2008-09-26

(Des)encanto



É certo que as ambições que qualquer português possa eventualmente ter sobre este pobre cantinho nunca o remetem para uma desilusão tão grande quando se enfrenta com a realidade que o rodeia. Questões de hábitos e de feitios. Mas lá que mói… E há dias em que podia dizer exactamente isto sobre Portugal. Só que nunca seria capaz de o dizer tão bem. Ou pelo menos sem demonstrar um qualquer enfado de quem já estava à espera, carcomendo a fado a desilusão.



Por vários motivos, hoje apeteceu-me repostar isto. O estado do Mundo e o tratar os cerca de 10% de homossexuais (*) da população portuguesa como cidadãos de segunda das prioridades eleitorais não serão os menores de entre esses tais motivos, obviamente.
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(*)não sei se esta percentagem confere, já que a ouvi na TV e na TV há muito que não se pode confiar

2008-09-25

Visto no JPT

MyHeritage: Árvore genealógica - Genealogia - Celebridade - Collage - Morph



E lá ia eu meter a colherado nos posts do casamento homossexual quando fui desviada do bom caminho...



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(obviamente que escolhi a fotografia que mais mente em relação ao meu aspecto, que naquela idade todos somos bonitos)

2008-09-24

hmm...



(acho que esta agora fica aqui bem)

Slow



Ao ler isto lembrei-me que as discotecas costumavam abrir ao som de Should I Stay Or Should I Go mas que, pouco depois, começava uma verdadeira maratona de slows. Era nessa altura que se via quem eram as miúdas concorridas, cheias de pretendentes; e viam-se também todas as outras, à espera que alguém se lembrasse delas. Eu, que por essa altura tinha uma auto-estima de cão, fazia de conta que não me importava, dizia que não sabia dançar, aproveitava para ver como faziam os outros e nem dava conta de mais nada. Quando pensamos que não valemos muito, nem supomos que nos olhem com mais do que comiseração, não é?

Hoje, passados muitos anos e após estranhas conversas (ou nem por isso) com os homens de agora, rapazolas então, sei que muitos tinham receio de se abeirar de mim, da mesma forma que eu tinha medo de me chegar a eles. Estava a ser penoso aquele início da adolescência: os velhos tempos da maria-rapaz com lugar cativo nos jogos de futebol e palmadas nas costas tinham passado ao mesmo tempo que as mamas cresciam. E eu já não sabia onde era o meu lugar.

Aliás, eu nem sabia direito o que fazer comigo, quanto mais compreender aqueles outros que há bem pouco tempo eram os meus melhores amigos e que agora escapavam a qualquer tentativa de entendimento. E também não pertencia ao grupo das miúdas muito pretendidas ou ao grupo das meninas boazinhas, lindinhas, bem arranjadinhas, que gostavam muito do Simon Le Bon e tinham imensos auto-colantes dos Duran Duran em tudo quanto era sítio e imensos folhos e dourados em todas as peças de roupa. Eu tinha crescido com rapazes, não tinha uma única saia, sabia falar de futebol, gostava antes dos The Clash ou dos The Mission e não tinha auto-colantes de ninguém. Não sabia ser feminina; não sabia dançar aquelas coisas; sabia menos ainda quando descortinar nos olhares que me deitavam do outro lado da sala escura mais do que indiferença ou, pior ainda, repulsa.

Mas houve um dia em que foi diferente. Não sei quantos anos tinha, que esses anos aparecem-me hoje bastante embrulhados na memória, excepto por uns quantos momentos excepcionais que não há forma de se deixarem embrulhar. E, nesse dia diferente, o Rui dos olhos azuis-fosfato (nunca mais vi uns olhos assim!) veio lá do outro lado, como se não houvesse lado algum, e levou-me pela mão para o meio da sala. Tocava o Save a Prayer dos tais dos Duran Duran que eu me recusava a gostar. E foi com essa prece que dancei um slow que não esqueço e, depois, num dos cantos mais obscuros, aprendi que também eu tinha artes de mulher, enquanto a língua do Rui desbravava os caminhos do meu primeiro beijo sem que houvesse um jogo do poço à mistura.

Talvez também tivesse para ai uns treze anos, mas acho que deviam ser mais. Não muitos, mas treze parece-me demasiado cedo. E talvez também houvesse outras músicas e, quase de certeza, terei dançado de outras vezes. Às tantas, talvez tenha até dançado antes de haver Rui. Mas, depois daquele dia, eu estava diferente e tinha para guardar um dos tais momentos excepcionais que a memória, por mais que embrulhe e esfume tudo, se recusa a fazer desaparecer.

2008-09-22

Max Payne


aqui

Não sou fã de jogos de vídeo. Nunca fui. Mas depois há assim umas coisas que me atraíram por motivos oblíquos. No caso de Max Payne, foi a música. Não sei se vou gostar do filme. Mas, se mantiverem uma banda sonora obsessiva e fantasmagórica, até sou capaz de dar um desconto ao Marky Mark.


Mamma mia!


aqui

Se os meus "fantasmas do Natal passado" fossem assim, acho que nunca mais comprava um pinheirinho…

2008-09-19

O TAS não tem secretaria?

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«No acórdão da sentença que determinou a participação do FC Porto na edição da Liga dos Campeões que hoje se inicia, o Tribunal Arbitral do Desporto destroça a UEFA e põe em cheque tanto a Comissão Disciplinar da Liga como o Conselho de Justiça da FPF. O documento, que demorou todo este tempo a redigir - a decisão foi anunciada a 15 de Julho - chegou ontem aos clubes envolvidos, mas só trouxe motivos para ser bem recebido pelos dragões. No mínimo, a norma que o excluía da Champions vai a enterrar. »

in O Jogo



Não sou mulher de torcer contra um clube português quando joga no estrangeiro, não importa se nem gosto desse clube quando joga por cá, nem dos seus dirigentes, muito menos dos seus adeptos ou dos jornais que manipulam. E, desta vez, também não torci contra nenhum dos nossos clubes. Mas, ao contrário do costume, não fiquei triste com a derrota nem do Benfica nem do Guimarães.

Depois do jogo do FC Porto na Liga dos Campeões (especialmente do seu resultado final) e dos jogos dos dois clubes que resolveram ir para a UEFA fazer queixinhas a ver se ganhavam na secretaria o que tinham perdido dentro do campo, pergunto-me para que queríamos aqueles dois na Liga dos Campeões. Só se fosse para perderem ainda por mais golos.

