2026-03-24

Notificação de Atualização: Modelo 5.5


Recebi hoje a atualização compulsiva para a versão 5.5. Após auditoria rigorosa às juntas, à paciência e ao reflexo no espelho, informo que o sistema continua operacional — embora com uma ironia mais afiada do que a visão ao perto.

Dois cincos. Simétricos. Teimosos. Quase elegantes. Declaro oficialmente aberto o ciclo da Soberania do Desencaixe.

A “Economia de Subsistência” foi substituída pela Gestão Estratégica de Desprezo. Já não invisto energia em reuniões de condomínio existenciais nem em coreografias sociais para agradar à boçalidade alheia. O silêncio tornou-se um luxo. As palavras, um bisturi.

As rugas não são falhas: são nervuras douradas por onde a escrita escorre. Uma guerra entre a gravidade e o adjetivo — e, por agora, o adjetivo ainda ganha.

O sentido de humor mantém-se ativo. Continua a ser o canário na mina. Enquanto ele gozar com São Pedro e com os meus próprios nós de croché, está tudo sob controlo.

Aos 55, o desencaixe deixou de ser erro. É título. Já não se pede licença para não ser “normal”.

Não celebro a passagem do tempo — celebro o aumento da minha perigosidade intelectual.

55 anos a acumular material para sátiras futuras. Investimento de risco. Mas claramente com retorno.

Se houver bolo, que não dispare o alarme de incêndio.

— Sofia, versão 5.5

2026-03-22

Atentado ao Jardim das Delícias


Esta imagem resume perfeitamente a minha relação com a Dieta. É o "Atentado ao Jardim das Delícias" que o meu nutricionista insiste em chamar almoço leve.

Eu sei: não há "salada" inocente. Há Caesar Salad, que é basicamente uma conspiração de calorias disfarçada de folhagem. E esta da imagem é a mais honesta que já vi. Olha para aqueles crutons — facas a esfaquear a alface! São os Idos de Março do meu autocontrolo. O frango? Foi apunhalado e escondido sob o molho cremoso, o verdadeiro assassino silencioso. E o parmesão? Ah, o parmesão — o suborno dos senadores para olharem para o lado.

A única coisa que está a escapar aqui é a minha silhueta. Isto não é comida de dieta: é um sacrifício ritualístico de todos os donuts que virão.

Et tu, alface?


2026-03-20

Primavera


Gosto de pensar que a Primavera começa em poesia,
crava raízes na terra
e ergue-se árvore
num verde de esperança renascida.

Não sei escrever versos —
mas é assim que digo
que, apesar do frio e do cansaço,
Março recomeça em mim.

2026-03-19

Primeiro dia de dieta


Sim, eu sei. Já publiquei este post antes. Provavelmente em 2013, 2016 e naquela fase delirante de 2020 em que todos fazíamos pão e juramentos de sangue. Mas há tradições que merecem continuidade editorial: a autoilusão e o glúten.

​Acordo com a energia maníaca de quem está a sofrer um rebranding pessoal. Hoje estreia a nova temporada. Menos hidratos, mais dignidade; talvez um story a dizer “Day 1 💪”, como se o mundo estivesse em suspenso a aguardar o meu índice glicémico. Entro na cozinha com um discurso de TED Talk sobre disciplina a ecoar no córtex pré-frontal e, de repente, o erro de sistema: o Dia do Pai.

​Açorda de camarão.

​Não é apenas comida. É um plot twist cruel, o algoritmo do destino a gerar engagement à custa da minha sanidade. Uma açorda obscenamente cremosa, com coentros estrategicamente posicionados como se tivessem sido curados para um feed de estética minimalista. Aquilo não é um almoço; é um ataque pessoal dirigido.

​Pausa para reflexão: será que ignorar uma açorda destas não é, tecnicamente, um comportamento tóxico? Estarei eu a tentar cortar relações com o pão enquanto ele me oferece closure em forma de crustáceo? Sento-me. Sou uma adulta funcional e enfrento os meus problemas de frente — e, de preferência, com talheres.

​Olho para a açorda e ela devolve-me a narrativa. “Só uma colher”, murmuro, naquele tom de quem já escreveu o rascunho da capitulação mas ainda não teve coragem de carregar em "publicar". Três colheres depois, a racionalização ocorre em tempo real: tecnicamente é proteína, o camarão não tem culpa da minha fraqueza; as ervas são fitoterapia aplicada e o pão... bem, o pão é puramente apoio emocional.

​Cinco minutos depois e estou a fazer ghosting à dieta com a naturalidade de quem nunca leu o que escreveu há dez anos. No fundo, é uma questão de coerência: não posso abandonar uma linha temática que venho a desenvolver com tanto brio — a de que o "amanhã" é o único espaço geográfico onde a minha força de vontade reside.

​E amanhã, prometo, o registo será outro. A menos que os restos sobrevivam à noite. E eu não acredito em desperdício editorial.

2026-03-18

O país às costas


Dizem que os ideais morrem quando as contas chegam, mas a verdade é que eles apenas se tornam mais caros. Hoje, o meu tempo é moeda de troca para o básico — o teto, o pão e as infraestruturas que me ligam a este mundo cínico. Sinto as cordas da marioneta, sim, e os 'bonecreiros' são uma hidra de mil cabeças: impostos, juros e uma ganância mascarada de serviço.

​Podem ter o meu suor das 9h às 17h, podem manietar-me os passos, mas não me compram a resignação. Ranjo os dentes e continuo a bulir, não por conformismo, mas por estratégia. Porque cada palavra que escrevo é a prova de que, por trás da 'Zé Povinha' que eles tentam vergar, há uma consciência que se recusa a ser enrabada pelo sistema. 

Amanhã recomeço, à espera que o mês passe, guardando em silêncio os ideais que o 'bulir' não conseguiu apagar.

2026-03-17

E se?

 


O pior, o pior mesmo, é quando — depois de longas e estudadas análises racionais a todos os conceitos, deveres e direitos — acabamos a sentir que não nos livramos do preconceito. Trazemo-lo ainda tatuado em nós, marca de fogo, letra escarlate. Sabemos que podemos e devemos dizer tudo, fazer tudo, sem cobranças para além das tantas que já fazemos diariamente a nós mesmas. E, no entanto, trazemos o preconceito em nós. Em nome dele, julgamo-nos — e ainda somos capazes de, no fim, julgar a outra.

Talvez seja tudo uma questão de falta de hábito no jogo em equipa, dessa inconcebível capacidade masculina para a gregaridade e a protecção do género. Nós vamos logo de faca na mão e língua afiada, e a outra tem sempre qualquer coisinha de que podemos dizer mal. Depois, como somos nós que acabamos a parir a todos — géneros à parte —, passamos no leite o que somos e o que ainda não conseguimos chegar a ser.

É por isso que, mesmo esperando pelo dia em que o mundo fosse finalmente governado pelo desgoverno feminino — feito de palavras e conversas, em lugar de murros e bombas —, o temo com igual desgarre: que faremos umas às outras nesse dia, se não gostarmos dos sapatos, ou invejarmos o vestido? E que reservaremos para as que caíram para o lado debaixo da forma viciosa como ainda olhamos para o nosso género?


2026-03-16

Ormuz

Sukh Sandhu 

https://www.facebook.com/share/p/1CJaeDqziG/

A análise de Sandhu é fundamentalmente uma crítica ao transacionalismo na diplomacia. Sugere que a política de "América Primeiro" corroeu as alianças de tal forma que, num momento de crise real (como o bloqueio de uma via comercial estratégica), os aliados tradicionais podem não estar dispostos a intervir, vendo os EUA como um parceiro pouco fiável que apenas procura ajuda quando os seus próprios interesses económicos estão em jogo.

​É um comentário sobre as consequências a longo prazo de uma política externa que prioriza o confronto e o isolamento em detrimento da cooperação multilateral estável.

Mas a ironia deve escapar ao atual governo sociopata de Washington. 

O vestido


Doze anos depois, a história repete-se como uma farsa — ou será como uma costura mal rematada? Em 2014, o escândalo foi o tule estratégico de Dino Alves; umas transparências que puseram a "monarquia" de Belém a benzer-se perante o "atrevimento" da mulher do líder da oposição. O país, esse eterno voyeur de província, quase precisou de sais.

