2006-03-26

Mal-entendidos

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O mal de se comentar o que não carece de grandes explicações, porque se baseia num hábito velho de convivência, onde meias palavras chegam, é que se pode dar um valente tiro no pé. Nunca há crise, claro. Excepto de quisermos fazer disso uma grande crise. A tal ponto que chega a ser preciso um ano para que fique bem claro que o pedido de desculpas que era solicitado referia-se ao paternalismo com que a dona do blogue – que me conhece há anos e bem demais – me tinha tratado, sabendo bem, ainda por cima, que ao comentador trapalhão aqui a desbocada não tinha dado nem metade da resposta que, noutras circunstâncias e não me merecessem os dois mais consideração, tinha saído pela certa.

E eu leio bem mais do que os links que aparecem ali ao lado. Mesmo quando digo que não, durante qualquer ataque de mau feitio, que é sabido que tenho e nunca escondi de ninguém. E
agradeço os parabéns, mesmo que o blogue só faça anos em Agosto e seja a autora quem sopra, desta vez, as velas :)

Destino

I Am

Which tarot card are you?


Spiritual enlightenment, inner illumination, hidden power. Link between seen and unseen. Balance of positive and negative forces. Receptivity. Unseen guidance. A young woman sits on a throne holding a scroll labeled "Tora" meaning "law." On her breast is the sign of the meeting of heaven and earth, the Maltese cross. Her crown is the full orb supported by horns, the crown of the Mother Goddess Isis, who rules all things changeable, shown by the moon at her feet. Her power, upon which her throne rests, derives from the creative principle of duality, shown by the two pillars of light and darkness. To those who know and love her she dispenses the sweet fruit of the world itself, symbolized by the pomegranites.

Podia ser pior...

(Visto aqui)

2006-03-25

Obrigada!




Uma pessoa imagina que a amizade é um serviço. O amigo, assim como o namorado, não espera recompensa pelos seus sentimentos. Não quer contrapartidas, não considera a pessoa que escolheu para ser seu amigo como uma criatura irreal, conhece os seus defeitos e assim o aceita, com todas as suas consequências. Isso seria o ideal. E na verdade, vale a pena viver, ser homem, sem esse ideal?

Sándor Márai - As Velas Ardem Até ao Fim


Sei que há dias em que me apanham de bom humor e, nesses, até entendo que resolvam voltar. Mas há outros em que me sinto mesmo agradecida por vos ter por aqui. Na verdade, olhando para alguns dos meus textos e pondo-me no lugar do visitante ocasional, este não seria nunca o blogue que elegeria para tantas visitas. Mas, mesmo assim, vejo-vos voltar e sinto que, de alguma maneira, ando a fazer as coisas certas.

Não chego sequer a entender porque mereço tamanho carinho. Mas hoje, depois das tantas de palavras que me deixaram, de todo o mimo, de todos os gestos de partilha de um tiquinho de tempo para com uma pessoa que, na maioria dos casos, é mais um nick desconhecido entre tantos que se resolveram a abrir um blogue, só posso mesmo dizer que nem quero entender. Quero é aproveitar!

Há cerca de cinco anos que ando pela net nestas partilhas, primeiro em fóruns, depois nos blogues. Já fiz muita merda por aqui. Também devo ter feito coisas certas. Cinco anos pode ser uma eternidade em tempo virtual. Dezanove meses em tempos de blogues pode ser o suficiente para muitos encontros e desencontros. Ter uma caixa cheia de mimos no meu dia de anos é, sem falsas modéstias que não sou gaja para isso, motivo para me sentir muito feliz hoje.

Foi uma festa e tanto. Obrigada a todos por fazerem de mim hoje uma blogger muito, mas mesmo muito feliz.


Nunca a fortuna põe um homem em tal altura que não precise de um amigo.
Séneca

2006-03-24

...




Está sim? Era só para dizer que é hoje o dia certo. Vá! Podem começar a mandar os mimos... já sabem que eu gosto :))

2006-03-23

Parabéns, Lyra


aqui

Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.

Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.

Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se faz ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.

Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

António Gedeão - Fala do Homem Nascido


Eu disse que não esquecia, não disse?

Pois espero que esteja a ser um alegre início do trigésimo segundo!

Ópera do malandro

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

Chico Buarque - Pedaço de Mim

Há músicas de que raras vezes nos lembramos mas, depois de as ouvir, ficam a martelar-nos cá dentro. No caso desta, bem mais do que a música ou sequer a voz do Chico Buarque, de que não gosto particularmente, é o raio da letra. Oh saudadezinha bem descrita!



(não chorei o dinheiro do bilhete e o Fernando Eiras, como Geni, mereceu todas as palmas)

2006-03-22

Promessas


aqui


Há dias em que mesmo promessas não cumpridas nos deixam um sorriso nos lábios. Porque sabemos que, em breve, a desforra trará consigo um doce sabor de mel, ou outras coisas plenas de meiguices...

2006-03-21

Caça

Um bando de aves de arribação cruza os céus do Alentejo...
-"Então, amigo, não dispara a caçadeira? O bando de patos está quase aqui por cima..."
- "preciso amigo... Fique manso... Vocemecê vem lá de Lisboa e na percebe nada da coisa..."
Os patos bravos passam por cima dos dois homens batendo vigorosamente as asas...
-"Observe bêm quedo e mantenha-se." Disse o velho Alentejano, ajeitando o capote.
Nisto, uma das aves larga o grupo, perdendo a força das asas, percepitando-se no o solo.
-"Na disse?... Agora, vai cair ali adiante..." Falou, chasquinhando, o velho. "Olhe, lá vêm caindo outra ali ao pé das sobrêras..."
E, virando-se para o cão, ordenou:
-"Vai buscar, Fiel!" Olhou, trocista, o Alfacinha e sentenciou: "Isto é canito que caça sózinho...
A bicharada, agora, também vem tombando dos céus sem fazermos nada...é da gripe!
Anda muito facilitada esta tarefa da caça.... Na acha amigo?"

Dia de lua negra


aqui


Os dias miseráveis deviam vir com nota prévia!

2006-03-20

Vaidade


aqui


Cabelo às três pancadas, roupa vestida sem pensar, correr porta fora à espera de alcançar o dia antes que o dia se abata sobre mim. Sapato raso, cara lavada, a revolta do costume contra a Segunda-feira e a falta do café que esqueci comprar. Nada de jóias nem simulacros, o perfume fez-se dos restos da amostra perdida no carro. Nada de vaidades, nem cigarros, nem comida. E o trânsito e os putos postos à porta das escolas em intermináveis segundas, terceiras filas e a vontade da buzina e dos insultos e esta porra de estar sem café e sem cigarros e ainda por cima ser Segunda-feira. E é então que o passo de corrida é interrompido por um "bom dia, menina". E a menina esquece o fio, os fios, que o tempo nevou sobre os cabelos, o pasto para arado do tempo em que a cara ameaça transformar-se, a gravidade que pesa por entre as pregas da roupa desengonçada, mal amanhada, escolhida sem vontade e a cara lavada e a falta de café e os cigarros que não existem e o sapato raso e a vaidade que ficou perdida, talvez na noite de Sexta, ou no Domingo de manhã...