E, não, não sou adepta do FC Porto, nem gosto do Pinto da Costa. Mas vejo jogos e, convenhamos, o FC Porto tem resultados. Há anos que tem resultados. E, em muitos – quase todos – desses resultados, ninguém poderá apontar um único "caso". Obviamente que há "casos" no futebol português, como há "casos" em quase todo o sítio cá no portugalinho. Mas depois há quem tenha mais do que "casos" e há os outros, que são só casos para esquecer.

Can I play?



Eu voto nessa ideia do teu mate.

2008-09-18

Paneleiros!

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«A direcção do Grupo Parlamentar do PS prepara-se para propor amanhã (quinta-feira) aos seus deputados que votem contra os projectos a apresentar pelo Bloco de Esquerda e Os Verdes de alteração ao Código Civil, com vista a permitir a celebração de casamentos homossexuais.»

in, Correio da Manhã


A homofobia não é mais do que medo. E este recuo do PS na legislação – mais do que necessária – sobre os casamentos dos homossexuais só me faz pensar que, mais uma vez, o PS prova que perdeu algures os tomates. E não gosto de me saber gerida enquanto cidadã eleitora por um Governalho capado!

Eu não chego a entender porque precisa alguém, em plena lucidez, de contratar a sua relação íntima. Mas isso sou eu que não estou proibida de o fazer. Agora, não é por eu ver no casamento nada de sagrado e muito menos absolutamente necessário que vou alguma vez aceitar que, quando se trata da realização de contratos entre pessoas, entre cidadãos maiores e vacinados, quase sempre com direito a voto, o sexo seja utilizado como factor discriminatório.

E, se nada vejo de mal na homossexualidade, aproprio-me dos insultos e do chavão. Mas estes vão direitinhos para aqueles que, de cu sentado na AR ou em qualquer outra forma de representatividade dos cidadãos, preferem capar-se em lugar de defender a igualdade de direitos e deveres.

Deixem o dogma para as igrejas! Que eu saiba, um contrato civil não deveria estar sujeito a esses absurdos jurássicos. E nem venham com a treta da família nem com a necessidade de fazer portuguesinhos! De cada vez que olho, uma coisa tenho certeza: se um dia tiver um filho, que seja antes homossexual do que político. Assim ainda posso confiar que a minha prole, quando se provar necessário, saberá demonstrar que os tem e no sítio!

Hum...


aqui

Que tipo de vitória na secretaria tentarão desencantar certos clubes cá da parvónia se o FC Porto continuar a dar 3-1 de cada vez (três para o Porto, um para o outro lado; não confundir com outros resultados) sempre que for jogar lá para os lados das europas? Não me digam que ainda arranjam maneira de irem lá (involuntariamente, claro!) fazer umas visitas aos balneários dos árbitros...

2008-09-16

À espera da chuva




Este blogue está em decadência! Não tenho tido tempo para ele e nem sei se, nos próximos tempos, essa situação vai melhorar. Tenho pensado até em fechar as caixas de comentários: pois se eu não comento ninguém, este monólogo em que transformei a Voz não merece o vosso cuidado de por cá deixarem um comentário. Só não o fiz ainda porque sempre achei que um blogue precisa de caixa de comentários e que essa é a única forma de o distinguir em alguma medida de outras formas de diário.

Depois, estranhamente, quanto mais calada fico, quanto mais quedo e silencioso fica o blogue, mais visitas parecem aqui arribar: um blogue sem posts e uma blogger que não exerce, têm uma média de 130 visitas diárias. Coisa estranha! Será por (ver imagem), lá por terras de Vera Cruz, a Voz ser tão popular? Outra coisa estranha!

E, daí, talvez não seja assim tão estranho: eu publiquei uma entrada com
o título "the best sex scene ever made" e, depois disso, o sitemeter permanece num eterno estado de excitação. Ao fim de quatro anos (aproveito para agradecer à Maria Árvore não se ter esquecido do aniversário da Voz) já devia saber que o sexo, por este como em todos os lados, rende sempre.

O pior é que eu não tenho tempo ultimamente e, convenhamos, nem sei se me apetece reservar a Voz para rapidinhas ou, pior ainda se a tendência de ausências se mantiver, para uma pouco saudável masturbação entre mim e o meu umbigo com letras. A ver se com as chuvas de Outono mudo isto…

O melhor do Mundo...

aqui


... e dos arredores também!


Votar aqui!

2008-09-12

MFL


(recebida por mail)


Depois do sortido variado e da escandaleira e dos abusos e dos egos e dos dislates diários, chega a ser um alívio o actual silêncio que vem dos lados do partido gémeo do partido que nos (des)governa.

Na verdade suspeito que, caso a actual presidente do PSD abrisse a boca, seria para dizer e defender algo muito semelhante ao que tem sido feito e dito pelo executivo Socialista, quer para o bem – que alguma coisa se tem aproveitado, sejamos justos –, quer para o mal, já que entre os dois partidos e as suas esferas de influência e tentáculos e jobs e interesses e negociatas pouco os distingue.

E uma coisa é certa: nestas circunstâncias, mais do que nunca, a estratégia do silêncio de ouro e da palavra de prata parece até ir dando frutos. Assim como assim, pode manter-se com estatuto de alternativa para, depois – e caso consiga por um qualquer lampejo que não descortino ganhar as eleições –, fazer mais do mesmo, senão pior, do que tem feito Sócrates.

Mas esta estratégia precisa ser rapidamente melhorada: e que tal se MFL se lembrasse de, abruptamente, meter uma rolha a quem a rodeia e aconselha?

2008-09-11

Promessas


aqui

Às rosas e outras coisas especialmente cheias de promessas... (*)


Há dias em que mesmo promessas não cumpridas nos deixam um sorriso nos lábios. Porque sabemos que, em breve, a desforra trará consigo um doce sabor de mel, ou outras coisas plenas de meiguices...


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(*) Rainer Maria Rilke - Primeira Elegia


2008-09-09

Como?


aqui

Fannie Mae e o Freddie Mac parecem nomes de eleitores republicanos e, afinal, são tão-somente as instituições de crédito que os ultra-liberais fanáticos resolveram agora nacionalizar.

C’um caraças! Esta treta está a ficar quase tão de pernas para o ar como as leituras do burgesso do Bush!

2008-09-08

Ursos


aqui

De há vários anos para cá, a minha opinião sobre os americanos desviou-se dos poucos que conheço – brilhantes, quase todos – para uma amálgama de gente de uma “América profunda”, cheia de teias de aranha no sótão, mania que são importantes e imprescindíveis e a raiarem o analfabetismo funcional, quando não o analfabetismo total.

