2006-11-17

Parabéns, Maria Árvore



Achei que tu - que com tanto empenho nos vais mostrando como os homens, sempre tão ridículos, conseguem ser profundamente deliciosos, mesmo e quando até se esquecem de tirar as peúgas -, ias gostar que eu assinalasse o teu aniversário com música e dança. Os balões da festa vieram de bónus, claro. Mas se não houvesse balões de bónus...



aqui

Mas não que não quisesse ser horizontal.
Não sou árvore com minha raiz no solo
Sugando minerais e amor materno
Para a cada março refulgir em folha,
Nem sou a beleza de um canteiro
Colhendo meu quinhão de Ohs e me exibindo em cor,
Desconhecendo que me despetalo em breve.
Comparados a mim, uma árvore é imortal
E um pendão nada alto, embora mais assombroso,
O que eu quero é a longevidade de uma e a audácia do outro.

À luz infinitesimal das estrelas,
Flores e árvores trescalam seus frios perfumes.
Eu me movo entre elas, mas nenhuma me nota.
Chego a pensar que pareço o mais perfeitamente
Com elas quando estou dormindo —
Os pensamentos esmaecem.
É mais natural para mim deitar.
Céu e eu então animamos a prosa,
Hei de servir no dia em que deitar afinal:
E as árvores aí talvez em mim tocassem e as flores comigo se ocupassem.


Sylvia Plath - Eu Sou Vertical (Trad. de Vinicius Dantas)


Parabéns! Muitos!

2006-11-16

A cantar de galo


aqui


Obviamente que julgo sempre o outro em função do que o outro me parece. Num primeiro contacto, só isso é possível e todos o fazemos afinal. Mas não é a essa versão de alguém que, no fim, me obrigo a vincular uma opinião sobre determinada pessoa. Esforço-me para que - para lá dos meus conceitos e preconceitos - reste um indivíduo e nunca, mas nunca mesmo, a sua aparência, muito menos qualquer julgamento que possa fazer em função dessa mesma aparência, ou sequer o aparente lugar que essa pessoa julga merecer ou deter em termos de estatuto social.

E também não nego sequer que, em muitos dias, sou profundamente snobe. Ou preconceituosa. Ou teimosa até. Ou sequer que o sou ainda com mais vontade quando me deparo com o pedantismo alheio, já que o meu, como é óbvio, custa muito mais a enxergar.

De qualquer forma, penso que muitos assumem que, porque não conhecem uma determinada pessoa, esta não possa ser reconhecida em todo um outro conjunto de círculos sociais. Só que não será nunca porque não faz parte do nosso leque de conhecimentos que alguém pode ser entendido como não-célebre e muito menos como não-válido ou um não-capaz de expressar uma opinião com valia e credibilidade.

Em última análise, seremos antes desconhecedores. E eu, banal que sou, escondida que quero estar num blog anónimo e anódino, nunca tive a pretensão de conhecer tudo e todos, ou a ousadia de descartar aprender qualquer coisinha com alguém só porque lhe desconheço a árvore genealógica.

E há dias em que vejo tanta gente a descartar o desconhecido (por falta do nome, da obra, do nick, do nome do pai, da mãe, da criada, do emprego, do que comem ao pequeno-almoço, do que bebem ao jantar, do lugar onde desbaratam recursos a dizer que trabalham quando afinal só teclam, da raça do cão e do periquito, do tique no olho esquerdo e da verruga no pé direito...) que fico apenas com a sensação de estar perante um cenário de medo. Talvez apenas medo de que o chão (ou, mais acertadamente ainda, o poleiro onde se alcantilaram) lhes seja roubado de debaixo dos pés. E fico pasma: é que me parece tão fraco poleiro que nem chego a atinar com tamanho pânico.

2006-11-14

Ahhh!


aqui


Já tanta gente sabe quem é que escreve com o nick Hipátia que acho sempre divertido cruzar-me com quem, sabendo bem quem eu sou, não atina a descobrir quem sou. E o mesmo em sentido contrário, claro. Confuso? Nem por isso. Tenho antes tendência a achar que é libertador.

2006-11-13

LOL



Hi,

I'm the Bloglines Plumber. Bloglines is down for a little fixer upper. We will be back shortly. Bloglines will be all better when I'm done with it.

Thanks,The Bloglines Plumber

Ainda não tinha encontrado este caramelo (suponho que, até agora, tenho tido sorte). Mas fez-me soltar uma alegre gargalhada. Se é para nos darem uma má notícia, ao menos que seja de forma divertida. Fiquei ainda mais fã.

Paralelos


"The End" Apocalypse now
Colocado por nicobus


Vão tratar de fugir rapidamente, a tempo de prevenir que nas próximas presidenciais o custo da guerra seja ainda mais elevado. Vão deixar tudo no caos, na desordem, numa guerra fratricida e sem esperança, mais um cancro a espalhar metástases por toda a região. Como antes. Como sempre. Terra queimada. Carne putrefacta. Mais bombas e bombistas e corpos e desespero. Vão fugir depois da merda? A merda já está feita. Como antes. Cada vez mais igual. E, para já, para lá da contagem dos corpos e dos pedaços de corpos, as mulheres já pagam mais um naco da ração do costume do sofrimento: perseguidas por um regime que se ergue sobre os escombros e baseia o seu poder numa interpretação míope do Corão, são obrigadas a regressar à idade da pedra dos direitos civis. Já começou. Só falta a retirada apressada. Só falta mais um instante de insanidade…

Kata ton daimona eau tou(*)? O epitáfio de Morrison parece-me profundamente lúgubre neste momento…

((*)fiel ao seu espírito)
_______
Adenda: Sobre a actual e previsível situação futura das mulheres iraquianas, ler este post.

2006-11-12

Parabéns, Jorge Morais


aqui

Fiquei sem saber se direccionar para aqui ou para aqui os parabéns. Acabei a decidir-me por este. Mas é só mesmo para dizer que não cheguei atrasada. Olha como acerto no dia, já viste?

Que tenhas um dia doce!

(Pensavas que levavas uma lolita? Levas bolo, mas é!)

2006-11-10

Lá terá de ser!



A vida espiritual dos Homens, os seus impulsos profundos, o seu estímulo à acção, são as coisas mais difíceis de prever, mas é justamente delas que depende a morte ou a salvação da Humanidade.

Andrei Sakarov

Tão bem recomendado que não vou perder...

2006-11-09

Cenários


aqui

Nesta realidade um dos crimes mais graves é a tentativa de hackear um Ghost (espírito), pois o hacker que conseguir tal proesa possui o poder de fazer o que quiser com aqueles que hackeia. O hacker pode utilizar isso para raptar, apagar e alterar memória, obter informações, controlar o individuo, etc.

