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«Alguns comentadores criticaram-me por tomar posição, não questionavam os argumentos, nem discordavam das posições, simplesmente achavam que deveria ficar calado numa lógica oportunista, discordando de Sócrates a atitude mais inteligente seria deixar os novos fascistas queimarem-no. (…)
(…) hoje qualquer cidadão mal amado pelos fascistas pode ser acusado de pedófilo ou de corrupto e muito antes de chegar a um tribunal para se defender já está mais destruído do que alguma vez a PIDE conseguiu em relação aos opositores à ditadura.»
in, O Jumento
Na mesma altura, tinha também sido lançado um outro "caso", o mesmo que regressa agora, com suspeitas de conduta pouco ética e subornos na aprovação de projectos de licenciamento em reserva ambiental protegida. Esse caso deu mesmo origem a um outro, em que o DIAP provou haver um inspector da PJ e dois jornalistas do antigo semanário Independente responsáveis por violação de segredo de justiça. Esse mesmo crime, passados 4 anos, corre célere pela comunicação social, continuando sem se perceber se alguém corre o risco de ser hoje constituído arguido num crime que, pelos vistos, se repete de quatro em quatro anos.
O que se sabe realmente hoje, para além do que se sabia em 2005? A comunicação social larga a conta-gotas mais informação, como uma torneira que pinga sem que se lhe substitua a bucha. Os nomes são envolvidos, as reputações são machadas, espera-se que se linche em praça pública qualquer um que se envolva, misturam-se dados com anos de permeio, compondo textos para fazer crer que é tudo novo, fala-se de uma tal de carta anónima, que parece que não é anónima e de uma carta rogatória que, pelos vistos, também não diz mais do que a carta rogatória que saiu da PJ em 2005, baseada na tal denúncia anónima que afinal tem nome. Comenta-se a celeridade do processo de licenciamento do Freeport, que pelos vistos correu durante dois anos e foi alvo de pelo menos duas correcções para se adequar ao que o Ministério do Ambiente exigia. Agora aparece uma assessora que em 2004 ouviu qualquer coisa, mas que em 2004 a PJ não achou motivo suficiente para indiciar fosse quem fosse e parece que houve uns técnicos do ICN que foram afastados, bem como uns investigadores ingleses que também correm o risco de irem para o olho da rua lá na terrinha deles por incompetência. E parece também que há uns e-mails e um primo idiota que afinal não está no Nepal, mas não se pode dizer onde está, senão ainda foge. E ainda há a Quercus, que também tentou a sua parte do milho, à conta de uma queixa que afinal Bruxelas achou por bem arquivar no caixote do lixo. E há, claro, o dinheiro que desapareceu num qualquer bolso e um golpista que, quando apanhado, achou por bem dizer que tinha usado o dinheiro para pagar umas luvas. Mas do dinheiro e do seu rasto ninguém dá acordo, ainda que pareça que querem que se acredite que, afinal, serviu para a casa que a mãe de José Sócrates comprou quatro anos antes, em 1998. Por fim, há ainda um destacado elemento do maior partido da oposição, que não tem medo de enxovalhar ninguém na televisão – nem sequer aqueles que a Justiça já ilibou e o País indemnizou – que não se coíbe de dizer que em 2005 aquilo tinha sido mesmo uma "campanhazinha negra" engendrada por elementos dos dois partidos que tinham sido deitados abaixo do poleiro, precipitando as eleições que deram a maioria absoluta que José Sócrates, mesmo achincalhado de paneleiro, conquistou à frente de um PS fortificado, apesar da campanha anterior que visou decepar o partido de líderes, queimando sem perdão Ferro Rodrigues na comunicação social à conta de um outro mega-escândalo que, como de costume, se travestiu numa montanha a parir um rato.
Fique claro que não gosto de José Sócrates. Mais claro ainda que acho que o seu Governo traiu quase todos os valores socialistas em que fui criada. E que estou farta da arrogância do Primeiro Ministro e das suas campanhas publicitárias descabeladas e o discurso de que fez muito e conseguiu muito e que o País está melhor com ele do que esteve antes. Se eu também sou o País, digo desde já que fiquei muito pior com este Governo do que estava antes e que me irrita supinamente ter andado quatro anos a apertar o cinto para saber que o dinheiro dos impostos que recolheram à minha custa é usado ao desbarato para proteger e salvar os amiguismos do costume.
Sei que não consigo olhar para este emaranhado de diz-que-disse com as certezas de certa direita, que prefere acusar um inocente – desde que seja José Sócrates que, como todos sabemos, além de paneleiro (porque disseram nos jornais), também é um escroque ladrão (porque dizem nos jornais) e não tem nada ar de inocente nos seus fatinhos Armani – do que admitir que, em termos políticos, estão fodidos e sem alternativa, a não ser que voltem a fazer as tais das "campanhazinhas sujas". Eu, que fui criada a achar que qualquer auto-de-fé é condenável, olho para esta salgalhada com suspeita. É certo que prefiro e defendo os antigos valores de esquerda. E que este Governo há muito que não me representa. E, no entanto, não há de ser agora que vou passar a achar que alguém é corrupto só porque nos jornais começaram a coser uns factos, a misturar umas suspeitas e a, enganosamente, venderem como notícias assuntos requentados, bem misturadinhos nos seus anos de permeio e no tempo em que ficaram encostados nos arquivos do MP ou da PJ.
Posso não gostar de José Sócrates e das suas políticas. Posso até ter vontade de o acreditar culpado e corrupto. Mas não assim, não com este tipo de suspeitas e de campanha, em que acaba condenado em praça pública sem sequer ter sido indiciado. Será que vou acabar a pagar também, com o dinheiro dos meus impostos, uma indemnização a José Sócrates à conta de um caso, que nem sei se chega a ser caso, que talvez nunca se venha a provar, para além do boato?







