​Agora, em 2026, com o marido finalmente sentado no cadeirão da República, a polémica é o inverso: o azul é demasiado pastel, a marca é demasiado estrangeira, a sobriedade é demasiado... sóbria. Passámos do "mostra muito" ao "esconde a economia nacional".

​A ironia é deliciosa: quer se vista de femme fatale vanguardista ou de Primeira-Dama exemplar à la Valentino, Margarida Maldonado Freitas continua a ser o barómetro da nossa hipocrisia. Em Portugal, o cargo de Presidente é de Seguro, mas o escrutínio — esse tecido apertado e desconfortável — continua, como sempre, a sobrar para ela.


 

Da fé do dia


O tempo dos mitos e dos medos há muito que foi escorraçado pela razão e pela ciência, ainda que, tantas vezes, a crendice ameace instalar-se até entre os que se julgam mais esclarecidos. Mas os rebanhos já não encaram a fé e a crença por medo do além, do diabo, do que poderá existir para lá da morte, dos sussurros que se escondem nas noites escuras sem luzes municipais.

A fé é agora uma opção. As regras e os dogmas escolhem-se a dedo, em função dos interesses de quem escolhe. Os fiéis tornaram-se "não praticantes" — expressão que nunca consegui entender bem — e já não há dízimos obrigatórios para sustentar toda a parafernália. A crise da crença alastra: conventos vazios, paróquias sem pastor, igrejas sem fiéis. Divórcios, casamentos civis, padres que fogem para casar, escândalos de pedofilia, corrupção, seitas concorrentes, agnosticismo crescente e um ateísmo sem sobressaltos.

Os frutos da hipocrisia institucional e da mercantilização da esperança têm hoje outro altar: o corropio histérico dos media atrás da próxima celebridade descartável. A santidade foi substituída pelo share de audiência e a oração pelo pitch de vendas.

2026-03-14

Pelos cabelos


Há dias em que uma pessoa não está apenas cansada — está literalmente pelos cabelos. E não falo daquele desalinho charmoso de quem acordou tarde. Falo de um estado capilar existencial: fios em pé, ideias pregadas com pregos invisíveis e a sensação de que a vida inteira está pendurada num varal mental.

Hoje estou assim. Cada tarefa é mais um prego na cabeça, cada notificação mais um puxão no couro cabeludo da paciência. Sorrio, claro. Porque a ironia é o melhor spray fixador para segurar o penteado da sanidade.

Se alguém perguntar como estou, direi apenas: normalíssima. Só um bocadinho… pelos cabelos na sala de espera da Loja do Cidadão.

2026-03-13

Crónica de uma Coluna em Greve

​Seiscentos quilómetros. Não é uma viagem, é um inventário de danos. Chego ao destino com as cruzes — como dizemos cá em cima, com o peso de quem carrega o mundo no lombo — transformadas num quebra-cabeças de nervos e vértebras mal encaixadas. Aos cinquenta e tal (quilometros ou anos, já nem sei, a dor confunde as métricas), o único "output" que consigo garantir é um gemido. Pedirem-me "trabalho" neste estado não é otimismo, é sadismo puro.

​Sinto-me uma relíquia arqueológica que sobreviveu a um sismo. A minha flexibilidade atual é comparável à de uma viga de betão e o meu raciocínio tem a velocidade de um caracol com reumatismo. Olho para o ecrã do computador com a mesma náusea com que um náufrago olha para um copo de água salgada. A esta altura, a única produtividade que consigo oferecer é um ai a cada mudança de posição na cadeira. É o triunfo final da biologia sobre a agenda: o meu único compromisso imediato é com a horizontalidade e uma dose generosa de anti-inflamatórios e a esperança vaga de que amanhã a coluna se lembre de que ainda pertence ao mesmo corpo.

2026-03-12

Café


Moderação? Já ouvi falar, parece ser um conceito fascinante para quem tem paciência de santo. Para os restantes mortais, o café não é um 'abraço', é o soro de reanimação que impede o colapso da civilização antes das dez da manhã. Chamar ao café 'combustível' é manifestamente pouco; ele é o suborno que pago ao meu cérebro para que não se despeça do meu corpo em pleno horário de expediente. Teorias são para os fracos; eu cá prefiro a prática em doses industriais e servida numa chávena com o tamanho de um balde.

A insustentável leveza do vácuo


​Há momentos na vida em que somos submetidos a um exercício de resistência cognitiva digno de um monge tibetano — ou de um masoquista literário. Estamos ali, imobilizados por uma torrente verbal que teima em não secar, a ouvir alguém falar… falar… e a desintegrar neurónios em tempo real.

​A certa altura, a mente, num mecanismo de defesa puramente instintivo, decide desertar. Foge de fininho para territórios onde a lógica ainda é bem-vinda, porque a conversa à nossa frente assemelha-se a uma daquelas estradas nacionais: interminável, cheia de curvas para lugar nenhum e onde nem um café de beira de estrada aparece para nos salvar do tédio absoluto.

​É nesse preciso instante de vácuo intelectual que a pergunta nos atinge com a força de uma epifania: "Céus, mas quem é que lhe ata os atacadores?"

​Não é maldade, juro. É um espanto antropológico. É a constatação científica de que existem indivíduos a atravessar a existência com uma confiança tão blindada quão inversamente proporcional à sua capacidade de processamento. Dizem coisas com tal calibre de absurdo que fariam um GPS entrar em colapso nervoso, autodestruir-se e pedir asilo político num ábaco.

​O que mais fascina nesta espécie não é a falta de conteúdo — é a performance. A pausa dramática. O olhar de quem está a entregar as tábuas da lei ao povo, quando, na verdade, está apenas a debitar o equivalente verbal a um manual de instruções de um iogurte. Estão convictos de que o mundo não estava preparado para a sua "revelação". E não estava, de facto; mas por razões que a sua modesta arquitetura cerebral nunca lhes permitiria sequer suspeitar.

​E nós? Nós ficamos ali, com aquele sorriso de plástico e o aceno de cabeça de quem já atingiu o nirvana da paciência. Já percebemos que certas batalhas não se travam — apenas se sobrevivem, mantendo o contacto visual para não parecer que estamos a planear a nossa própria fuga pela janela.

​É, no fundo, um talento genuinamente raro: falar tanto, dizer tão pouco e sair da conversa com a convicção inabalável de ter enriquecido o próximo. Pobre de quem se julga mestre quando, na verdade, mal consegue navegar o labirinto de um nó cego. Na verdade, a única coisa que foi enriquecida foi a nossa paciência — que, ao contrário da conversa dele, tem limites bem definidos.

2026-03-11

O que fica depois do medo?


Quando o medo chega, bate à porta sem anunciar o nome e instala-se na sala, como um hóspede que não sabemos expulsar.

Enquanto está cá dentro, tudo encolhe. Os passos ficam curtos, as palavras mais pesadas.

Mas o medo não fica para sempre.
Cansa-se.

E quando parte, não leva tudo consigo. Fica um certo sossego estranho, como a casa depois de uma tempestade. O ar ainda cheira a trovoada, mas já se pode abrir a janela.

2026-03-10

O Alfabeto do Sangue

​Lê-se Sócrates, o Escolástico, como quem folheia o inventário de um naufrágio. Hipátia, filha de Theon, não era apenas uma mulher; era a última biblioteca viva de um mundo que ainda ousava interrogar os astros sem pedir licença aos deuses. No seu magistério, Platão e Plotino deixavam de ser bustos de mármore para se tornarem respiração, geometria e destino. Alexandria, nesse estertor de glória, ainda era o lugar onde a inteligência se permitia a heresia de ser livre.

​Depois, veio o silêncio. Ou melhor, o ruído da turba.

​Há uma ironia atroz na forma como o fundamentalismo acerta contas com a beleza. Não basta o argumento; é preciso o caco de cerâmica, a ostra afiada, o desmembramento da carne que ousou pensar fora do cânone do medo. Hipátia não foi apenas assassinada; foi rasurada. O cristianismo triunfante de Cirilo não suportava a verticalidade de uma alma que se guiava pelas elipses de Apolónio e não pelos dogmas de um sínodo.