Rodrigo Adry
sobre o filme Gost in the Shell



Tenho encargos e, à conta delas, acabo prostituída ao horário fixo e aos desmandos de uns quantos. Era fácil ter ideais antes de ter contas para pagar. Agora resigno-me, como todos, agrilhoada à necessidade de garantir o vil (e escasso) metal que me paga a casa, põe comida na mesa, luz, água, gás, televisão, internet, gasolina e todas as tretas onde, por mais que tente, parece sempre impossível poupar.

Conformada? Nunca! Mas manietada sim. Porque há coisas que não me posso dar ao luxo, infelizmente, por mais que - tantas vezes, em tantos dias - me apeteça mandar tudo para trás das costas, mandar uns quantos para o caralho e fazer de conta que sou livre.

E é por isso que ranjo os dentes, escrevo um post e, amanhã, bem cedo, estarei a bulir outra vez, à espera que a semana passe depressa e que, no fim do mês, continue a chegar algum.

Sinto-me uma marioneta e há muito que já nem distingo os bonecreiros. São já quase uma entidade abstracta, que me levam cada vez mais e mais dinheiro e nem adianta culpar um apenas (o Estado, o Banco...) que aparece logo outro para me tentar enrabar mais um bocadinho.

2006-11-08

Hei!


aqui

You don't have to say anything, and you don't have to do anything. Not a thing. Oh, maybe just whistle. You know how to whistle, don't you (...)? You just put your lips together and... blow.


fiu... fiu...

2006-11-07

'Trivial e croquetes'


aqui


Não tenho a menor dúvida que todos pomos o cuecame a corar à janela da marquise. Só que uns lavam e secam em segredo a cueca puída e só estendem do lado de fora as rendinhas a que dão uso uma vez por ano; outros, pouco querem saber se a cueca tem selo e lá está ela bem visível; outros ainda são como aqueles que dizem que nunca se peidam; e há também os que apenas parecem querer cheirar o traque alheio. No fundo, no fundo, o mais fácil é mesmo vermos o cu dos outros. E verdade é que ninguém nos obriga. Mas que há dias em que tem piada, há. Como há dias em que nem percebemos porquê. Nas costas dos outros, acabamos a ver as nossas. Pudemos é achar que não, que somos é uns anjos e os anjos até nem têm costas. Cu, então, nem se fala...

E, depois, acabamos a saber que, por entre exercícios de paciência que, em alguns dias, se assemelham quase a exercícios de masoquismo, sobra sempre alguma coisa boa. Como ler-te há dois anos. Como saber que vou ao Faz de Conta e leio este genial post sobre dois aninhos na blogosfera.

Parabéns, Jaquelina Pandemónio. Que as tuas palavras nunca fiquem gagas e faz de conta que todos os gajos que vêm para aqui cagar postas de pescada, afinal trincaram rosas. Ou põe uma mola colorida no nariz.

O nó


aqui

The corpse, already greatly decayed and clotted with gore, stood erect before the eyes of the spectators. Upon its head, with red extended mouth and solitary eye of fire, sat the hideous beast whose craft had seduced me into murder, and whose informing voice had consigned me to the hangman. I had walled the monster up within the tomb!

Edgar Allan Poe - The Black Cat

A justiça nunca deveria ser anedota; a monstruosidade nunca deveria ser desculpa para ignomínia.

2006-11-06

Os coturnos


aqui


Até consigo imaginar que Marques Mendes hoje tenha crescido uns centímetros. Aliás, até o posso a imaginar a experimentar uns sapatinhos com um nadinha de salto, enquanto tenta crescer - bem irritado! - para a televisão, enquanto vê os Prós e Contras...

Em viagem


Pablo Picasso - Girl Before Mirror


Um dia disseram-me que os rostos são como os espelhos que pomos à volta da vida. E esta frase - que me foi dita tão intuitivamente por quem se perdia em labirintos de sentimentos - parece-me feita por medida para a Viajante. Como se um blog fosse também um rosto; aquele que nos apetece ter a cada momento, para maravilhar quem nos lê por entre as letras e as imagens seleccionadas que se passeiam em labirintos de sentidos e emoções: reflexos apenas de uma enorme sensibilidade.

Parabéns, Espelhos e Labirintos, por dois lindos aninhos de magia.

Piropo

http://www.fire-painter.com/sessions/9/previews/6%20fire%20pic%20photo.jpg
aqui

O correr dos teus lábios ou dos teus dedos pelo meu corpo, pinta sempre o espaço de vermelhos e laranjas e aquele branco baço que, por vezes, se escapa das labaredas. É quente. Tão quente! De tal forma que fico para aqui a pensar que - não importando o tamanho da tormenta que se abate lá fora sobre as telhas e as lajes e as árvores e a rua -, nunca saberei amar-te pelo frio e vou escapando à invernia.

2006-11-05

Ai!


aqui


Odeio fazer viagens com chuva. O cansaço duplica e só me apetece insultar todos os doidos que andam na estrada, que não reduzem a velocidade, que não acendem as luzes, que dão máximos só porque sim.

Comer qualquer coisa, tomar um banhinho quente e perfumado, pôr as pernas ao alto... e esperar que ninguém reclame durante o meu sono de beleza por eu estar a tossir.

E amanhã tenho de ir trabalhar...

Acho que estou a precisar de férias das férias.

2006-11-03

Parabéns, madrinha



Não é para todos que interrompo as férias, já viste? E desta vez dou-te a música completa.

Beijo e tem um dia feliz.

2006-10-31

Até já


aqui

Este ano cheira a quente no tempo das castanhas assadas e a chuva foi embora. Vou, por isso, aproveitar o desnorte do tempo e pôr-me ao sul.

Até Domingo.

2006-10-30

(pequeno) ataque de mau humor




Volta e meia, o meu avatar precisa avançar para a primeira página. É que, volta e meia, sou atacada de espilralhada convulsiva, nariz entupido e uma fraqueza no corpo que quase me faz suspeitar que noutra qualquer encarnação fui gajo, porque não há maneira de dar conta de tamanha paridice de outra forma. Os 39º que o termómetro marcava hoje às 7h da matina, avançaram - assim como quem não quer a coisa - para os 39,5º ao fim da tarde, após um dia de trabalho. Como fui trabalhar nestas condições, fica obviamente comprovada a minha feminilidade: qualquer gajo estaria a chamar pela mãezinha e enfiado na cama com a botija de água quente, o chá, o gato e o termómetro. Aliás, até estava a pensar ir ao ginásio, mas como não respiro pelo nariz e pela boca quase nada, achei que era capaz de não ser boa ideia. Vim, por isso, até ao computador contar das minhas desgraças. Mas juro! Se hoje ele também me manda apanhar florzinhas e não me deixa entrar no meu blog e nos blogs amigos... ai vai pela janela fora, vai! Pelo sim e pelo não, vou fazer um chá de camomila para ver se me muno de paciência. Se não funcionar... bem, saiam-me da frente que é melhor!

