2004-09-15

A morte saiu à rua

A morte
Saiu à rua
Num dia assim...

Zeca Afonso


Ele, português. Ela, espanhola. Conheceram-se, apaixonaram-se, casaram. Não sei se o romance foi bonito ou feio. Não sei se eram felizes ou não. Ele, português; ela, espanhola. Ela ficou grávida. Ele deve ter ficado contente. Ela quis ir ter o filho a Madrid, perto da família. Ele ficou por cá, talvez a trabalhar. E nasce o filho e ele abala para Espanha para o conhecer. E conhece. E deve ter ficado feliz. Mas tinha de voltar, tinha de ir trabalhar. Sustentar a família. Ele português. Ela espanhola. E um pequeno, feito de pedaços dos dois.

E o IP4 cobrou mais uma vida. A dele, o português, que vinha de Espanha de conhecer o filho. O filho dele, português. O filho dela, espanhola. A criança que era filha de dois e agora não tem pai.

7 comentários:

Mofo disse...

Conhecias, leste em algum sítio ou inventaste?

Anónimo disse...

É injusto.

É injusto sair-se à rua fodido e perceber que toda a gente está igual. Não há bóias, não há nada. As gravuras não sabem nadar.

Fazes das tripas coração (eu sei) e gozas no levantar dos outros o que esperas em ti.

Ou não.

A merda dos blogs (ainda não percebeste) é que são contagiosos. Vivem de emoções desregradas. Umbigos assados do uso. Big Brothers inconfessados, sem orçamentos nem tarefas diárias. Live streaming em oito vias. Ou são eróticos, ou destilam mágoas.

Ou tesão, ou dor. There is now between.

There isn't?

Não. Há sempre uma aldeia irredutível. Achas que um tipo bebe a poção mágica e a vem confessar online? Se for Viagra, é capaz. Se for o essencial, não.

O tipo meteu-se no carro e ficou pelo caminho. Desculpa a crueza, mas morreu em andamento. Antes isso.

Posts a chamar a morte à rua é que não. Nem que seja o José Afonso. Mete na cabeça que até esse tombou. E não fica mais vivo por isso, por o citares, porque do que eu me lembro é do sobrevivente.

E o resto é que todos se fodam.

HardCuore!

Hipatia disse...

Li a notícia do jornal de terça-feira, Mofo. Uma notícia como as outras, as notícias de agora. As que pegam em histórias banais e as espremem até sair sangue. E, sim, sabia quem ele era. Devo ter trocado com ele algumas palavras; com a mulher também. Só pelo nome no jornal não o reconheci. Mas, depois, explicaram-me quem ele era. E quando a morte nos sai à rua demasiado perto de casa, deixa de importar a banalidade. Ainda que seja a mais banal das histórias. Ainda que seja só mais um acidente, mais 3 vidas perdidas, nas estradas portuguesas.

Quanto a ti, Hardcuore, desculpa que te diga mas falhaste o alvo. Não era tesão, não era dor. Era a parte da notícia que me impressionou e que a maioria dos jornalistas calaram. Porque se vendem mais jornais a espremer sangue do que a contar a história de uma criança que perdeu o pai - e, sim, foi na estrada, em andamento - no dia em que o pai se fez à estrada para o ir conhecer. Penso naquela criança daqui a uns anos a tentar entender porque o destino obrigou a que uma vida fosse trocada por outra. A morte saiu à rua num dia banal, morreu um homem banal, com uma família banal. Não há Big Brothers nem tesão aqui. Há uma simples história, daquelas que, antigamente, ainda afectavam comunidades, faziam chorar vizinhos, eram mais importantes do que as estradas, do que a política, do que a pressa, do que o tesão, do que as dores de corno.

O meu blog é um umbigo. Meu. Perdido entre muitos blogs. Eu falo do que me apetece. Aqui a única censora sou eu. E não há poções mágicas, nunca houve. Há muito que me obrigo (ou tento obrigar) a viver sem muletas. E as coisas banais ainda são importantes para mim.