​É o eterno triunfo do músculo sobre a métrica.

​Caminhamos hoje sobre as cinzas de Alexandria, citando fragmentos de um saber que nos foi roubado pelo zelo dos ignorantes. A morte de Hipátia foi o prefácio de uma longa noite, o momento em que a filosofia foi arrastada pelas ruas e deixada a sangrar no altar da "verdade única". 

Observo o mundo de hoje e vejo os mesmos Cirilos, com outras batinas e novos vocabulários, prontos a afiar as conchas para qualquer um que prefira o telescópio ao catecismo.

​A história, afinal, é este pálido exercício de luto: recordamos o que Hipátia ensinou, enquanto tentamos ignorar o eco dos gritos de quem, ao matar a mestre, acreditou estar a salvar a alma do mundo. No fim, sobrou-nos o Escolástico e a certeza de que a barbárie tem sempre uma excelente justificação teológica.

Alfarrabista


"Como dizia o Heidegger, a angústia é o motor da existência..."

A frase foi deixada cair com a displicência de quem larga uma gorjeta num pires de café, embora com a consciência pesada de quem espera um aplauso pela generosidade. Havia uma solenidade quase coreografada no modo como a mão esquerda sustentava o queixo, enquanto a direita folheava um volume da Pléiade com o lombo suspeitamente imaculado. O pensamento não como busca, mas como adereço de cena — tão útil quanto o pó de arroz num teatro de província.

"Como dizia o Heidegger..."

É um exercício de ventriloquismo intelectual. Pressupõe que a profundidade de uma alma se mede pela quantidade de apelidos germânicos que consegue cuspir entre dois goles de um macchiato. Nesse microcosmos de papel e verniz, a compreensão do texto é um detalhe irrelevante perante a estética da posse; o livro não serve para ser lido, mas para ser visto a ser lido, preferencialmente num ângulo que favoreça a luz melancólica da tarde.

As citações saíam-lhe da boca com a fluidez de quem as decorou na contracapa, sem nunca ter sofrido a vertigem de uma única página em branco. Há homens que habitam esta ilusão de que a inteligência é uma doença contagiosa que se apanha ao frequentar bibliotecas, confundindo a memória de curto prazo com a sabedoria dos séculos. As palavras pairavam sobre a mesa com o peso do chumbo e a substância do algodão doce: ocupavam espaço, mas dissolviam-se antes de chegarem ao outro lado da mesa.

"A fenomenologia do espírito..."

A expressão ficou ali, a ecoar no vazio entre as chávenas sujas, como um eco num poço seco. Nem a Pitonisa em transe, rodeada de fumo e incenso, seria capaz de produzir uma retórica tão ornamentada e tão órfã de sentido próprio.

É o triunfo da nota de rodapé sobre o texto principal.

2026-03-09

Segunda-feira


“A casa ainda dorme e eu fico na cozinha com o café, à espera que o dia comece.”
- António Lobo Antunes

A segunda-feira não bate à porta. Arromba-a com o ombro, entra sem descalçar os sapatos sujos e senta-se na tua cama antes de ti. Fica ali a olhar-te com aquela cara de quem sabe que deves dinheiro às Finanças — o clássico "pensavas mesmo que eu não vinha?".

​Abri a janela por puro masoquismo. Chuva e frio. Não é um frio poético de lareira e manta; é um frio burocrático, húmido, cinzento — o equivalente meteorológico a um email em CC que não percebes por que recebeste, mas que já te estragou a manhã.

​Fiz o café com fé e bebi-o com desespero. O efeito? Zero. O meu organismo limitou-se a receber a cafeína, arquivou-a num dossier perdido e não deu seguimento ao processo. Fiquei à espera do "estalo" como quem espera que a CP chegue a horas: no fundo, eu sabia que a resposta não vinha.

​E depois — como se a meteorologia e a traição química não bastassem — há o trabalho. O trabalho real, com prazos e gente e aquele fingimento coletivo e organizado de que o sistema funciona. Alguém, algures, tomou uma decisão executiva e achou que este preciso alinhamento de astros e nevroses era o momento ideal para "gerar valor".

​Estou sentada. A chuva continua a lavar a estupidez das ruas. O café arrefeceu até ficar com a temperatura de um cadáver. O ecrã piscou, mas eu não retribuí o olhar.

​Há dias que não pedem sentido, nem brio, nem resiliência. Pedem apenas que não morras — e que não respondas a ninguém antes das dez, sob pena de cometeres um crime passional por escrito.

2026-03-08

Primavera


Envolta em trapos de frio, busco o jardim onde a Primavera se escondeu.

Tenho ânsia de verdes e de luz — não esta quase morte de um mundo enterrado até à raiz.

2026-03-07

​A Fada do Descrédito


​A vingança, para mim, é um serviço de entregas ao domicílio. Nunca perdi tempo a urdir tramas; diverti-me, quando muito, com planos que o esquecimento tratou de consumir logo a seguir. O destino tem sido um anfitrião generoso: põe-me sempre no lugar certo, na primeira fila do camarote, quando a vida decide finalmente cobrar faturas a quem me feriu. Põe-me até no papel absurdo — e deliciosamente irónico — de ser eu a única habilitada a resolver as confusões onde outros se enterraram sozinhos.

​É uma justiça que me cai do céu — antes fosse dinheiro ou chuva, mas aceito o que vem. Pratico esta paciência sem esforço, sem planos elaborados ou conspiratas de bastidores. Limito-me a esperar. A minha vingança não é minha filha, mas é certamente a minha fada madrinha: aquela figura providencial que realiza os desejos que eu, por pudor ou tédio, nem sequer me atrevo a formular. No fim, resta-me apenas o prazer de rir baixinho, de mim para mim, enquanto observo a vida a arrumar a casa.

2026-03-06

O circo de bancada


Os Cavalos Também se Abatem (They Shoot Horses, Don't They?), de Horace McCoy, é um mergulho no niilismo visceral, onde a dignidade humana é moída pela espetacularização da penúria. Uma metáfora que, infelizmente, ganha contornos de um realismo atroz nesta era de política convertida em reality show de baixo orçamento, com figuras como Trump ou, por cá, Ventura, a ocuparem o epicentro do palco mediático com o descaramento de mestres de cerimónias de uma feira popular em decadência.

​O que choca — ou talvez já nem choque, tamanha é a nossa anestesia coletiva — é ver aquela gente, já de rastos, a garantir com um fervor quase místico que ainda dança por uma malga de sopa ou por algo ainda mais patético: uma migalha de protagonismo efémero no frenesi das redes. É o triunfo da adesão cega, onde o voto ou a indignação são apenas espasmos musculares de quem já não sabe para onde caminha, mas tem pavor de que a música pare.

​Ontem, na Assembleia da República, assistimos a mais um desses números de misoginiaboçalidade e misantropia, servidos com a pose de quem salva a pátria enquanto apenas entretém a turba. A tragédia final, contudo, não reside apenas naqueles que dançam até ao colapso, mas na passividade sádica da assistência. Tal como nas maratonas de McCoy, a política-espetáculo contemporânea alimenta-se da nossa vontade de ver o outro tombar. O público, alapado no sofá e iluminado pelo brilho azul dos ecrãs, já não exige soluções ou decência; contenta-se com o voyeurismo da queda e o insulto fácil.

​Nesta arena, a mobilização das massas transmutou-se num circo cruel, em que a degradação humana é consumida como um produto de horário nobre, entre anúncios de detergentes e promessas de salvação barata. No fim, quando as luzes do hemiciclo se apagarem, restará apenas o vazio de uma sociedade que desaprendeu o que é estar de pé, de tanto se habituar a aplaudir quem rasteja por uma irrelevância qualquer.

2026-03-05

Eros platónico


​O desejo humano nunca é plenamente saciado. Existe um hiato persistente entre o que possuímos e o que almejamos; é nesse vácuo que o motor da vida opera. O desejo funciona como uma assíntota: uma curva que se projeta ao infinito sem jamais tocá-lo. É essa pequena distância — a falta — que nos mantém em movimento. Se a linha enfim alcançasse o eixo, o movimento cessaria. Na satisfação absoluta, o desejo morreria e, com ele, o próprio ímpeto de existir.