Parabéns, Pre!


aqui

Resolvi aproveitar os parabéns pelos três aninhos para ilustrar as tuas soluções para sair da crise...

2006-10-29

Eu, anónima!

O que já sabia dos blogues confirmei: em grande parte, este é o paraíso do discurso impune, da cobardia mais desenvergonhada, da desforra dos medíocres e dessa tão velha e tão trágica doença portuguesa que é a inveja. Mas fiquei a saber, e não sabia, que os blogues, mesmo anónimos, são uma fonte de informação privilegiada e credível para o nosso jornalismo.

Miguel Sousa Tavares, citado
aqui



Já ninguém estranha que a caça à notícia fácil passe a servir de mote a textos de vulgaridade atroz; a não-verdade passou há muito a ser a estopa onde um fogo de um qualquer "ismo" se acende... e clama-se por cabeças e por sangue e esvaem-se de significados todos os palavrões do mundo, usados e abusados com gratuitidade, sugerindo mais do que afirmando qualquer novo epíteto em busca da nova acha de uma fogueira, sem vaidades por tão vulgar, que se tenta manter em combustão permanente. Que Fama tão reles nos dão tantos a ler!

Oh paisinho este, onde a notícia já não se fundamenta em factos, onde qualquer comadre mentirosa se intitula jornalista, onde qualquer guerra inventada serve de pretexto à venda de mais um jornal ou revista e onde o respeito se finda nas parangonas fantásticas!

E que não me venham os culpados alegar falta de culpa - que toca a todos já que visa a todos - e o respeito consegue-se respeitando. Bitolas diferentes não me servem, nem sequer a desculpa infantil do “ele é que começou primeiro”.


E tantos que antes tinham tanto orgulho na carteira profissional, são hoje a minoria. Sobra a precariedade e o facilitismo. Sobra quem tenha ainda púlpito e se queixe. Sobra quem perde toda a razão por não ser razoável nos seus ataques.


____
Nota: o título do post é uma adaptação do título I, Claudius, do Robert Graves, caso não tenham reparado...

2006-10-27

Recriando

A inspiração...


Elogiar é uma arte. Recriar inspiradamente, também.

...o resultado


Estas são duas das cenas mais deliciosas de filmes que não me canso de ver. E Depp conseguiu o que parecia impossível: lembra-nos Chaplin, copia-lhe os movimentos. E, no entanto, há algo de novo ali. Talvez o suficiente para ninguém questionar a inspiração, desmerecendo-a como simples cópia ou, pior, um reles plágio.

Mas a distância entre a inspiração e a cópia pode ser sempre demasiado curta. Tão curta como os motivos, ou os interesses, que movem quem se dispõe a apreciar.

Quando a voz...



A minha mãe fala. Tem uma voz de veludo, macia.
O meu pai, fala lá do fundo com o som das coisas sérias.
Quando a minha mãe ri, parece que no quintal esvoaçam mil pombas.
Quando o meu pai se ri, acorda o mais profundo, que está para acontecer..
Quando a minha mãe chora, fico com medo e agarro-me a ela com braços de vida.
Quando o meu pai chora, faço-lhe festas nos cabelos e vejo nele um homem único.
Quando a minha mãe conta histórias, na noite, saem-lhe flores pela boca e durmo agarrada ao seu perfume.
Quando o meu pai me conta histórias, elas tornam-se reais e as suas invenções ficam a viver, para sempre, no meu quarto, ao lado dos brinquedos.
Quando me acorda, a voz dele é doce e sem tempo.
Quando ela me acorda, traz palavras apressadas anunciando o primeiro beijo do dia.
Mas as suas vozes pela manhã sabem sempre a café com leite.
Quando a minha mãe sussurra, os segredos ficam guardados para sempre.
Quando ele me diz alguma coisa ao ouvido, toda a gente de lá de casa fica a saber.
Quando a minha mãe espirra, parece um passarinho a piar.
Quando o meu pai espirra, acorda todos os pássaros do bairro.
Quando eles dizem que sou bonita
, o som é igual mas com sabores diferentes.
Como gosto das diferenças.
E eu? Qual será a minha voz?


(Miguel Horta)

2006-10-26

Pois é!


aqui

Tenho andado a ler os teus 'posts' sobre esta questão do referendo sobre a IVG e chego à conclusão que tu não existes. É que não faz sentido nenhum andar a falar destas coisas com seriedade e argumentação racional! Não consegues perceber isso? Não faz sentido. Quem é que iria agora estar a perder tempo a pensar, se pode com facilidade votar por catálogo e permanecer imune à realidade?!


(
Ikivuku sobre os fabulosos textos da Diva Rosarinho acerca da IVG)

2006-10-25

Quero um copo meio vazio!


Ancião, não podes tu
Arranjar-me um remédio para a vida?
Quero vivê-la sem saber que a vivo
Como tu vives.

Fernando Pessoa


Gosto de falar com gente velha. Não toda. Mas há algumas pessoas, com corpos profundamente martelados pela vida, que me despertam uma profunda admiração. Têm uma genica e uma vontade irresistíveis, contam piadas, fazem coisas... As maleitas não os derrotam, cada novo dia é um privilégio que aproveitam até ao tutano. E contam histórias hilariantes, do tempo em que comer uma sardinha era um banquete e se andava descalço e só os fortes ou os sortudos não viravam anjinhos antes de completarem um ano de vida.

Às vezes esquecemos como Portugal progrediu em termos de esperança de vida e de taxa de sobrevivência infantil. No tempo da minha avó, nenhuma mãe esperava ou contava que todos os filhos sobrevivessem. As pessoas encaravam então a morte como algo bem mais pertença da vida. Talvez não assumissem o direito à vida de uma forma sequer tão absoluta. Morreu, enterre-se. Paz à sua alma. E vamos lá para os campos ou para os barcos, que o pão de amanhã não está garantido pelo fundo de desemprego e licença por nojo é coisa que nem sei o que seja.

De qualquer forma, há sempre quem veja um copo meio cheio onde outros o vêem apenas meio vazio. Acredito que a tristeza e a incapacidade para o contentamento sejam das maiores falhas de carácter: infernizam a vida de quem não sabe ser feliz; infernizam a vida de quem partilha o tempo com gente sempre amargurada; impedem que se aprecie o momento e se acredite que há esperança, até contra a doença, até contra a ampulheta inclemente do tempo que passa.

Há muitos jovens demasiado encanecidos. É que também se pode ficar gasto bem jovem. Como estar em perfeito estado no fim da vida. Talvez seja tudo uma coisa de disposição para envelhecer bem, viver bem, não desistir.

Pouco há-de importar-me se levo um cadáver bonito para a sepultura. Mas espero chegar às vésperas das descidas aos tais sete palmos garantidos com uns neurónios ainda ginasticados.