Anónimo disse...

E porque aceitas as regras do sistema e te dás ao cuidado de escolher precisamente o sangue que alimenta os jornais?

Banalidades? Porque não procuras o sol único que nasce todos os dias? O sorriso dos putos agora, a estrear-se nas aulas, em ves das lágrimas de amanhã? Os namorados que se revêm inesperadamente numa rua? Banalidades assim?

Claro que é *o teu* blog, *a tua* vida, *as tuas* regras. Mas tenho o direito de te dizer que acho injusto. Porque há coisas que partilhamos. Tu não és só tu. Num blog, também és pública. E na madrugada alucinante atrevi-me a desafiar-te. Era disso que se tratava. E ganhei.

(Não percebeste, mas o que te enervou mesmo foi eu ter usado as mesmas e exactas palavras - a frieza, até - que já varias vezes me tentaste ensinar. O objecto em análise é que era outro... :P)

Hipatia disse...

Errado, novamente. A notícia no jornal deixou-me indiferente. O que me levou a escrever foi o reconhecimento da pessoa. Será sempre mais isso: a proximidade anula o embrutecimento em que mergulhamos diariamente. O embrutecimento que as parangonas catastróficas mais não fazem que fomentar.

E errado quando supões que me atingiu. Parece antes que a história te atingiu a ti. Que te assustou esta saída da morte à rua bem mais do que, por exemplo, as flores que pus lá mais atrás.

E, não, não acho que tenhas ganho. Porque a história de um filho de alguém que reconheço, um filho que nunca vai conhecer um pai, tem para mim muito mais interesse do que qualquer elaboração artificial que fosse fazer aqui sobre a net, os dogs que a percorrem, ou a blogosfera e o (pouco) pública que a minha voz é. Se me dizes que escrevo porque quero ser lida, até admito que possa ser. Mas não é tudo. Escrevo porque fico mal quando não posso escrever. Escrevo primeiro para mim e só depois para os outros. Coisas banais, sem dúvida, só importantes no espaço de um umbigo.

Mas onde realmente erraste foi ao centrar a análise no sangue e na morte. Ao supores a análise a frio. Admito até que, aí, a culpa seja minha. Mas não fiz uma notícia. Nunca viria aqui fazer um relato sobre um acidente no IP4. Não é a minha forma de escrever. É tão só um fait-divers, uma anedota. Coisas que nem deveriam ter chegado ao jornal. Coisas banais. Gente banal. Mortes banais. Nascimentos banais. Coisas que, antigamente, fariam todo o sentido no pasquim da aldeia, onde todos se conhecem. E acho que, dentro da lógica dos blogs, faz sentido, ainda que não o queiras.

E na minha história lá de trás, fala-se também de vida. Uma nova, que nasceu. E de um romance que houve. E da vontade de se fazer um filho. E do importante que era fazer uma catrafilada de quilómetros para ir conhecer esse filho. A morte que saiu à rua foi só o acidente que deu visibilidade a um quotidiano bem mais banal do que o teu e o meu. Ainda que, provavelmente, mais rico.

E se achas que alguma vez te tentei ensinar frieza, então devo andar a fazer tudo mal. Moderação e frieza não são a mesma coisa.

Anónimo disse...

Rendo-me. :)

(E sim, admito o medo de que a morte saia à rua. E admito n outros. Acredito que há palavras que materializam coisas. Como chamamentos, invocações. E por isso não devem ser pronunciadas de ânimo leve... o que portanto, não foi o caso.)

Hipatia disse...

Oh! :((

Estava a gostar tanto, snif.

(Tens razão. A morte não deve ser tratada de ânimo leve. E é isso que, precisamente, me revolta. Não foi de ânimo leve que a invoquei. Não foi para dizer mal das estradas.)

Beijo grande.

(E vê se estás em desacordo mais vezes. Adorei cada palavra trocada)