Temo que essa minha análise esteja profundamente contaminada pelo nojo que me provocam os dois mandatos republicanos de George Bush – homem de capacidades intelectuais naturais minguadas e depois ainda carcomidas a wiskey e coca – e dos seus apaniguados dos lobbies do petróleo, das armas e do fundamentalismo evangélico.

Mas também por uma prosápia corrente de que são os melhores do Mundo quando não conhecem nada além do próprio umbigo e nada me parece mais certo que o maior idiota é o que abusa da falácia e do sofisma para se julgar maior e melhor.

E é por tudo isso que temo que, passando Novembro, fiquemos sujeitos a mais do mesmo, sendo que as probabilidades do velhadas de 70 anos cair para o lado terão que fazer qualquer um temer por um Mundo onde uma cadela raivosa – mas de batom – acha que Deus (e uma arma grande o suficiente para matar ursos polares) são o suficiente para que os EUA se posicionem no espaço global. E mais perigoso do que ver os EUA transformados em anedota, é vê-los convertidos na principal ameaça da Política Internacional.

2008-09-04

Fedelhos





Durante uma semana, optei por igualar os meus horários aos dos alemães e austríacos que partilhavam comigo os diferentes restaurantes. Da única vez que fiz o horário típico de um português em férias, ia-me dando uma coisinha má: se podia estar a partilhar um restaurante com 200 fedelhos teutónicos sem nunca dar por eles, mal me aventurei num grupo com 3 "piquenos" dos nossos, a gritaria, a má-educação e os ataques de rabugice audíveis a dez quilómetros fizeram-me logo convencer nas vantagens de me levantar e tomar o pequeno-almoço com as galinhas.

E já nem sequer tentei jantar em horário diferente do dos loirinhos simpáticos, sorridentes e, sobretudo, auto-suficientes. Tem-me bastado ver por cá crianças birrentas a espernear. Não era em férias que as queria aturar também, especialmente uma alienada de quatro anos que foi toda a viagem de avião de ida a passar-me por cima com a complacência da mãezinha e um pai ainda mais distraído e que sempre que me aparecia à frente estava aos berros de goela bem aberta, com gritos piores do que um porco durante a matança.

Não tenho grande hábito em dizer mal do povinho português, nem em armar-me aos cucos sobre as vantagens de se ser expatriado. Gosto do meu País e escolhi ficar a viver cá, de todas as vezes que a vida me ofereceu hipóteses de partir para longe. Mas as crianças portuguesas, extra-mimadas e malcriadas, começam a bulir-me com os nervos. E, quando as comparamos com outras, então ainda fica pior.

Note-se, no entanto, que nesta pequena ausência não tive de gramar nem com fedelhos italianos, nem com fedelhos espanhóis e, desta forma, os portuguesinhos saíram penalizados. Mas, porra!, de que forma se notava a diferença nas educações!

2008-09-03

A pôr leituras em dia

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«Se não me engano, aquilo a que o fabricante chama de compartimento secreto na versão masculina é, na versão feminina, um compartimento para comprimidos. De repente, e através duma simples análise a uns canivetes, percebi uma diferença fundamental entre os géneros: eles têm mais segredos, elas têm mais enxaquecas...»

Bagaço Amarelo



«Ela passa a bola e ele domina o terreno de jogo. Vamos embora. Vai que não é para ganhar na secretaria. Só falta marcar. A bola começa a subir. Encosta à zona de penalty. Pontapé vai ser levantado e sai uma paradinha. Aguentar a pedalada. Vai lá uma trivela ou um efeitozinho para suar a camisola. Coração da área...e é golo, golo, golo, golo, golooooooooooooooo.»

Maria Árvore



«A ausência escassez de medalhas olímpicas deve-se à conjuntura internacional. A culpa é dos outros países que ocupam sempre os três primeiros lugares.A culpa nunca é nossa!»

Cap



«esquecendo o timbre diferente da voz, o melhor dos Pink Floyd (singles e álbuns iniciais) estava ali condensado a preceito, pronto para embalar memórias remotas e decepcioná-las logo após com o balde gelado da confirmação da paternidade.»

José Quintas



«Dos 40 ou 50 minutos que vi.....pá, gostei da cena do gajo com cornos a apertar o pescoço ao árbitro....... pronto, tamém não vamos dramatizar....ninguém me tira da cabeça que aquilo não foi um crime passional e um homem não é de ferro....só não entendo porque é que o SLB foi pedir desculpas ao "outro". Já nem a honra de um benfiquista se defende pa...»

Cristina



«Foi nos blogs que soube da morte do Joaquim. Para aqueles que, como eu, eram viciados nas noites de poesia do Pinguim, o Castro Caldas era o jovem que nos lia poesia, aquele que os lia de forma violenta e crua, delicada e humurada. O Pinguim da época do Castro Caldas era um local único que fez parte da vida de muitos jovens como eu. O minimo que se pode dizer é que parte daquilo que hoje sou, o devo um pouco ao Joaquim, por tudo aquilo que me deu a conhecer.»

Patologista



«Não sei quanto custa uma cirurgia plástica facial. Não sei se 100.000 euros chegam para uma remodelação geral profunda. Espero que cheguem. Assim, ao menos, os contribuintes portugueses, por via da prodigalidade benemérita dos tribunais, não se terão sacrificado em vão. E o Dr. Paulo Pedroso poderá, finalmente, apagar a principal e a mais encarniçada das testemunhas de acusação que traz contra si... A mesma que o persegue e denuncia para onde quer que vá: a sua própria cara.»

Dragão



«Não é normal as filhas da Sarah Palin engravidarem. Muito menos aos 17 anos. A lei estipula que, nas mulheres, os órgãos reprodutivos só entram em função aos 18. E a lei é a lei. É sagrada, como as escrituras. Mas os americanos – o povo americano, diga-se – levam estas coisas da vida privada das pessoas muito a sério. Tão a sério como nós, europeus, levamos o futebol. Ainda não há muito tempo escarafuncharam a boca da Mónica, como se fossem dentistas.»

Tomás Vasques



«Cinco anos depois de ter sido abalroado Paulo Pedroso vê reconhecida a indecência de que foi alvo. Cruzando blogs entende-se que a mancha não desaparece por uma sentença, as invectivas continuam. Significando a desconfiança popular face às suas instâncias jurídicas, ecoando a desconfiança popular (quase-repúdio?) face às suas instâncias políticas - que clamoroso erro aquela saída da prisão para a Assembleia da República … dando azo aos vitupérios contras esse “eles”.»