E que seja um baile de despedida. Como se o pudesse escolher por medida, ou às tantas porque talvez chegue a um momento em que decidirei que é por medida. Se já usar um tripé para me manter em pé por essa altura, que tenha pelo menos vontade de dançar. E rir-me às gargalhadas da minha figura, perna trôpega para um lado, perna trôpega para o outro, mais a muleta para dar balanço.

E que alguém jovem olhe para mim e ainda sinta vontade de ouvir as minhas histórias, rir comigo, ficar contente porque a idade não é fardo. Como eu fico às vezes a ouvir falar quem já roubou ao tempo quase um século de vida.

2006-10-24

Eu falo, falo...


aqui

Por um daqueles saltos do pensamento que nem interessa explicar, comecei a pensar no fascínio que tenho pelas diferentes extremidades dos corpos masculinos: as mãos, de dedos longos, graciosas e magras; os pés que, normalmente, têm uma similitude de ossatura com as mãos e, se aquelas são bonitas, existe uma grande probabilidade para que o sejam também; o nariz, que pode tornar uma cara mais ou menos fascinante, mas lhe dá sempre uma identidade muito própria; as orelhas, sempre tão esquecidas, até serem de dimensões semelhantes às do Luís Filipe Vieira; e o falo, sem dúvida, que – como este blogue perdeu há muito a vergonha –, posso admitir que é um dos meus deleites...

Mas, se for a pensar bem, eu nem sou nada esquisita: gosto de um belo corpo e ponto final!

Meus senhores e minhas senhoras...

.
... faltam 5 visitas para este blogue chegar às 50 000. Façam o favor de se anunciarem. A gerência agradece :)


Adenda: Afinal, o contador onde tinha visto a contagem não estava bom do juízo (agora já só diz 44 318), ou então era eu que, com a fome, já via o que não era. Apesar de não representar a verdade do blogue, vou passar a partir de hoje a contar apenas com o número que está lá no fundo da página. Sendo assim, ainda faltam muitas visitas para fazer a festa :)

Não venhas com merdas!

Tom Waits - 'Downtown Train'


Pega lá um pedregulho.

2006-10-23

Parabéns!


aqui

Disse a estes dois para aparecerem na festa. Parece que o Josh até já se decidiu pelo presente... A Scarlett, coitadinha, é que ainda vai ter de ir (urgentemente!) mudar de aparência e largar uma ou duas carteiras, ou ninguém acredita mais na imagem de sex symbol. Ele fica giro de qualquer maneira....

Eu também me perdia!


aqui (clicar para ver melhor)

Aquelas covinhas na cara deviam ser proibidas!

2006-10-22

Novo vício


aqui

Estou a ficar viciada nas pesquisas que vêm desembocar na Voz. Para além da constante Lilly do Canal Panda, todos os dias me aparecem questões que me deixam profundamente surpreendida.

Ontem, por exemplo, uma alminha procurava "como fazer massagens em mulheres deprimidas". E eu fiquei a pensar que algum santo tinha caído em algum altar, mas contente por saber que ainda há quem se interesse por boas massagens e por resolver as depressões das mulheres.

Porém, umas pesquisas depois, descobri que alguém chegou à Voz dizendo "quero ser corno". Ora bolas! Isso é lá coisa para alguém querer ser? Só espero que não seja o santo que quer fazer massagens...

2006-10-19

Opinião

Podem me prender
Podem me bater
Podem, até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião

Zé Kéti – Opinião

Não tenho filhos. Aliás, nunca engravidei. E, se acontecesse, mesmo que não fosse planeado, duvido que alguma vez abortasse. Até porque sempre tive o privilégio de uma família estruturada, grande, capaz de prestar qualquer apoio, todo o apoio. E que, mesmo que não a tivesse, consideraria sempre outras hipóteses, até mesmo entregar a criança para adopção. Porque o aborto me parece assustadoramente definitivo. Porque eu sou assim. Não sei mesmo se faria um aborto. Acho que não o faria. Mas deve haver níveis de desespero que não chego sequer a imaginar...

Isto para dizer que sou pró-aborto. E esta frase, assim, parece-me demasiado obtusa. O aborto existe. Não será estar a favor dele. É antes estar contra a penalização do acto. É estar contra uma lei persecutória para a mulher, que a impede de decidir sobre o próprio corpo, com dignidade, sem medos, com tempo para ponderar todas as hipóteses e sem ter de dar um salto a correr a Espanha, a olhar por cima do ombro. É estar contra a hipocrisia que acha que só por ser crime não é cometido. É estar contra uma lei que esquece o homem, mesmo que um filho precise dos dois para ser gerado. Uma lei que não tem em conta, muitas vezes, a forma como é exactamente o gajo que pressiona – e paga – o aborto em si. Mas, depois do "bem-bom", parece que retiram o macho da equação e, por conseguinte, o isentam de qualquer culpa.

É óbvio que não defendo a possibilidade de cessar uma gravidez de forma aligeirada, até ao nono mês, inclusive. Defendo uma legislação cuidada, à semelhança da existente na vizinha Espanha, com datas precisas. Defendo também um rigoroso acompanhamento de cada caso. Isto permitiria, por uma lado, um acompanhamento médico e psicológico da mulher, um apresentar de alternativas, um acompanhamento social, individualizando e integrando o indivíduo, em lugar da cegueira generalista do "é crime". O acto, não mais crime, poderia ser finalmente compreendido, talvez evitado, porque livremente debatido, sem dar aso a todo um cenário burlesco, com lavagem de podres em praça pública, na qual incluo a sanha inquiridora dos media.

Dentro desta minha lógica, defendo também qualquer coisa semelhante a um "cadastro" para mulheres que recorressem ao aborto. Para que este não virasse o anti-concepcional das idiotas ou das preguiçosas. Para essas, talvez houvesse lugar a manter alguma forma de penalização, que não aceito que o aborto se transforme num acto sistemático, sem ponderação.

Haveria, pois, que implicar acompanhamento médico, psicológico e social da mulher, da sua família, dos índices económicos e de literacia, das violências várias a que muitas estão sujeitas – e não falo apenas de violações e incestos, como é óbvio. É que abortar não deve, não pode ser, a primeira opção. Mas pode – e deve – ser uma opção que, face a uma análise abrangente de cada caso em concreto, permitisse uma validação de um acto médico. E esse acto médico e essa opção da mulher, não deveriam, portanto, ser crime em parte alguma deste País.

Mas é mesmo tudo uma questão de hipocrisias. E a maior parece ganhar sempre. Os resultados são funestos, como é óbvio. E cheira-me que todo e qualquer debate será rapidamente esquecido, mal passe esta sede de votos no preto ou no branco e sem cambiantes que tudo deixa prometer. Daí que até gostasse de saber quantas mulheres de políticos recorreram a abortos aqui ou acolá. E quantas amantes, como é óbvio. Porque isto da moralidade sempre foi uma questão de maior ou menor jeito para criar e manter fachadas e, dos podres íntimos, a hipocrisia reinante não dá acordo, desde que haja forma de os segredos continuarem a ser silenciados, ou trocados por interesses ainda mais escusos.

