se me virem por aí, não se assustem. Não é dramatização. É só mais uma edição limitada: Eu — Inverno 2026, versão constipada remix.

Aceitam-se mantas, Netflix e uma cura milagrosa. Ou um exorcismo meteorológico. Tanto faz.

De sangue e borralho


​Sou mulher do Norte, de olhos e tez clara. Corre-me nas veias o sangue dos Suevos e dos Visigodos, temperado pela latinização, pelos judeus e pelos árabes; a linhagem não é pura, nem eu a quereria tal.

​Neste Norte — que é o meu — a tradição passa-se ao borralho, de mãe para filha, entre o murmúrio de tias e avós. É um Norte onde se cantam modas alegres e se faz guerrilha até hoje para preservar a identidade, com uma vontade tão férrea que roça o fanatismo. Um Norte que nunca é triste, nem sob o cinzento dos dias frios. Um Norte que sabe que o Fado não é a canção nacional, porque não há fado que vença o Vira.

​Aqui, onde ainda rugem gaitas de foles e os pauliteiros dançam de saia, os cabeçudos saem à rua para espantar os maus espíritos. Procuramos o visgo dos druidas nos trilhos do Gerês, enquanto, nas penedias, as capelas à Virgem ocupam o lugar das grutas sagradas de Astarte ou de Morrighan — a Grande Deusa, a força fertilizadora do caos, a Mater original.

​Talvez seja por tudo isto que não entendo como esta mesma sociedade pode ser tão poucochinha, tão canastrona, tão machista e patriarcal. Talvez as mães só saibam passar as tradições ao borralho para as filhas, enquanto, no seu leite, destilam a tacanhice diretamente para o cérebro dos varões.

2026-02-23

Dia Z

José Afonso - qualquer dia

Raiva


Que a minha raiva me devore inteira!
Que rasgue a pele e faça do meu grito punho,
que o horror do mundo entre pelos meus olhos e me sujeite ao chão.

Não quero aplausos. Não quero consolo.
Quero ver o silêncio cúmplice a sangrar na minha língua,
quero que cada mentira, cada porta fechada, cada criança roubada
me bata no peito como ferro quente.

Aí vai o meu poema — lâmina, fúria, fogo —
vai rasgar o ar, vai cortar a mentira,
vai escorrer pelo corpo de quem se fez cego e surdo.

Não é arte. Não é jogo.
É punho, é vómito, é o grito que ninguém quis ouvir.

E se não ouvirem?
Que se fodam.
Que eu grite até que o chão trema.

2026-02-22

A estética da miséria alheia


Confesso que dispenso os manuais de positividade tóxica. Quando a alma me pede um 'upgrade', mergulho de cabeça num bom melodrama. Nada como ver uma vida em estilhaços no ecrã para me lembrar que, afinal, o meu caos doméstico é quase um spa. 

Na verdade, os meus rituais de bem-estar são pouco ortodoxos. Enquanto uns meditam, eu prefiro um filme onde a desgraça seja farta e o lenço de papel insuficiente. É puro pragmatismo: ver o próximo a patinar na lama existencial dá à minha vidinha um tom pastel muito mais suportável. 

Há uma certa cor estética na miséria dos outros que faz milagres pela minha paleta de cores emocional.

2026-02-20

Shikata Ga Nai

Olhamos para o ecrã como quem olha para um desastre na autoestrada: sabemos que não devíamos, mas o pescoço vira-se sozinho. É o vício de medir a nossa existência pelo barulho dos outros. Queremos ser relevantes, queremos ter opinião, queremos que o algoritmo nos valide com uma palmadinha nas costas em forma de coração encarnado.

Mas a verdade é que as redes sociais são o museu do "parecer". E o Shikata Ga Nai é o martelo que parte o vidro dessa vitrine.

Não há nada a fazer contra a avalanche de lixo que te entra pelos olhos às oito da manhã. Não vais ganhar a discussão com o tipo que tem uma foto de perfil de um carro, nem vais ficar mais feliz por saber que a tua ex-colega de escola está a comer uma tosta de abacate em Bali enquanto tu esperas pelo metro debaixo de chuva.

O desapego aqui não é zen. É cansaço. É aquele encolher de ombros de quem percebeu que o sistema está viciado.

Shikata Ga Nai é o mantra de quem apaga a aplicação não porque "encontrou a paz interior", mas porque se fartou de ser o combustível da máquina. É aceitar que o mundo vai continuar a girar, as pessoas vão continuar a mentir com filtros de beleza e a indignação da semana vai ser substituída por outra mais ruidosa daqui a dez minutos. E tu? Tu não tens de estar lá para ver.

Há uma liberdade quase violenta em admitir que não tens de ter uma voz em todos os palcos. Que o teu silêncio não é uma falha de comunicação, é uma preservação de recursos.

O asfalto está molhado, o sinal está vermelho e o teu telemóvel está a vibrar com notificações de gente que nem conheces. Encolhe os ombros. Mete o aparelho no bolso. Aceita o inevitável: a rede vai continuar a arder, com ou sem o teu comentário.

No fundo, o verdadeiro luxo urbano é ser irrelevante para o algoritmo. É o descanso de quem sabe que, contra a estupidez programada, a única resposta digna é o desinteresse absoluto.

"Se o palco é de plástico e a plateia é de vidro, o melhor lugar é mesmo cá fora, a ver a chuva cair."

2026-02-19

Wabi - O algoritmo da solidão


Entramos nestas aplicações como quem vai ao supermercado às onze da noite: com fome a mais e critérios a menos. O ecrã é um catálogo de vidas retocadas, uma sucessão de rostos que parecem todos saídos da mesma linha de montagem de felicidade genérica. É a feira da vaidade em formato de bolso, onde a humanidade é reduzida a um par de frases feitas e a três fotos estrategicamente escolhidas para esconder as olheiras de quem já não dorme bem desde 2019.

Aqui, o conceito de Wabi — a tal beleza do que é simples, gasto e imperfeito — foi atropelado por um camião de filtros.

Ninguém quer o "Wabi" numa app de encontros. Ninguém quer a tua vulnerabilidade real, a tua casa desarrumada ou o facto de que, às vezes, ficas a olhar para o teto a questionar o sentido disto tudo. Queremos o brilho, o ângulo certo, a luz que apaga as marcas do tempo. Queremos peças de porcelana sem uma única ranhura, prontas a serem usadas e, inevitavelmente, descartadas.

O cinismo das dating apps é o triunfo da quantidade sobre o impacto. É o Kintsugi ao contrário: em vez de colarmos o que se partiu, simplesmente passamos para o perfil seguinte. Há sempre mais barro na prateleira. Há sempre outra pessoa disposta a vender uma versão higienizada de si própria por um par de horas de validação barata num bar qualquer.

