.
Uma mulher, quando se sente observada, altera logo, mesmo que subtilmente, o seu comportamento. É como se notasse os holofotes. Às vezes retribui o olhar, daquele modo tão discreto e ao mesmo tempo tão óbvio. Olha em frente mas de perfil, de modo a que os seus olhos sejam visíveis. Mexe no cabelo. Mexe os dedos. Tira cabelos invisíveis da camisola. Não desata à gargalhada mesmo se o grupo de amigas desata à gargalhada. Mantém uma espécie de distância irónica face à sua circunstância, a mesma distância irónica que imagina no homem que a observa na mesa ao lado. Num ápice, fica muito sisuda e contente, um arzinho vagamente importunado e uma expressão enviesadamente divertida. Não se exibe: exibe a sua atenção. Como se estivesse alheada mas misteriosamente ligada ao homem que a observa e que talvez só a observe por mais dois minutos. Nada decisivo se joga ali, excepto o jogo sem o qual mesmo a felicidade conjugal não presta. Nessa intensidade coreográfica e sibilina, uma mulher não oferece nada; mas aceita, com uma complacência que é quase vontade, a nossa vontade complacente.

Nana Sousa Dias
E, de repente, quando a fé tropeça, lemos qualquer coisa que nos faz acreditar que sim, que é verdade, que os homens também podem compreender as mulheres e, por entre o fascínio mútuo, não exigirem uma qualquer igualdade neutra e impossível. Antes deliciam-se com um complemento bem jogado, onde arte e saber aplanam as diferenças, condescendendo vontades inquietas, feitas de roupagens diferentes por entre as suas semelhanças.














