Tão lentinha!


aqui

Estava para aqui a pensar que já pratico essa nobre arte do engate on-line. Afinal, envolvi-me prazerosamente (muito prazerozamente!) com alguém que conheci na net. Demorei foi quatro anos a consumar a coisa… Será que perdeu a validade?

Coisas que me fazem (muita) confusão


aqui


A chuva torrencial que caiu hoje, que abrandava sempre que eu tinha um telhado por cima da cabeça e caia tipo dilúvio cada vez que eu saia à rua;

O sono que já tenho e a incapacidade (cada vez mais crónica) de adormecer sem fazer uma maratona de voltas na cama;

O sono que vou ter amanhã por não ter adormecido a horas decentes;

Ter uns sapatos novos e ter-me esquecido (outra vez) de comprar meias bonitas para os exibir;

A dor de barriga do Blogger que, de cada vez que tentava entrar na Voz ou nas caixas de comentários, me dizia que estava com um "internal error";

A mania desta gente dizer que está "ao pé" de alguma coisa, em vez do tão mais simpático "estar à beira". É que há dias em que não percebo a atracção de tanta gente por chulé;

E estes ataques de mau humor que, volta não volta, me entorpecem os sentidos e só fico com vontade de mandar tudo e todos irem apanhar... florzinhas!

2006-10-17

Habla con ella!


Se miran, se presienten, se desean,
se acarician, se besan, se desnudan,
se respiran, se acuestan, se olfatean,
se penetran, se chupan, se demudan,
se adormecen, despiertan, se iluminan,
se codician, se palpan, se fascinan,
se mastican, se gustan, se babean,
se confunden, se acoplan, se disgregan,
se aletargan, fallecen, se reintegran,
se distienden, se enarcan, se menean,
se retuercen, se tiran, se caldean,
se estrangulan, se aprietan, se estremecen,
se tantean, se juntan, desfallecen,
se repelen, se enervan, se apetecen,
se acometen, se enlazan, se entrechocan,
se agazapan, se apresan, se dislocan,
se perforan, se incrustan, se acribillan,
se remachan, se injertan, se atornillan,
se desmayan, reviven, resplandecen,
se contemplan, se inflaman, se enloquecen,
se derriten, se sueldan, se calcinan,
se desgarran, se muerden, se asesinan,
resucitan, se buscan, se refriegan,
se rehuyen, se evaden y se entregan.

Olivério Girondo


aqui


As coisas que me vêm procurar à Voz!

"numa relação sexual quantas vezes um homem de 36 anos goza?"

E dou comigo a pensar como é possível haver quem se entretenha a procurar estas coisas pela net. Como dou comigo a supor que algo está errado, muito errado, quando se limita a sexualidade a quantas vezes, como se a quantidade fosse bastante, como se um homem só provasse ser realmente homem porque capaz de uma maratona de orgasmos, questionando quantas deu em lugar de tentar saber quantas partilhou.

Meu caro pesquisador(a) das 16:51h, não seria tempo – e já que anda, suponho, pela casa dos trinta e muitos –, de deixar de se questionar com o "quanto", para se preocupar antes com o "como"?

Vá por mim: às vezes, uma basta! Precisa é ser muito bem feitinha…

A menina papa...


aqui

Dizem que a menina Scarlett gosta deles mais maduros... Nada contra papar um Benicio num elevador. É papável mesmo em qualquer sítio...


(Perante a abundância, vejo-me na necessidade de recorrer a pesos pesados...)

2006-10-16

2006-10-15

O gajo da gaja


aqui

Por cada fotografia que vir da Scarlett nos blogues, vou passar a pôr uma do Josh Hartnett. Será uma espécie de elogio ao fulano mais invejado das últimas décadas.

Além de que nós, meninas, também merecemos. Portanto, se me passar alguma Scarlett despercebida (o que será normal), façam favor de avisar.

2006-10-14

Muhammad Yunus


aqui

Não dês o peixe; ensina a pescar.


Disse Lech Walesa (também um Nobel da Paz) que Yunus merecia o Nobel da Economia pelo o impacto que teve e tem nas sociedades onde se aplica o seu modelo de micro-crédito àqueles que, antes, se diria que são pura e simplesmente insolventes e, por isso mesmo, incapazes de aceder a financiamento.

Sabemos há muito que em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Ao pôr nas mãos, especialmente de mulheres, uns poucos quebrados que permitiram lançar pequenos negócios familiares, Yunus deu de comer a milhões de pessoas. Essas pessoas, mais do que continuarem a ver-se como condenadas ao perpétuo fatalismo da fome, reconstruíram uma teia de relações sociais cheias de vontade nova num mundo melhor.

Dar dignidade, esperança e de comer a quem nada tem, não é um dos melhores caminhos para a Paz?

E quantos de nós se lembram realmente dos nomes dos diferentes Nobel da Economia? E quantos de nós não sabem encadear pelo menos quatro ou cinco nomes de Nobel da Paz? Até na nossa memória, o reconhecimento é selectivo. E eu acho que foi merecido este Nobel da Paz. Assim, ninguém se esquece!

2006-10-13

Deixa-me rir

Deixa-me rir
Essa história não é tua
Falas da festa, do sol e do prazer
Mas nunca aceitaste o convite
Tens medo de te dar
E não é teu o que queres vender

Deixa-me rir
Tu nunca lambeste uma lágrima
Desconheces os cambiantes do seu sabor
Nunca seguiste a sua pista
Do regaço à nascente
Não me venhas falar de amor

Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor, o que vai dizer
Segunda-feira

Deixa-me rir
Tu nunca auscultaste esse engenho
De que falas com tanto apreço
Esse curioso alambique
Onde são destilados
Noite e dia o choro e o riso

Deixa-me rir
Ou então deixa-me entrar em ti
Ser o teu mestre só por um instante
Iluminar o teu refúgio
Aquecer-te essas mãos
Rasgar-te a máscara sufocante

Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor, o que vai dizer
Segunda-feira

Jorge Palma - Deixa-me Rir


Digo-o sem vergonha ou sequer vontade de fazer qualquer postulado: mesmo quando as palavras que descrevem o desejo se pintem da cor ilusora da vergonha, ou se confundam na armadilha dos papéis, ou na terminologia dos géneros, eu gosto de textos que falam de amor, que descrevem o tesão. É apenas assim e pronto: primário e optimizado à minha maneira.

Talvez seja porque prefiro mil vezes o rubor saciado da completude, do saber que existimos em metades, que nos damos para sermos o "um" iniciático e radioso da comunhão absoluta.