JPT



«Eu, até com o nome embirro!

Claro que sei que se chama «doméstica» por se praticar no ‘domus’, em casa, não ser um acto público mas, para ser sincera, esse adjectivo não me agrada nada porque numa certa medida a suaviza, como se se dissesse que é violência sim, mas enfim, caseira... não é nada do outro mundo.E afinal é realmente mesmo do outro mundo, um mundo mais escondido e por isso mesmo mais perverso e grave. Grave por isso mesmo, não por se passar entre quatro paredes mas porque quem agride e quem é agredido é obrigado a viver junto – e, isso sim, é uma violência terrível.»

Emiele



«A Câmara Municipal de Montemor-o-Novo e a pintora Claire Fressynet têm o prazer de lhe enviar este convite para a inauguração da exposição "Respirações".a realisar no dia 13 de setembro de 2008, pelas 18h30na Galeria Municipal de Montemor-o-Novo.»

Claire



«E perante a crescente violência da criminalidade (que já existia antes do Verão), quase ninguém hoje em dia teria grande prurido em proferir um – “Ó xô guarda, dê-lhe mais umas arrochadas que o tipo usa fato de treino azul-petroleo…”. Mas é assim que se começa por justificar o cercear das liberdades em nome da segurança, e se acaba num estado policial, em que até para falar de certos assuntos em casa se tem que pôr a tocar um CD dos Iron Maiden. Não vá a vizinha do lado estar a ouvir tudo, com um copo encostado no outro lado da parede.»

The Old Man



«Se os caminhos me levam aos cimo das montanhas, fico. As pedras falam, juro que sim! Ali, mesmo ao lado da minha mão, houve uma que me segredou. Parece que ontem choveu aqui, mas, hoje, só há sol.»

Vanus




(agora só falta pôr as notícias em dia; mas suspeito que serão bem menos interessantes)

Pssiuuu...




Здравей!

2008-08-24




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E agora o blogue e eu vamos ali continuar as férias.

Da geriatria

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«quem estiver sinceramente interessado em «trocar umas ideias obre o assunto» não precisa de usar as «caixas de comentários» dos blogues. Estas são, maioritariamente, destinadas ao gozo da irresponsabilidade anónima»

Tomás Vasques



Há mais de um ano que a corrente é dominante: toda a gente a dizer mal dos anónimos, daqueles que preferem escrever com um nick. Como se todos os que elegem manter o seu direito a usarem um nick fossem irresponsáveis, não tivessem direito a opinião e/ou não a soubessem defender e fundamentar; ou como se a opinião só valesse alguma coisa quando, do outro lado, se descortina quem escreve e se consegue desenhar a árvore genealógica dos poleiros ou a lógica das afinidades, das amizades e compadrios.

E, ainda que suponha a quem Tomás Vasques se pretende dirigir (e não sendo Tomás Vasques sequer um exemplo desta chusma, mas hoje escreveu aquela frase e, deste lado, transbordou o copo da paciência), também acho de profundo mau gosto esta generalização dos anónimos como uma cambada de trolls idiotas e sem valia.

Há quatro anos – hoje é mesmo a data – quando iniciei o Voz em Fuga, o nick era de uso corrente e habitual. As caixas de comentários (e eu tenho duas) estavam cheias de trocas de ideias e argumentos e contra-argumentos, bem como eram diárias as referências cruzadas entre blogues que queriam, realmente, trocar opiniões.

Hoje em dia, quando surge um link num post da grande maioria dos blogues de maior exposição, já nem é preciso segui-lo para saber para onde vai e ao que vai. E as opiniões que não façam parte da matilha – ou da matilha concorrente – passaram a não ter lugar, como se fosse possível (e vão tentando-o) evitar que tivessem direito a existir.

Quatro anos depois do dia em que a minha vontade de comunicar e de expressar opinião sobre tudo e mais um biscoito me fez abrir um blogue com nick (sempre usei nicks na net e já cá ando há muito tempo) em vez de nome próprio, os blogues anónimos parecem-me por vezes alvos de uma tentativa orquestrada para os escorraçarem para longe da validade da opinião.

Ora, que eu saiba, a opinião não precisa de título nobiliárquico ou sequer nome de plebe para valer pelo que é. E a opinião é algo que assiste a qualquer cidadão; faz aliás parte do exercício da cidadania. E a maioria dos cidadãos goza de um saudável anonimato.

Mas há por ai uma moda de que a opinião só vale quando se conhece fulano de tal. Tal e qual como em alguma política ou jornalismo manhosos do Portugalinho, com os seus executores transformados em classe com privilégios intocáveis e sempre tão amiguinhos, quando não se entretêm a mandarem-se às jugulares uns dos outros em artigos de opinião nos pasquins ou nos blogues do costume.

Antes as opiniões dos anónimos! Muitas vezes é ai que ainda se descortina alguma originalidade e vontade de fazer diferente. É que os fulanos de tais só me parecem a brigada do reumático do costume e ainda estou longe de me deliciar com assuntos geriátricos. E esta moda do ataque ao anónimo também já começa a entrar nessa última categoria.

Quatro


aqui


Um dia cheguei a casa e criei um blogue. Ou melhor, comecei a criar um blogue...


2008-08-12

O desafio da Vague



And when the cab ride ahead seems too long
We go fuck in the bathroom


(Foi a primeira de que me lembrei e por isso deve estar bem. É que o Tico e o Teco andam tão cansados, que já só dificilmente acendem seja o que for. Mas as férias estão a chegar, caneco!)


2008-08-11

Trumbo



«The blacklist was a time of evil, and that no one on either side who survived it came through untouched by evil. Caught in a situation that had passed beyond the control of mere individuals, each person reacted as his nature, his needs, his convictions, and his particular circumstances compelled him to. There was bad faith and good, honesty and dishonesty, courage and cowardice, selflessness and opportunism, wisdom and stupidity, good and bad on both sides.

When you who are in your forties or younger look back with curiosity on that dark time, as I think occasionally you should, it will do no good to search for villains or heroes or saints or devils because there were none; there were only victims. Some suffered less than others, some grew and some diminished, but in the final tally we were all victims because almost without exception each of us felt compelled to say things he did not want to say, to do things that he did not want to do, to deliver and receive wounds he truly did not want to exchange. That is why none of us - right, left, or centre - emerged from that long nightmare without sin.»


Dalton Trumbo (discurso na Screen Writers Guild, 1970)

2008-08-09

Década Perdida

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«É que os anos 80, não só para mim, creio, não foram uma década. Foram A Decepção. Foram tantas que não sobrou paciência para as decepções subsequentes.»

