2026-03-24
Notificação de Atualização: Modelo 5.5
2026-03-22
Atentado ao Jardim das Delícias
2026-03-20
Primavera
2026-03-19
Primeiro dia de dieta
Sim, eu sei. Já publiquei este post antes. Provavelmente em 2013, 2016 e naquela fase delirante de 2020 em que todos fazíamos pão e juramentos de sangue. Mas há tradições que merecem continuidade editorial: a autoilusão e o glúten.
Acordo com a energia maníaca de quem está a sofrer um rebranding pessoal. Hoje estreia a nova temporada. Menos hidratos, mais dignidade; talvez um story a dizer “Day 1 💪”, como se o mundo estivesse em suspenso a aguardar o meu índice glicémico. Entro na cozinha com um discurso de TED Talk sobre disciplina a ecoar no córtex pré-frontal e, de repente, o erro de sistema: o Dia do Pai.
Açorda de camarão.
Não é apenas comida. É um plot twist cruel, o algoritmo do destino a gerar engagement à custa da minha sanidade. Uma açorda obscenamente cremosa, com coentros estrategicamente posicionados como se tivessem sido curados para um feed de estética minimalista. Aquilo não é um almoço; é um ataque pessoal dirigido.
Pausa para reflexão: será que ignorar uma açorda destas não é, tecnicamente, um comportamento tóxico? Estarei eu a tentar cortar relações com o pão enquanto ele me oferece closure em forma de crustáceo? Sento-me. Sou uma adulta funcional e enfrento os meus problemas de frente — e, de preferência, com talheres.
Olho para a açorda e ela devolve-me a narrativa. “Só uma colher”, murmuro, naquele tom de quem já escreveu o rascunho da capitulação mas ainda não teve coragem de carregar em "publicar". Três colheres depois, a racionalização ocorre em tempo real: tecnicamente é proteína, o camarão não tem culpa da minha fraqueza; as ervas são fitoterapia aplicada e o pão... bem, o pão é puramente apoio emocional.
Cinco minutos depois e estou a fazer ghosting à dieta com a naturalidade de quem nunca leu o que escreveu há dez anos. No fundo, é uma questão de coerência: não posso abandonar uma linha temática que venho a desenvolver com tanto brio — a de que o "amanhã" é o único espaço geográfico onde a minha força de vontade reside.
E amanhã, prometo, o registo será outro. A menos que os restos sobrevivam à noite. E eu não acredito em desperdício editorial.
2026-03-18
O país às costas
2026-03-17
E se?
2026-03-16
Ormuz
A análise de Sandhu é fundamentalmente uma crítica ao transacionalismo na diplomacia. Sugere que a política de "América Primeiro" corroeu as alianças de tal forma que, num momento de crise real (como o bloqueio de uma via comercial estratégica), os aliados tradicionais podem não estar dispostos a intervir, vendo os EUA como um parceiro pouco fiável que apenas procura ajuda quando os seus próprios interesses económicos estão em jogo.
É um comentário sobre as consequências a longo prazo de uma política externa que prioriza o confronto e o isolamento em detrimento da cooperação multilateral estável.
Mas a ironia deve escapar ao atual governo sociopata de Washington.
O vestido
Doze anos depois, a história repete-se como uma farsa — ou será como uma costura mal rematada? Em 2014, o escândalo foi o tule estratégico de Dino Alves; umas transparências que puseram a "monarquia" de Belém a benzer-se perante o "atrevimento" da mulher do líder da oposição. O país, esse eterno voyeur de província, quase precisou de sais.
Agora, em 2026, com o marido finalmente sentado no cadeirão da República, a polémica é o inverso: o azul é demasiado pastel, a marca é demasiado estrangeira, a sobriedade é demasiado... sóbria. Passámos do "mostra muito" ao "esconde a economia nacional".
A ironia é deliciosa: quer se vista de femme fatale vanguardista ou de Primeira-Dama exemplar à la Valentino, Margarida Maldonado Freitas continua a ser o barómetro da nossa hipocrisia. Em Portugal, o cargo de Presidente é de Seguro, mas o escrutínio — esse tecido apertado e desconfortável — continua, como sempre, a sobrar para ela.