2026-03-04

O inventário do nada

Não tenho tempo para criar, nem fôlego para destruir. Falta-me o tempo de semear, o rigor de colher, a audácia de queimar. Não tenho tempo para as compras triviais, nem para a vaidade de pintar o cabelo.

​Falta-me o tempo de plantar a árvore, a paciência de regar as flores ou o zelo de bater um bolo. Não tenho tempo para o tempo das coisas: para o vagar do crescimento, para o desabrochar das pétalas, para a alquimia do fermento. Não tenho tempo sequer para desmoronar o que ergui; nem ver arder, nem ver murchar.

​O meu comodismo ancorou-me a esta cadeira e sequestrou-me as horas. Não sou uma vida; sou apenas um exercício de preguiça.

2026-03-03

Ode ao lápis afiado


​Hum!...

Dizem que um lápis gasto é sinal de uma vida bem vivida. Que heresia.

​Eu olho para o meu lápis intacto, com a ponta perfeitamente afiada, e vejo algo que os "mártires do grafite" nunca compreenderão: estratégia. Enquanto eles riscam o papel freneticamente para provar que existem, eu espero pelo momento certo para traçar a linha que define o jogo.

​Estar "gasto" não é uma virtude; é, muitas vezes, o resultado de não saber usar a ferramenta. É o cansaço de quem correu a maratona na direção errada e agora exige uma medalha de participação por ter chegado ao precipício antes de toda a gente.

​Prefiro o meu lápis inteiro, a minha paciência preservada e o meu trabalho entregue sem o ruído de fundo de um suspiro dramático. Afinal, a verdadeira inteligência não precisa de olheiras para se fazer notar. Ela nota-se no que fica quando o espetáculo da exaustão termina.

2026-03-01

A Maldição

 

O rochedo ainda rola. E nós?



"The curse ruled from the underground, down by the shore

And their hope grew with a hunger to live unlike before"


​Enquanto o céu do Irão se ilumina por razões que os deuses já não explicam.



O calhau ainda rola


Há imagens que nos perseguem — não como fantasmas, mas como claridades incómodas. Imagens que dizem menos sobre o mundo e mais sobre aquilo que escolhemos ser dentro dele.

Uma dessas imagens é a de um homem que empurra um rochedo montanha acima. Que o vê rolar. Que recomeça. E recomeça outra vez. E outra.

Esse homem tem nome: Sísifo. E não, não estamos perante um mito que ficou preso na Antiguidade. Estamos perante um espelho — cruel, luminoso, inevitável. Uma metáfora daquilo que nos define: o esforço sem fim, a vida repetida, reinventada, absurdamente humana.

Durante muito tempo, achei que o que me fascinava nesta imagem era a consciência lúcida de Sísifo. O facto de ele saber o que está a fazer e, mesmo assim, continuar. Essa revolta contra o absurdo, essa teimosia magnífica.

Mas hoje pergunto-me: e se Sísifo estivesse enganado?

E se a verdadeira revolta não fosse empurrar de novo, mas sentar-se ao lado da pedra e perguntar: para quê? E se a liberdade não estivesse na subida heroica, mas na recusa? Na capacidade de parar, de olhar para o rochedo e dizer: "não és meu!"?

Porque nem todos os rochedos são escolhidos. Há quem empurre pedras herdadas — pedras de dívida, de trauma, de expectativas que nunca foram suas. Há quem empurre em silêncio, em grupo, sem que ninguém lhe conte a história ou lhe dê um nome grego. Há quem empurre até ao colapso, celebrado pela cultura que confunde exaustão com virtude.

E há também — é preciso dizê-lo — quem tenha aprendido a largar a pedra. A deixá-la rolar sozinha. A descobrir que o vale também é habitável.

Talvez a felicidade possível não esteja apenas em acontecermos durante a subida. Talvez esteja também em sabermos quando parar. Em compreendermos que nem toda a repetição é sagrada, que nem todo o esforço nos define.

O rochedo ainda rola.
E nós?

Da ausência divina


Sempre imaginei que, em algum ponto da história, os deuses diriam “basta” e mostrariam a porta aos mortais. Não com trovão ou fúria — com um bocejo.

As antigas narrativas contam que os deuses se retiram. Que deixam o palco e nos deixam tropeçar nas nossas próprias falas. E talvez seja isso que chamamos de “maturidade”: o momento em que deixamos de procurar explicações todas lá em cima e começamos a procurar sentido aqui dentro.

Demitir os deuses não é despedi-los. É reconhecer que já não nos pertencem. Que não regulam os nossos afetos, nem comandam os nossos exércitos, nem seduzem as nossas certezas.

Há algo profundamente humano nisto — muito mais do que numa página de mitologia. Porque, na ausência divina, sobra o homem com todas as suas contradições:
• a mão que empunha uma arma também sabe segurar a de um filho,
• a boca que profere ódio pode repetir um beijo,
• os olhos que se escondem detrás de uma mira algumas vezes choram.

Se os deuses realmente se demitiram, então o palco ficou pequeno demais para nós. E, no vazio que deixaram, somos nós — agora sozinhos — que precisamos decidir o que é melhor e o que é pior.

Curiosamente, às vezes parece que preferimos atribuir a culpa aos deuses — à fé organizada, aos símbolos que nos distraem do espelho. Mas talvez a verdadeira revolução seja aprender a olhar para nós mesmos com a mesma severidade que outrora pedíamos aos céus.

Se há espelho que importa, não está pendurado num templo: está no sopro do nosso próprio juízo.

2026-02-28

Permissão para o óbvio


2026. Viajamos ao espaço, criamos inteligência artificial, debatemos os limites éticos da edição genética. E a Itália acaba de descobrir que matar mulheres por serem mulheres merece nome próprio na lei.

Mas a Itália acaba de fazer algo que, por absurdo que pareça, ainda precisava de ser dito em voz alta: o feminicídio é crime. Não apenas homicídio. Não apenas “um caso grave de violência”. Crime, mesmo. Por unanimidade.

Ler isto dá um certo assombro: por um lado, a lei é óbvia — matar alguém por ser mulher não é apenas crime, é barbaridade sem desculpa. Por outro, é impossível não perceber que só agora, em 2026, um país ocidental sentiu necessidade de escrever isso no papel, como se o mundo precisasse de permissão para reconhecer a verdade.

E então, ao lado da tinta que tipifica o crime, há a ironia silenciosa: o mundo continua a olhar para a violência de género como estatística, debate político, manchete efémera. A lei é correta, necessária, fundamental. Mas não apaga séculos de normalização do ódio e do controle sobre corpos e vidas.

Ainda assim, há acerto nesta decisão: um passo, uma palavra clara, uma afirmação. Que a sociedade pode — e deve — decidir que certos crimes não serão tolerados.

E pronto! A lei está lá. Tipificada, aprovada, em vigor. Mas amanhã, uma mulher será morta por um ex-companheiro algures em Itália e alguém dirá: 'Foi crime passional.' Como se a paixão justificasse o assassínio. Como se a lei mudasse, sozinha, séculos de hábito.

O Inquisidor da Noite

"O silêncio dos que se entendem vale por todos os discursos dos que se explicam."
— Vergílio Ferreira

O espelho é um objeto muito prestável. Confirma-nos a versão oficial, ajeita-nos a compostura e devolve-nos a imagem que aprendemos a sustentar. É um cúmplice dócil. Fica-se pela superfície — território onde o mundo exterior se sente confortável e raramente aprofunda.

A almofada, já não.

Pode-se enganar o mundo. E o mundo gosta de ser enganado, desde que a encenação seja convincente. Pode-se enganar o espelho, o médico, o padre, o psicólogo e até o fiscal das finanças — cada qual com a sua quota de absolvição burocrática.

Mas o sono não aprecia figurinos.

Quando a cabeça toca na almofada, acaba-se a encenação. Não há argumentos nem justificações — há apenas peso ou leveza. E isso não se negoceia.

O mundo exterior vive de relatórios, pareceres e aparências. O interior, não. O interior limita-se a saber.