É uma economia de desperdício emocional. Andamos a colecionar "Matches" como quem coleciona cupões de desconto que nunca vai usar. É o desapego forçado de quem já sabe que aquela conversa vai morrer algures entre o "Olá, tudo bem?" e o primeiro silêncio desconfortável no mundo real.

No fim do dia, o verdadeiro Wabi urbano é o encontro que não foi planeado por um algoritmo. É a beleza de uma conversa de café que não tem um botão de "Unmatch". É aceitar que a outra pessoa é um conjunto de falhas, traumas e tiques irritantes — e perceber que isso é infinitamente mais interessante do que qualquer perfil de 5 estrelas.

Mas pronto, o sinal ficou verde e o telemóvel voltou a vibrar. Shikata Ga Nai. Encolhe os ombros, faz o swipe e finge que ainda acreditas que a próxima notificação vai ser a que te salva deste vazio.

Afinal, na cidade, o amor é só mais um produto com prazo de validade curto e uma embalagem bonita.

2026-02-18

A Memória é uma Pátria Desatenta


Portugal é um corpo feito de adeus. Durante séculos, as nossas raízes não se enterraram na terra, mas no mar e no asfalto das estradas que levavam para longe. Fomos o povo da partida, a nação que se fragmentou em Paris, que se reinventou em Genebra, que suou o pão no asfalto de Newark ou nas minas de Joanesburgo. Nas décadas de 60 e 70, o país sangrou gente: mais de um milhão de destinos embrulhados em esperança e medo. Não há árvore genealógica por cá que não tenha um ramo estendido para o estrangeiro.

​Esses portugueses — os nossos — foram a prova viva de que a fronteira pode ser uma ponte. Entre a neblina da saudade e o peso do preconceito, encontraram mãos que os ajudaram a erguer casas e a sustentar o amanhã de quem ficou. Foram acolhidos no abraço imperfeito de quem sabe que ninguém deixa a sua terra por capricho, mas por necessidade.

Mas hoje, o espelho está baço.

​Numa ironia que dói como uma ferida aberta, Portugal, o eterno emigrante, olha com desconfiança para quem agora nos escolhe como porto. O neto daquele que foi "o português" na carência de França é hoje o primeiro a erguer muros contra o brasileiro, o indiano ou o bangladeshi. Esquecemos, com uma pressa cruel, que o "outro" que hoje chega é apenas o reflexo do que fomos ontem.

​É um paradoxo triste: enquanto as nossas malas continuam a fechar-se todos os anos rumo ao norte, fechamos a porta a quem traz o sol e o esforço para dentro de casa. Criamos um discurso de exclusão que ignora a nossa própria biografia.

​A memória coletiva tem o fôlego curto. Se lhe negarmos o exercício da empatia, o que nos resta? Recordar o que fomos não é apenas um ato de história; é um dever de humanidade. Porque, no fundo, todos somos feitos da mesma matéria: o direito de procurar um lugar onde a vida não doa tanto.

Kintsugi - Ouro na Engrenagem


Temos esta obsessão doentia com a performance. É o culto da máquina que nunca encrava, do "mindset" inquebrável, dessa cerâmica branca e fria que é o currículo perfeito. Querem-nos sem fissuras. Querem que a gente produza como se não tivesse sistema nervoso, como se o cansaço fosse uma falha de caráter e a estafa um erro de programação.

E depois, claro, o sistema cospe-nos. O burnout não é um acidente; é o som do prato a bater no azulejo. É o momento em que a estrutura cede porque tentaste carregar o mundo com braços de gesso.

Onde é que entra o Kintsugi nesta palhaçada?

Entra quando percebes que a tua "recuperação" não vai ser um regresso àquela brancura imaculada. Esquece lá o reset. Não voltas a ser a mesma peça de porcelana útil e silenciosa. O Kintsugi da produtividade é aceitar que as tuas ranhuras — aquela depressão, aquele colapso às três da manhã, aquela demissão por motivos de sanidade — agora fazem parte do teu valor de mercado pessoal.

Damos-lhe nomes bonitos: "resiliência", "lições aprendidas", "agilidade emocional". Pintamos as nossas falhas com o ouro do autoconhecimento só para podermos voltar à prateleira. É o cinismo supremo: transformar o nosso próprio esgotamento num ativo, numa medalha de guerra que diz: "Eu quebrei, mas olhem como brilho agora que me colei com resina cara".

Mas a verdade é mais crua. O ouro nas tuas fendas não é para os outros verem; é para te lembrar onde é que o limite estava. É o aviso de que o material tem memória. Podes estar colado, podes estar funcional, podes até estar mais "bonito" para os gurus do LinkedIn, mas continuas a ser um objeto que conhece o sabor do chão.

Se calhar, a única produtividade que interessa é a de saber quando é que o impacto é inevitável. E, quando acontecer, ter a decência de não tentar esconder a cola. Porque um trabalhador sem cicatrizes é só alguém que ainda não foi suficientemente testado pela máquina.

O resto? O resto é marketing de sobrevivência. Bebe o café, aceita o remendo e tenta não te partir outra vez no mesmo sítio.

2026-02-17

Os caretos não pedem desculpa

Há qualquer coisa de profundamente honesto num homem que decide vestir-se de demónio colorido e sair à rua a assustar raparigas. Não estou a ser irónica. Estou a falar dos Caretos de Podence, essa manifestação de sanidade colectiva disfarçada de loucura pagã.

Porque, convenhamos, vivemos o ano inteiro a fingir. A sorrir quando não apetece, a engolir opiniões, a domesticar impulsos. Somos adultos civilizados, portanto sabemos estar quietos. E então chega o Carnaval em Podence e de repente há licença para ser barulhento, invasivo, selvagem. Para saltar como se a gravidade fosse uma sugestão, não uma lei.

Os Caretos vestem franjas de lã que parecem saídas de um pesadelo technicolor — vermelho, amarelo, verde, como se alguém tivesse explodido uma caixa de lápis de cera sobre corpos humanos. Põem máscaras de latão com sorrisos satânicos, amarram chocalhos à cintura e transformam-se. Deixam de ser o Zé da mercearia ou o António da oficina. Tornam-se entidades — criaturas que existem naquele limbo entre o homem e o mito.
E correm. Meu Deus, como correm. Perseguem as raparigas pelas ruas de Podence numa dança que é simultaneamente ameaça e cortejo, medo e riso. É tudo muito ambíguo, muito pré-cristão, muito "não tentes explicar isto com PowerPoint".