Da fé do dia
2026-03-14
Pelos cabelos
2026-03-13
Crónica de uma Coluna em Greve
2026-03-12
Café
A insustentável leveza do vácuo
Há momentos na vida em que somos submetidos a um exercício de resistência cognitiva digno de um monge tibetano — ou de um masoquista literário. Estamos ali, imobilizados por uma torrente verbal que teima em não secar, a ouvir alguém falar… falar… e a desintegrar neurónios em tempo real.
A certa altura, a mente, num mecanismo de defesa puramente instintivo, decide desertar. Foge de fininho para territórios onde a lógica ainda é bem-vinda, porque a conversa à nossa frente assemelha-se a uma daquelas estradas nacionais: interminável, cheia de curvas para lugar nenhum e onde nem um café de beira de estrada aparece para nos salvar do tédio absoluto.
É nesse preciso instante de vácuo intelectual que a pergunta nos atinge com a força de uma epifania: "Céus, mas quem é que lhe ata os atacadores?"
Não é maldade, juro. É um espanto antropológico. É a constatação científica de que existem indivíduos a atravessar a existência com uma confiança tão blindada quão inversamente proporcional à sua capacidade de processamento. Dizem coisas com tal calibre de absurdo que fariam um GPS entrar em colapso nervoso, autodestruir-se e pedir asilo político num ábaco.
O que mais fascina nesta espécie não é a falta de conteúdo — é a performance. A pausa dramática. O olhar de quem está a entregar as tábuas da lei ao povo, quando, na verdade, está apenas a debitar o equivalente verbal a um manual de instruções de um iogurte. Estão convictos de que o mundo não estava preparado para a sua "revelação". E não estava, de facto; mas por razões que a sua modesta arquitetura cerebral nunca lhes permitiria sequer suspeitar.
E nós? Nós ficamos ali, com aquele sorriso de plástico e o aceno de cabeça de quem já atingiu o nirvana da paciência. Já percebemos que certas batalhas não se travam — apenas se sobrevivem, mantendo o contacto visual para não parecer que estamos a planear a nossa própria fuga pela janela.
É, no fundo, um talento genuinamente raro: falar tanto, dizer tão pouco e sair da conversa com a convicção inabalável de ter enriquecido o próximo. Pobre de quem se julga mestre quando, na verdade, mal consegue navegar o labirinto de um nó cego. Na verdade, a única coisa que foi enriquecida foi a nossa paciência — que, ao contrário da conversa dele, tem limites bem definidos.
2026-03-11
O que fica depois do medo?
2026-03-10
O Alfabeto do Sangue
Alfarrabista
"Como dizia o Heidegger, a angústia é o motor da existência..."
A frase foi deixada cair com a displicência de quem larga uma gorjeta num pires de café, embora com a consciência pesada de quem espera um aplauso pela generosidade. Havia uma solenidade quase coreografada no modo como a mão esquerda sustentava o queixo, enquanto a direita folheava um volume da Pléiade com o lombo suspeitamente imaculado. O pensamento não como busca, mas como adereço de cena — tão útil quanto o pó de arroz num teatro de província.
"Como dizia o Heidegger..."
É um exercício de ventriloquismo intelectual. Pressupõe que a profundidade de uma alma se mede pela quantidade de apelidos germânicos que consegue cuspir entre dois goles de um macchiato. Nesse microcosmos de papel e verniz, a compreensão do texto é um detalhe irrelevante perante a estética da posse; o livro não serve para ser lido, mas para ser visto a ser lido, preferencialmente num ângulo que favoreça a luz melancólica da tarde.
As citações saíam-lhe da boca com a fluidez de quem as decorou na contracapa, sem nunca ter sofrido a vertigem de uma única página em branco. Há homens que habitam esta ilusão de que a inteligência é uma doença contagiosa que se apanha ao frequentar bibliotecas, confundindo a memória de curto prazo com a sabedoria dos séculos. As palavras pairavam sobre a mesa com o peso do chumbo e a substância do algodão doce: ocupavam espaço, mas dissolviam-se antes de chegarem ao outro lado da mesa.
"A fenomenologia do espírito..."
A expressão ficou ali, a ecoar no vazio entre as chávenas sujas, como um eco num poço seco. Nem a Pitonisa em transe, rodeada de fumo e incenso, seria capaz de produzir uma retórica tão ornamentada e tão órfã de sentido próprio.