Hem?!


aqui


Pá, prontos, pá... parece que a informação era mentira e coisa e tal e a gente nem desconfiou nem nada e foi por isso que fomos ali fazer uma guerrinha depois de brindar com uns copinhos de água a dizer que era outra coisa mas o meu amigo arbusto tem um pequeno problema com a bebida e assim e a guerra afinal agora está maior do que parecia e já nem está a dar tanto petróleo e as armas não chegam para os cobres que estávamos à espera. Desculpem qualquer coisinha...

2006-03-19

The Tramp


aqui


Um bigode pequenino, um casaco apertado, umas calças largas, uns sapatos enormes, uma cartola estafada. Um olhar cândido e um sorriso. Um corpo franzino. Ai está: the tramp. Silencioso, sempre silencioso. Tão silencioso que recusou o avanço do sonoro durante mais de uma década. À sua volta, todos falavam já. Mas o pequeno vagabundo, o mais pobre dos pobres, não enchia os seus filmes com o som das palavras. Enchia-os de música. Música belíssima, para enquadrar cada sentimento com a expressão magnífica que não necessita de tradução. Tão grande a emoção que se lê na ligeireza dos corpos, na profundidade dos olhos, na gentileza de um perfil. The tramp. Charlie.

Charlie Chaplin apresenta-nos uma das primeiras vozes discordantes sobre as venturas do progresso. O pequeno espezinhado que nem um cigarro pode fumar sem que, em grande écran, lhe surja a imagem do patrão, qual Big Brother, remetendo-o de volta para o seu trabalho de rotina, a prisão dos gestos repetidos até se transformarem em reflexos espasmódicos, uma doença. E os ricos ficam mais ricos e o pobre vagabundo, rodeado de muitos pobres vagabundos de uma época de recessão, enfrenta a miséria maquinizada. Um senhor, tão grande que enfrenta a fome e a prisão, que se enfrenta a ele mesmo no ring de boxe, numa coreografia de murros contra o destino. O destino da pobreza ao toque do gongo. Não por ele: para arranjar dinheiro para a sua amada. No fim ela vê. E vê-o a ele, ainda que, mais do que os olhos, seja o toque da pele que reconhece, enquanto olha para aqueles imensos olhos cheios de pena, de dor e de esperança. Em silêncio ainda. E a música por trás. O vagabundo que parte sempre a caminho do destino, com uma bengalada no ar. Mais vagabundo hoje do que nunca, comendo atacadores para mitigar a fome, sem perder a esperança num novo dia.

O bigode. O pequeno bigode que abandonou depois de muitos anos. Matou-o com o som, levou-o apenas para um filme ainda, numa caricatura visionária ao que vozes endoidecidas do outro lado do Atlântico prometiam ser a redenção da raça. Será que Hitler alguma vez viu "O Grande Ditador"? Será que se reconheceu no ridículo da figura embigodada que dança aos pontapés ao mundo?

E os olhos. Grandes, aguados, cheios de ironia. Mas também cheios de uma vontade de pôr no celulóide o melhor de si: a criança que sobreviveu à fome, mas que não soube sobreviver à abundância, transporta para o mundo dos sonhos a esperança que perdeu algures. Os olhos estão lá ainda. A preto e branco. Claros, esclarecidos, cheios de fome por um mundo que não compreende ou, talvez, compreenda bem demais. Ficam em close-up, encarando o seu amor, ao som de música. Bela música. Música iluminada que nos enche de promessas de um dia, um qualquer dia, que será melhor.


aqui


Não sei se querias realmente um texto, mas sou incapaz de resistir a um bom mote.


2006-03-18

Poema para o meu filho, jovem homem

Um dia
Um homem
Sozinho
Terá pensado
À noite
Sob o céu
Iluminado
Qual seria
O seu destino

As vozes
Que dentro dele
Dançavam
Nada clarificavam
O objectivo
Que pretendia

Qual seria
O caminho
Nesta cartografia
De vida
Rota
Destino escolhido
Ou coisa pré-definida?

Olhou
De novo
O firmamento
De estrelas semeado
Sentiu
Por momentos
Ao lado
Algo
Que não definiu

Traçavam-se os rumos
Ao romper do dia
Com a mente
E o coração
Assim
Ele decidia

2006-03-17

O Grito


aqui


Sabem quando temos a certeza que lemos algures algo importante? Quando não descansamos até encontrar as palavras exactas, quem as disse, onde disse? E desatamos a folhear todos os livros à procura do sublinhado que tem de estar lá, que é forçoso que lá esteja?

Pois não encontrei o que andava à procura – e que era sobre a importância do culto mariano numa Igreja demasiado masculina, como se o dogma imposto pelas cúpulas não fizesse sentido para o crente no sopé das hierarquias da fé –, mas encontrei outra frase que faz cada vez mais sentido:

O Grito de Munch saiu das pinacotecas e instalou-se nas ruas…(*)

E depois vi as imagens do avanço das tropas americanas, coligadas com alguns iraquianos, sobre Samarra…


____
(*) Luís Sepúlveda

2 anos!


aqui

Ultimamente, parece que chego tarde a todas as efemérides, mas não podia deixar de dar os parabéns aos meus meninos :)

2006-03-15

Parabéns, Gaivina!

(...)
Dada a primeira talhada, como se a primeira pá de terra tivesse sido lançada, todos se aproximaram de prato na mão, insinuando-se em fingidas acotoveladas de animação, cada um para a sua pazinha.

Clarice Lispector - Feliz Aniversário


Se um dia me dissessem que alguém ia gostar tanto do ambiente que se foi construindo à volta deste blogue, a tal ponto que ficou com vontade de nele escrever, eu não teria acreditado. E, no entanto, aconteceu.

Se um dia me dissessem que ia ter por aqui desenhos feitos pelo autor do blogue, eu – que não sou capaz de desenhar nada nem para salvar a vida – não teria acreditado. E, no entanto, há por ai desenhos espalhados.

Se um dia me dissessem que eu ia querer partilhar a Voz, que sempre foi um blogue tão umbiguista, eu não teria acreditado. E hoje somos dois.

O Gaivina já foi um sem-blogue. Hoje, é um dos autores do Voz em Fuga. Digamos que, ultimamente, é a parte séria e bem comportada do Voz em Fuga. À conta do livro que escreveu, andará pela net muita gente a dar com este blogue. E a dar com textos que não são do Gaivina, comentários que nunca poderiam ser do Gaivina. Encontram, por acidente, uma tripeira sem papas na língua e, muitas vezes, completamente sem vergonha nas teclas. Não será um brilhante cartão de visita para um ilustre autor de livros infantis. Mas é o que há.

Mas este post nem era bem sobre isto. É que a Voz em Fuga hoje está em festa: celebra-se por cá, pela primeira vez, o aniversário do Gaivina. Portanto, mais valia estar a escrever menos e ir directamente ao importante:



aqui

Parabéns, amigo!

2006-03-14

The devil is a woman


aqui




Mas não uma qualquer...