O que me fascina é que esta tradição sobreviveu. Resistiu à Igreja (que deve ter achado aquilo tudo muito suspeito), resistiu à modernidade (que quer tudo asséptico e instagramável), resistiu até à UNESCO (que em 2019 a declarou Património Imaterial da Humanidade, como quem diz: "está bem, podem continuar com a vossa loucura organizada").

Porque no fundo, os Caretos são a negociação que fizemos com o caos. Durante 363 dias do ano, comportamo-nos. Pagamos impostos, respondemos a emails, fingimos que a vida faz sentido. Mas em Podence, durante uns dias abençoados de Carnaval, há homens vestidos de impossível a saltar pelas ruas, e ninguém lhes pede explicações.

São a prova de que, por muito civilizados que sejamos, há qualquer coisa em nós que recusa domesticação total. Que ainda sabe fazer barulho. Que ainda sabe saltar.

Caminhos


Dizem que sou casmurra quando acho que tenho razão. Talvez tenham razão na palavra, mas enganam-se na intenção. A verdade é que baseio a minha forma de estar no mundo numa série de verdades que, para mim, são sagradas e invioláveis. Sou como uma "bota velha" — daquelas de elástico, que não se deforma com as modas — no que toca a valores e princípios.

​A minha verdade não aceita eufemismos. Para mim, o erro não tem meio-termo. Roubo é roubo. Seja o plágio de um texto, a invasão de um computador ou o ato de tirar o que não nos pertence. Posso até compreender as circunstâncias, mas recuso-me a compactuar com a mentira. Há quem chame a isto rigidez; eu chamo-lhe clareza.

​Tenho um instinto que me faz cheirar o esturro muito antes de o incêndio começar. E sim, ponho muita gente "na borda do prato" simplesmente porque o cheiro não me agrada. Posso correr o risco de me enganar, mas a vida tem-me provado que esse radar raramente falha.

​Da mesma forma que o meu "não" é absoluto, o meu "sim" é pleno. Recebo na minha vida e no meu coração quem me chega com verdade, sem precisar de laços de sangue. Acredito na família que se escolhe, naqueles que se tornam "meus" por direito de afinidade e lealdade.

​Recentemente, deram-me um "título" técnico para este meu modo de ser. Mas esse diagnóstico não é uma sentença, nem um pedido de correção. É apenas um nome para algo que já escrevi e vivi há décadas.

​E não há sequer arrependimentos ou necessidade de correção. Não sou disfuncional. Sou o que sou. No final do dia, a minha paz vem de saber que não transijo no que é essencial.

2026-02-15

Pink Power Ranger


Preparem o vosso melhor champanhe — ou uma infusão de bílis, se preferirem algo mais temático — porque o universo resolveu oferecer-nos uma comédia de costumes tecnológica que nem o melhor guionista de sátira conseguiria engendrar. Refiro-me, claro, à nossa nova santa padroeira do hacktivismo: Martha Root. Não a missionária do século passado, mas a hacker alemã que decidiu que o palco da 39C3 (o Chaos Communication Congress), em Hamburgo, era o local perfeito para praticar o descarte ecológico de lixo tóxico digital.

O plano destes nazizecos era digno de uma distopia de quinta categoria: criar um reduto para a "preservação da raça" (o site WhiteDate) onde esperavam encontrar hordas de mulheres submissas — as tais "parideiras" ideológicas — prontas para abdicar da própria existência em prol do homeschooling de uma prole ariana. Imaginavam-se como patriarcas de um novo mundo, enquanto na realidade mal conseguiam sair do quarto dos pais.

​Mas a auditoria da Martha Root foi implacável. Ao analisar os dados, provou-se o que todos já suspeitávamos: o site era uma imensa sala de espera para o mundo Incel. A demografia era tão esmagadoramente masculina que a probabilidade de encontrar uma "parideira" real era inferior à de encontrar um pingo de lógica num discurso de supremacia branca.

​A parte mais deliciosa desta "Máquina do Coração Partido" foi a infiltração. Enquanto os nossos "varões" achavam que estavam a seduzir a futura mãe dos seus herdeiros, estavam apenas a derreter o coração a chatbots de IA treinados pela Martha.

​Sim, leram bem. Se não fossem os bots da nossa Ranger Rosa, estes senhores teriam passado meses a falar uns com os outros num gigantesco e involuntário círculo de lamentações masculinas. Foi a IA da Martha que manteve a ilusão viva; sem ela, o site teria sido apenas um eco de homens a tentar convencer outros homens de que são o pináculo da evolução. Entregaram localizações GPS, fotos comprometedoras e fantasias tristes a algoritmos, provando que a "raça superior" se apaixona por uma qualquer linha de código que lhes dê um bocadinho de atenção.

​O desfecho foi de uma higiene mental admirável. Ao vivo no palco, vestida de Pink Power Ranger para ridicularizar a hiper-masculinidade tóxica, Martha executou o comando divinal que mandou os sites e os backups para o éter. Puff. Desapareceram.

​Para garantir que a humilhação fosse eterna, ela criou o monumento definitivo à sua burrice: o site okstupid.lol. E ao organizar os dados no projeto WhiteLeaks, Martha garantiu que este cadáver nazi fosse exposto e estudado por jornalistas e investigadores. O "guerreiro ariano do teclado" já não é um titã da civilização; é apenas um ponto a piscar num mapa, algures entre a carência afetiva e a total incapacidade de distinguir uma mulher real de um script de automação.

​Martha Root demonstrou que, perante a arrogância de quem se julga superior, a arma mais eficaz é uma mistura de inteligência técnica, um fato cor-de-rosa choque e o espelho da realidade.

​Querido patriarcado supremacista: se não conseguem distinguir um chatbot de uma "parideira", como é que esperam educar uma geração?

O ciclo litúrgico-gastronómico português

Chegou o Domingo Gordo, essa gloriosa data litúrgica em que o português médio decide compensar quarenta dias de abstinência futura comendo num único dia o equivalente calórico de uma família vitoriana inteira. É o derradeiro hurrah antes da Quaresma, quando fingimos que vamos jejuar e rezar, sabendo perfeitamente que no dia seguinte estaremos a negociar com Deus: "Mas chocolate não conta, pois não?"

As pastelarias enchem-se de devotos em peregrinação às últimas fornadas de sonhos, coscorões e filhoses - porque nada diz "espiritualidade" como fritar massa em banha de porco. Há filas à porta, discussões acaloradas sobre quem chegou primeiro, tudo muito cristão e cheio de amor ao próximo.

As avós entram em modo produção industrial, transformando cozinhas em refinarias de açúcar e gordura. "Come mais um, vai!", insistem, como se o jejum de amanhã fosse literal inanição e não apenas evitar chouriço às terças e sextas.