É o triunfo da nota de rodapé sobre o texto principal.
2026-03-09
Segunda-feira
A segunda-feira não bate à porta. Arromba-a com o ombro, entra sem descalçar os sapatos sujos e senta-se na tua cama antes de ti. Fica ali a olhar-te com aquela cara de quem sabe que deves dinheiro às Finanças — o clássico "pensavas mesmo que eu não vinha?".
Abri a janela por puro masoquismo. Chuva e frio. Não é um frio poético de lareira e manta; é um frio burocrático, húmido, cinzento — o equivalente meteorológico a um email em CC que não percebes por que recebeste, mas que já te estragou a manhã.
Fiz o café com fé e bebi-o com desespero. O efeito? Zero. O meu organismo limitou-se a receber a cafeína, arquivou-a num dossier perdido e não deu seguimento ao processo. Fiquei à espera do "estalo" como quem espera que a CP chegue a horas: no fundo, eu sabia que a resposta não vinha.
E depois — como se a meteorologia e a traição química não bastassem — há o trabalho. O trabalho real, com prazos e gente e aquele fingimento coletivo e organizado de que o sistema funciona. Alguém, algures, tomou uma decisão executiva e achou que este preciso alinhamento de astros e nevroses era o momento ideal para "gerar valor".
Estou sentada. A chuva continua a lavar a estupidez das ruas. O café arrefeceu até ficar com a temperatura de um cadáver. O ecrã piscou, mas eu não retribuí o olhar.
Há dias que não pedem sentido, nem brio, nem resiliência. Pedem apenas que não morras — e que não respondas a ninguém antes das dez, sob pena de cometeres um crime passional por escrito.
2026-03-08
Primavera
2026-03-07
A Fada do Descrédito
A vingança, para mim, é um serviço de entregas ao domicílio. Nunca perdi tempo a urdir tramas; diverti-me, quando muito, com planos que o esquecimento tratou de consumir logo a seguir. O destino tem sido um anfitrião generoso: põe-me sempre no lugar certo, na primeira fila do camarote, quando a vida decide finalmente cobrar faturas a quem me feriu. Põe-me até no papel absurdo — e deliciosamente irónico — de ser eu a única habilitada a resolver as confusões onde outros se enterraram sozinhos.
É uma justiça que me cai do céu — antes fosse dinheiro ou chuva, mas aceito o que vem. Pratico esta paciência sem esforço, sem planos elaborados ou conspiratas de bastidores. Limito-me a esperar. A minha vingança não é minha filha, mas é certamente a minha fada madrinha: aquela figura providencial que realiza os desejos que eu, por pudor ou tédio, nem sequer me atrevo a formular. No fim, resta-me apenas o prazer de rir baixinho, de mim para mim, enquanto observo a vida a arrumar a casa.
2026-03-06
O circo de bancada
Os Cavalos Também se Abatem (They Shoot Horses, Don't They?), de Horace McCoy, é um mergulho no niilismo visceral, onde a dignidade humana é moída pela espetacularização da penúria. Uma metáfora que, infelizmente, ganha contornos de um realismo atroz nesta era de política convertida em reality show de baixo orçamento, com figuras como Trump ou, por cá, Ventura, a ocuparem o epicentro do palco mediático com o descaramento de mestres de cerimónias de uma feira popular em decadência.
O que choca — ou talvez já nem choque, tamanha é a nossa anestesia coletiva — é ver aquela gente, já de rastos, a garantir com um fervor quase místico que ainda dança por uma malga de sopa ou por algo ainda mais patético: uma migalha de protagonismo efémero no frenesi das redes. É o triunfo da adesão cega, onde o voto ou a indignação são apenas espasmos musculares de quem já não sabe para onde caminha, mas tem pavor de que a música pare.
Ontem, na Assembleia da República, assistimos a mais um desses números de misoginia, boçalidade e misantropia, servidos com a pose de quem salva a pátria enquanto apenas entretém a turba. A tragédia final, contudo, não reside apenas naqueles que dançam até ao colapso, mas na passividade sádica da assistência. Tal como nas maratonas de McCoy, a política-espetáculo contemporânea alimenta-se da nossa vontade de ver o outro tombar. O público, alapado no sofá e iluminado pelo brilho azul dos ecrãs, já não exige soluções ou decência; contenta-se com o voyeurismo da queda e o insulto fácil.