(and hold your tongue about your life
or dead hands will change the plot...)

2006-03-13

Take a bow


aqui


Quanto me sento ao computador, aceito que os mundos virtuais que lá encontro são paralelos aos meus. Falo com pessoas cuja identidade não consigo provar. Desapareço numa teia de coordenadas que dizemos que vão mudar o mundo. Qual mundo? Que mundo?

Jeanette Winterson – O Vírus do Amor


Há dias em que fico demasiado feliz por ter feito a ponte, transitando para o meu real aqueles que, por largos percursos feitos palavras, habitavam apenas a terra onde as ovelhas talvez sonhem com andróides. E é por isso que há fins-de-semana diferentes, povoados de quem gosto, de quem gostaria de qualquer maneira. Mesmo sabendo que a probabilidade de fazerem parte do meu mundo se mede bem mais em 0 e 1 do que numa qualquer matemática baseada nos dez dedos com que, no início dos tempos, aprendemos a contar.

Mas não há como escapar ao reverso. Nem sei se quero escapar ao reverso. Como uma amiga – que já foi só virtual – explicava a um amigo – que também já foi só virtual – aprendemos a treinar o instinto e estabelecemos regras, limites de segurança que não queremos, nem podemos, ultrapassar. Mesmo quando não há olhos, nem sorrisos, nem postura corporal, treinamo-nos, ainda assim, para os sinais. E batemos em retirada, se for preciso. Desconfiados, levemente tostados por histórias que quase nos queimaram, perdemos a magia dos primeiros tempos, a vontade de acreditar ou tão só a capacidade de acreditar.

Os nossos mundos paralelos estão ainda aqui. Mas há muito que erguemos muralhas e nos barricamos bem por trás delas.

Como em todos os novos percursos, fomos obrigados a crescer. Tudo na vida nos obriga a crescer, de alguma forma. Mas o que se perde em pureza nunca mais pode ser recuperado. É o mundo que sobra. Que mundo, ainda não sei…

2006-03-12

O Rei vai nu


aqui


Estão nus? Vão nus? No casulo fútil onde se escondem, a nudez é relativa. Tão relativa quanto o ego é capaz de a fazer. E recusam-se a admitir a nudez, mesmo que tenham já exposto, de forma indelével, a nudez e pequenez da sua personalidade.

Tal como o rei seria, no seu orgulho, incapaz de admitir a sua nudez, não sabem, na sua soberba, colocar-se no seu lugar. Alcandoraram-se a um pódio, um altar e por lá querem ficar. Será grande o tombo e penso que, na maioria dos casos, começa bem antes dos sintomas definitivos. Começa, aliás, no dia em que tantos de nós, que apenas estamos ou queremos estar de fora, passamos a ter pena, da mesma forma que se chega a ter pena do rei: aquela piedade corrosiva e envergonhada, não por nós, mas por figuras tão ridículas que se tornam dignas de dó.

No fundo, o trágico, o que me parece mesmo mais trágico, é a cegueira. Uma cegueira tal que mentirão a si mesmos só para não terem de ver, não terem de ver-se...



(a propósito do Berlusconi e mais umas coisinhas...)

2006-03-10

Pensamento do dia?


(recebida por mail)


Já não faltam oito horas, felizmente.

Bom fim de semana para todos, que o meu vai ser, de certeza :)

2006-03-09

2006-03-08

Tuguice


Você até tem um certo jeito, e de vez em quando faz um brilharete; mas geralmente anda um bocado à nora. A organização não é o seu forte, você confia em absoluto no instinto. Você é pão-pão queijo-queijo: tudo ou nada! Acha sempre que vai conseguir ter tudo, mas, aqui entre nós, ou fica lá muito perto ou dá uma monumental barraca.



"Roubado" à
Jacky, que, coitadinha, é do Togo :)))

Esfumado

You dance real slow
And you wreck it down
Walk away and you turn around
What did that old blonde guy say
That’s the part you throw away

I want that beggar’s eyes
The winning horse
A tidy Mexican divorce
St. Mary’s prayers, Houdini’s hands
And a barman who always understands

Will you loose the flowers
Hold on to the vase?
Will you wipe all those teardrops away from your face?
And I can’t help feeling as I close the door
I have done all of this many times before

The bone must go
The wish can stay
A kiss don’t know what the lips will say
Forget I ever hurt you
Put stones in our bed
Remember to never mind instead

But all of your letters burned up in the fire
And time is just memory mixed with desire
That’s not the road; It’s only the map, I say
Gone just like matches from a closed down cabaret

In a Portuguese saloon
A fly is circling round the room
You’ll soon forget the tune that they play
For that’s the part you throw away
For that’s the part you throw away


Ute Lemper - The Part You Throw Away
(de Tom Waits e Kathleen Brennan)


E enquanto o tempo se mistura com a memória e o desejo, incendeiam-se as cartas que nunca foram escritas. Contam, como sempre, a parte deitada fora, enquanto se esforçam por esquecer o que doeu. Arrastam-se vozes num quase choro, bebendo o golo sôfrego de um copo nuns dias meio cheio, noutros dias meio vazio. E vazam-se letras, que se substituem a beijos, em lábios mudos, como quem fecha mais uma porta, ritual repetido. Querem tudo. Tudo! Mas a alma está cansada. E a música toca ainda, vai rodando, inebriante. Arrastam-se as palavras, como se arrastam os acordes. Esvoaça o fumo de mais um cigarro e tudo se vai transformando em pó. Deita-se fora a dor e o alento vai junto. É fado. É a vida feita cabaré, onde acordes lentos contam, com lassidão, mais um rumo desperdiçado. Que haja um barman para ouvir as histórias, enquanto mais uma lágrima escorrega por cada face para ir salgar a bebida forte, que queima as gargantas quase tanto como os gritos silenciados. Borboletas cegas pela luz, esperam ainda ter asas ao raiar do dia. E contabilizar, por fim, o que sobrou.

2006-03-07

Fantas


Fantasporto 2006


É, segundo a revista Variety, um dos 20 melhores festivais de cinema do mundo. Este ano fez vinte e quatro aninhos. Mal posso esperar pelo quarto de século. É que, para o ano, há mais...





Tinham vindo de exumar os ossos da minha avó sábia.
Minha mãe, acercando-me daquele jeito só seu, falou do medronheiro que crescera do crânio da minha avó morta.

Um belo arbusto com duas grandes raízes saindo das orbitas daquele crânio mudo, alimentando-se de uma riqueza que fora viva.
Era fim de um Verão-menino, tempo das grandes barrigadas de medronho maduro, deixando a cabeça andar à roda, tonta, perante aquele enorme horizonte que era viver...

2006-03-04

Parabéns, mãe!