E que, passado o momento, somos metade outra vez…

2006-10-12

2006-10-11

Uma vela

"As crianças vítimas de abusos através da internet não podem defender-se, mas tu podes defendê-las. Com a tua ajuda conseguiremos erradicar este flagelo. Não precisamos do teu dinheiro; somente que acendas uma vela de apoio. Estamos a enveredar esforços para que se acendam Um Milhão de Velas até 31 de Dezembro de 2006. Esta petição será usada tendo em vista encorajar governos, políticos, instituições financeiras, organizações de pagamento, servidores de internet, companhias de tecnologia e agências de investigação policial, a erradicar a viabilidade comercial do abuso infantil online. Eles têm o poder de trabalhar juntos. Tu tens o poder de os mover. Por favor acende a tua vela, ou envia um e-mail de apoio para light@lightamillioncandles.com. Juntos seremos capazes de destruir a viabilidade de sites de abuso infantil que destroem as vidas de crianças inocentes. Divulga esta informação, para que também os teus amigos, conhecidos, colegas e leitores acendam uma vela."


(via
Noite)




Porque é recorrente ter filhos da puta tarados à procura de coisas do tipo da que deixo acima aqui na Voz; e porque há bastardos ainda mais filhos da puta que põem na net imagens de crianças para satisfazer a voracidade alucinada dos tais tarados filhos da puta, junto-me à corrente e aqui deixo a minha vela:


aqui

2006-10-10

Curiosidade politicamente incorrecta


aqui


Vamos cá! Parece que são dez. Quer dizer, eu nunca fui à catequese, mas fui criada numa sociedade que se diz muito Católica. E também já vi nos filmes e houve aquele ano em que a minha mãe se esqueceu de assinar a dispensa e tive que gramar Religião e Moral até aquela santa senhora que dava as aulas me ter convidado a não pôr lá mais os pés… Por isso, são os tais dez e cá vou eu. Não vou criticar os Mandamentos. Longe de mim! Parecem-me quase todos tão bonitos (tirando a treta da castidade, mas lá iremos chegar), tão elevados, tão…

É que a questão não está nos Mandamentos, claro. Está na minha manifesta incapacidade para perceber como se pode violar praticamente todos e, depois, só porque se vai a casamentos e baptizados e se leva os filhos a terem a cabeça regada antes de poderem perceber o que se passa, ainda se achar que se milita no Catolicismo…

E este nem sequer pretende ser um post provocador. Claro que sei que o é, porque assim vai ser entendido. Mas não queria ser. Só gostava mesmo que alguém me explicasse como funciona a coisa. É assim como com as regras de trânsito, que todos as conhecemos, mas contornamos sempre que a polícia não está a ver? Mas é que neste caso, o vosso polícia não está sempre a ver? E – se há muito desistiram de ir à Igreja pedir ao padre as Ave-Marias de penitência – como convivem com a culpa de terem pecado tanto e tanto e tão repetidamente?

Gostaria muito de perceber como se faz isso de ser um Católico Não Praticante. E até onde vai e a partir de onde não pode ir mais. Dai que tenha ido buscar os Mandamentos e escalpelizá-los em função do que vejo ser feito à minha volta.

O primeiro é Amar a Deus sobre todas as coisas. Ok, este parece-me pacífico. Mas, caso o vosso coiro ou o da vossa família estivessem em causa, não era num piscar de olhos que O renegavam? Bem, pode ser que “coisas” não contemple seres vivos e talvez seja por ai que se dá a volta ao Mandamento… Alguém explica?

O segundo diz que não se deve invocar o nome de Deus em vão. Mas, mais uma vez, estou a ver o caldo entornado. Serei só eu que vê – e ouve – o nome d’Ele convertido em interjeição? E que a toda a hora O chamam pelos motivos mais comezinhos? E que até há quem, durante o orgasmo, berre bem alto por Ele?

Depois há a questão de guardar os Domingos e as Festas de Guarda. Isto não quer dizer que todo o rebanho se deveria deslocar ordeiramente até à Igreja mais próxima nesses dias? E porque fica tanta gente em casa? Ainda por cima, parece que há muito o dízimo já não é 10% do ordenado, por isso podem confiar que não vão dar mais do que o vosso tempo – e a salvação da vossa alma – cumprindo o sagrado terceiro Mandamento… E não, “a catedral” dos lampiões parece que não estava nos planos originais.

O quarto Mandamento compele a honrar pai e mãe… E, no entanto, quantos velhos não são abandonados onde quer que seja, sem merecerem mais do que uma visita anual, se tanto?

O quinto Mandamento diz para não matar… Pergunta de agnóstica convicta: os animais contam, certo? E as plantas? E nos países com pena de morte? A vida não é toda vida, ou só é toda vida quando nos interessa defender um qualquer argumento? Então que andamos todos a fazer à vida que nos rodeia e nos sustenta? E porque há ainda armas e exércitos e assassinos?

O sexto Mandamento é, então, para esquecer. Diz ele que é para não pecar contra a castidade. E gostaria mesmo de saber quem o pode realmente afirmar hoje em dia. É que nem sequer é virgindade. É castidade mesmo. Isso quer dizer que nem uma punheta, nem um vibrador, nem sequer joguinhos sem penetração. Casto é casto e não há cá nada disso, certo? (Ainda bem que não sou católica, ou então lá ia usar as palavras do poeta: “eu pecador me confesso”…) Como fica? Esquece-se este e tenta-se cumprir com todos os outros? É por isso que não praticam? Por praticarem de mais?

O sétimo Mandamento é não roubar. Ok, não precisam de dizer em voz alta ou sequer escrever a verdade… mas nem um plagiosinho quando não estava ninguém a ver? Um cinzeiro num bar? Um pacote de batatas de fritas (dos pequeninos, obviamente) na mercearia da esquina?

O oitavo Mandamento é não levantar falso testemunho. Parece-me bem! Mas também não quer dizer que temos que excomungar a maioria dos políticos, dos jornalistas e vários bloggers, bem como todos os fanáticos pelo futebol? E quantos de nós já não se saíram com uma frase do tipo “eu não tenho a certeza, mas parece que foi sicrano”?

O nono Mandamento é fixe! Deixa as mulheres puras, não é? Afinal, só manda não desejar a mulher do próximo. E, como as lésbicas não contam para o dogma, só os homens é que têm de prevenir-se. Para as mulheres hetero, é a festa. Força, meninas! O Mandamento é misógino, mas a culpa não é vossa! Não se esqueçam é da castidade...

O décimo Mandamento avisa para não cobiçar coisas alheias. É o caos! Numa sociedade como a nossa, onde objectos novos se anunciam em catadupa e o carro do vizinho parece sempre melhor do que o nosso, quantos – em consciência – nunca pecaram? E quantos não se preparam para pecar mais um bocadinho, indo empenhar a vida ao banco (a juros! Ai a usura!...) para ter um carro igualzinho ao do vizinho?

Sei que fui simplista e abusei. Mas a questão mantém-se pertinente para mim: ninguém precisa deixar de acreditar em Deus. Eu nunca deixei de acreditar no Divino… Mas precisam mesmo de normas e dogmas que não cumprem? Precisam dizer-se uma coisa que não são? O que é isso de ser um Católico Não Praticante?