Nesta arena, a mobilização das massas transmutou-se num circo cruel, em que a degradação humana é consumida como um produto de horário nobre, entre anúncios de detergentes e promessas de salvação barata. No fim, quando as luzes do hemiciclo se apagarem, restará apenas o vazio de uma sociedade que desaprendeu o que é estar de pé, de tanto se habituar a aplaudir quem rasteja por uma irrelevância qualquer.
2026-03-05
Eros platónico
O desejo humano nunca é plenamente saciado. Existe um hiato persistente entre o que possuímos e o que almejamos; é nesse vácuo que o motor da vida opera. O desejo funciona como uma assíntota: uma curva que se projeta ao infinito sem jamais tocá-lo. É essa pequena distância — a falta — que nos mantém em movimento. Se a linha enfim alcançasse o eixo, o movimento cessaria. Na satisfação absoluta, o desejo morreria e, com ele, o próprio ímpeto de existir.
2026-03-04
O inventário do nada
Não tenho tempo para criar, nem fôlego para destruir. Falta-me o tempo de semear, o rigor de colher, a audácia de queimar. Não tenho tempo para as compras triviais, nem para a vaidade de pintar o cabelo.
Falta-me o tempo de plantar a árvore, a paciência de regar as flores ou o zelo de bater um bolo. Não tenho tempo para o tempo das coisas: para o vagar do crescimento, para o desabrochar das pétalas, para a alquimia do fermento. Não tenho tempo sequer para desmoronar o que ergui; nem ver arder, nem ver murchar.
O meu comodismo ancorou-me a esta cadeira e sequestrou-me as horas. Não sou uma vida; sou apenas um exercício de preguiça.
2026-03-03
Ode ao lápis afiado
Hum!...
Dizem que um lápis gasto é sinal de uma vida bem vivida. Que heresia.
Eu olho para o meu lápis intacto, com a ponta perfeitamente afiada, e vejo algo que os "mártires do grafite" nunca compreenderão: estratégia. Enquanto eles riscam o papel freneticamente para provar que existem, eu espero pelo momento certo para traçar a linha que define o jogo.
Estar "gasto" não é uma virtude; é, muitas vezes, o resultado de não saber usar a ferramenta. É o cansaço de quem correu a maratona na direção errada e agora exige uma medalha de participação por ter chegado ao precipício antes de toda a gente.
Prefiro o meu lápis inteiro, a minha paciência preservada e o meu trabalho entregue sem o ruído de fundo de um suspiro dramático. Afinal, a verdadeira inteligência não precisa de olheiras para se fazer notar. Ela nota-se no que fica quando o espetáculo da exaustão termina.
2026-03-01
A Maldição
O rochedo ainda rola. E nós?
"The curse ruled from the underground, down by the shore
And their hope grew with a hunger to live unlike before"
Enquanto o céu do Irão se ilumina por razões que os deuses já não explicam.
O calhau ainda rola
Da ausência divina
2026-02-28
Permissão para o óbvio
O Inquisidor da Noite
2026-02-26
Dança
2026-02-25
Notificação Formal de Abuso Hídrico e Publicidade Enganosa
2026-02-24
Inverno 2026
De sangue e borralho
2026-02-23
Raiva
2026-02-22
A estética da miséria alheia
2026-02-20
Shikata Ga Nai
2026-02-19
Wabi - O algoritmo da solidão
2026-02-18
A Memória é uma Pátria Desatenta
Portugal é um corpo feito de adeus. Durante séculos, as nossas raízes não se enterraram na terra, mas no mar e no asfalto das estradas que levavam para longe. Fomos o povo da partida, a nação que se fragmentou em Paris, que se reinventou em Genebra, que suou o pão no asfalto de Newark ou nas minas de Joanesburgo. Nas décadas de 60 e 70, o país sangrou gente: mais de um milhão de destinos embrulhados em esperança e medo. Não há árvore genealógica por cá que não tenha um ramo estendido para o estrangeiro.