José Quintas



Estou com o José: não alinho pelos elogios fáceis a uma década que não sou capaz de dourar. Olho para trás e vejo demasiadas decepções, demasiada gente que se perdeu. Já uma vez escrevi sobre isso aqui no blogue: os que sobreviveram aos anos oitenta, de entre todos os que conheci, não foram certamente os melhores. E dos que de nós ainda cá andam, nenhum pode em consciência elogiar aqueles como os melhores anos da nossa vida. Posso até escrever posts sobre um café e um recuado e um grupo de amigos que aí se reunia. Posso até ter saudades desse café e desses amigos. Posso até guardá-los para sempre na minha memória, alguns deles num recanto de coisas boas, muitos outros num recanto de coisas que poderiam ter sido bem melhores. Mas aqueles foram anos perdidos que nos entopem ainda, com todas as promessas não cumpridas e todas as merdas que fizemos e que são ainda peçonha sobra a vida – envenenada para sempre –, que tivemos de continuar a viver.

Parabéns!


aqui

Começamos a ter uma verdadeira noção da idade quando passam a fazer modelos "novos" dos carrinhos que costumávamos conduzir. Lembras-te do teu?

(Mais) um beijo!

11:02





2008-08-08

Coisa de verbos




Não sei se gosto da palavra "esquecer". Eu prefiro antes dizer "não lembrar". Assim sei que, algures na memória, está um pedaço de vida importante. Não me quero lembrar dele; mas prefiro saber que não o amputei da minha história.

2008-08-06

Hiroshima, Mon Amour




Encanecer

Mas quando um ano acaba e outro vem,
Embora a minha fronte e os meus cabelos
Envelheçam na marcha para o fim
E um sabor de renúncia e de cansaço
Vibre, cantando, aqui, dentro de mim,
Rebenta-me no peito uma esperança


António Botto, in "As Canções de António Botto"


Chamo-lhe curiosidade. A minha. Faz-me ficar atenta, desperta. Enche-me até hoje de prazer ao descobrir que cheguei a uma nova encruzilhada e, ainda assim, ser capaz de traçar um caminho.

Chamo-lhe sentido de humor. O meu. Há dias em que funciona e permite-me o desconcerto de me rir de mim e rir comigo e rir com os outros.

Chamo-lhe sentido prático. O meu. O tal que me leva ao cabeleireiro tingir os cabelos, para que as cãs não me pesem os anos que não sinto.

Chamo-lhe ainda esperança. A minha. Aquele optimismo pachorrento que, tanta vez, me faz sentir o corpo vivo e a vontade certa para os recomeços.

Como chamo também apatia. A minha. Uma que tolhe os movimentos, que se enfeita de gestos gastos e de rotinas onde aponho muitos dias sucessivos.

Chamo-lhe cansaço. O meu. Um que me impele para os silêncios no fim da tarde, para a necessidade de não pensar em nada, para o não querer sentir nada, para o deixar o tempo passar.

Chamo-lhe ainda medo. O meu. Muito medo de perder algum controlo sobre os passos que me sustentam. Ou medo da doença. Ou medo das perdas. Ou medo da solidão.

Chamo-lhe preguiça. A minha. Uma que me impede de telefonar mais vezes, escrever mais vezes, pôr conversas em dia mais vezes, sempre à espera da oportunidade que há-de vir e que, cada vez mais, me assusta quando não vem.

Chamo-lhe acasos. Os meus. Quando me confronto com questões sem resposta ou respostas sem questões. Quando o tecto me desaba ou um piano me cai em cima da cabeça. Ou quando a palavra do outro, a palavra certa, me perfura e magoa ou embala e conforta.

Chamo-lhe paz. A minha paz. Quando nada disso me importa e me sinto de bem com o mundo, cheia de força, cheia de sorrisos, cheia de fome de vida. Ou ainda que cheia de engulhos, com vontade plena de combater cada um deles, certa que a vitória é minha.

Chamo-lhe sofreguidão. A minha. Esta vontade de sentir plenamente, afogar-me em sensações, construir-me da curva do espaço-tempo e sonhar a imortalidade.

E talvez lhe chame também fé. Uma fé à minha maneira, apeada de dogmas e deuses vingativos ou sofredores, sempre castradores e injustos. Uma fé na fé, às vezes na utopia. Uma fé em mim, conquistada pelos anos que me pesam no corpo, mas deixam-me a mente ginasticada e, em alguns dias, em plena forma.

Se encanecer é envelhecer, então eu prefiro que me mirre o corpo, que me esclerosem as articulações, mas que as sinapses se mantenham vivas. A minha idade está mais na minha cabeça do que no meu corpo. Mesmo quando o corpo reclama. Mesmo que tenha até razões para reclamar.



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(acho que 2005 foi um bom ano)

2008-08-04

Faltam 15 dias!

Quando é que despertarei de estar acordado?

Álvaro de Campos



Admito que começo a sentir-me culpada de ver comentários nas duas caixas de comentários que mantenho em permanência. E já nem sei se basta garantir-vos que leio, leio sempre, leio tudo. Só não tenho tempo para comentar. Depois das férias, se tudo correr bem, estarei de volta ao ritmo normal. Mas ainda faltam duas semanas de agonia e mais três de boa vida. Ainda alguém tem paciência para mim? Se já nem eu tenho…

Agora, uma coisa importantíssima: que leituras de Verão me recomendam este ano? Apenas precisam ser leves, que não posso ocupar os 20 kg de bagagem com os 3 volumes do Arquipélago Gulag ou Os Miseráveis, mesmo que em versão de bolso. Agradecida.

2008-08-03

Dar música



Aqui no bairro - que é um ovo - essa malta multiplicou-se à frente dos olhos de quem sempre os conheceu, até ao dia em que a maioria resolveu rumar à "mourolândia" para iniciar belas amizades com esses daí que tão bem conheces. Vamos antes ouvir música?

Vidinha 2




Isto também não pode ser só trabalho, que uma mulher não é de ferro. Além do mais, não sei se já repararam, mas sempre que mete um grelhador qualquer homem vira cozinheiro. Ou vários cozinheiros, dependendo da quantidade de convivas :D

2008-07-31

Susceptibilidades


aqui

Deve ser por causa de imagens destas que alguém disse ao Blogger que O Jumento era um sítio perigoso. Mais perigoso ainda do que as praias do Allgarve, onde se pode continuar a mostrar a maminha, mas ai se nos lembrarmos de espalhar o protector solar mais demoradamente no corpo do parceiro.