Almada Negreiros - Maternidade


A minha mãe não era suposto ter nascido. Na verdade, se naquele tempo a minha avó pudesse ter escolhido, a minha mãe não nascia. Tinha sido antecedida por duas meninas que não chegaram a completar um ano de vida, dois gémeos nado-mortos e um tio que nasceu de sete meses e só sobreviveu porque a minha avó o meteu numa peúga velha e o deixou ao borralho. Eram demasiadas mortes, mesmo num tempo em que as famílias estavam habituadas a conviver com a morte e os funerais dos "anjinhos" eram o comum em lugar da excepção. Mas, tanto filho morto depois e um que mal se tinha salvo, a minha avó achava que três filhos vivos e de boa saúde era mais do que o seu quinhão. E até já tinha uma rapariga para a ajudar a tomar conta de três homens. Estava bem, não precisava de mais. Mas engravidou da minha mãe. Suspeito que não terá ficado particularmente contente. Era o tempo do pós-guerra e por cá passava-se fome. Mas que fazer? Naquele tempo também não havia muito o que fazer. Era vontade de Deus? Seria a vontade de alguém, por certo, mas duvido que o meu avô acreditasse que Deus tivesse alguma coisa a ver com o assunto...

A minha mãe nasceu magra e ossuda, com ar sôfrego, suponho que um pouco zangada com a vida. Foi uma criança magricela e, mesmo depois de duas filhas, continuou magra e seca, até a menopausa - que não perdoa a nenhuma de nós - lhe ter amaciado um pouco as formas. Mas ainda é magra e despachada, fazendo o que pode e o que não pode, sempre a queixar-se, mas sem nunca deixar de fazer. Vai ser, provavelmente a vida toda, uma pessimista, uma preocupada. Até hoje, quer que lhe telefone cada vez que chego a casa, só para dizer que cheguei bem. Tem medo de não me conhecer todos os amigos, para poder tirar a cada um as medidas à maneira dela. E, mesmo quando está contente, a minha mãe nunca parece feliz. Carrega sempre nos ombros o peso do mundo de preocupações que ela própria constrói e tem a mania que, se não meter o bedelho, nada fica bem feito.

Arranjar um presente para a minha mãe é sempre uma dor de cabeça: nunca precisa de nada, nunca acertamos com nada, nunca é o que queria de facto. Cada vez que chega próxima qualquer data propícia a presente, cá em casa há três desgraçados em crise existencial. A minha irmã e eu já aprendemos a rir-nos com o assunto, mas o meu pai, coitado, fica realmente em pânico. E dá connosco em doidas, arrastando-nos para apreciações de possíveis presentes atrás de outros possíveis presentes. Ultimamente, tem acertado, verdade seja dita: dá-lhe jóias. E a minha mãe gosta de jóias, apesar de quase nunca as usar. Aliás, conhecendo a minha mãe, acho que as deve estar a guardar em algum lado, catalogadas por data e já com a indicação de qual de nós fica com o quê, depois de ela morrer, que é para ninguém se zangar com as partilhas.

A minha mãe tem um nome que não gosta. Bem, acho que, como em relação a tudo o resto, limita-se a dizer que não gosta. Tenho cá para mim que até nem achará mau de todo. Na verdade, a coitada da minha mãe esteve para se chamar Otilinda. Isso mesmo: Otilinda. Com os dois "i". Era o nome da senhora que esteve para ser sua madrinha. Mas, como já tinha sido madrinha das duas Otilindas que não chegaram a um ano de vida, a minha avó resolveu trocar as voltas ao destino trocando de madrinha à filha. E talvez tenha dado certo, que a minha Tia-Avó Alice, que ainda está viva e de saúde, é a madrinha da Maria Alice a quem eu chamo mãe. E que também está viva e de saúde. Aliás, hoje fez mais um aninho e até parece que gostou dos presentes e da festa. Está com um ar mais ou menos feliz e já me avisou para lhe ligar quando chegar a casa...

Frio




Já quase sinto o cheiro a Primavera por entre o nosso cheiro misturado. Viste como já há tanta flor a abrir pelos canteiros e os jardins da cidade? Só falta que o sol abra um sorriso e que o rio deixe de ir cinzento. Só falta que o céu deixe de chorar este Inverno frio. Só falta que o tempo que faz lá fora deixe de gelar os nossos corpos e se aqueça deste mesmo calor que me faz apetecer os teus pés gelados...

2006-03-03

comPILAções (há sempre mais)



Do rescaldo das nossas fortuitas danças, derivam marcas de passos calculados, ensaiados ao pormenor. Passos que ensinámos um ao outro entre suor e oxigénio respirado ao fôlego ardente da nossa harmonia.

As marcas em todo o lado denunciam a dança suada que se fez minutos antes: água pinga do tecto e escorre no vidro embaciado, sangram-me as costas num molde de unhas cravadas na libertadora força do querer, gira o disco no silêncio monocórdico de uma agulha que não encontra mais músicas que tocar.

Nunca ninguém dançou como nós e nunca alguém ousará dançar porque por nós se define o significado da palavra único. Nenhum passo falso, nenhum movimento descurado. Parece que dançámos a vida toda.

Mesmo perdidos no palco, o olhar ensina o caminho que os pés querem devorar na inquietação pelo derradeiro salto que sabemos acorrer-nos em sincronia. Mesmo ausentes da valsa distante, atordoamos o cansaço com mudanças de ritmo, compasso e colocação. Mesmo embriagados pela cegueira de dançar na ausência de pensar, sabemos sempre onde nos leva a intuição.

Das nossas fortuitas danças deixas-me o vazio de te querer dançar novamente, deixas-me a fome de te conduzir nas ébrias tonturas de um ritmo que fizemos nosso, deixas-me a promessa de um passo novo aprendido na libertação de uma música escondida.



Podia eu alguma vez recusar uma oferta assim, feita um texto tão doce e sedutor?

Obrigada, Ricardo, por esta Dança dos Eufemismos.



(O
comPILAções fez um ano no passado dia 24 de Fevereiro. Haveria melhor forma de celebrar? Claro que não havia! Estendo, por isso, o meu obrigada a todos quantos participaram.)

2006-03-02

Estreia: poema











Tropeçar contigo
a cada palavra dita
em qualquer lugar
e sem defesa

Surpreender-me
com a ilusão
negando a realidade

Procurando razões
que não têm idade
para sair em silêncio
e sem ser notado

Foi necessária uma certa dose de coragem para postar estas linhas...

A minha resposta


Ralph Fiennes


Confesso que não tenho uma relação muito saudável com os conceitos de beleza. Gosto de escalpelizá-los e, a mais das vezes, fico-me antes com o nariz torto, desde que o olhar seja ladino, com a cicatriz, em vez da cara perfeita. Nada como uma pequena mácula para tornar interessante, apelativo, aquilo que poderia ser apenas belo.

Sempre me pareceu que todos os conceitos de beleza se esgotam facilmente na multiplicação desmedida em tom de fotocópia ou, actualizando conceitos, de clones. Fácil, por isso, procurar a novidade no que, não sendo o belo do cânone, atrai pelos outros motivos. Não será à toa que nós, mulheres, nos delongámos a falar de "charme", porque não há análise que perdoe tamanho conjunto de imperfeições no sujeito. E mesmo o mais delicioso dos bonecos só o é porque a beleza apregoada não resiste a um olhar à lupa, mas o charme permanece e o conjunto vale por si.