___
Nota: A formulação dos Mandamentos é conforme o que consta na Wikipédia para o Catecismo Católico.

2006-10-08

O grito

As palavras são por vezes um clarão no dia calcinado

António Ramos Rosa – As palavras


Quanto mais se cala o grito, tão mais alto acaba por se ouvir o desespero. Talvez por isso tento não amordaçar nada. É esta a minha maneira de combater todos os silêncios aflitos.

Nas palavras, a alma a nu.

E sei que todas as memórias boas têm ecos longos…

Massagem ao ego

You Are a Phoenix

Driven and ambitious, you tend to acquire material success easily.
You have grand schemes - both for your own life and for changing the whole world.
You are a great leader, and you have no problem taking the reigns.
However, you aren't all business. You also have great talents for performing and visual arts.


"Surripiado" na Bastet.

2006-10-02

Gostei de ver!

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A Igreja Católica não vai fazer campanha contra a despenalização do aborto, por considerar que este «não é um assunto religioso». A posição foi assumida esta terça-feira por D. José Policarpo, o cardeal patriarca de Lisboa, garantindo que a Igreja não vai fazer do aborto uma questão eclesiástica.

«É uma questão de ética e direitos humanos fundamentais», sublinhou D. José Policarpo, que disse ser desejável que sejam «os leigos, os pais e os médicos a liderar a campanha do não».


Sempre fui um pouco afoita no que toca a rebelar-me contra as regras e os pergaminhos que nada me dizem. Confesso que cultivo desde muito nova uma costela anarquista que herdei no sangue e sou rápida a tentar subverter as regras, especialmente as que não (me) fazem sentido. Confesso ainda que sou rápida a julgar em função de expectativas e/ou de atitudes passadas de determinados grupos sociais. Mas se há coisa que acho que também sou é capaz de um elogio. E bem sei que para o senhor pouco importará que o faça, ou muito menos saberá que o fiz, mas ouvir hoje o comentário de D. José Policarpo a propósito do novo capítulo da novela A Despenalização do Aborto em Portugal (será neste que aparece o The End?), deixou-me na disposição de dizer o que pensei que nunca iria dizer na vida: Bravo, caro senhor!

Um Estado que se assume laico, não pode continuar a cobrar aos representantes da fé a formação de uma opinião para agradar a apenas alguns. A fé não deveria nunca imiscuir-se na política (ainda que, ao ouvir alguns representantes partidários - ou de doutrina - por vezes não saiba bem onde acaba a crença não fundamentada e surja a ideia concreta e concretizável).

Claro que ver um vespeiro de jornalistas à cata da notícia fácil também terá a sua quota na confusão em que se vai caindo quando se fala de qualquer assunto que acerta em cheio no único neurónio sentimental do mais racionalista dos gajos...

Mas é que a democracia e qualquer acto sufragado pelo cidadão não deveriam ser nunca - ainda que haja quem queira que sim - mais do que o direito de escolher entre uma e outra proposta (ou várias) e, no caso de dúvidas, abster-se de escolher seja o que for
(*). E foi exactamente isso que disse D. José Policarpo. Esperemos que a comandita que recolhe votos em Fátima - e já que tanto diz seguir a doutrina da Igreja - se lembre de, por uma vez, deixar de invocar a crença e a fé católicas como motivo válido - e às vezes o único - para continuar a mandar mulheres pobres, sem dinheiro para ir a Espanha, para a prisão.


(*) os nulos e os boicotes ficam para outra vez...

2006-10-01

Os canitos...


aqui

Esta coisa dos Bobbies da capital se chamarem sempre Jolly ou Joly (acho que depende do pedigree do dono) deixou-me em estado de choque: e eu a achar que era só em sentido figurado... tss tss... coisas que nem quero perceber! E pensar que no melhor pano cai uma nódoa tão jolie.

A letra escarlate


José Luís Obiratã - Ensaio em Vermelho

Ultimamente tenho falado várias vezes de cores por aqui. Penso que, a esta altura do campeonato, já todos sabem que gosto de vestir-me preferencialmente de preto e tenho um carinho especial pelo vermelho, que uso amiúde em doses suaves, para contrabalançar com o vigor luminoso da cor quente o negrume com que me pinto. Queria até - mas não consegui - um carro vermelho...

Mas confesso que ver a palavra escrita a vermelho me causa muita espécie: tenho um director que é todo sorrisinhos pela frente e - depois - desata a escrever mails com letras tamalho 16 e vermelho vivo. Ora, eu cá (nestas coisas como em muitas outras) vou sempre pela voz do povo que diz que escrever a vermelho é mandar alguém à merda. Ou então, pura e simplesmente não gosto, porque acho sempre que a utilização da cor da sinalização do perigo é o estratagema fácil para chamar à atenção para o que não tem interesse nenhum.

Claro que, nos entretantos, eu escrevo a azul-cueca, por isso nem deveria pôr-me para aqui com estas coisas... mas é que gosto bem mais do azul-cueca para que os olhos - e as meninges, os neurónios... - não se sintam agredidos.

2006-09-28

Pó de Estrelas


aqui

Há cerca de dois anos, após um fim-de-semana muito parecido com o que pretendo gozar a partir de Sábado, cheguei ao Porto e decidi-me a criar um blogue, depois de jurar à miga que nunca o faria porque os achava demasiado umbilicais e limitativos do espaço de comunicação, pelo menos da comunicação internautica tal como a conhecia e gostava.

Na verdade, olhando para trás, devo admitir que os locais por onde cirandava eram talvez ainda mais limitativos; o nick que vesti durante mais de três anos (o nick principal, pelo menos) tornou-se uma grilheta, deformou-se, deixou de fomentar diálogo e, para o fim, tinha-se transformado num monstro que ameaçava devorar-me e a todos a quem queria bem e estavam perto.

Mas este texto não é sobre essas histórias antigas, ainda que também tenha a ver com elas. Ou antes, tem a ver com as consequências das histórias velhas. É que, melhor ou pior, a dimensão e relevância que tinha dado a uma das minhas personnas, fazia-me temer só com a ideia de ter um espaço só meu, sem limites nem censores, onde pudesse deixar o que me apetecesse. E eu não tenho tempo, nem disposição, para permitir que uma criação ameace o próprio criador. Já me chegou um Frankenstein…

E, no entanto, cheguei ao Porto e criei um blogue. Ou melhor, comecei a criar um blogue. Os primeiros nomes que escolhi estavam já tomados. Nem me lembro mais quais tentei e, apesar disso, recordo a frustração de me ver perante a falta de originalidade que me veste. Tentei um, dois, três… Parei e encostei-me na cadeira para pensar. Na estante, o Cosmos do Carl Sagan, numa versão de bolso que uma amiga do Secundário me ofereceu no 8º ano, piscava-me o olho por entre as pregas da lombada. Fui buscá-lo e lá estava – quase como eu me lembrava – o título do segundo capítulo: uma voz na fuga cósmica.