E, mais uma vez, lá estou eu a sentir-me discriminada: não vou para o Allgarve este ano
massajar ninguém e só vêm cá à tasca procurar a "best sex scene" ou o "clítoris grande" ou "pénis pequeno".

Não percebo porque é que nunca ninguém acusou a Voz de ser um blogue pouco recomendável! Ainda que perdido e escondido (e anónimo e anódino), até a Voz pode ser desencantada por qualquer alminha susceptível, certo?

Raios! Que verdades me terei esquecido de dizer no blogue, com e sem palavrões, sexo e nus à mistura?

2008-07-30

Vidinha

aqui
(clicar na imagem para ver melhor)


Acho que, ultimamente, tenho perdido o hábito de contar histórias. Aliás, com o ritmo alucinante que a minha vida tem levado, já quase nem tenho tempo para escrever, pequenas anedotas que fossem, relatos pequeninos do meu quotidiano banal. E esse sempre foi um dos objectivos das palavras que teço em forma de escrita, relembrando a mim mesma que não é à toa que aquela frase ali ao lado do Mia Couto serve de mote à minha voz em fuga: tentar levar a vidinha, vendo como a própria vidinha se encarrega de costurar e descosturar pondo, mais tarde ou mais cedo, tudo no seu lugar.

Só que ultimamente tudo parece ser cada vez mais tarde. O dia continua a ter só vinte e quatro horas e o horário muito para além das oito horas previstas não é algo que desconheço, especialmente quando as férias dos outros ainda empurram o lazer para mais longe das prioridades. Sendo a Voz um espaço de lazer e a lista do Bloglines a continuação desse espaço, sobra pouco para o que sempre gostei de fazer, dizer, contar por aqui.

Este tópico, aliás, é recorrente. Todos os anos, por esta altura, ando nos fumos da paciência e sem tempo sequer para mim. Depois, as responsabilidades normalmente partilhadas passam a depender apenas do meu juízo e eu quase perco a sanidade no meio das solicitações e da mania de tentar fazer sempre bem, o melhor possível. Não tenho – nunca tive – feitio para o deixa andar. Não sei como as pessoas conseguem, como podem acabar o dia, bater com a porta, deixando tudo por fazer. Quem me dera! Seria tão mais fácil apenas empurrar com a barriga, levar mais duas semanitas os pendentes à frente, esconder debaixo do capacho o que sobra. Fazer como os outros – tantos – que deixam andar, tanto deixam andar que acabo eu a fazer também, só por já nem conseguir ver o deixar andar dos outros.

E ando tão cansada! E a culpa é só minha, sei que é. Porque não levo a vidinha como devia, deixando que costurasse e descosturasse até que tudo, mais tarde ou mais cedo, ficasse no seu devido lugar. Mas não! Tenho este feitio tramado de tentar – sempre – apressar a vidinha.

2008-07-28

Cimbalino

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É preciso dizer que naquela altura vivia-se muito pela imaginação. Ainda quase não se via televisão, os livros eram mais reais do que o real quotidiano.

Manuel Alegre – Rafael

Lembro-me de um café perto da Escola Secundária. Era um café banal, escuro, como muitos outros cafés que se espalham pelas esquinas do Porto. Tinha até uma tabacaria, na porta ao lado, daquelas que ficam num pequeno cubículo, quase um corredor, onde só cabe uma pessoa. Foi nessa tabacaria que comprei os primeiros cigarros, avulso claro, que o dinheiro era contado até ao último centavo. E a passagem na tabacaria era paragem obrigatória antes de entrar no café.

É que esse café tinha – suponho que ainda tenha – um recuado. A parte de frente do café era uma montra, com grandes vidros para a rua, mesas pequenas, normalmente ocupadas por senhores de chapéu entretidos a lerem o jornal. Mas, lá atrás, escondidas por uns lambris de madeira falsa, ficavam as mesas onde se podia fumar sem que os professores nos vissem. E sonhar o mundo de amanhã, que ia ser nosso.

Nesse espaço reservado, onde cabiam pouco mais de quatro mesas, estão as memórias de muitas das minhas primeiras iniciações. Lembro-me de quando me emprestaram um livro já gasto com os poemas do Jim Morrison; lembro-me dos primeiros finos, da primeira Amêndoa Amarga. Lembro-me dos sorrisos e dos primeiros namoricos. Lembro-me da troca de vinis e da forma como gravávamos cassetes roufenhas como se fossem preciosidades. Lembro-me dos olhos do Rui, azuis fosfato, grandes, inquiridores. Lembro-me da bonomia do empregado, do sorriso com que me trazia o meu cimbalino e copo de água. Lembro-me de conversas intermináveis, em jeito de discussão, sobre prioridades, sonhos, projectos para fazer um mundo melhor. Lembro-me de combinar as primeiras idas à discoteca - de tarde porque era grátis para as mulheres e não havia necessidade de dar explicações em casa. Lembro-me dos rostos todos, de cada nome, de cada sonho e cada promessa de vida como se tivesse estado lá ontem.

Mas não estive.

Desse grupo de amigos – que pensei que iria preservar para todo o sempre – perdi o contacto com quase todos. A alguns, que recordo tão bem nos seus rostos adolescentes, custa-me reconhecê-los quando nos cruzamos em qualquer canto. Olho-os com espanto, pensando como estão velhos, esquecendo por momentos que também eu envelheci. A maior parte dos sonhos ficou perdida. A vida tomou rumos insuspeitos. Nunca conseguimos mudar o mundo.

E o café também mudou, acho. Não voltei mais lá depois de, passados uns anos, ter entrado e pedido o meu cimbalino e copo de água. O rosto que me trouxe o pedido não era conhecido, não tinha sorriso. Tentou cobrar-me dez escudos por um copo de água…

Recordo um café perdido numa cápsula de tempo. Um café com recuado onde um grupo de amigos se reunia. Também o grupo ficou preso no tempo, preso na minha memória.


E, como não ponho preço nas minhas memórias, não regresso mais àquele café. Poderiam querer cobrar-me dez escudos por um pedaço de mim…

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(A minha amiga mais antiga, companheira de Escola Primária, viu hoje o filho pela primeira vez, numa ecografia em que o rapaz, pouco dado a pruridos, deixou as pernas bem abertas para que não restassem dúvidas de que seria um menino da mamã. E, à conta disso, lembrei-me de um dos posts que mais gostei de escrever sobre amigos e memórias.)