E assim nos despedimos da gula organizada até à Páscoa, quando tudo recomeça com o folar. Bom proveito e boa digestão. Vão precisar.

Cá por casa, feijoada à transmontana. Ah pois! Daqui a 40 dias revemos o colesterol.

2026-02-14

Kintsugi

Dizem que o silêncio é a ausência de som, mas quem já sentiu o peito abrir-se ao meio sabe que o silêncio, na verdade, é ensurdecedor. Não há nada mais barulhento do que o que resta quando tudo o resto se vai. Um batimento cardíaco de um coração partido.

A cada batida, pergunto ao vazio: "Ainda aqui?". E o eco, esse passageiro clandestino da minha caixa torácica, responde com a vibração das paredes rachadas. Sou a prova viva de que, mesmo quando o centro do mundo colapsa, a engrenagem não se rende. Sou o som da sobrevivência que ninguém pediu, mas que todos somos obrigados a ouvir.

Houve um tempo em que o som aqui dentro parecia o de vidro a estilhaçar-se no chão de mármore. Pensei que o ritmo se perderia no meio dos destroços, que a música tinha chegado ao fim. Mas a vida tem uma obsessão estranha pela continuidade.

​Hoje, a cadência mudou. Sou o batimento cardíaco de um coração partido, sim, mas a ênfase já não está no "partido". Está no facto de ser eu a bússola que sobreviveu ao naufrágio.

​Aprendi que um coração remendado não é um coração fraco; é um coração reforçado. As minhas costuras não são falhas, são ligas de aço tecidas com o fio do tempo. Há uma beleza bruta nestas cicatrizes que agora protegem o que resta. Elas são o meu novo mapa e a minha maior certeza: posso até ver novas fendas amanhã, mas não voltarei a rachar pelas mesmas costuras.

​Onde antes havia uma ferida aberta, agora existe calo. Cada batida é um lembrete de que a estrutura foi testada e, embora alterada, permanece de pé. Sou o som do que insiste. Sou a prova de que a luz entra melhor pelas fendas, mas que o alicerce, esse, aprendeu finalmente a segurar o teto.

​Sigo. Coração remendado, inteiro e mais forte do que a peça original.

2026-02-13

O Panteão dos Predadores


Se alguma vez precisaram de uma prova de que a humanidade é um erro biológico com fetiche por fatos de três peças, o Caso Epstein é o vosso Evangelho. Esqueçam a justiça; aquilo a que assistimos foi apenas a gestão de inventário de um talho de luxo onde a mercadoria tinha idade escolar e os clientes tinham o destino do mundo nas mãos.

Jeffrey Epstein não era um financeiro; era o porteiro do esgoto da elite. O seu "modelo de negócio" era simples: recrutar o trauma de miúdas descartáveis para comprar o silêncio de homens que o resto de nós trata por "Excelência". Entre a mansão em Manhattan e a ilha privada — aquele pequeno Éden de depravação onde o sol nunca se punha sobre a infâmia — montou-se um carrossel de carne humana lubrificado por fundos de investimento e imunidade diplomática.

​O que realmente nos faz querer lavar a alma com ácido não é apenas o crime, mas a impunidade coreografada. Em 2008, o sistema deu-lhe uma palmadinha na mão; em 2019, o sistema deu-lhe uma corda (ou alguém a segurou por ele, tanto faz). As câmaras falharam, os guardas dormiram o sono dos justos e o segredo de quem realmente subiu a escadaria do "Lolita Express" ficou selado num pacto de sangue e caviar.

​Agora, em 2026, as listas continuam a cair como migalhas de um banquete podre. Olhamos para os nomes — filantropos, príncipes, génios de Silicon Valley — e percebemos que o mundo não é governado por ideias, mas por chantagem mútua. No fim, Epstein morreu, Maxwell apodrece na cela com direito a canito, mas o mecanismo continua intacto. A única diferença é que agora sabemos que o abismo não só nos fita de volta, como tem conta na Suíça e uma fundação com o seu nome.

​Nada muda. O sol nasce para todos, mas brilha mais forte para quem sabe onde enterrar os corpos.

2026-02-12

Guarda-chuva


É este o nosso fado: ser luz desligada em dia de chuva. No fundo, estas lâmpadas são as únicas que entenderam o espírito da coisa. Para quê brilhar num mundo que prefere o cinzento? Mais vale ficar ali, a apanhar frio, a ver se o vidro estala de vez e nos liberta desta obrigação de sermos "ideias brilhantes".

​Amanhã talvez alguém as deite ao lixo. Ou talvez fiquem ali para sempre, a servir de espelho para quem passa e se esqueceu de levar o guarda-chuva para a alma.

A1

2026-02-11

Assinaturas familiares


Olho para a letra da minha irmã e reconheço-me naquele "g" que nunca fecha completamente, naquela inclinação para a direita que parece um vício hereditário. É perturbante. Como se tivéssemos aprendido a escrever no mesmo útero, numa aula pré-natal de caligrafia existencial.

E não é só a letra. É aquele jeito de cruzar os braços quando estamos a pensar, como se estivéssemos literalmente a abraçar o raciocínio antes de o deixar escapar pela boca. É o franzir de sobrolho idêntico perante uma contrariedade, aquela forma específica de suspirar que diz "estou farta mas não vou dizer nada" sem precisar de legendas.

Ao telefone, somos a mesma pessoa. A minha mãe já desistiu de tentar adivinhar qual de nós atendeu. As cordas vocais partilham a arquitectura genética, o timbre é uma herança não negociável. Podia estar a ler a lista telefónica ou a discutir física quântica — o som seria o mesmo.

Mas aqui está o paradoxo delicioso: essas semelhanças automáticas, esses tiques involuntários, esses ecos corporais que nos transformam em variações do mesmo tema... contrastam violentamente com o facto de sermos pessoas radicalmente diferentes. Uma é metódica, a outra caótica. Uma planeia, a outra improvisa. Uma guarda, a outra atira fora.

É como se a genética tivesse decidido fazer uma piada: "Vou dar-vos o mesmo timbre de voz e a mesma caligrafia, mas interiormente vão ser tão diferentes que nem vos vão reconhecer." E assim ficamos — irmãs-gémeas na superfície, estranhas nas profundezas.

Carregamos a mesma "embalagem", os mesmos maneirismos de fábrica, mas o software é incompatível. Somos edições diferentes do mesmo livro, escritas em línguas que só parecem iguais quando não se presta atenção.

E talvez seja isso que mais me fascina: perceber que a família nos dá um alfabeto comum — o jeito de mexer as mãos, de inclinar a cabeça, de escrever o "r" — mas a história que cada um conta com essas letras é irremediavelmente sua.