Foi assim que nasceu o nome deste blogue, que eu jurei a uma
amiga que não ia ter e, horas depois, estava a criar. Ficou apenas uma voz em fuga. Mas deixo que o fundo azul-escuro me lembre o Universo tal como o imagino: escuro, imenso, aveludado, com o tom certo de uma música infinita, como uma fuga bem tocada…

O primeiro template da Voz – aliás, o actual template, mas antes de me dedicar a destrui-lo –, tinha uma série de bolas coloridas a tapar o fundo aveludado. Demorei meses a entender-me com o template e mais meses ainda para, por tentativa e erro, conseguir livrar-me das tais bolinhas. Depois, houve um dia em que consegui. Mas ficou tudo demasiado escuro e nem as letras azul cueca, ou as imagens que por aqui colava, davam vida à página.

Acontece que eu, tal como Sagan, tenho sérias dificuldades em imaginar que, por esse Universo fora, apenas um pequeno pião azul e branco, perdido nos arrabaldes de uma Galáxia povoada por milhões de sóis, num Cosmos povoada por milhares de galáxias, encostado a uma anã amarela tão parecida com a maioria das estrelas, seja o único local onde o carbono se transformou em vida. E como para mim a vida é algo colorido, quis pintar o blogue de fogachos de luz e pó de estrelas. Quando encontrei a
imagem certa, a página deixou por fim de ser um sítio frio e escuro, sem cor nem luz. Ou, pelo menos, assim o espero…

Confesso que, ultimamente, a inspiração e a vontade de escrever vão escasseando. Confesso que às vezes acho que o meu umbigo me escapa e que – por mais que tenha evitado os sítios da moda e os nomes da moda e os rodopios das influências blogueiras – o ego se amachuca um bocadinho ou então incha em excesso. A Voz nunca quis ser mais do que um ponto perdido e esquecido, mas a dona da Voz tem manias de grandezas…

E este texto já deu tanta volta e já está tão grande e, no entanto, ainda nem disse porque o escrevo. E é uma explicação tão simples que só mesmo eu poderia ter complicado tanto: o
Adamastor pôs lá no Substrato aquela que foi uma das melhores surpresas que encontrei por estes lados nos últimos tempos: um link para um blogue onde, alinhadinhos e prontos a serem (re)vistos e até guardados, estão todos os episódios de uma das séries de televisão mais importantes de todos os tempos, de seu nome Cosmos. O autor era um tal de Prof. Sagan, mas era, especialmente, um excelente comunicador, capaz de entusiasmar os menos curiosos pelas maravilhas que a ciência tenta até hoje explicar.

Talvez não fosse mau de todo enviar o
link aos Criacionistas…

Quanto a mim, vou continuar a sonhar com pó de estrelas, a julgá-las parte de mim, a imaginar o dia em que o Homem passe a apreciar este lindo ponto perdido e saiba partir à descoberta de todos os Mundos que o Cosmos tem, forçosamente, de abrigar.

Ciclo - Parabéns Cruzeiro




Tão lindinho! Vai de prenda por um ano de Cruzeiro.

2006-09-26

Smiles eróticos da Hipátia


aqui

Versão da Claire, no Quanticª.

Lágrimas verdes, Claire? E aquilo é uma língua castanha? Espero que seja uma língua castanha...


(desculpa só ter visto hoje, amiga!)

2006-09-25

Bichaninho…


aqui

Uma gaja mamou na infância todos os episódios do Sandokan e, depois, quando chega a uma idade de ter juízo, ainda lhe dão uns desejos marados por olhos tipo Kabir Bedi…

2006-09-24

Roteiro


aqui

Conheço o roteiro das memórias que me guiam. É sempre o mesmo quando o Verão cede passagem ao Inverno que já não tarda. Faz--se das mesmas viagens à procura das mantas quentes, dos casacos velhos de trazer por casa, dos chás que serão feitos, perfumados e fumegantes. É um roteiro acolhedor que se repete e, na repetição que anuncia, carrega o conforto dos passos instintivos, do que não se programa nem se racionaliza. E eu, que passei o Verão a reclamar do calor, experimento agora à vez os radiadores (para que nenhum falhe), o edredão de penas (a ver se está no mesmo sítio), o casaco (velho e quente) e as pantufas (gastas e macias), na rota para o conforto do sofá onde me estendo, onde me estenderei nos dias frios que se avizinham, a beber um chá bem quente enquanto a chuva bate forte contra a janela e o cinzento do dia se anula contra o conforto rotineiro do meu ninho.

Maré Cheia


aqui

La route chante,
Quand je m'en vais.
Je fais trois pas,
La route se tait.

La route est noire,
À perte de vue.
Je fais trois pas,
La route n'est plus.

Sur la marée haute,
Je suis monté.
La tete est pleine,
Mais le coeur n'a pas assez.
Sur la marée haute,
Je suis monté.
La tete est pleine,
Mais le coeur n'a pas assez.

Mains de dentelle,
Figure de bois,
Le corps en brique,
Les yeux qui piquent.

Mains de dentelle,
Figure de bois.
Je fais trois pas
Et tu es là.

Sur la marée haute,
Je suis monté.
La tete est pleine,
Mais le coeur n'a pas assez.
Sur la marée haute,
Je suis monté.
La tete est pleine,
Mais le coeur n'a pas assez.





Lembrei-me de ti...



2006-09-23

A verdade inconveniente




Somos obrigados a ver tanta coisa que não gostamos, porque não forçarmo-nos a ver uma coisa que (ainda) nos permite (re)agir?

E porque não está este filme em mais salas de cinema? É assim tão inconveniente? Se tivesse tiros e cabeças de terroristas a rebentarem, ou jogadores de futebol a darem cabeçadas aos árbitros, já não estaria onde todos o vissem?

(...)


aqui

os anciãos morrem em plena juventude
e os avós são apenas meninos disfarçados

Avron Sützkever

Leram-me isto hoje e ficou a martelar cá dentro. Que frase do caraças! Que inveja da genialidade que se esconde em dois pequenos versos!

2006-09-22

Iatá!


aqui

Ah e coisa e tal, essa cor só de encomenda e não sei quê e depois demora e está ali aquele e já tem isto e aquilo e mais aquilo e ainda mais aquilo e…

Depois apelou à minha forretice e ficou garantido: vou buscá-lo de hoje a oito. Não há vermelho…

2006-09-21

Irra!


aqui

Alguém me explica o que raios é este Bebé Lilly do Canal Panda que tanta gente vem procurar aqui à Voz?

Um bonequinho tão feio terá por certo um qualquer interesse que não estou mesmo (mesmo!) a ver qual é.

Parece que canta… É uma Floribella de cueiros?