2026-02-12
2026-02-11
Assinaturas familiares
Olho para a letra da minha irmã e reconheço-me naquele "g" que nunca fecha completamente, naquela inclinação para a direita que parece um vício hereditário. É perturbante. Como se tivéssemos aprendido a escrever no mesmo útero, numa aula pré-natal de caligrafia existencial.
E não é só a letra. É aquele jeito de cruzar os braços quando estamos a pensar, como se estivéssemos literalmente a abraçar o raciocínio antes de o deixar escapar pela boca. É o franzir de sobrolho idêntico perante uma contrariedade, aquela forma específica de suspirar que diz "estou farta mas não vou dizer nada" sem precisar de legendas.
Ao telefone, somos a mesma pessoa. A minha mãe já desistiu de tentar adivinhar qual de nós atendeu. As cordas vocais partilham a arquitectura genética, o timbre é uma herança não negociável. Podia estar a ler a lista telefónica ou a discutir física quântica — o som seria o mesmo.
Mas aqui está o paradoxo delicioso: essas semelhanças automáticas, esses tiques involuntários, esses ecos corporais que nos transformam em variações do mesmo tema... contrastam violentamente com o facto de sermos pessoas radicalmente diferentes. Uma é metódica, a outra caótica. Uma planeia, a outra improvisa. Uma guarda, a outra atira fora.
É como se a genética tivesse decidido fazer uma piada: "Vou dar-vos o mesmo timbre de voz e a mesma caligrafia, mas interiormente vão ser tão diferentes que nem vos vão reconhecer." E assim ficamos — irmãs-gémeas na superfície, estranhas nas profundezas.
Carregamos a mesma "embalagem", os mesmos maneirismos de fábrica, mas o software é incompatível. Somos edições diferentes do mesmo livro, escritas em línguas que só parecem iguais quando não se presta atenção.
E talvez seja isso que mais me fascina: perceber que a família nos dá um alfabeto comum — o jeito de mexer as mãos, de inclinar a cabeça, de escrever o "r" — mas a história que cada um conta com essas letras é irremediavelmente sua.
2026-02-09
Alerta amarelo
2026-02-07
Véspera de sufrágio
Mas então de onde vêm tantos votos, tanto fanatismo?
1. O Peso da Memória vs. O Esquecimento
Para quem teve o nome nas listas da PIDE, a liberdade não é um conceito abstrato; foi algo conquistado com medo e silêncio. Essa pessoa diria que "a democracia não é um estado permanente, é uma construção diária". Ver a extrema-direita à porta do poder pareceria, para ela, um sinal de que o país se esqueceu do que é viver sem poder falar à mesa, sem poder ler certos livros e sem saber se o vizinho é um informador.
2. A Guerra e o Nacionalismo
Tendo vivido o Ultramar, essa pessoa conhece o custo real do nacionalismo exacerbado e do isolacionismo ("Orgulhosamente Sós"). Ela lembraria que o discurso de "nós contra eles" e a exaltação de um passado glorioso muitas vezes terminam em jovens enviados para guerras evitáveis e famílias destruídas. Diria: "Eu vi onde esse caminho termina, e não é na grandeza, é no luto."
3. A Fragilidade das Instituições
Quem viveu o Estado Novo sabe que o autoritarismo nem sempre entra pela porta com um golpe de Estado; às vezes, ele entra pelo voto, prometendo "limpar" o sistema. Essa pessoa alertaria que atacar as instituições por dentro é o primeiro passo para o abismo. O sentimento seria de uma urgência pedagógica: tentar explicar aos mais novos que a "ordem" prometida tem um preço alto demais: a tua liberdade individual.
4. A Desilusão com o Presente
Sendo alguém de esquerda, haveria também uma autocrítica amarga. Ela questionaria como a democracia falhou em resolver problemas básicos (habitação, saúde, corrupção) ao ponto de empurrar o povo para soluções extremistas. Diria, talvez com tristeza: "Lutámos para dar voz a todos, e agora essa voz está a ser usada para pedir o silêncio de muitos."
Em suma, essa pessoa diria que o voto não é apenas uma escolha de gestão, mas um testamento de valores. Ela olharia para o dia de amanhã não como uma eleição comum, mas como um referendo sobre a própria identidade de Portugal pós-1974.
2026-02-05
2026-02-04
Boom!
Dizem que a vida é curta, mas para este senhor, o tempo parou no exato momento em que decidiu que um obus da Primeira Guerra seria o supositório ideal para uma tarde de tédio. No Hospital de Rangueil (Toulouse), o pânico foi geral: entre cirurgiões e o esquadrão de minas e armadilhas, a dúvida era se o paciente precisava de um clister ou de um protocolo de desarmamento nuclear.
É um novo nível de "explosão de sabores" (ou dores). Se a moda pega, o Exército vai ter de abrir uma ala de proctologia. Afinal, há quem colecione selos e há quem prefira guardar a artilharia pesada onde o sol não brilha. Haja pontaria!