E depois há as mãos.... nada como um lindo par de mãos a despontar à frente dos meus olhos e a engrandecer uma conversa deliciosa com um bailado de gestos. E há os olhos, com o brilho certo e a textura do veludo.... Eu vou mesmo por pormenores!

E os pormenores parecem-me, de facto, ser o que mais importa naquilo que, cada um, tem como o seu conceito de beleza. E há tantos destes conceitos que não chego sequer a compreender...



(em forma de repost... mas não há tempo para mais)

2006-03-01

A menina que escutava as pedras (ainda a Beira...)

Mariazinha vestiu a sua blusa mais bonita, uma saia branca, meia clara e sapatinhos de Verão a condizer. Na cabeça, dois totós prendendo as longas tranças morenas. Então, abriu um belo sorriso de orelha a orelha. Afinal, era o seu dia de anos.
Como sempre, no seu aniversário, foram almoçar fora, ao Pataco. Os empregados não a pouparam com mimos, oferecendo-lhe um gelado no final da refeição. Do outro lado da mesa a mãe sorria com ternura, e o pai, babado, limpava os beiços com um guardanapo.
Mas o melhor estava para vir: os primos e a tia vinham brincar com ela, a tarde toda. E, depois, havia o bolo de anos e as prendas…
Foi um rebuliço pela tarde fora. Mas, para ser perfeito aquele domingo de aniversário, faltava ainda um passeio. Aos Fiais e às suas pedras favoritas.
Mariazinha chegou-se ao pé do pai, que, de comando na mão, mudava freneticamente de imagens na televisão e disse:
-Pai…eu quero ir escutar as pedras.
-O quê miúda?
-Sim. Quero ir escutar as orcas dos Fiais.
-Mas que ideia mais disparatada! Respondeu o pai, endireitando-se no sofá.
-Leva-me lá! Insistia a filha, desatando num berreiro: Eu quero escutar as pedras. Quero ir aos Fiais!
-Ó Sílvia, a tua filha anda cada vez pior! Chamou ele pela esposa, nervoso, pois o costumeiro jogo de bola estava prestes a começar em transmissão directa.
-Mas eu quero, pai!
Aí os primos começaram, também, num coro: Queremos escutar as pedras! Queremos ir aos Fiais!...
Foi tal a insistência da miudagem que os adultos não tiveram outra hipótese senão pegar nos carros e rumar aos Fiais da Telha, para grande tristeza do pai que iria perder um jogo decisivo do campeonato.
Mal lá chegaram, as crianças saíram a correr dos automóveis gritando: Vamos escutar as pedras! Correram em direcção às antas, abraçando as grandes pedras, encostando os ouvidos à superfície rochosa.
-Maria, vem escutar esta! Gritava um dos primos.
-Agora vou ouvir o que esta diz….Dizia Mariazinha.
-Eu gosto muito desta orca. Dizia sorridente o primo mais pequenino, agarrado a uma grande massa de granito.
A tia e a mãe estavam tão entretidas com a habitual conversa de fim de semana que nem se deram conta das palavras murmuradas pelo pai:
-Meu belo joguinho ...
A tarde foi caindo. Cansadas as crianças de tanto de escutar as pedras, convenceram-se a regressar ao entardecer. E seguiram, para o carro da tia. Afinal, o jipe da tia era muito mais divertido que o carro do pai:
-Vamos todos aqui! Gritou Mariazinha.
-E eu? Perguntou o pai.
-Tu vais sozinho no teu. Respondeu a mãe.
E lá se foram, perdendo-se no pó da estrada.
O pai ficou ali parado no meio do caminho junto das enormes orcas silenciosas.
Olhou em redor, verificando que estava mesmo a sós. Então, aproximou-se, de uma grande pedra e abraçou-a. Sentiu um calorzinho que lhe entrava pela barriga, vindo da rocha ainda quente pelo sol. Encostou a orelha ao granito e escutou a voz das pedras.

Glossário:
Fiais da Telha - Terra bonita da Beira Alta
Pataco - O melhor restaurante de Canas de Senhorim
Orca - Dolmen

2006-02-27

Bolas!

Não consigo comentar no meu blogue.

Estou fula!


(Estive a salvar os comentários antigos para o blogger. Por acaso alguém sabe dizer-me se esta caca tem limite de espaço?)


"Comments have been disabled on this post." É isto que me aparece. Nem sei percebo como conseguiste comentar, Maria Árvore. Eu fico ali a olhar para a janelinha e ela a mandar-me pastar.

Desisto! É superior à capacidade de entendimento dos meus Tico e Teco. Já limpei cookies, já limpei IP, já limpei os temporários, já limpei até o raio que o parta. Nicles...

Amanhã vê-se e esperemos que o S. Cap, apesar do retiro, veja o meu grito de pânico.

Linguística? hmm

HASH(0x8b0fcbc)
7 Types of Intelligence - Which is yours?

brought to you by
Quizilla


Por acaso até acho que tem tudo a ver comigo...

2006-02-26

Salvé dia 21 de Fevereiro





Yanni - Nightingale


Não sabia mesmo, minha querida. E estou demasiado atrasada e é uma vergonha. Mas não podia deixar de te dar parabéns. Para o ano será no dia certo. Fica aqui prometido :)

2006-02-24

Prefácio de "Pinok e Baleote"

Depois da ilha do Fogo e da Brava existe Tamarindo.
Segredo bem guardado pelo português que a achou. Muitas vezes ignorada pelos crioulos que preferem não falar dela, embora habite um local bem próprio dos seus corações.
Ilha imaginária? Ó meu amigo, faça favor de olhar bem o mapa. Não vê ali uma ilha quase chegada a Djabraba? Vê como eu tinha razão?… Bem sei que alguns cartógrafos se esquecem de a assinalar no mapa, conferindo-lhe a importância de ilhéu.
Mas não é bem assim. Nessa ilha cujos habitantes têm um falar mais parecido com o Kriolu Kuradu, também existe o tripitxi e as crianças comem sukrinha nas sombras que sobram do sol ao meio dia. Flora, fauna e modo de viver, em tudo Tamarino é parecida com as outras ilhas caboverdeanas.
Se falo disto, é porque preciso explicar a origem desta história que Djon nos conta. Não vão os jovens Portugueses fazer uma grande confusão geográfica.
Importava publicar a narrativa deste menino crioulo que conheci em 1979, para que a rapaziada daqui fique com uma pequena ideia do ambiente das ilhas.
É que os portugueses andam muito esquecidos dos locais por onde passaram…
Se tiverem alguma dificuldade em entender as palavras estranhas que vão surgindo, deixei, no final da história, um pequeno dicionário com curiosidades, que pode ser consultado.
Bem, se gostarem desta história, sou capaz de me entusiasmar e contar outras que por lá escutei.
Vamos então começar…


Kusa ke kusa
ki fika kusa
nes mundu

APADEDICAndo


aqui


Para quem ler esta menina e, depois, ainda for ler esta também, informo que o dia está certo, mas o mês está completamente errado: é em Março, carago!

Às duas: muito obrigada!