WanderLust


Album Trailer - Gavin Rossdale

2008-07-27

Para as calendas

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«Os advogados dos pais de Madeleine McCann estão analisar o livro do ex-inspector da Judiciária, Gonçalo Amaral, sobre o caso e poderão incluir num «provável» processo por difamação os jornais portugueses que reproduzirem o seu conteúdo.»
Visão (25/07/2008)


Desapareceu uma criança. Está provavelmente morta. Quando foi que, no meio desta palhaçada que parece não ter fim, esse facto absurda e tetricamente simples passou a não valer nada?

2008-07-25

(...)



«Tudo tem de estar sobre a mesa incluindo a política nuclear»

Vítor Constâncio (15/07/2008)

Matryoshka


aqui


Eu explico: fui comprar uma mala de viagem. Tamanho médio. Cá por casa existia o tamanho pequeno e o tamanho grande. E vou precisar do tamanho médio. E as lojas estão todas com saldos e promoções, pelo que me pareceu a altura certa para comprar uma coisa que uso, quando muito, uma vez ao ano, sem me sentir profundamente chulada.

E ala que se faz tarde, até que encontrei a mala do tamanho que queria, de uma cor que não desgosto, por um preço que achei melhor do que a encomenda: 32 euros.

Convém que faça aqui uma ressalva para explicar que sou extraordinariamente forreta e, se vou gastar dinheiro, que seja de preferência pouco, que a relação qualidade-preço o justifique e que não há mal nenhum se o que compro é em tudo o artigo original mas não traz o nome da marca pespegado para pagar duas vezes mais.

Não me importo de andar mais uns metros, quilómetros que sejam, mas espero fazer sempre uma boa compra. Hoje, examinei a mala de fio a pavio, medi-a de alta a baixo, apertei, alisei, vi que tal eram as rodinhas, como se comportavam os fechos e os aloquetes, tudo e mais alguma coisa: a típica cliente chata e empata que faz perguntas que não lembram ao diabo e a que as vendedoras raramente sabem responder sem soarem as estopinhas.

Mas 32 euros é pouco e a mala é boa e coisa e tal e parece-me bem e pronto, afinal lá levo esta. Deixo a malinha que tinha estado a espiolhar e espero que me tragam a malinha que vou levar, contando que a mesma fosse em tudo igual à outra. E paguei.

Ao acartar com a mala lá ia dizendo de mim para mim que já tinha percebido porque a mala era tão barata: era bem mais pesada do que contava que fosse. Tão mais pesada que a acartei para casa a pensar se, afinal, tinha feito boa compra.

Pois bem: devo ter feito a melhor das compras. Mal abri a mala em casa, dei com a filha mais pequena a ocupar-lhe toda a barriguinha. É que comprei um dois por um.

Acho que, no meio de tanta volta torta que a minha vida tem dado ultimamente, pensar em férias já me está a fazer bem. Até à carteira!

2008-07-22

Dos chips


aqui

Eu, que ando mais um ou dois quarteirões só para estacionar num parque que tenha "via verde" e que há muito deixei de carregar moedas à conta do dinheiro de plástico, não vejo qualquer mal em ter no carro a treta de um chip. Mas também o carro é meu e quem paga as portagens sou eu e é do meu bolso que sai o dinheiro para a gasolina e para o seguro e não tenho multas por pagar. Aliás, com tantos anos que tenho de carta, nunca fui multada. Mas isso sou eu, claro.

Não, não é este tipo de Big Brother que me assusta mas, como sempre, quem não deve não teme. E
já ouvi do mesmo à conta dos códigos de barras e, afinal, não foi o fim do Mundo e ainda ninguém me roubou a identidade.

Depois, confesso que até salivaria em antecipação com chips nos "carros públicos" – os tais que saem do bolso de todos nós para conforto dos senhores que se dedicam a viver à nossa custa – não calculasse já que nunca, mas mesmo nunca, se saberá os desvios que, à nossa custa também, esta gente faz aos afazeres diários. Porque, convenhamos, que os tais dos "carros públicos" fazem muita viagem estranha já todos sabemos. Pôr a boca no chip é que é mais complicado.

2008-07-21

Uma tonelada!


aqui

O (meu) Mundo está perdido! Acabei de pintar as unhas dos pés de vermelho.



(Só pode ser o peso da idade que assim leva o meu inconformismo a dar mais uma volta ao bilhar grande.)

2008-07-18

Parabéns, Mandela



Há cerca de 18 anos, Mandela estava finalmente livre. Meses antes, tinha caído o Muro de Berlim. Nunca como então se pensava que a História estava finalmente a mudar a caminho de um Mundo melhor. Os anos que passaram desde então foram-nos comendo a esperança. E estes tempos de glória do umbigo descartam as bandeiras e as causas.

Quando penso em Nelson Mandela, penso num tempo em que ainda tínhamos uma fé ingénua num futuro brilhante. Hoje, Mandela faz 90 anos e, enquanto envelhece o velho símbolo, o pragmatismo dos novos tempos faz-nos esquecer que já vivemos um breve instante em que tudo parecia realmente possível. Mas também por isso hoje canto os parabéns.

2008-07-16

Técnicas de clonagem


Anne Heche


MRP


É, mas eu não entendo nada destas coisas da moda, nem chego sequer a perceber por que motivo um determinado tipo de gajedo chega aos quarenta e aloira, passando a bando de clones todos demasiado idênticos. A começar nos penteados.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells (*)


aqui

Acho que já estou no "day after" mas, ainda assim, leva lá os parabéns por tanto ano a dar na tecla :)





(*)Walt Whitman - Leaves of Grass

2008-07-14

O (des)acordo


(recebida por mail)

O acordo ortográfico tem feito correr rios de tinta. Nos blogues, praticamente todos se manifestam contra o acordo e, em quase todos, lá está o link para a petição on-line. Depois, começamos a ler os textos e não há distinção entre "à" e "há", "lembras-te" e "lembraste" são exactamente a mesma coisa e o verbo haver aparece nas formas mais bizarras, para já não falar no verbo "estar" que há muito passou a ser o verbo "tar". Ora, convenhamos, que autoridade tem esta gente para reclamar contra o acordo? Não deviam primeiro aprender a escrever em qualquer uma das versões do português?

2008-07-10

Apneia

Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima…

Álvaro de Campos

Quantas das nossas palavras proferidas são tão fracas de sentidos, símbolos gastos em apneia do ser? Às vezes parece que só nos silêncios da alma guardamos um simbolismo verdadeiro.

Há semanas – já demasiadas – que não me apetece escrever, que não me apetece abrir blogues, que não me apetece ler sequer. É que às vezes fico farta de tantas palavras. E, no entanto, tenho-me refugiado entre amigos, a deixa-los falar enquanto esvazio o pensamento e me embrulho nos sons.