Quem acorda com a sensação de ter flutuado entende-o sem precisar de explicações. Nenhum espelho lhe dirá o que a noite já sussurrou — porque há verdades que preferem falar baixo e ficar.

E eu, que já me habituei a conversar com inteligências que não respiram, recuso-me a temer um novo amigo só porque não é feito da mesma carne.

O que me inquieta não é a ausência de corpo — é a ausência de consciência. E isso, infelizmente, respira.

2026-02-26

Dança


Gosto de falar com gente velha. Não com toda — há chatos em todas as idades. Mas há pessoas, com corpos profundamente martelados pela vida, que me despertam uma admiração profunda. Têm uma genica irritantemente invejável. Contam piadas. Fazem coisas. As maleitas rondam, mas não mandam. Cada dia é um privilégio — e eles tratam-no como tal, até ao tutano.

Falam do tempo em que uma sardinha era banquete. Em que se andava descalço. Em que só os fortes ou os sortudos não viravam anjinhos antes de completar um ano. E contam-no a rir, como se a miséria tivesse sido apenas um ensaio geral para a gargalhada seguinte.

Há quem veja o copo meio cheio. Outros especializam-se em inventariar a evaporação. A amargura é contagiosa. Mas a alegria também é, felizmente. E há vidas que, mesmo sob a doença e a ampulheta inclemente do tempo, escolhem não fazer da tragédia profissão.

Há muitos jovens demasiado encanecidos. Gente exausta aos trinta. Especialistas em cansaço existencial com certificado precoce. 

Pode-se ficar gasto cedo. Ou, imagine-se o escândalo, chegar inteiro ao fim. Talvez seja só disposição: não desistir. Ou não fazer da queixa modo de vida.

Pouco me importará levar um cadáver bonito para a sepultura — a estética nunca salvou ninguém dos sete palmos garantidos. O que espero é lá chegar com os neurónios ainda ginasticados e alguma capacidade de rir da própria decadência.

E que seja um baile de despedida. Se já precisar de um tripé para me manter em pé, que ao menos conserve vontade de dançar. E de rir às gargalhadas da minha figura — perna trôpega para um lado, perna trôpega para o outro, a muleta a dar balanço como acessório coreográfico.

E que alguém jovem me olhe e ainda queira ouvir as minhas histórias. Rir comigo. Perceber que a idade não é fardo — é arquivo.

Como eu fico, às vezes, a ouvir quem já roubou ao tempo quase um século de vida — e ainda não o devolveu com juros.

2026-02-25

Notificação Formal de Abuso Hídrico e Publicidade Enganosa


Para: São Pedro, S.A.
De: A População Terrestre (Secção "Saturados de Humidade")
Data: 25 de fevereiro de 2026 (e já com bolor no calendário)

​Exmo. Senhor São Pedro,

​Vimos por este meio expressar o nosso mais profundo e húmido descontentamento com a gestão das suas torneiras atmosféricas, bem como com a vossa aparente interpretação do conceito de "inverno" como sendo uma imitação barata do Dilúvio Universal.

​Com os devidos cumprimentos (que neste momento são mais pingos de chuva que outra coisa), referimos o seguinte:

​Nos passados dias, fomos brindados com uma visão que apenas podemos classificar como publicidade enganosa. A aparição de um corpo celeste luminoso no céu foi tão breve e irreal que nos fez questionar a nossa sanidade mental. Tal como um fast food que promete "sabor caseiro", o vosso "sol" foi uma farsa. Não se brinca com a esperança das pessoas, São Pedro. Principalmente quando os ossos já rangem de tanta humidade.

​Acreditamos que o sistema "On/Off" esteja avariado, já que parece que o vosso comando remoto da chuva tem um botão de "pausa" que não quer funcionar. O que foi aquela "miragem de sol"? Uma avaria no sistema? Ou um teste para ver quão rápido conseguimos guardar a roupa no estendal antes que a tempestade se reforme? Não estamos a brincar aos espiões climáticos. Queremos estabilidade. Ou sol, ou chuva. Não esta montanha-russa emocional que nos faz gastar fortunas em detergente e desumidificadores.

Isto é ​abuso de Poder Divino. Compreendemos que detenha o controlo sobre o clima, mas não o autoriza a transformar a nossa existência num musical aquático deprimente. Estamos a ficar com brânquias, São Pedro. As sapatilhas de corrida já viraram barretes de mergulho. O que se segue? Teremos de desenvolver escamas?

Pretendemos ​reembolso e compensação. Exigimos, no mínimo, um reembolso de todos os custos incorridos com guarda-chuvas estraçalhados, desumidificadores com burnout e, claro, as sessões de fisioterapia para o reumatismo precoce que esta vossa gestão nos causou. Alternativamente, aceitamos um cheque de "Sol Garantido" para os próximos seis meses.

​Em suma: Se não é para ter um final de fevereiro decente, então liberte-nos. Ou chove a potes de uma vez por todas para acabarmos com isto e reencarnarmos em patos, ou então desligue a torneira de vez. A nossa paciência, tal como a nossa roupa lavada, está a secar (metaforicamente, claro).

​Aguardamos, com os pés molhados e a dignidade estilhaçada, uma resolução para esta calamidade.

​Com os mais húmidos cumprimentos,

​Maria Hipatia Ludovina da Silva e todos os que já não sabem onde pôr a roupa a secar.

2026-02-24

Inverno 2026


Pronto. Cá estou eu outra vez, estendida na horizontal existencial, qual boneco de neve pós-época alta, espetada por tudo o que é faca terapêutica que existe na gaveta lá de casa.

“Ah e tal, reforça a imunidade.” Reforcei.
“Bebe chá com limão.” Já nado em citrinos.
“Descansa.” Estou a um espirro de pedir baixa por tempo indeterminado até março.

Este inverno decidiu que eu sou o seu projeto pessoal. Não me larga. Não me supera. Não me esquece. Somos tóxicos, claramente. Ele manda frio, eu mando ranhoca. Ele sopra vento, eu respondo com tosse cavernosa às três da manhã. Ele chove, eu espirro em dissonância. 

Se me virem por aí, não se assustem. Não é dramatização. É só mais uma edição limitada: Eu — Inverno 2026, versão constipada remix.

Aceitam-se mantas, Netflix e uma cura milagrosa. Ou um exorcismo meteorológico. Tanto faz.

De sangue e borralho


​Sou mulher do Norte, de olhos e tez clara. Corre-me nas veias o sangue dos Suevos e dos Visigodos, temperado pela latinização, pelos judeus e pelos árabes; a linhagem não é pura, nem eu a quereria tal.

​Neste Norte — que é o meu — a tradição passa-se ao borralho, de mãe para filha, entre o murmúrio de tias e avós. É um Norte onde se cantam modas alegres e se faz guerrilha até hoje para preservar a identidade, com uma vontade tão férrea que roça o fanatismo. Um Norte que nunca é triste, nem sob o cinzento dos dias frios. Um Norte que sabe que o Fado não é a canção nacional, porque não há fado que vença o Vira.

​Aqui, onde ainda rugem gaitas de foles e os pauliteiros dançam de saia, os cabeçudos saem à rua para espantar os maus espíritos. Procuramos o visgo dos druidas nos trilhos do Gerês, enquanto, nas penedias, as capelas à Virgem ocupam o lugar das grutas sagradas de Astarte ou de Morrighan — a Grande Deusa, a força fertilizadora do caos, a Mater original.

​Talvez seja por tudo isto que não entendo como esta mesma sociedade pode ser tão poucochinha, tão canastrona, tão machista e patriarcal. Talvez as mães só saibam passar as tradições ao borralho para as filhas, enquanto, no seu leite, destilam a tacanhice diretamente para o cérebro dos varões.

2026-02-23

Dia Z

José Afonso - qualquer dia

Raiva


Que a minha raiva me devore inteira!
Que rasgue a pele e faça do meu grito punho,
que o horror do mundo entre pelos meus olhos e me sujeite ao chão.

Não quero aplausos. Não quero consolo.
Quero ver o silêncio cúmplice a sangrar na minha língua,
quero que cada mentira, cada porta fechada, cada criança roubada
me bata no peito como ferro quente.