2026-02-09

Alerta amarelo

Acordo e olho pela janela. Chuva. Outra vez. Como se o céu tivesse decidido que somos uma esponja gigante e Portugal inteiro precisasse de um banho de imersão prolongado.

Já nem sei o que é ter os pés secos. As minhas meias vivem num estado permanente de humidade melancólica, como se estivessem a fazer greve silenciosa contra esta meteorologia de fim do mundo. Os dedos começam a parecer passas recém-saídas de um pacote de cereais biológicos — enrugados, tristes, sem futuro.

E a pele? A pele está a adoptar uma textura de papel de cenário molhado. Tenho a certeza que, se continuar assim mais uma semana, acordo transformada numa daquelas maçãs que ficam esquecidas no fundo do cesto e ninguém tem coragem de deitar fora, mas também ninguém quer comer.

Começo a desenvolver empatia pelas ameixas secas. Sinto-me solidária com as uvas-passas. Olho para o espelho e vejo alguém que parece ter acabado de sair de um episódio prolongado de "Aventura à Flor da Pele em Clima Atlântico".

A meteorologia diz que amanhã também chove.

Claro que sim. Porque havíamos de ter sol, não é? Isso seria pedir demasiado ao universo.

Vou ali encarquilhar mais um bocadinho.

2026-02-07

Véspera de sufrágio

Pergunto-me o que pode dizer hoje alguém que viveu o Estado Novo, a Guerra do Ultramar e o nome nas listas da PIDE sobre estas vésperas do dia em que André Ventura e a extrema direita se arremetem à Presidência da República.

E sei que essa é uma pergunta que toca na memória viva e nas feridas ainda abertas de Portugal. Alguém que carregou o peso da perseguição política e o trauma da guerra carrega um "termómetro" histórico muito sensível. Seria de esperar que o sentimento não fosse apenas de oposição política, mas de uma estranheza visceral e um alerta ético. 

Mas então de onde vêm tantos votos, tanto fanatismo?

1. O Peso da Memória vs. O Esquecimento

​Para quem teve o nome nas listas da PIDE, a liberdade não é um conceito abstrato; foi algo conquistado com medo e silêncio. Essa pessoa diria que "a democracia não é um estado permanente, é uma construção diária". Ver a extrema-direita à porta do poder pareceria, para ela, um sinal de que o país se esqueceu do que é viver sem poder falar à mesa, sem poder ler certos livros e sem saber se o vizinho é um informador.

​2. A Guerra e o Nacionalismo

​Tendo vivido o Ultramar, essa pessoa conhece o custo real do nacionalismo exacerbado e do isolacionismo ("Orgulhosamente Sós"). Ela lembraria que o discurso de "nós contra eles" e a exaltação de um passado glorioso muitas vezes terminam em jovens enviados para guerras evitáveis e famílias destruídas. Diria: "Eu vi onde esse caminho termina, e não é na grandeza, é no luto."

​3. A Fragilidade das Instituições

​Quem viveu o Estado Novo sabe que o autoritarismo nem sempre entra pela porta com um golpe de Estado; às vezes, ele entra pelo voto, prometendo "limpar" o sistema. Essa pessoa alertaria que atacar as instituições por dentro é o primeiro passo para o abismo. O sentimento seria de uma urgência pedagógica: tentar explicar aos mais novos que a "ordem" prometida tem um preço alto demais: a tua liberdade individual.

​4. A Desilusão com o Presente

​Sendo alguém de esquerda, haveria também uma autocrítica amarga. Ela questionaria como a democracia falhou em resolver problemas básicos (habitação, saúde, corrupção) ao ponto de empurrar o povo para soluções extremistas. Diria, talvez com tristeza: "Lutámos para dar voz a todos, e agora essa voz está a ser usada para pedir o silêncio de muitos."

​Em suma, essa pessoa diria que o voto não é apenas uma escolha de gestão, mas um testamento de valores. Ela olharia para o dia de amanhã não como uma eleição comum, mas como um referendo sobre a própria identidade de Portugal pós-1974.

2026-02-04

Boom!


Dizem que a vida é curta, mas para este senhor, o tempo parou no exato momento em que decidiu que um obus da Primeira Guerra seria o supositório ideal para uma tarde de tédio. No Hospital de Rangueil (Toulouse), o pânico foi geral: entre cirurgiões e o esquadrão de minas e armadilhas, a dúvida era se o paciente precisava de um clister ou de um protocolo de desarmamento nuclear.

​É um novo nível de "explosão de sabores" (ou dores). Se a moda pega, o Exército vai ter de abrir uma ala de proctologia. Afinal, há quem colecione selos e há quem prefira guardar a artilharia pesada onde o sol não brilha. Haja pontaria!

2026-02-03

Escrever


Não, não queria ser de pedra ou madeira. Porque sentir é o que me distingue dos móveis, certo? É o meu diploma de humanidade, a prova de que existo.

Claro que as rotinas quotidianas nos embrutecem, nos afastam dessa capacidade de "sentir por inteiro" — mas aproximarmo-nos demais é arriscar queimar as asas. Somos todos borboletas idiotas fascinadas pela luz.

Sou passional por teimosia, não por coragem. Porque viver apaixonadamente é arriscado e o coração prefere a mediocridade segura ao perigo glorioso. A experiência ensina-nos o conformismo — esse prémio de consolação da vida adulta.

O que me resta? Escrever. Porque escrever é o meu truque de magia: finjo sentir tudo sem arriscar nada. É seguro, asséptico, controlável. A paixão de laboratório.

Escrevo para não explodir, para não murchar, para continuar a fingir que sou divertida. Porque exorcizar demónios no papel é mais conveniente que enfrentá-los na vida real.

Todos temos um lado negro. Eu tenho este blog.

2026-02-02

Tempestade Kristin


Portugal acordou sob o açoite de Kristin e a tempestade não veio para brincadeiras. Ventos furiosos arrancaram telhados, árvores tombaram como dominós e o mar revelou a sua face mais brutal contra a costa. As imagens que percorrem as redes sociais e as muitas, quase excessivas, reportagens nas TVs, são um retrato cru da nossa vulnerabilidade: carros esmagados, ruas transformadas em rios, famílias desalojadas. Mortos. E esta tempestade expôs, mais uma vez, que vivemos numa ilusão de controlo. Construímos, pavimentamos, ignoramos alertas climáticos - e depois espantamo-nos quando a natureza cobra a fatura. Não se trata apenas de "mau tempo". É o prenúncio de um futuro onde eventos extremos serão a norma, não a exceção. Resta perguntar: quantas Kristins serão necessárias até aprendermos a lição?