O livro do Gaivina: 'Pinok e Baleote'


A editora Pé de Página e a associação cultural Moinho da Juventude, têm o prazer de o convidar para a apresentação do livro “Pinok e Baleote” de Miguel Horta, que terá lugar nas instalações da biblioteca António Ramos Rosa no dia 5 de Março de 2006 (Domingo)

pelas 16 horas.

Este acontecimento terá a presença das Batukadera di “Finka Pé”

Travessa do Outeiro, nº 5 , Alto da Cova da Moura,
Buraca – Amadora. 214971070

Pinok e Baleote

De Tamarindo, ilha imaginária de Cabo Verde, chega-nos a história de Pinok, um menino crioulo com fama de muito mentiroso. O relato de uma amizade entre homens e animais que acaba por salvar a ilha, semeando solidariedade.

Em jeito de contador de histórias, Miguel Horta leva-nos através da atmosfera das ilhas, fazendo-nos sentir a cultura crioula.

Miguel Horta é um pintor que gosta de palavras e de pessoas. Tem trabalhado pelo país fora na promoção do livro e da leitura e em educação pela arte. A uma obra marcada pelo oceano junta-se, agora, um rio de palavras que desaguam numa cultura comum.




E pronto! Já cá está. Digam lá que não é uma surpresa boa...

2006-02-23

A homenagem

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim

Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal

E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o Pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale

À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim

Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas de uma nação

A Morte Saiu À Rua by Zeca Afonso on Grooveshark

Pedro Mandes

A Isabel pediu um dia com o Zeca. E nem era preciso pedir. Zeca Afonso faz parte da minha história. É, talvez, a primeira música que lembro ouvir, sentada no colo do meu avô, enquanto me diziam que não podia ser mais alto, que não podia contar na rua. E Zeca Afonso tocava. E tocava-me. Toca-me ainda. Porque faz parte da minha história. Porque o junto nas memórias às memórias da minha família, ao meu avô que também já cá não está.

E a homenagem é ao Zeca Afonso, neste dia em que se fala da sua morte; mas é também a homenagem ao meu avô. E, acima de tudo, a todos os pintores - todo o tipo de pintor: os que pintavam com aguarelas ou óleos, os que pintavam com palavras, os que pintavam com acordes, os que pintavam apenas com as trinchas ou os arados do trabalho quotidiano - que celebraram a vida por entre o escuro e triste deste País.

Foram-se os vampiros de outrora; sobram os vampiros de fato novo, promovidos a doutores. E os pintores caem ainda por terra. Haja quem os cante!

2006-02-22

Estão a gozar comigo!


aqui


O Paul Bettany no horrível papel do Albino? Já não bastava terem abardinado tudo ao porem o Tom Hanks no papel principal? Acho que ninguém me apanha a ver a versão filmatográfica de "O Código da Vinci"...


aqui

2006-02-21

Marinheiro

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia de Mello Breyner Andresen - Espero



aqui


Leva-me a ver o mar, quando o mar que há dentro de mim rebenta em ondulações convulsivas. E transporta-me para as ondas, quando ondas em mim já rebentam em praias perdidas no meu corpo. É esse teu ir e vir, ir e vir, ir e vir… até o teu chegar ser o meu chegar, um mar, fazendo do meu corpo praia, fazendo das minhas escarpas ondulação, fazendo dos nossos corpos maresia.

2006-02-20

É hoje!


aqui

Por entre a correria do dia, lembrei-me e esqueci. Voltei a lembrar, voltei a esquecer. Lembrei mais uma vez agora e já não podia faltar o que mereces: o meu beijo e o desejo de um feliz aniversário, minha querida.

2006-02-19

Clepsidra

Nous aurons des lits pleins d'odeurs légères,
Des divans profonds comme des tombeaux,
Et d'étranges fleurs sur des étagères,
Écloses pour nous sous des cieux plus beaux.

Usant à l'envi leurs chaleurs dernières,
Nos deux coeurs seront deux vastes flambeaux,
Qui réfléchiront leurs doubles lumières
Dans nos deux esprits, ces miroirs jumeaux.

Un soir fait de rose et de bleu mystique,
Nous échangerons un éclair unique,
Comme un long sanglot, tout chargé d'adieux;

Et plus tard un Ange, entr'ouvrant les portes,
Viendra ranimer, fidèle et joyeux,
Les miroirs ternis et les flammes mortes.

C. Baudelaire - La Mort Des Amants (Les Fleurs du Mal)


Que coisa esta que agrilhoa a vida a uma simples mensagem escrita, pesa-nos a eternidade e foge num fogacho de momentos brevíssimos sem retorno. Que coisa esta de estar à espera, construir a espera, agarrar cada segundo e deixar o tempo partir. Deito fora os relógios, as ampulhetas, degredo-me para o sofá, espero. Carrego a grilheta do desejo, quase não vejo. Espero. Que coisa esta!

Que tempo este, o meu, onde o sexo é cada vez mais simples que o amor e é mais fácil abrir o corpo do que a alma. Espero. Adio. Contesto a voluptuosidade do gesto. Marco passo e enrodilho-me no que já não sei. Que tempo este!

Pedes que te reviste pelo fim da tarde, nos tempos cansados dos desencontros dos dias. Prefiro sarar o corpo primeiro e resisto, traçando os passos que me levam ao banho que me falta. Digo-te para vires depois. E talvez te venhas, mas já não comigo, que o jogo do empurra leva o desejo para mais além e fica apenas o amargo na boca do beijo semi-beijado, do corpo semi-tocado, da alma que resiste. Pedes-me e eu peço e não sabemos pedir, ainda assim. Como se o tempo de cada um não soubesse ser o tempo comum e cada segundo fosse história diferente, paralela gigantesca de desencontros.

E fomos jantar depois. Um jantar banal na data que não o é. E a semana e o dia seguinte à porta e o tempo que satura e empanturra a fleuma do cansaço. Gostas de amar corpos cansados, como eu gosto de amar corpos cansados. Mas não podemos permitir a aventura do cansaço a dois. Não hoje. Não neste tempo em que já não sabemos viver, correndo por entre os tantos de quilómetros que nos separam e a vida que nos quer separar e este já não saber como construir a espera, que estamos por demais habituados ao imediato. E o tempo resiste e aparta, como o espaço, e ninguém ainda descobriu a nossa equação do espaço-tempo.

E ficamos presos ao tempo que tentamos deitar fora, enquanto agarramos esse mesmo tempo com bocas e corpos sôfregos. Sobra apenas uma mensagem escrita, perdida, finita, como bandeira luminosa da distância.

Que adianta saber entregar o corpo se a distância se constrói, dia após dia, na alma vagabunda das histórias paralelas?

2006-02-17

Anacoreta


aqui


Do amor pode-se dizer que o menos terreno é o menos demonstrativo. Na sua forma absolutamente indestrutível, atinge uma profundidade em que toda a exibição é dolorosa.

Thomas Hardy


Mas quem gostaria realmente de ser amado sem as mais pequenas demonstrações de afecto? Quem aceita realmente um amor contemplativo, sem um gesto, um carinho? Quem consegue viver o amor sem exprimir em cada gesto o tanto de felicidade que nos traz, a cara parva com que passamos a encarar o mundo, a forma obtusa como o mundo passa a rodar em torno de um par?