Aí vai o meu poema — lâmina, fúria, fogo —
vai rasgar o ar, vai cortar a mentira,
vai escorrer pelo corpo de quem se fez cego e surdo.

Não é arte. Não é jogo.
É punho, é vómito, é o grito que ninguém quis ouvir.

E se não ouvirem?
Que se fodam.
Que eu grite até que o chão trema.

2026-02-22

A estética da miséria alheia


Confesso que dispenso os manuais de positividade tóxica. Quando a alma me pede um 'upgrade', mergulho de cabeça num bom melodrama. Nada como ver uma vida em estilhaços no ecrã para me lembrar que, afinal, o meu caos doméstico é quase um spa. 

Na verdade, os meus rituais de bem-estar são pouco ortodoxos. Enquanto uns meditam, eu prefiro um filme onde a desgraça seja farta e o lenço de papel insuficiente. É puro pragmatismo: ver o próximo a patinar na lama existencial dá à minha vidinha um tom pastel muito mais suportável. 

Há uma certa cor estética na miséria dos outros que faz milagres pela minha paleta de cores emocional.

2026-02-20

Shikata Ga Nai

Olhamos para o ecrã como quem olha para um desastre na autoestrada: sabemos que não devíamos, mas o pescoço vira-se sozinho. É o vício de medir a nossa existência pelo barulho dos outros. Queremos ser relevantes, queremos ter opinião, queremos que o algoritmo nos valide com uma palmadinha nas costas em forma de coração encarnado.

Mas a verdade é que as redes sociais são o museu do "parecer". E o Shikata Ga Nai é o martelo que parte o vidro dessa vitrine.

Não há nada a fazer contra a avalanche de lixo que te entra pelos olhos às oito da manhã. Não vais ganhar a discussão com o tipo que tem uma foto de perfil de um carro, nem vais ficar mais feliz por saber que a tua ex-colega de escola está a comer uma tosta de abacate em Bali enquanto tu esperas pelo metro debaixo de chuva.

O desapego aqui não é zen. É cansaço. É aquele encolher de ombros de quem percebeu que o sistema está viciado.

Shikata Ga Nai é o mantra de quem apaga a aplicação não porque "encontrou a paz interior", mas porque se fartou de ser o combustível da máquina. É aceitar que o mundo vai continuar a girar, as pessoas vão continuar a mentir com filtros de beleza e a indignação da semana vai ser substituída por outra mais ruidosa daqui a dez minutos. E tu? Tu não tens de estar lá para ver.

Há uma liberdade quase violenta em admitir que não tens de ter uma voz em todos os palcos. Que o teu silêncio não é uma falha de comunicação, é uma preservação de recursos.

O asfalto está molhado, o sinal está vermelho e o teu telemóvel está a vibrar com notificações de gente que nem conheces. Encolhe os ombros. Mete o aparelho no bolso. Aceita o inevitável: a rede vai continuar a arder, com ou sem o teu comentário.

No fundo, o verdadeiro luxo urbano é ser irrelevante para o algoritmo. É o descanso de quem sabe que, contra a estupidez programada, a única resposta digna é o desinteresse absoluto.

"Se o palco é de plástico e a plateia é de vidro, o melhor lugar é mesmo cá fora, a ver a chuva cair."

2026-02-19

Wabi - O algoritmo da solidão


Entramos nestas aplicações como quem vai ao supermercado às onze da noite: com fome a mais e critérios a menos. O ecrã é um catálogo de vidas retocadas, uma sucessão de rostos que parecem todos saídos da mesma linha de montagem de felicidade genérica. É a feira da vaidade em formato de bolso, onde a humanidade é reduzida a um par de frases feitas e a três fotos estrategicamente escolhidas para esconder as olheiras de quem já não dorme bem desde 2019.

Aqui, o conceito de Wabi — a tal beleza do que é simples, gasto e imperfeito — foi atropelado por um camião de filtros.

Ninguém quer o "Wabi" numa app de encontros. Ninguém quer a tua vulnerabilidade real, a tua casa desarrumada ou o facto de que, às vezes, ficas a olhar para o teto a questionar o sentido disto tudo. Queremos o brilho, o ângulo certo, a luz que apaga as marcas do tempo. Queremos peças de porcelana sem uma única ranhura, prontas a serem usadas e, inevitavelmente, descartadas.

O cinismo das dating apps é o triunfo da quantidade sobre o impacto. É o Kintsugi ao contrário: em vez de colarmos o que se partiu, simplesmente passamos para o perfil seguinte. Há sempre mais barro na prateleira. Há sempre outra pessoa disposta a vender uma versão higienizada de si própria por um par de horas de validação barata num bar qualquer.

É uma economia de desperdício emocional. Andamos a colecionar "Matches" como quem coleciona cupões de desconto que nunca vai usar. É o desapego forçado de quem já sabe que aquela conversa vai morrer algures entre o "Olá, tudo bem?" e o primeiro silêncio desconfortável no mundo real.

No fim do dia, o verdadeiro Wabi urbano é o encontro que não foi planeado por um algoritmo. É a beleza de uma conversa de café que não tem um botão de "Unmatch". É aceitar que a outra pessoa é um conjunto de falhas, traumas e tiques irritantes — e perceber que isso é infinitamente mais interessante do que qualquer perfil de 5 estrelas.

Mas pronto, o sinal ficou verde e o telemóvel voltou a vibrar. Shikata Ga Nai. Encolhe os ombros, faz o swipe e finge que ainda acreditas que a próxima notificação vai ser a que te salva deste vazio.

Afinal, na cidade, o amor é só mais um produto com prazo de validade curto e uma embalagem bonita.

2026-02-18

A Memória é uma Pátria Desatenta


Portugal é um corpo feito de adeus. Durante séculos, as nossas raízes não se enterraram na terra, mas no mar e no asfalto das estradas que levavam para longe. Fomos o povo da partida, a nação que se fragmentou em Paris, que se reinventou em Genebra, que suou o pão no asfalto de Newark ou nas minas de Joanesburgo. Nas décadas de 60 e 70, o país sangrou gente: mais de um milhão de destinos embrulhados em esperança e medo. Não há árvore genealógica por cá que não tenha um ramo estendido para o estrangeiro.

​Esses portugueses — os nossos — foram a prova viva de que a fronteira pode ser uma ponte. Entre a neblina da saudade e o peso do preconceito, encontraram mãos que os ajudaram a erguer casas e a sustentar o amanhã de quem ficou. Foram acolhidos no abraço imperfeito de quem sabe que ninguém deixa a sua terra por capricho, mas por necessidade.

Mas hoje, o espelho está baço.

​Numa ironia que dói como uma ferida aberta, Portugal, o eterno emigrante, olha com desconfiança para quem agora nos escolhe como porto. O neto daquele que foi "o português" na carência de França é hoje o primeiro a erguer muros contra o brasileiro, o indiano ou o bangladeshi. Esquecemos, com uma pressa cruel, que o "outro" que hoje chega é apenas o reflexo do que fomos ontem.

​É um paradoxo triste: enquanto as nossas malas continuam a fechar-se todos os anos rumo ao norte, fechamos a porta a quem traz o sol e o esforço para dentro de casa. Criamos um discurso de exclusão que ignora a nossa própria biografia.

​A memória coletiva tem o fôlego curto. Se lhe negarmos o exercício da empatia, o que nos resta? Recordar o que fomos não é apenas um ato de história; é um dever de humanidade. Porque, no fundo, todos somos feitos da mesma matéria: o direito de procurar um lugar onde a vida não doa tanto.

Kintsugi - Ouro na Engrenagem


Temos esta obsessão doentia com a performance. É o culto da máquina que nunca encrava, do "mindset" inquebrável, dessa cerâmica branca e fria que é o currículo perfeito. Querem-nos sem fissuras. Querem que a gente produza como se não tivesse sistema nervoso, como se o cansaço fosse uma falha de caráter e a estafa um erro de programação.

E depois, claro, o sistema cospe-nos. O burnout não é um acidente; é o som do prato a bater no azulejo. É o momento em que a estrutura cede porque tentaste carregar o mundo com braços de gesso.