2026-01-31

Champions League


E quando pensávamos que o novo formato da Champions era a coisa mais bizarra de 2026, o destino (ou o ocultismo) decidiu dar-nos um pontapé na lógica. Lisboa está oficialmente dividida entre a euforia verde e o exorcismo coletivo.

O ​Sporting transformou-se no Sétimo Passageiro de luxo e
​Alvalade está, finalmente, a viver o sonho europeu sem precisar de tradutor. A equipa fechou a fase inicial num honroso 7.º lugar, garantindo o bilhete dourado direto para os oitavos. Foi uma caminhada de quem sabe o que faz, com uma eficácia que faz parecer que o João Pereira descobriu o código secreto da UEFA. Estão lá em cima, a olhar para o Manchester City pelo retrovisor, com aquela sobranceria de quem já não precisa de passar pelas "plebes" do play-off. 
​Mas o que dizer do Benfica? O que aconteceu naquela última jornada não foi futebol, foi magia negra. O Benfica estava virtualmente morto, enterrado e com a lápide já encomendada no 36.º lugar. Mas o José Mourinho não veio para Lisboa para rezar terços; veio para invocar entidades que nem Torquemada imaginou. ​Aos 98 minutos, contra o Real Madrid (sim, o Real de Arbeloa, que agora deve estar a pedir a reforma antecipada), o impensável aconteceu. Anatoliy Trubin, o homem que costuma usar as mãos para evitar desgraças, subiu à área e usou a cabeça para operar um milagre. Um golo de guarda-redes no último suspiro para garantir o 24.º lugar e a última vaga no play-off. Dizem que, no momento do cabeceamento, se ouviu uma gargalhada do Mourinho que ecoou até aos arredores de Madrid. O Benfica passou em último, sim, mas com um estilo que faria o Hitchcock roer as unhas de inveja.
Agora o ​Sporting já está de pantufas à espera dos oitavos, a ver os outros matarem-se. Quanto ao ​Benfica, passou com a nota mínima, mas com um efeito especial digno de Hollywood. Mourinho provou que, mesmo quando o autocarro está avariado, ele consegue pôr o guarda-redes a marcar golos.

2026-01-28

Os Meus Desencaixados


Sempre fui ímã de almas tortas, daquelas que o mundo olha de soslaio. Os que têm olhos demasiado grandes para tanta tristeza, costuras à mostra, esqueletos que dançam ao som de músicas que mais ninguém ouve.

Atraio os que carregam abóboras como troféus, os que vestem a escuridão como segunda pele, os que sorriem com dentes a mais ou a menos. São os meus, reconheço-os de longe: pelo jeito desajeitado de habitar o mundo, pela beleza estranha que assusta os bem-comportados.

Não sei se os escolho ou se eles me escolhem. Sei apenas que entre nós há um pacto silencioso, uma cumplicidade de quem aprendeu que ser "normal" é uma chatice insuportável.

Somos a tribo dos desencaixados, e é aqui, neste não-lugar onde ninguém mais quer estar, que finalmente me sinto em casa.

2026-01-27

Recorrência


E passamos o dia num duelo épico com o rolo de papel higiénico (já não há lenços de papel!), tentando respirar por uma narina que decidiu fazer greve de zelo. É o ciclo sem fim: um espirro dramático, a busca frenética por um lençol (ou a manga da camisola, sejamos honestos) e a promessa de que nunca mais tomaremos a respiração livre como garantida. No fundo, ter gripe é viver num aquário, mas sem a parte relaxante de ser um peixe.

2026-01-26

Apre!


O fim de semana devia levar multa por excesso de velocidade. Passa por nós a 200 à hora, sem cinto, sem piscas, e ainda tem o descaramento de buzinar ao ir embora. Quando damos por ela, já estamos a olhar para o calendário como quem encara um polícia de trânsito: incrédulos, ofendidos e claramente em negação.

Depois vem a segunda-feira de invernia, esse conceito abstrato inventado para testar a resistência da alma. Chove de lado, o céu está num tom de cinzento administrativo e o despertador toca como se tivesse algo pessoal contra nós. O café não ajuda, a roupa está fria e a semana começa com aquele entusiasmo de uma fila nas finanças.

Há injustiças no mundo mais debatidas, é verdade. Mas poucas tão constantes como esta: dois dias que fogem e cinco que se arrastam, especialmente quando a segunda-feira vem molhada, mal-humorada e convencida de que tem razão.

2026-01-20

Branco


Chegou o novo anexo da Casa Branca: eficiente, sustentável e com isolamento térmico de fazer inveja à classe média americana. Afinal, quando o mundo aquece, há sempre quem prefira mudar-se para o gelo — desde que dê para pôr o nome na fachada. O problema não foi o frio, foi a surpresa: venderam-lhe a Gronelândia como jardim e afinal é um congelador. Mas não faz mal. Onde antes havia diplomacia, agora há um iglu. Branco, claro. Como convém.

2026-01-18

Eleições


Em Portugal, a eleição presidencial é o nosso desporto nacional de autoajuda coletiva. Não se elege um gestor ou um legislador; procura-se, com uma carência quase infantil, alguém que nos saiba ouvir as queixas enquanto o país continua a ser gerido algures entre o Terreiro do Paço e Bruxelas.

O Presidente, no fundo, é o nosso moderador de luxo. Alguém que pagamos para ler as entrelinhas dos decretos e para, ocasionalmente, mandar um "puxão de orelhas" ao Governo num discurso de 10 de Junho que ninguém ouvirá até ao fim. É o guardião de um templo onde as colunas já estalaram há décadas, mas que mantemos pintado de fresco para as visitas oficiais.

​Quando a contagem termina, o país suspira de alívio. Cumprimos a nossa quota de democracia. Amanhã, voltamos à rotina de sempre: o SNS em coma, a habitação a preço de ouro e a esperança de que o novo inquilino de Belém tenha, pelo menos, a decência de usar o seu poder de veto para nos poupar ao ridículo mais óbvio. Afinal, em Portugal, o Presidente não resolve os problemas; ele apenas os narra com a solenidade necessária para que pareçam inevitáveis.

Depois... depois esperamos por fevereiro, para repetir a via sacra.

2026-01-17

Refletindo


Ah, o púlpito vazio! Que imagem mais poética para representar o vazio intelectual que nos brindou durante semanas. Hoje é o sagrado "dia de reflexão" - 24 horas em que os portugueses devem meditar profundamente sobre qual dos salvadores da pátria merece o seu voto. Como se alguém fosse mudar de ideias depois de meses a engolir propaganda como quem come tremoços.