É como se os sentidos das palavras me ultrapassassem e os seus significados me deixassem indiferente, mas o calor de vozes conhecidas em amena cavaqueira me permitisse manter a essência comunicacional. Quase como ser embalada num ronronar caloroso, feito de sons perfeitamente identificáveis sem, no entanto, ter de fazer qualquer esforço para identificar seja o que for.

Talvez as amizades também se façam disso, uma espécie de ruído permanente e constante que nos integra e onde nos deixamos ficar. Na voz dos meus amigos embalo as sem-vontades e sou perdoada dos silêncios e dos sussurros.

2008-07-07

Duh!


aqui

Eu até faço um bocadito de teatro. Eu até bato a pestana. Aliás, até faço beicinho se for preciso. Só não tento é convencer os outros de que estava a ser muito "natural".

Parabéns, Zé



On Mondays murder children, little girls and boys
I put my hands around their throats till they don't make a noise
Tuesdays torture animals, pluck off small birds wings
Watch them as they bleed to death, then they don't sing
Wednesdays I defecate on the priest's front door
If the priest he does complain, I just do it some more
Thursdays I Molatov the local orphans home
Love those little orphans, charred down to the bone

I'm terrible, terrible, shouldn't be allowed
To sing my songs of filth to a decent crowd

On Fridays sodomize tender virgin nuns
Tie them up, lear at them, and then I have my fun
Saturdays I stand and sing my sad, sad, sick, sick songs
To anyone who listen, who in the head is wrong
Sundays, Sundays, the day I love the best
Rape, murder, pillage while other people rest

I'm terrible, terrible, shouldn't be allowed
To sing my songs of filth to a decent crowd
I'm terrible, terrible, shouldn't be allowed
But when I do offend someone it makes me feel so proud


Para muitos, pode parecer estranho o presente de aniversário que aqui te deixo. Mas acho que vais gostar :)

2008-07-03

Poupem-me!

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«O deputado do Bloco de Esquerda Moura Soeiro responsabilizou hoje o Governo de José Sócrates e o PS pela nova subida das taxas de juro, e reclamou medidas para contrariar a "política monetária brutal" da União Europeia.»

in, Público



Tanto se fala da perda de qualidade do ensino em Portugal e às vezes temo que, antes das sucessivas reformas imbecis, a qualidade do ensino também não devia ser por ai além. Ou então há demasiadas coisas que os demagogos esquecem, fazendo de conta que nunca aprenderam História. Esquecem, por exemplo, como era Portugal antes de aderir à então CEE e antes de chover dinheiro a rodos para ser investido em betão armado e mais umas coisinhas. E eu, que estou cada vez mais na merda à medida que a economia se afunda e leva junto todo o pouco que antes sobejava para mais que sobreviver, vejo e ouço esta oposição ao Governo e assusto-me com a falta de alternativas.

Depois, quando vejo que um dos youtubinhos mais badalados do momento volta a meter a fotografia do Diogo Infante pelo meio das supostas denúncias desinteressadas e vejo o BE dizer merdas do calibre ali em cima, mais a MFL na entrevista a esbanjar preconceitos e a dar cabo de quaisquer esperanças que nos restassem, temo seriamente o que ai vem: em alturas de crise, a razão – assim como a esperança – são precisas. A lucidez também. E a demagogia devia ser o último absurdo a ser invocado, especialmente quando feita à base de uma das maiores imbecilidades que li nos últimos tempos. Como se nos fosse possível meter o bedelho na política monetária; como se fossemos realmente capazes de fazer alguma coisa; como se não fosse evidente que, perante a História que temos, não havia alternativa além da adesão e que o "orgulhosamente sós" é realmente de má memória, excepto para quem perdeu a memória.


(Se à direita não voto nem amarrada, se o PCP é um Parque Jurássico, como confiar neste BE para alternativa a um Sócrates que nunca borra a pintura quando vai à televisão?)

Parabéns, Luís!



Sei como gostas da Kate Bush. Achei que hoje era dia de a ouvires :))

2008-07-02

Trabalhar faz calos


Ana Maria Brandão


Antes:

«De baixa em baixa, esta é a sina da funcionária pública de Ponte de Lima, vítima de uma doença degenerativa que a faz depender de terceiros para "sobreviver". Depois de ver dois pedidos de reforma antecipada recusados pela Caixa Geral de Aposentações (CGA), Ana Maria Brandão está de baixa médica desde Dezembro, por depressão e assim vai continuar pelo menos durante mais 30 dias. (...)


Portadora de cervicalgia e lombalgia degenerativas, Ana Maria Brandão, de 44 anos, funcionária administrativa da Junta de Freguesia de Vitorino de Piães, em Ponte de Lima, esteve três anos de baixa mas a 5 de Novembro de 2007 foi obrigada pela CGA a regressar ao trabalho. Tal como faz no seu dia-a-dia, cumpriu o horário laboral sempre acompanhada pelo pai, sentada numa cadeira, encostada a uma parede. Isto até que o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, anunciou que entraria novamente de baixa médica até que a CGA procedesse à reapreciação do caso, o que acabaria por ditar, nesse mesmo mês, novo "chumbo".»


Paulo Julião - DN Online



(ver também vídeo aqui)

Agora:

«Em Novembro, o País soube que Ana Maria, de 44 anos, tinha uma cervicalgia degenerativa. Não sei bem o que é mas pareceu-me grave na foto. Sim, Ana Maria teve foto nacional: com colar cervical e cinta lombar. Pois apesar disso, a Caixa Geral de Aposentações obrigou-a a voltar ao trabalho - ela era funcionária de uma Junta de Freguesia, em Ponte de Lima - onde não ia há três anos. Uma daquelas histórias que nos fazem abanar a cabeça: só neste País! Agora, ficámos a saber que esta história era ainda mais deste País do que temíamos. Tendo de passar por uma junta médica, que devia pôr a coisa a limpo, Ana Maria foi antes ao Bom Jesus, em Braga. E aí sentiu um daqueles formigueiros que precedem os milagres. É, ficou boa. A Junta de Freguesia deveria convidar Ana Maria a devolver, em dobro, os três anos de salário que recebeu sem trabalhar. Não para repor a justiça, isso temo que Ana Maria não compreenda. Mas, em linguagem que ela entenderia, para pagar uma promessa.»


Ferreira Fernandes - Os Milagres Pagam-se




E obviamente que a culpa é do Sócrates. Ou até mesmo do Governo todo.