2026-02-03
Escrever
2026-02-02
Tempestade Kristin
2026-01-31
Champions League
2026-01-28
Os Meus Desencaixados
2026-01-27
Recorrência
2026-01-26
Apre!
2026-01-20
Branco
2026-01-18
Eleições
Em Portugal, a eleição presidencial é o nosso desporto nacional de autoajuda coletiva. Não se elege um gestor ou um legislador; procura-se, com uma carência quase infantil, alguém que nos saiba ouvir as queixas enquanto o país continua a ser gerido algures entre o Terreiro do Paço e Bruxelas.
2026-01-17
Refletindo
2026-01-16
Economia de Subsistência
Hoje, o dia amanheceu em regime de serviços mínimos. Não há greve, mas falta o combustível da intenção. Movimento-me por coreografias gastas: o café que arrefece na chávena, o olhar fixo num ponto qualquer da parede, o cumprimento protocolar a quem passa. Existe uma harmonia cinzenta em fazer apenas o estritamente necessário para não levantar suspeitas de ausência.
Evito grandes pensamentos, como quem evita degraus altos com os joelhos cansados. A alma está em manutenção, ou talvez apenas a poupar energia para uma estação que nunca chega. Não é tristeza, é um deserto plano onde o vento não sopra. Sobrevivo à rotina com a precisão de um relógio que ninguém consulta, esperando que o tempo passe sem me pedir contas, nem explicações, nem entusiasmo. Amanhã, talvez, eu regresse ao mundo. Hoje, apenas ocupo o meu lugar.
2026-01-15
Io, Epona!
2026-01-14
Bigodes
2026-01-12
O Irão em chamas (outra vez)
2026-01-11
Adolescência
E há dias em que olho para ele e pergunto-me quando é que aquilo aconteceu, quando é que o miúdo deixou de usar calças normais e passou a andar com aquelas calças cargo cheias de bolsos vazios – porque porra nenhuma lá cabe a não ser ar e ilusões de utilidade – e quando é que decidiu que aquele kispo três tamanhos acima, esse que mais parece um saco do lixo com fecho e capuz, era o auge da moda e do bom gosto. E tudo o que digo é cringe, mas ele ali a querer andar embrulhado naquele plástico a que chama casaco, isso é que é estilo, isso é que é estar na onda. Pergunto "Como foi a escola?" e ele murmura qualquer coisa monossilábica tipo "bem" ou "fixe", mas ouse pedir-lhe para largar o telemóvel, só por cinco minutos, e prepare-se para um discurso inflamado sobre direitos humanos e a injustiça que é ter nascido nesta família. E as mudanças de humor, meu deus, as mudanças de humor. Num minuto ri-se desalmadamente de um meme que eu não percebo, no seguinte está dramaticamente afundado no sofá a suspirar como se carregasse o peso do mundo inteiro nos ombros estreitos, ou mais provável ainda escondido no escritório atrás do computador a partir a mesa porque perdeu um jogo. Bem-vindos à adolescência. Onde a lógica foi de férias e ainda não marcou data de regresso.
2026-01-10
Engarrafamento
2026-01-09
Flor do Mal
Dizem que o amor é cego, mas talvez o amor seja, na verdade, a única forma de visão que suporta a escuridão total. Em Flower of Evil, não somos convidados a assistir a um crime; somos convidados a observar o desmoronamento de uma máscara que, de tão bem esculpida, se tornou a única verdade de um homem.
Baek Hee-sung — ou o fantasma de Do Hyun-su — é um mestre da metalurgia, mas a sua maior obra foi a própria vida. Ele moldou o metal para criar beleza e moldou o rosto para simular o afeto. É perturbador e, ao mesmo tempo, profundamente triste vê-lo praticar sorrisos em frente ao espelho, como quem aprende uma língua estrangeira para sobreviver num país onde nunca será cidadão: o país dos sentimentos.
E depois temos Ji-won. Ela não é apenas a detetive que persegue a verdade; ela é a mulher que vê o monstro e decide, com uma coragem que roça a loucura, procurar a criança ferida que habita lá dentro. No silêncio daquela casa perfeita, o suspense não nasce do sangue derramado, mas do som do vidro a estilhaçar-se — o vidro da ilusão.
Nesta série, a Coreia oferece-nos o oposto do ruído vazio a que o cinema ocidental nos habituou. Aqui, o mal não é uma caricatura; é uma herança pesada, um estigma que se cola à pele. Mas a beleza desta "Flor do Mal" reside precisamente na sua raiz: a descoberta de que mesmo alguém convencido da sua própria incapacidade de amar pode, no fim, ser salvo pelo reflexo do olhar de quem nunca desistiu de o ver por inteiro.
Afinal, a verdade não nos liberta apenas. Às vezes, ela destrói-nos primeiro, para que possamos, finalmente, ser reais.