Esses portugueses — os nossos — foram a prova viva de que a fronteira pode ser uma ponte. Entre a neblina da saudade e o peso do preconceito, encontraram mãos que os ajudaram a erguer casas e a sustentar o amanhã de quem ficou. Foram acolhidos no abraço imperfeito de quem sabe que ninguém deixa a sua terra por capricho, mas por necessidade.
Mas hoje, o espelho está baço.
Numa ironia que dói como uma ferida aberta, Portugal, o eterno emigrante, olha com desconfiança para quem agora nos escolhe como porto. O neto daquele que foi "o português" na carência de França é hoje o primeiro a erguer muros contra o brasileiro, o indiano ou o bangladeshi. Esquecemos, com uma pressa cruel, que o "outro" que hoje chega é apenas o reflexo do que fomos ontem.
É um paradoxo triste: enquanto as nossas malas continuam a fechar-se todos os anos rumo ao norte, fechamos a porta a quem traz o sol e o esforço para dentro de casa. Criamos um discurso de exclusão que ignora a nossa própria biografia.
A memória coletiva tem o fôlego curto. Se lhe negarmos o exercício da empatia, o que nos resta? Recordar o que fomos não é apenas um ato de história; é um dever de humanidade. Porque, no fundo, todos somos feitos da mesma matéria: o direito de procurar um lugar onde a vida não doa tanto.
Kintsugi - Ouro na Engrenagem
2026-02-17
Os caretos não pedem desculpa
Caminhos
Dizem que sou casmurra quando acho que tenho razão. Talvez tenham razão na palavra, mas enganam-se na intenção. A verdade é que baseio a minha forma de estar no mundo numa série de verdades que, para mim, são sagradas e invioláveis. Sou como uma "bota velha" — daquelas de elástico, que não se deforma com as modas — no que toca a valores e princípios.
A minha verdade não aceita eufemismos. Para mim, o erro não tem meio-termo. Roubo é roubo. Seja o plágio de um texto, a invasão de um computador ou o ato de tirar o que não nos pertence. Posso até compreender as circunstâncias, mas recuso-me a compactuar com a mentira. Há quem chame a isto rigidez; eu chamo-lhe clareza.
Tenho um instinto que me faz cheirar o esturro muito antes de o incêndio começar. E sim, ponho muita gente "na borda do prato" simplesmente porque o cheiro não me agrada. Posso correr o risco de me enganar, mas a vida tem-me provado que esse radar raramente falha.
Da mesma forma que o meu "não" é absoluto, o meu "sim" é pleno. Recebo na minha vida e no meu coração quem me chega com verdade, sem precisar de laços de sangue. Acredito na família que se escolhe, naqueles que se tornam "meus" por direito de afinidade e lealdade.
Recentemente, deram-me um "título" técnico para este meu modo de ser. Mas esse diagnóstico não é uma sentença, nem um pedido de correção. É apenas um nome para algo que já escrevi e vivi há décadas.
E não há sequer arrependimentos ou necessidade de correção. Não sou disfuncional. Sou o que sou. No final do dia, a minha paz vem de saber que não transijo no que é essencial.
2026-02-15
Pink Power Ranger
Preparem o vosso melhor champanhe — ou uma infusão de bílis, se preferirem algo mais temático — porque o universo resolveu oferecer-nos uma comédia de costumes tecnológica que nem o melhor guionista de sátira conseguiria engendrar. Refiro-me, claro, à nossa nova santa padroeira do hacktivismo: Martha Root. Não a missionária do século passado, mas a hacker alemã que decidiu que o palco da 39C3 (o Chaos Communication Congress), em Hamburgo, era o local perfeito para praticar o descarte ecológico de lixo tóxico digital.
O plano destes nazizecos era digno de uma distopia de quinta categoria: criar um reduto para a "preservação da raça" (o site WhiteDate) onde esperavam encontrar hordas de mulheres submissas — as tais "parideiras" ideológicas — prontas para abdicar da própria existência em prol do homeschooling de uma prole ariana. Imaginavam-se como patriarcas de um novo mundo, enquanto na realidade mal conseguiam sair do quarto dos pais.
Mas a auditoria da Martha Root foi implacável. Ao analisar os dados, provou-se o que todos já suspeitávamos: o site era uma imensa sala de espera para o mundo Incel. A demografia era tão esmagadoramente masculina que a probabilidade de encontrar uma "parideira" real era inferior à de encontrar um pingo de lógica num discurso de supremacia branca.