Os microfones aguardam, solitários, descansando finalmente de amplificar banalidades, promessas recauchutadas desde Afonso Henriques e acusações trocadas com a subtileza de peixeiras na Ribeira. A bandeira observa, coitada, já vista tanta coisa que nem se espanta.

Mas fiquem tranquilos: hoje refletimos (ou vamos ao shopping, dá no mesmo), amanhã assinalamos a cruzinha no papel como bons democratas e segunda-feira acordamos no mesmo país de sempre. Porque em Portugal não há milagres - há é folclore eleitoral a cada cinco anos.

2026-01-16

Economia de Subsistência


​Hoje, o dia amanheceu em regime de serviços mínimos. Não há greve, mas falta o combustível da intenção. Movimento-me por coreografias gastas: o café que arrefece na chávena, o olhar fixo num ponto qualquer da parede, o cumprimento protocolar a quem passa. Existe uma harmonia cinzenta em fazer apenas o estritamente necessário para não levantar suspeitas de ausência.

​Evito grandes pensamentos, como quem evita degraus altos com os joelhos cansados. A alma está em manutenção, ou talvez apenas a poupar energia para uma estação que nunca chega. Não é tristeza, é um deserto plano onde o vento não sopra. Sobrevivo à rotina com a precisão de um relógio que ninguém consulta, esperando que o tempo passe sem me pedir contas, nem explicações, nem entusiasmo. Amanhã, talvez, eu regresse ao mundo. Hoje, apenas ocupo o meu lugar.

2026-01-15

Io, Epona!


Talvez um "Io, Epona!" fosse capaz de ir melhor com a época do que os aleluias convencionais. Estamos naquele momento do ano em que a deusa mãe, sempre tão esquecida, merecia ser lembrada. Agora que os dias já crescem, depois do Inverno que nos afundou em escuridão e frio, é tempo de invocar aquela que nos traz de volta a fertilidade, a vida, os tempos férteis que irão voltar.

Epona, a deusa celta dos cavalos e da fertilidade, devia ter lugar de honra nestes dias. Afinal, é ela quem cavalga o ciclo das estações, quem nos traz a promessa de que a terra voltará a dar fruto, de que há vida depois do gelo. Mas não. Preferimos os aleluias, essas exclamações que já não dizem nada a ninguém, que se repetem por hábito mais do que por convicção.

Um "Io, Epona!" seria mais honesto. Mais pagão, certamente. Mais conectado com aquilo que realmente se celebra nesta altura do ano: o renascer, a luz que volta, a terra que desperta. Seria celebrar a força da natureza em vez de apenas repetir fórmulas gastas.

Mas pronto, continuaremos com os aleluias. É mais fácil. Menos incómodo. E Epona continuará esquecida, galopando sozinha pelos campos da memória colectiva, enquanto fingimos que não sentimos o pulsar da terra debaixo dos nossos pés.

2026-01-14

Bigodes


A moda é cíclica, já sabemos. E agora temos ressuscitado o bigode, ainda que muitos sejam  só amostra com a mania. É que eu, quando penso num bigode digno do seu nome, com panache e brutalmente patriota, penso no Artur Jorge. Não me serve outro. Não me serve qualquer amostra. E fico a pensar... será que a seguir vamos voltar a ter o "cabelinho à Paulo Bento"?

2026-01-12

O Irão em chamas (outra vez)


Há qualquer coisa de ciclicamente trágico na forma como o Irão volta sempre ao mesmo ponto: protestos nas ruas, repressão brutal, retórica inflamada, o Ocidente a observar com a sua habitual mistura de preocupação e oportunismo. E desta vez não é diferente.

Os números variam conforme quem conta - mais de 600 mortos segundo uns, centenas segundo outros, mais de mil presos é certo -, mas o essencial permanece: um povo exausto pela inflação acima dos 40%, pelo rial que perdeu metade do valor em poucos meses, pela promessa sempre adiada de uma vida melhor. 

Os protestos começaram, como tantas vezes, por razões económicas básicas: o preço do óleo, do frango, do pão. Mas transformaram-se rapidamente naquilo que sempre esteve latente: um grito contra o próprio regime.

Khamenei, fiel ao guião que conhecemos de cor, chama-lhes "vândalos" e "sabotadores ao serviço de interesses estrangeiros". O regime corta a Internet, como se apagar a ligação ao mundo fosse apagar a realidade. E Trump, sempre pronto para o papel de xerife global quando há petroleo para desviar, promete "atacá-los com muita força" se começarem a matar pessoas. Como se não tivessem já começado. Como se as ameaças resolvessem alguma coisa que sanções e guerras retóricas não resolveram em décadas.

Pergunto-me, sinceramente, o que esperamos que aconteça. Que o regime caia? Que uma revolução traga democracia instantânea? Que a pressão externa funcione desta vez, ao contrário de todas as outras? Ou será que nos contentamos em assistir, indignados mas confortáveis, a mais um capítulo desta tragédia previsível?

O povo iraniano merecia melhor do que este ciclo interminável. Merecia um regime que o respeitasse, uma oposição internacional que não o usasse apenas como peça no tabuleiro geopolítico. E merecia sobretudo que o mundo não esquecesse - como esquece sempre - quando as câmaras se desligarem e a atenção mediática passar para a próxima crise.

Mas a história ensina-nos que merecer raramente é suficiente.

2026-01-11

Adolescência


E há dias em que olho para ele e pergunto-me quando é que aquilo aconteceu, quando é que o miúdo deixou de usar calças normais e passou a andar com aquelas calças cargo cheias de bolsos vazios – porque porra nenhuma lá cabe a não ser ar e ilusões de utilidade – e quando é que decidiu que aquele kispo três tamanhos acima, esse que mais parece um saco do lixo com fecho e capuz, era o auge da moda e do bom gosto. E tudo o que digo é cringe, mas ele ali a querer andar embrulhado naquele plástico a que chama casaco, isso é que é estilo, isso é que é estar na onda. Pergunto "Como foi a escola?" e ele murmura qualquer coisa monossilábica tipo "bem" ou "fixe", mas ouse pedir-lhe para largar o telemóvel, só por cinco minutos, e prepare-se para um discurso inflamado sobre direitos humanos e a injustiça que é ter nascido nesta família. E as mudanças de humor, meu deus, as mudanças de humor. Num minuto ri-se desalmadamente de um meme que eu não percebo, no seguinte está dramaticamente afundado no sofá a suspirar como se carregasse o peso do mundo inteiro nos ombros estreitos, ou mais provável ainda escondido no escritório atrás do computador a partir a mesa porque perdeu um jogo. Bem-vindos à adolescência. Onde a lógica foi de férias e ainda não marcou data de regresso.