Antes a finitude do amor terreno, pleno ainda assim, doce nos seus prazeres e agonias, feitos e resultados de cada gesto enlaçado em sentimentos. Exibível? Claro que sim. E degustado por isso mesmo.

Quantos de nós se deixam realmente convencer por qualquer outro tipo de amor? O ascetismo, por mais que nos digam o contrário, parece ser a negação de todo o prazer. E eu sem bem que tipo de êxtase prefiro procurar...

2006-02-16

Mulher


Finbarr O'Reilly (Prémio WPP 2005)


Neneh Cherry - Woman


You gotta be fortunate

You gotta be lucky now

I was just sitting here

Thinking good and bad

But I'm the kinda woman

That was built to last

They tried erasing me

But they couldn't wipe out my past


To save my child

I'd rather go hungry

I got all of Ethiopia

Inside of me

And my blood flows

Through every man

In this godless land

That delivered me

I've cried so many tears even the blind can see


Chorus:


This is a woman's world.

This is my world.

This is a woman's world

For this man's girl.

There ain't a woman in this world,

Not a woman or a little girl,

That can't deliver love

In a man's world.


I've born and I've bread.

I've cleaned and I've fed.

And for my healing wits

I've been called a witch.

I've crackled in the fire

And been called a liar.

I've died so many times

I'm only just coming to life.


Chorus


My blood flows

Through every man and every child

In this godless land

That delivered me

I cried so many tears even the blind can see

2006-02-15

A paixão




Ontem, numa fila eterna que se perfilava na porta da perfumaria do centro comercial, vi o real significado da paixão masculina estampado na postura de muitos homens. Aliás, penso que seria facilmente perceptível em cada rosto o verdadeiro significado de “calvário”, de uma forma que nem o Mel Gibson seria alguma vez capaz de explicar…

(também quem os manda deixarem sempre tudo para a última da hora?)

2006-02-14

Aos meus amores


aqui


Do P. recordo como me beijava no pescoço. Do A. recordo como me beijava toda. Do P. recordo como se deixava beijar. Do A. lembro como custou não beijar mais. Do J. recordo a meiguice e do M. recordo o mimo. Do J. a distância; do P. a necessidade de ninho. De outro P. não sei o que não lembrar...

São a minha história. Amei cada um deles, ou fui amada, nem sempre bem, nem sempre como mereciam ou eu merecia. Há dias em que tenho saudades de todos. Há dias em que desejaria ser um bonecreiro e juntar cada uma das partes que gostava em cada um deles e deitar fora tudo o resto. Nos outros dias, nada lamento. Aos que amei, só o fiz porque não eram perfeitos; os que me amaram, só não foi diferente porque não sou perfeita.

E sou uma felizarda! Tenho muita sorte em ter conhecido cada um deles, de chamar ainda amigo a tantos. É que, se são a minha história, são também a minha vida. E, ainda que tantos digam que é preciso deitar fora o velho para construir um novo caminho, eu prefiro guardar na memória tudo: o que doeu e o que deu prazer; o bom e o mau; as lágrimas e as gargalhadas; as tristezas, os lutos, as agonias em prazer ou dor, cada beijo...

Sou feita de carne e histórias. Se me amputam a memória, dissolvo-me como poeira no vento. E fico vazia. E não quero ficar vazia. Quero recordar sempre, transformar cada pessoa que partilhou o meu caminho no repositório da minha história. E, então, serão eternos. Como eu serei eterna. Não acreditando em qualquer vida para além desta, resta-me desejar a eternidade possível que se preserva na memória dos outros. Como preservo a eternidade de cada um na minha memória. E estão sempre vivos. Sempre!

Aos meus amores... tchim, tchim!

2006-02-13

Lembrete

As pancas


aqui

Pois parece que toda a gente quer que eu conte por aqui cinco das minhas pancas. E sendo que sou "gaija" de uma série delas - assumidíssimas, aliás -, não me custa mesmo nada revelar algumas.

Odeio, mas odeio mesmo, de tal forma que me agride fisicamente, mãos com unhas roídas. Só a ideia de ter de cumprimentar uma mão assim, toda eu me arrepio num nojo total e absoluto. Claro que não falo daquelas unhas ratadas, que mal se notam que são roídas, mas aqui as minhas dioptrias ajudam-me. Estou a falar daqueles dedos onde já nem há unha, só sabugos sangrentos, horripilantes, de carnívoro ensandecido.

Também me passo com olhos tortos, não tanto aqueles em que está aqui um e outro no infinito. É mesmo com os outros, os que se juntam sobre o nariz. Sendo que não sei falar com as pessoas sem as olhar nos olhos, passo agruras a tentar evitar que os meus olhos entortem também, num jogo de reflexos. Talvez seja por isso que os que se reviram para fora não me façam tanta confusão, já que não consigo mimar o gesto. Ainda assim, dou por mim a encurtar conversas, a evitar falar com certas pessoas, porque os olhos tortos e eu temos uma relação muito, mas mesmo muito inconveniente.

Tenho outro problema com gente burra. Especialmente se se arma em esperta. E a primeira reacção é mesmo enfiar um par de estalos capaz de atar os queixos de uma boca aberta em pasmo, ou que não sabe estar calada quando só sabe dizer merda. Esta panca é particularmente problemática porque faz de mim uma grandessíssima snobe. Mas pronto: não há mesmo nada a fazer, porque duvido muito que ainda esteja em idade de mudar. De qualquer forma, quando falo de burrice não estou, de forma alguma, a falar de falta de cultura ou conhecimentos, ou sequer educação. É mesmo daquela gente de cabeça oca, empenhada em construir em objectos de demonstração de status aquilo que as sinapses inexistentes nunca lhes poderão dar.

Também tenho umas questões interessantes com a ordem por que estão distribuídas as canecas no armário. Os copos ainda vá, mas mudarem-me as canecas de sítio é motivo para começar a fumegar. Admite-se a primeira, a segunda, até a terceira vez, especialmente se estivermos apaixonados pelo infractor. Mas, a partir daí, é discussão pela certa e, em último caso, motivo bastante para declarar a porta da rua como serventia da casa. O mesmo, aliás, se aplica aos livros e cd's. Pratos e talheres, ou toalhas, ou até roupa suja fora do cesto, ou tampa da sanita levantada, são bem mais tolerados por estes lados.

Finalmente: o lado da cama. Não importa se esquerdo ou direito, tem de ser o lado da janela. Ponto final, parágrafo. E a cama tem de permitir espaço para que os meus bracinhos fiquem por cima da cabeça, que é assim que durmo e já não mudo. Isso mesmo: bracinhos em arco, por cima da cabeça, em pose de bailarina. E do lado da janela. E não me perguntem porquê, nem tentem sequer enganar-me. É que o mais certo é eu acabar à mesma do lado "certo" da cama, nem que para tal tenha de empurrar quem lá estiver para o meio do chão.