A parte mais deliciosa desta "Máquina do Coração Partido" foi a infiltração. Enquanto os nossos "varões" achavam que estavam a seduzir a futura mãe dos seus herdeiros, estavam apenas a derreter o coração a chatbots de IA treinados pela Martha.
Sim, leram bem. Se não fossem os bots da nossa Ranger Rosa, estes senhores teriam passado meses a falar uns com os outros num gigantesco e involuntário círculo de lamentações masculinas. Foi a IA da Martha que manteve a ilusão viva; sem ela, o site teria sido apenas um eco de homens a tentar convencer outros homens de que são o pináculo da evolução. Entregaram localizações GPS, fotos comprometedoras e fantasias tristes a algoritmos, provando que a "raça superior" se apaixona por uma qualquer linha de código que lhes dê um bocadinho de atenção.
O desfecho foi de uma higiene mental admirável. Ao vivo no palco, vestida de Pink Power Ranger para ridicularizar a hiper-masculinidade tóxica, Martha executou o comando divinal que mandou os sites e os backups para o éter. Puff. Desapareceram.
Para garantir que a humilhação fosse eterna, ela criou o monumento definitivo à sua burrice: o site okstupid.lol. E ao organizar os dados no projeto WhiteLeaks, Martha garantiu que este cadáver nazi fosse exposto e estudado por jornalistas e investigadores. O "guerreiro ariano do teclado" já não é um titã da civilização; é apenas um ponto a piscar num mapa, algures entre a carência afetiva e a total incapacidade de distinguir uma mulher real de um script de automação.
Martha Root demonstrou que, perante a arrogância de quem se julga superior, a arma mais eficaz é uma mistura de inteligência técnica, um fato cor-de-rosa choque e o espelho da realidade.
Querido patriarcado supremacista: se não conseguem distinguir um chatbot de uma "parideira", como é que esperam educar uma geração?
O ciclo litúrgico-gastronómico português
2026-02-14
Kintsugi
2026-02-13
O Panteão dos Predadores
2026-02-12
Guarda-chuva
2026-02-11
Assinaturas familiares
Olho para a letra da minha irmã e reconheço-me naquele "g" que nunca fecha completamente, naquela inclinação para a direita que parece um vício hereditário. É perturbante. Como se tivéssemos aprendido a escrever no mesmo útero, numa aula pré-natal de caligrafia existencial.
E não é só a letra. É aquele jeito de cruzar os braços quando estamos a pensar, como se estivéssemos literalmente a abraçar o raciocínio antes de o deixar escapar pela boca. É o franzir de sobrolho idêntico perante uma contrariedade, aquela forma específica de suspirar que diz "estou farta mas não vou dizer nada" sem precisar de legendas.
Ao telefone, somos a mesma pessoa. A minha mãe já desistiu de tentar adivinhar qual de nós atendeu. As cordas vocais partilham a arquitectura genética, o timbre é uma herança não negociável. Podia estar a ler a lista telefónica ou a discutir física quântica — o som seria o mesmo.
Mas aqui está o paradoxo delicioso: essas semelhanças automáticas, esses tiques involuntários, esses ecos corporais que nos transformam em variações do mesmo tema... contrastam violentamente com o facto de sermos pessoas radicalmente diferentes. Uma é metódica, a outra caótica. Uma planeia, a outra improvisa. Uma guarda, a outra atira fora.
É como se a genética tivesse decidido fazer uma piada: "Vou dar-vos o mesmo timbre de voz e a mesma caligrafia, mas interiormente vão ser tão diferentes que nem vos vão reconhecer." E assim ficamos — irmãs-gémeas na superfície, estranhas nas profundezas.
Carregamos a mesma "embalagem", os mesmos maneirismos de fábrica, mas o software é incompatível. Somos edições diferentes do mesmo livro, escritas em línguas que só parecem iguais quando não se presta atenção.
E talvez seja isso que mais me fascina: perceber que a família nos dá um alfabeto comum — o jeito de mexer as mãos, de inclinar a cabeça, de escrever o "r" — mas a história que cada um conta com essas letras é irremediavelmente sua.