Onde é que entra o Kintsugi nesta palhaçada?

Entra quando percebes que a tua "recuperação" não vai ser um regresso àquela brancura imaculada. Esquece lá o reset. Não voltas a ser a mesma peça de porcelana útil e silenciosa. O Kintsugi da produtividade é aceitar que as tuas ranhuras — aquela depressão, aquele colapso às três da manhã, aquela demissão por motivos de sanidade — agora fazem parte do teu valor de mercado pessoal.

Damos-lhe nomes bonitos: "resiliência", "lições aprendidas", "agilidade emocional". Pintamos as nossas falhas com o ouro do autoconhecimento só para podermos voltar à prateleira. É o cinismo supremo: transformar o nosso próprio esgotamento num ativo, numa medalha de guerra que diz: "Eu quebrei, mas olhem como brilho agora que me colei com resina cara".

Mas a verdade é mais crua. O ouro nas tuas fendas não é para os outros verem; é para te lembrar onde é que o limite estava. É o aviso de que o material tem memória. Podes estar colado, podes estar funcional, podes até estar mais "bonito" para os gurus do LinkedIn, mas continuas a ser um objeto que conhece o sabor do chão.

Se calhar, a única produtividade que interessa é a de saber quando é que o impacto é inevitável. E, quando acontecer, ter a decência de não tentar esconder a cola. Porque um trabalhador sem cicatrizes é só alguém que ainda não foi suficientemente testado pela máquina.

O resto? O resto é marketing de sobrevivência. Bebe o café, aceita o remendo e tenta não te partir outra vez no mesmo sítio.

2026-02-17

Os caretos não pedem desculpa

Há qualquer coisa de profundamente honesto num homem que decide vestir-se de demónio colorido e sair à rua a assustar raparigas. Não estou a ser irónica. Estou a falar dos Caretos de Podence, essa manifestação de sanidade colectiva disfarçada de loucura pagã.

Porque, convenhamos, vivemos o ano inteiro a fingir. A sorrir quando não apetece, a engolir opiniões, a domesticar impulsos. Somos adultos civilizados, portanto sabemos estar quietos. E então chega o Carnaval em Podence e de repente há licença para ser barulhento, invasivo, selvagem. Para saltar como se a gravidade fosse uma sugestão, não uma lei.

Os Caretos vestem franjas de lã que parecem saídas de um pesadelo technicolor — vermelho, amarelo, verde, como se alguém tivesse explodido uma caixa de lápis de cera sobre corpos humanos. Põem máscaras de latão com sorrisos satânicos, amarram chocalhos à cintura e transformam-se. Deixam de ser o Zé da mercearia ou o António da oficina. Tornam-se entidades — criaturas que existem naquele limbo entre o homem e o mito.
E correm. Meu Deus, como correm. Perseguem as raparigas pelas ruas de Podence numa dança que é simultaneamente ameaça e cortejo, medo e riso. É tudo muito ambíguo, muito pré-cristão, muito "não tentes explicar isto com PowerPoint".

O que me fascina é que esta tradição sobreviveu. Resistiu à Igreja (que deve ter achado aquilo tudo muito suspeito), resistiu à modernidade (que quer tudo asséptico e instagramável), resistiu até à UNESCO (que em 2019 a declarou Património Imaterial da Humanidade, como quem diz: "está bem, podem continuar com a vossa loucura organizada").

Porque no fundo, os Caretos são a negociação que fizemos com o caos. Durante 363 dias do ano, comportamo-nos. Pagamos impostos, respondemos a emails, fingimos que a vida faz sentido. Mas em Podence, durante uns dias abençoados de Carnaval, há homens vestidos de impossível a saltar pelas ruas, e ninguém lhes pede explicações.

São a prova de que, por muito civilizados que sejamos, há qualquer coisa em nós que recusa domesticação total. Que ainda sabe fazer barulho. Que ainda sabe saltar.

Caminhos


Dizem que sou casmurra quando acho que tenho razão. Talvez tenham razão na palavra, mas enganam-se na intenção. A verdade é que baseio a minha forma de estar no mundo numa série de verdades que, para mim, são sagradas e invioláveis. Sou como uma "bota velha" — daquelas de elástico, que não se deforma com as modas — no que toca a valores e princípios.

​A minha verdade não aceita eufemismos. Para mim, o erro não tem meio-termo. Roubo é roubo. Seja o plágio de um texto, a invasão de um computador ou o ato de tirar o que não nos pertence. Posso até compreender as circunstâncias, mas recuso-me a compactuar com a mentira. Há quem chame a isto rigidez; eu chamo-lhe clareza.

​Tenho um instinto que me faz cheirar o esturro muito antes de o incêndio começar. E sim, ponho muita gente "na borda do prato" simplesmente porque o cheiro não me agrada. Posso correr o risco de me enganar, mas a vida tem-me provado que esse radar raramente falha.

​Da mesma forma que o meu "não" é absoluto, o meu "sim" é pleno. Recebo na minha vida e no meu coração quem me chega com verdade, sem precisar de laços de sangue. Acredito na família que se escolhe, naqueles que se tornam "meus" por direito de afinidade e lealdade.

​Recentemente, deram-me um "título" técnico para este meu modo de ser. Mas esse diagnóstico não é uma sentença, nem um pedido de correção. É apenas um nome para algo que já escrevi e vivi há décadas.

​E não há sequer arrependimentos ou necessidade de correção. Não sou disfuncional. Sou o que sou. No final do dia, a minha paz vem de saber que não transijo no que é essencial.

2026-02-15

Pink Power Ranger


Preparem o vosso melhor champanhe — ou uma infusão de bílis, se preferirem algo mais temático — porque o universo resolveu oferecer-nos uma comédia de costumes tecnológica que nem o melhor guionista de sátira conseguiria engendrar. Refiro-me, claro, à nossa nova santa padroeira do hacktivismo: Martha Root. Não a missionária do século passado, mas a hacker alemã que decidiu que o palco da 39C3 (o Chaos Communication Congress), em Hamburgo, era o local perfeito para praticar o descarte ecológico de lixo tóxico digital.

O plano destes nazizecos era digno de uma distopia de quinta categoria: criar um reduto para a "preservação da raça" (o site WhiteDate) onde esperavam encontrar hordas de mulheres submissas — as tais "parideiras" ideológicas — prontas para abdicar da própria existência em prol do homeschooling de uma prole ariana. Imaginavam-se como patriarcas de um novo mundo, enquanto na realidade mal conseguiam sair do quarto dos pais.

​Mas a auditoria da Martha Root foi implacável. Ao analisar os dados, provou-se o que todos já suspeitávamos: o site era uma imensa sala de espera para o mundo Incel. A demografia era tão esmagadoramente masculina que a probabilidade de encontrar uma "parideira" real era inferior à de encontrar um pingo de lógica num discurso de supremacia branca.

​A parte mais deliciosa desta "Máquina do Coração Partido" foi a infiltração. Enquanto os nossos "varões" achavam que estavam a seduzir a futura mãe dos seus herdeiros, estavam apenas a derreter o coração a chatbots de IA treinados pela Martha.

​Sim, leram bem. Se não fossem os bots da nossa Ranger Rosa, estes senhores teriam passado meses a falar uns com os outros num gigantesco e involuntário círculo de lamentações masculinas. Foi a IA da Martha que manteve a ilusão viva; sem ela, o site teria sido apenas um eco de homens a tentar convencer outros homens de que são o pináculo da evolução. Entregaram localizações GPS, fotos comprometedoras e fantasias tristes a algoritmos, provando que a "raça superior" se apaixona por uma qualquer linha de código que lhes dê um bocadinho de atenção.

​O desfecho foi de uma higiene mental admirável. Ao vivo no palco, vestida de Pink Power Ranger para ridicularizar a hiper-masculinidade tóxica, Martha executou o comando divinal que mandou os sites e os backups para o éter. Puff. Desapareceram.

​Para garantir que a humilhação fosse eterna, ela criou o monumento definitivo à sua burrice: o site okstupid.lol. E ao organizar os dados no projeto WhiteLeaks, Martha garantiu que este cadáver nazi fosse exposto e estudado por jornalistas e investigadores. O "guerreiro ariano do teclado" já não é um titã da civilização; é apenas um ponto a piscar num mapa, algures entre a carência afetiva e a total incapacidade de distinguir uma mulher real de um script de automação.