E agora, cá vão as vítimas:

2006-02-12

Sem piada


(recebida por mail)


Não sei desenhar cartoons. Na verdade, não sei desenhar nada, tirando aqueles bonecos básicos do jogo da forca. E talvez esses até sejam os mais apropriados para falar da polémica desbragada, viciosamente fomentada, que transforma simples desenhos no gatilho necessário para efervescer almas sedentas de violência e de sangue.

Tomo a minha liberdade de expressão como um dado adquirido. Esqueço até muitas vezes que, não tem assim tanto tempo, neste meu País não se podia falar, que um grupo de três em amena cavaqueira era subversivo e qualificado como reunião política. Esqueço porque parece óbvio. Esqueço porque quero esquecer.

No dia em que matarmos o humor na ânsia padronizadora do politicamente correcto, estamos todos condenados. Condenados a uma qualquer Gattaca, num qualquer admirável mundo novo com o triunfo dos porcos à mistura. No dia em que continuarem a usar desenhos como desculpa, trocando tinta colorida por sangue rubro. No dia em que a humanidade perde definitivamente o rumo e, finalmente, os dois terços de escorraçados inventam o refrão mobilizador, capaz de fazer as liberdades baixarem os braços, medrosas do que pode vir.

E não é piada. Pobres de nós que assim nos afastamos da nossa condição de Homens, os únicos animais que sabem rir.

2006-02-11

De volta


****NOTICE****
CommentThis! is no more. Your comments are preserved here to allow you to move them to another system. (...) Don't expect your comments to be available for very long.


Penso que não será novidade para ninguém que o CommentThis! era o meu sistema de comentários favorito, ainda que tantas vezes pouco fiável. Parece que, desta vez, morreu mesmo; que já não há volta.

E parece também que voltei à net mesmo a tempo de evitar aquela que seria, para mim, uma calamidade: perder os comentários que estavam (apenas) guardados no CommentThis! Já me basta não ter os comentários de Abril e Maio, que estavam no Haloscan e, no entretanto, se evaporaram...

Estive, por isso, até agora a preservar a história do blogue, salvando cada um dos comentários que, neste ano e meio, tantos souberam deixar-me por cá. São preciosos! Não queria perdê-los. Agora já estão guardados.

A partir deste momento, as Vozes deixam de existir e serão reabertos os comentários do blogger. Ficarei, como de costume, com dois sistemas de comentários, para o caso de um deles resolver passar mal.

Por outro lado, aproveito este texto para pedir a todos quantos têm o meu e-mail da NetCabo para deixarem de o usar. É que eu deixei de usar a NetCabo, farta de ser usada e abusada e ainda ter de pagar couro e cabelo por telefonemas sempre que surgia um problema que era, invariavelmente, da responsabilidade da empresa prestadora de (mau) serviço. Foi assim uma espécie da minha OPA. No caso, mais uma "upa, que se faz tarde". E fez-se. Demasiado tarde! O monopólio da rede de fibra óptica não deveria permitir tanta incompetência, com tanto fedelho sem formação que nem sabe resolver um problema e que não entende sequer metade do que lhes dizemos. Pior ainda, não aparece qualquer responsável para assumir as culpas e o mau serviço permanece mau, sem que se apurem responsabilidades e sem que se deixe de penalizar o cliente, que ainda por cima paga até bastante bem por um serviço péssimo e, pelo que me é dado ver, com tendência a piorar.

E, claro, não podia deixar de usar este texto para agradecer por continuarem a visitar a Voz, mesmo sabendo-a muda (não é Gaivina?). Já vos li a todos, mas não vou ter tempo para responder. A verdade é que esta situação com as Vozes já atrapalhou (demais) o início do meu fim de semana. E ainda ando às voltas com umas configurações. O meu sitemeter, por exemplo, escafedeu-se e levou junto o contador de visitas...

Fica, no entanto, aqui uma intenção declarada: para a semana cá me têm de novo a tempo inteiro. É que estou a morrer de saudades, porra!

2006-02-07

No entretanto...


aqui


Pulp - This is Hardcore



...deixo-vos uma música para aquecer as noites frias :)



(A ver se amanhã volto...)

2006-02-03

Gaivina


aqui


Perdeu-se na migração, ficou por cá com a invernia. Nunca fará ninho em terras de sequeiro. Construirá casa nas bordas de água, com calma, todo o tempo do mundo, com o cuidado dos grandes arquitectos. Na sua maturidade, sabe que nem todos os vôos merecem que se desbarate energias num fugaz ataque. Se chegar a hora de fazer o seu voo picado, ele o fará, não tenho dúvidas. Numa última conquista dos velhos céus conhecidos, por sobre os mares espumantes, rasando a terra perdida.

E, por entre as suas penas, pinta cenários e conta histórias que apelam ao lado marinheiro da vagabunda alma portuguesa.

2006-02-02

Pura ficção...


aqui

Hipatia também tinha os seus dias... Nessas manhãs em que a neblina envolvia todo o edifício da biblioteca, era quando ela se acercava da varanda para olhar a sua Alexandria. E como aquela cidade lhe tocava o coração!

Os pontões, rasgando o mediterrâneo, davam as boas vindas a tiremes vindas da Grécia, contendo talvez, novos “volumes” para o seu acervo. De qualquer forma, eram notícias daquele mundo mais culto, contrastando com o Egipto que se desfazia, aos poucos, numa sucessão de monarquias, revivendo o passado.

Nesses dias em que ela era apenas mulher, ficava contemplativa olhando o cálido mar entre os dois mundos. Hipatia entendera, desde muito nova, que aquela sucessão de três dias lhe roubava a intuição e o discernimento.

-E sempre aqueles homens, a acharem-se muito cultos, mas com o bafo das múmias, de volta dela, espiando um trecho de pele em cada voltear da sua túnica...

Estava farta, e no entanto, nesses dias, era muito mulher.

Como se pudera esquecer da sua fertilidade no meio daquela loucura de guardar as palavras dos outros em rolos de papiro cujo destino é criar poeira?

Uma série de escravos, bem instruídos, eram lestos na procura dos “Voluminae”, como diziam os romanos, mas eram brutos como camelos no deserto. Aliás, essa era a opinião que mantinha sobre os homens, embora aquela certeza fanfarrona lhe fizesse vibrar uma corda animal dentro dela.

“O melhor é deixar passar estes três dias, antes que vire leoparda do Sudão”. Pensou.

- Tragam-me aquele papiro desse pensador que nasceu antes do chato do Sócrates!

E o escravo lá se foi, perdendo-se na poeira da vasta biblioteca de Alexandria.

2006-02-01

Claro!

How You Are In Love

You fall in love quickly and easily. And very often.

You tend to take more than give in relationships.

You tend to get very attached when you're with someone. You want to see your love all the time.

You love your partner unconditionally and don't try to make them change.

You stay in love for a long time, even if you aren't loved back. When you fall, you fall hard.


(E não é assim que deve ser? Ok, ok... aquela parte do muitas vezes e a treta do dar menos do que recebo... E dai... pronto! Mais vale não dizer mais nada...)