2026-01-10

Engarrafamento


Se as sondagens de campanha servem de GPS para este desastre anunciado, a resposta honesta é: ninguém faz ideia do que vai acontecer, mas a comédia está garantida. E nós na plateia, como sempre.

A menos de dez dias das eleições, o que temos não é uma corrida democrática — é um engavetamento na VCI em hora de ponta, com cinco egos amachucados a discutir quem tem a ambulância mais bonita.

Damos conta que é desta que "o sistema" pode perder e da fragmentação como fatalidade nacional. São cinco candidatos empilhados entre os 16% e os 21%, como sardinhas azedas numa lata mal fechada. Uma margem tão ridícula que a passagem à segunda volta pode decidir-se por um erro de arredondamento estatístico ou pela qualidade dos salgadinhos servidos no último comício.

Ventura lidera com uns 20%, esse triunfo moral de quem consegue gritar mais alto numa sala de surdos. É o vilão que todos querem defrontar porque perde contra qualquer um na segunda volta. O antagonista útil, a ameaça de plástico que justifica o voto de gente que detesta escolher mas adora sentir-se heroica por fazer o mínimo.

Seguro — esse nome que é um oximoro ambulante — apela ao "voto útil" da esquerda como quem acena a última boia no Titanic.  Quer convencer-nos de que só ele impede o caos — essa palavra mágica que dispensa argumentos. Mas que ninguém pergunte o que fez quando teve poder para além de aquecer cadeiras e acumular derrotas elegantes.

Gouveia e Melo, o Almirante-vacina, começou como o messias inevitável mas vai murchando como alface esquecida no frigorífico. Ainda assim, se chegar à segunda volta, esmaga tudo com aquela eficiência militar que tanto reconforta o português em pânico. Porque não há nada que este país adore mais que fardas quando precisa de alguém que mande nele.

Cotrim de Figueiredo vai subindo nas sondagens à boleia de quem ainda acredita que liberalismo é resposta para alguma coisa que não seja o lucro dos amigos. Mas tem bom aspecto, não parece ter um Santana sem pescoço por amigo e seria presenciavel na fotografia.

Marques Mendes, o comentador que queria ser Rei e descobriu que falar para a câmara ao domingo é bem mais confortável que andar de coturnos pelo país gelado a fingir que gosta de povo. Está em quinto lugar, provando que carisma televisivo não paga despesas de campanha nem tira portugueses do sofá em janeiro.

A conclusão sem vaselina é que
teremos provavelmente uma segunda volta entre Ventura e um "Candidato Sério" do costume — seja o que hesita cronicamente, o que se põe em bico de pés, o fotogénico ou o que tem medalhas no peito. O duelo épico entre a taberna e o quartel, entre quem berra populismos e quem recita tecnocracias. Entre o insulto e a indiferença.

A única certeza absoluta? Ninguém sabe, as gráficas que imprimem boletins vão lucrar obscenamente e nós, os figurantes deste teatro democrático, continuaremos a escolher entre medos embrulhados em promessas. Nunca entre futuros. Porque futuros exigiriam imaginação e isso não é bem a nossa especialidade nacional.

2026-01-09

Flor do Mal


Dizem que o amor é cego, mas talvez o amor seja a única forma de ver no escuro total, sem precisar de apontar a lanterna a nada.

Flower of Evil não me convidou a assistir a um crime. Convidou-me a ficar a olhar para uma família perfeita a desmoronar-se devagarinho. E a não conseguir desviar os olhos.

O homem que vive naquela casa chama-se Baek Hee-sung, mas não é. É Do Hyun-su — filho de Do Min-seok, assassino em série de sete pessoas, o tipo de pai que deixa uma herança que não se pode devolver nem recusar. Hyun-su cresceu com esse espelho à frente e passou a vida a tentar perceber se o reflexo era ele. Fugiu. Bateu no verdadeiro Baek Hee-sung com um carro, ficou com o nome do homem em coma e reconstruiu-se do zero — ferreiro, marido, pai. Pratica sorrisos em frente ao espelho. Aprende afeto como quem estuda uma língua estrangeira, que nunca vai dominar completamente, mas que precisa de falar para sobreviver.

E depois há o verdadeiro Baek Hee-sung, que estava em coma mas não estava morto, que que quando acorda é muito pior do que qualquer coisa que Hyun-su alguma vez foi. Porque esse sim é o psicopata acabado, o aprendiz do pai, o mal sem dúvida nem remorso nem filha à mesa ao jantar.

A filha. A Eun-ha. Seis anos, adora os pais, não sabe de nada. E é ela que torna a questão impossível de ignorar, porque enquanto ela existir a pergunta "ele é capaz de amar?" deixa de ser filosófica e passa a doer. Porque ele age como pai. Está lá. Protege-a. E não se sabe — ele próprio não sabe — se isso é amor ou se é apenas o programa a correr bem.

Ji-won, esposa, polícia. Ela sabe. Ou suspeita. Ou escolhe não saber de vez, que é diferente e muito mais corajoso. Ela vê o monstro e decide, com uma coragem que beira a loucura, procurar a criança assustada que há lá dentro e que nunca foi salva por ninguém. 

Naquela casa perfeita o suspense não nasce de sangue — nasce do som do vidro a partir, que é muito mais difícil de ignorar.

A Coreia dá-nos isto: o mal não como caricatura, mas como herança. Como estigma que se cola à pele desde o início. Três vilões, três formas diferentes de ser monstro: o pai que o criou, o homem cujo nome roubou e ele próprio, que talvez não seja monstro nenhum — e essa incerteza é o que nos prende à cadeira dezasseis episódios seguidos.

No fim, a verdade não nos liberta. Pelo menos não primeiro. Primeiro destrói. E só depois, se tivermos sorte, é que nos deixa ser reais.

2026-01-08

Tribulações


Olhem-me só para este focinho de “Quem? Eu? Importunar? Nunca!”. Só orelhas e um bocadinho de gata à volta. E um miado forte o suficiente para sinalizar ambulâncias. Tenho para aqui uma diva a cantar ópera 24/7. Hoje, com o tamanho da dor de cabeça, é tipo um bingo cósmico de “quantas coisas podem acontecer ao mesmo tempo”. Eu sei que a gata não sabe que está a ser inconveniente ou que me dói a cabeça. E que, na cabeça dela, está só a fazer o seu trabalho muito importante de anunciar a sua disponibilidade ao universo. Aos berros. Constantemente. Enquanto eu tenho os pés gelados, o cérebro nebuloso e meio nariz entupido. E está tudo cinzento e apático. Menos a gata. Rais’parta a gata!