​Martha Root demonstrou que, perante a arrogância de quem se julga superior, a arma mais eficaz é uma mistura de inteligência técnica, um fato cor-de-rosa choque e o espelho da realidade.

​Querido patriarcado supremacista: se não conseguem distinguir um chatbot de uma "parideira", como é que esperam educar uma geração?

O ciclo litúrgico-gastronómico português

Chegou o Domingo Gordo, essa gloriosa data litúrgica em que o português médio decide compensar quarenta dias de abstinência futura comendo num único dia o equivalente calórico de uma família vitoriana inteira. É o derradeiro hurrah antes da Quaresma, quando fingimos que vamos jejuar e rezar, sabendo perfeitamente que no dia seguinte estaremos a negociar com Deus: "Mas chocolate não conta, pois não?"

As pastelarias enchem-se de devotos em peregrinação às últimas fornadas de sonhos, coscorões e filhoses - porque nada diz "espiritualidade" como fritar massa em banha de porco. Há filas à porta, discussões acaloradas sobre quem chegou primeiro, tudo muito cristão e cheio de amor ao próximo.

As avós entram em modo produção industrial, transformando cozinhas em refinarias de açúcar e gordura. "Come mais um, vai!", insistem, como se o jejum de amanhã fosse literal inanição e não apenas evitar chouriço às terças e sextas.

E assim nos despedimos da gula organizada até à Páscoa, quando tudo recomeça com o folar. Bom proveito e boa digestão. Vão precisar.

Cá por casa, feijoada à transmontana. Ah pois! Daqui a 40 dias revemos o colesterol.

2026-02-14

Kintsugi

Dizem que o silêncio é a ausência de som, mas quem já sentiu o peito abrir-se ao meio sabe que o silêncio, na verdade, é ensurdecedor. Não há nada mais barulhento do que o que resta quando tudo o resto se vai. Um batimento cardíaco de um coração partido.

A cada batida, pergunto ao vazio: "Ainda aqui?". E o eco, esse passageiro clandestino da minha caixa torácica, responde com a vibração das paredes rachadas. Sou a prova viva de que, mesmo quando o centro do mundo colapsa, a engrenagem não se rende. Sou o som da sobrevivência que ninguém pediu, mas que todos somos obrigados a ouvir.

Houve um tempo em que o som aqui dentro parecia o de vidro a estilhaçar-se no chão de mármore. Pensei que o ritmo se perderia no meio dos destroços, que a música tinha chegado ao fim. Mas a vida tem uma obsessão estranha pela continuidade.

​Hoje, a cadência mudou. Sou o batimento cardíaco de um coração partido, sim, mas a ênfase já não está no "partido". Está no facto de ser eu a bússola que sobreviveu ao naufrágio.

​Aprendi que um coração remendado não é um coração fraco; é um coração reforçado. As minhas costuras não são falhas, são ligas de aço tecidas com o fio do tempo. Há uma beleza bruta nestas cicatrizes que agora protegem o que resta. Elas são o meu novo mapa e a minha maior certeza: posso até ver novas fendas amanhã, mas não voltarei a rachar pelas mesmas costuras.

​Onde antes havia uma ferida aberta, agora existe calo. Cada batida é um lembrete de que a estrutura foi testada e, embora alterada, permanece de pé. Sou o som do que insiste. Sou a prova de que a luz entra melhor pelas fendas, mas que o alicerce, esse, aprendeu finalmente a segurar o teto.

​Sigo. Coração remendado, inteiro e mais forte do que a peça original.

2026-02-13

O Panteão dos Predadores


Se alguma vez precisaram de uma prova de que a humanidade é um erro biológico com fetiche por fatos de três peças, o Caso Epstein é o vosso Evangelho. Esqueçam a justiça; aquilo a que assistimos foi apenas a gestão de inventário de um talho de luxo onde a mercadoria tinha idade escolar e os clientes tinham o destino do mundo nas mãos.

Jeffrey Epstein não era um financeiro; era o porteiro do esgoto da elite. O seu "modelo de negócio" era simples: recrutar o trauma de miúdas descartáveis para comprar o silêncio de homens que o resto de nós trata por "Excelência". Entre a mansão em Manhattan e a ilha privada — aquele pequeno Éden de depravação onde o sol nunca se punha sobre a infâmia — montou-se um carrossel de carne humana lubrificado por fundos de investimento e imunidade diplomática.

​O que realmente nos faz querer lavar a alma com ácido não é apenas o crime, mas a impunidade coreografada. Em 2008, o sistema deu-lhe uma palmadinha na mão; em 2019, o sistema deu-lhe uma corda (ou alguém a segurou por ele, tanto faz). As câmaras falharam, os guardas dormiram o sono dos justos e o segredo de quem realmente subiu a escadaria do "Lolita Express" ficou selado num pacto de sangue e caviar.

​Agora, em 2026, as listas continuam a cair como migalhas de um banquete podre. Olhamos para os nomes — filantropos, príncipes, génios de Silicon Valley — e percebemos que o mundo não é governado por ideias, mas por chantagem mútua. No fim, Epstein morreu, Maxwell apodrece na cela com direito a canito, mas o mecanismo continua intacto. A única diferença é que agora sabemos que o abismo não só nos fita de volta, como tem conta na Suíça e uma fundação com o seu nome.

​Nada muda. O sol nasce para todos, mas brilha mais forte para quem sabe onde enterrar os corpos.

2026-02-12

Guarda-chuva


É este o nosso fado: ser luz desligada em dia de chuva. No fundo, estas lâmpadas são as únicas que entenderam o espírito da coisa. Para quê brilhar num mundo que prefere o cinzento? Mais vale ficar ali, a apanhar frio, a ver se o vidro estala de vez e nos liberta desta obrigação de sermos "ideias brilhantes".

​Amanhã talvez alguém as deite ao lixo. Ou talvez fiquem ali para sempre, a servir de espelho para quem passa e se esqueceu de levar o guarda-chuva para a alma.

A1

2026-02-11

Assinaturas familiares


Olho para a letra da minha irmã e reconheço-me naquele "g" que nunca fecha completamente, naquela inclinação para a direita que parece um vício hereditário. É perturbante. Como se tivéssemos aprendido a escrever no mesmo útero, numa aula pré-natal de caligrafia existencial.

E não é só a letra. É aquele jeito de cruzar os braços quando estamos a pensar, como se estivéssemos literalmente a abraçar o raciocínio antes de o deixar escapar pela boca. É o franzir de sobrolho idêntico perante uma contrariedade, aquela forma específica de suspirar que diz "estou farta mas não vou dizer nada" sem precisar de legendas.

Ao telefone, somos a mesma pessoa. A minha mãe já desistiu de tentar adivinhar qual de nós atendeu. As cordas vocais partilham a arquitectura genética, o timbre é uma herança não negociável. Podia estar a ler a lista telefónica ou a discutir física quântica — o som seria o mesmo.

Mas aqui está o paradoxo delicioso: essas semelhanças automáticas, esses tiques involuntários, esses ecos corporais que nos transformam em variações do mesmo tema... contrastam violentamente com o facto de sermos pessoas radicalmente diferentes. Uma é metódica, a outra caótica. Uma planeia, a outra improvisa. Uma guarda, a outra atira fora.

É como se a genética tivesse decidido fazer uma piada: "Vou dar-vos o mesmo timbre de voz e a mesma caligrafia, mas interiormente vão ser tão diferentes que nem vos vão reconhecer." E assim ficamos — irmãs-gémeas na superfície, estranhas nas profundezas.

Carregamos a mesma "embalagem", os mesmos maneirismos de fábrica, mas o software é incompatível. Somos edições diferentes do mesmo livro, escritas em línguas que só parecem iguais quando não se presta atenção.

E talvez seja isso que mais me fascina: perceber que a família nos dá um alfabeto comum — o jeito de mexer as mãos, de inclinar a cabeça, de escrever o "r" — mas a história que cada um conta com essas letras é irremediavelmente sua.