2004-09-27

Tears in rain

But, lightening fast, Roy reaches down and catches Deckard at the wrist. With all is strength, Roy slowly but surely pulls Deckard back from the brink, up and over the cornice then throws him down onto the roof.

Deckard, mustering what little strength he has left, crawls backwards on his behind to come to rest against a masonry pillar, expecting the worst from Roy.

But Roy doesn’t attack or even move forward, he simply sits down to eye his counterpart. He, himself is now beginning to fade, his ultimate fate stealing upon him. He still holds the white dove in his hand, Deckard eyeing him warily.

Roy looks at his exhausted opponent saying with a smile, "I’ve... seen things you people wouldn’t believe, hmm. Attack ships on fire off the Shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near Tannhauser Gate." Deckard can only watch in mute fascination as Roy’s life slowly ebbs away as he continues, "all those... moments, will be lost, in time, like tears... in... rain. Time... to die." He smiles one last time at Deckard, then bows his head and expires. Deckard watching helplessly. The captive dove is released from Roy’s hand and flies upwards into the rain-soaked sky.

Blade Runner – Hampton Fancher e David Peoples, baseados em "Do Androids Dream Electric Sheep", de Philippe K. Dick (aqui)


O filme de uma vida? Sim, o filme da minha vida. Um deles, pelo menos.


Recordo até hoje o maravilhada que fiquei perante o imaginário sonhado, experimentado, as premissas que me corroíam todas as certezas. O espanto perante aquele universo escuro, kitsch, molhado. Os mil e um pormenores que só se descobrem à quarta, quinta visualização. A vontade com que corri a ler o conto de Philippe K. Dick, o fiel que fiquei das suas histórias.

Lembro um Harryson Ford muito pouco cabotino, certo para um papel que ficaria bem em uns tantos actores de outrora, com Boggart à cabeça dos nomes que me ocorrem. E um Rutger Hauer que nunca mais esteve tão bem, tão certo, completo, personagem e actor em comunhão.

Mas é este lá de cima o pedaço da história que sempre me fascinou. O prego espetado na mão do andróide, a pomba branca gentilmente presa entre os dedos. O olhar de início aterrorizado do homem que viu a vida salva in extremis e, depois, o olhar condoído ao ver uma vida a apagar-se. Os inimigos finalmente próximos, cada um consciente da sua finitude. Um salvo; um sem salvação.

É quase como se, ao tentar num último fôlego passar o que viveu e viu a um ouvinte – qualquer ouvinte, mesmo aquele que há pouco seria seu carrasco ou sua vítima –, Roy tivesse encontrado um porto para a sua memória. Porque a memória só partilhada faz sentido; só uma voz que se acha, que se faz presente, tem rumo. E uma vida não é desperdiçada se houver quem a conte, quem lhe saiba os pormenores. Mesmo uma vida breve, com fim anunciado, sem esperança e sem sonhos ou miragens de eternidade.

E o homem, o frágil, o extenuado homem, será a partir daquele momento o repositório de uma história, uma breve história, cheia de violência, como pregos espetados nas mãos, mas também capaz da maior delicadeza, a delicadeza com que se segura uma pomba, a tal pomba que, no fim, voa para um céu ensopado de chuva. Gotas, apenas isso, como lágrimas na chuva, lágrimas e gotas imprecisas, confundidas...

E uma história sobre bem mais do que memória, ou sonhos, ou fragilidades, ou vontade de vida, ou finitudes.

O filme da minha vida? Um deles, sem dúvida. Ainda lhe preservo a memória, busco-a nos sons de Vangelis, que tocam agora.

3 comentários:

HeartOfDarkness disse...

Putz...cabei de assistir o filme, e de ver novamente essa parte...e corri pra internet a procura de algo que prolongasse aquela cena ou que explicasse pq estou quase chorando. Você me confortou, agora sei que não fui só eu que percebi a pronfundidade.

HeartOfDarkness disse...

Cá estou eu relendo esse post, relendo meu próprio comentário, alguns anos mais tarde. 18/03/2010

P. Moai disse...

A obra prima de Ridley Scott foi muito mais que um filme, foi um marco que no final define a percepção da humanidade quando o androide (Roy)toma consciência da sua finitude ... da inevitabilidade da sua morte.
Pois ... também é um dos filmes da minha vida.
(Estou a gostar de vaguear por este sítio.. já vi que tenho um longo caminho pela frente)